Bala na Cesta

Categoria : Personagens do Basquete Brasileiro

Personagens do Basquete Brasileiro: Iziane – Parte II
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Fábio Balassiano

Na parte I da entrevista com Iziane você leu isso aqui .

izianeBNC: No meio disso tudo teve o Mundial de 2006 em São Paulo. Jogaram em casa, Ibirapuera cheio, mas no final duas frustrações – perder da Austrália na semifinal e o bronze contra os Estados Unidos.
IZIANE: E como. Mas aquele Mundial foi uma experiência bacana pra caramba, sabia? Quantos atletas podem dizer que disputaram um Mundial e uma Olimpíada em casa? Eu tive esse privilégio. Acho que esse Mundial de 2006 foi bem legal pra mim porque já estava firme na seleção, amadurecida e ainda havia o suporte das meninas mais experientes. Era uma oportunidade ótima, um time excelente e que se aproveitou do apoio da torcida para crescer. Podíamos até ter sido campeãs do mundo em 2006…

iziane1BNC: EUA perderam pra Rússia na semifinal e vocês poderiam ter ganho o título há dez anos, né?
IZIANE: Sim, sim. Apesar desse final, desses problemas, fomos muito bem. Sabe o que mais machuca, Bala? Aquela geração, aquela galera, merecia um coroamento final com medalha. Janeth, Helen, Alessandra, Cintia. Todas elas mereciam fechar suas trajetórias com a seleção com uma medalha no peito e isso é o que mais doeu na gente. Porque chegamos perto, construímos bem o campeonato, tivemos vitórias muito boas, mas no final escapou das nossas mãos.

iziBNC: Alguma coisa te marcou daquele Mundial?
IZIANE: Lembro de várias coisas dali também. Lembro de uma lesão importante da Érika, que ficou toda a fase de classificação fora devido a isso. Lembro que estávamos muito desacreditadas antes do jogo das quartas-de-final contra a República Tcheca e eu tinha plena confiança de que ganharíamos. Como ganhamos e ganhamos bem (75-51). Estava engasgada com elas, sabia? E sabe por quê? Tinha acabado de sair da República Tcheca, e lá o técnico quase não me colocava pra jogar. Quem era o técnico da seleção delas?

iziane1BNC: O mesmo cara que não te colocava pra jogar no clube…
IZIANE: Ele mesmo. Estava entalada. Queria muito enfrentá-lo. Naquele jogo lembro que fiz quase 20 pontos no primeiro tempo (foram 23 no total) e não demos chance alguma pra elas. Fazia as cestas e ficava olhando pra ele. Foi engraçado. Lembro muito dessa chance de jogar a final sem ser contra os EUA também. Deixamos escapar.

BNC: Aquela semifinal com a Austrália foi de cortar o coração, Iziane…
IZIANE: Lembro bem também. Construímos bem o jogo, tínhamos uma boa frente e elas viraram no último período (31-12) sem nos dar muita chance. Recuperaram, viraram, passaram, ganharam o jogo. Quando fomos ver estávamos apertando as mãos delas depois do apito final. É duro, mas realmente foram dez minutos que nos tiraram uma chance enorme de título. Tanto que a Rússia, que eliminou os Estados Unidos, perdeu a final da Austrália. Estávamos bem naquele jogo e perdemos.

izi1030BNC: Como é entrar no vestiário depois daquele momento?
IZIANE: Pra mim, estes jogos é onde você, enquanto atleta, mais aprende, sabia? Até hoje uso muito este jogo como referência. Falo isso até hoje para minhas companheiras. Não dá pra dar chance, Bala. Tem aquela metáfora do leão. Você dá uma pancada nele. Ele está bambo. Ou você mata ele de vez ou ele vai levantar e vai te comer. No basquete é igual. Se você abriu uma janela pra vencer, vai lá e finaliza isso. Do contrário, o outro time pode perceber a oportunidade e vir em cima de você. É frustrante não você perder, mas sabe o quê? É frustrante perder daquele jeito porque você, como atleta, sabe quão difícil é chegar naquele momento, naquela situação. E estávamos perto. Você está controlando ali, sabe. E do nada sai das suas mãos.

izi1040BNC: Queria explorar uma coisa. Está claro que pra todo mundo que te acompanha que você tem uma personalidade bem forte. Sempre foi assim?
IZIANE: Sempre, sempre. Desde criança mesmo. Tem algumas fotos minhas de quando era criança que já dá pra ver. Pra mim é preto no branco, Bala. Sou muito direta e muito emotiva. Por isso sempre chorei muito também.

BNC: Quando entrevistei a Tamika Catchings ela uma me disse que não admitia que jogadoras menos capazes que ela treinassem menos que ela. Como é pra você esse tipo de coisa? Você, hoje, precisa se controlar um pouco mais, mas é essa questão de exigência que você se impõe e que nem sempre as outras acompanham?
IZIANE: Em relação a isso sempre fui muito tranquila. Sempre respeitei a individualidade de cada uma, o limite de cada uma. Entendo o que a Tamika diz, eu tenho um grau de tolerância muito baixo, mas sempre respeitei a limitação. O que me irrita, o que me irrita mesmo, não é não conseguir. Isso faz parte. É não conseguir porque não se tentou, porque não se quis. Aí não admito. Sobre falar, eu falo mesmo. Obviamente a forma eu tenho aprendido a falar melhor. É aquela coisa, Bala. Eu entendo tudo de todas as meninas. Mas veja um exemplo. Se eu dei um passe à frente e você não chegou lá porque não foi veloz o suficiente porque isso é seu, tudo bem. Erro meu e acontece. Agora, se eu vejo que você se poupou, não deu 100% do que poderia, aí sim, cara, eu fico irritada pra caramba. E isso é diferente. Ser incapaz de fazer por questões atléticas, ok. Faltar vontade não é admissível. Eu dou o meu máximo e espero que cada um dê também.

iziane10BNC: Você acha que tem muito do brasileiro essa não compreensão do seu jeito mais franco, mais direto, de ser? E te explico: na Europa, onde você morou muito tempo, nos Estados Unidos, o que você às vezes disse na sua carreira sempre é tratado como algo normal. Eu mesmo enxergo quase tudo o que você fez com naturalidade, mas aqui no Brasil existe um melindre absurdo. Sou muito objetivo, racional e compreendo que pra você isso aqui é trabalho, negócio, e não brincadeira…
IZIANE: Acho que tem muito da cultura brasileira nisso, sim. O americano é bem direto e crítico. O americano diz: “Sua bola não caiu porque você não fez o movimento certo, sua preparação foi ruim, seu físico estava mal cuidado”. Aqui falam em pressão. Nada disso. É cultural, né, de querer ficar justificando as coisas de alguma maneira que não a mais sincera.

izi1BNC: Bom, agora vou começar a te apertar aqui. Depois que as meninas mais experientes saíram da seleção você começou a ser a líder do grupo. Em 2007 teve um Pré-Olímpico das Américas, você errou uma bandeja, o Brasil perdeu de Cuba e teve que disputar o Pré-Olímpico Mundial de Madri. Ali houve aquele case de sucesso imenso, né…
IZIANE: (risos) Também lembro de tudo daquele Pré-Olímpico. Estávamos bem preparadas e focadas para conseguir a vaga. Lembro daquele jogo específico contra a Bielorrússia que já poderia dar a classificação direta. Por isso a minha frustração e a minha reação.

izi5000BNC: Izi, o que se passa na cabeça do atleta quando ele diz pro técnico assim ‘Eu não vou entrar’?
IZIANE: Olha, pra mim ali foi simples: sou titular, você conta comigo, você (o técnico) tira todo mundo para tentar igualar o placar. Aí ok, beleza. Só que volta todo mundo menos eu. Aí quando faltam dois minutos, com o jogo perdido, eu tenho que entrar para recuperar o jogo? Neste momento não conte mais comigo. Agora, dentro de vários jogos, isso acontece muito, mas muito mesmo.

BNC: Mas em vários jogos da sua vida já aconteceu isso e você vai lá e entra. Você pode ter entrado fula da vida, mas entrou. É que naquele jogo você verbalizou. E aí explodiu. Ou estou errado?
IZIANE: Não, não está. Pode ser, pode ser isso. Mas já verbalizei em outros, só que em situações diferentes. Exemplo com a equipe do Sampaio Correa, com a própria Lisdeivi, como eu tenho com o Barbosa, já aconteceu de eu verbalizar algumas coisas desse nível também. É que ali foi um acúmulo todo também. Havia saído da WNBA pra jogar com a seleção, e em um jogo desses o técnico não conta comigo?

izi50001BNC: Mas, Izi, não sou defensor de ninguém. Você não entende que técnicos podem tomar decisões ruins? Aquela atitude não foi imatura?
IZIANE: Foi uma explosão, foi uma frustração exposta. Recentemente em um jogo do Sampaio Correa eu não entrei no segundo tempo de um jogo contra Americana. No final do jogo a Lisdeivi chegou pra mim e me disse: “Me desculpe, eu esqueci de você no banco”. Achei aquilo ali tão legal, sabe. Não por ser comigo, mas pela sinceridade de um técnico que conversa com seu atleta com toda humildade.

BNC: Você hoje, olhando pra trás, consegue admitir que errou?
IZIANE: Lógico, lógico que sim. Eu admito que errei, que me arrependo. Mandei mal, mandei mal, sim. Acontece na vida de todo mundo, né? Ali foi uma decisão errada que não deveria ter tomado. As pessoas às vezes me dizem que eu brigo com técnico. Eu não briguei com o Paulo Bassul. Só disse que não entrava e pronto. Nunca desrespeitei, nunca fiz nada. Falei com as meninas inclusive, pedindo desculpa ao grupo. Até o Jogo das Estrelas da Liga ano passado (em 2015) em Franca eu nunca tinha cruzado mais com ele. Cruzei, falei, conversei na boa. Os dois conversaram sobre como ambos amadureceram.

izi6000BNC: É que atleta é fogo, difícil de pedir desculpas, mas se você estivesse numa sala só você e ele, falaria que tinha se equivocado?
IZIANE: Claro, claro que sim. Estou falando com você, falaria com ele também normalmente. Aconteceu. Não me arrependo de nada da minha vida. Mandei mal e pronto.

BNC: Como foi ver aquela Olimpíada de casa? O Brasil foi muito mal…
IZIANE: Foi triste, foi bem triste ver de longe. Fiquei triste porque sei que poderia ter ajudado. E foi naquela Olimpíada que o Brasil efetivamente deixa de ser uma potência mundial. Ficou em penúltimo, foi um primeiro momento de queda. Até agora não conseguimos nos reestruturar.

izi50BNC: Aí você não foi pra Pequim-2008, o Bassul saiu, houve muitas trocas de técnicos, mas em 2012, em Londres, você estava quase lá…
IZIANE: (risos) Fui até lá, até a beira da Olimpíada, e me mandaram de volta pra casa (Risos). Lembro de tudo daquele momento também.

BNC: O que aconteceu?
IZIANE: A gente estava em Lille, na França, disputando um torneio…

izi5000.88jpgBNC: Aí você levou quem não podia levar pro quarto, é isso?
IZIANE: Não, não. Meu namorado estava hospedado no hotel. Fiquei três meses treinando com a seleção brasileira no Brasil sem ver meu namorado, que era americano. Aí ele foi me encontrar nos EUA para os amistosos e depois seguiria para me ver nas Olimpíadas.

BNC: Ué, então por que você foi cortada?
IZIANE: Porque eu dormi com ele.

BNC: E não podia. Você não pensou nas consequências?
IZIANE: Sim, mas não achava que aquela ação tivesse uma consequência tão grande. Em 2008, no Pré-Olímpico que você citou, foi uma coisa de jogo, uma coisa durante uma partida. Ali, ok. Mas em 2012, foi algo de fora de quadra. Achei um pouco demais.

hort1BNC: Quando a Hortência te chamou para anunciar o corte, como foi o sentimento de tristeza por não ir a mais uma Olimpíada?
IZIANE: De tristeza, não. Eu estava perplexa. Ela me chamou e estava toda a comissão no quarto. Eu entrei no quarto, estavam todos lá e eu pensei: ‘Caramba, o que aconteceu?’. Daí Hortência começou a falar que eu estava sendo cortada e deu os motivos. Aí falei: ‘Vocês estão me cortando por isso?’. E peguei minhas coisas pra ir embora. Liguei pra algumas pessoas, contei o que tinha acontecido e fui embora. Se não era para argumentar, eu não iria argumentar…

BNC: A Hortência era sua ídolo de infância. Foi ela uma das grandes responsáveis pela sua volta à seleção. Como foi decepcioná-la naquele momento? Como é decepcionar um ídolo deste tamanho?
IZIANE: Você tem que perguntar a ela…

hortenciaBNC: Não, não. Você que decepcionou a ela, e não ela a você, Izi…
IZIANE: Mas ela é que se sentia decepcionada. Porque na minha cabeça não tinha necessidade. Eu agi errado porque era uma norma, mas não mudaria em absolutamente nada na vida das pessoas ali.

BNC: Também viu a Olimpíada de lá. Voltou direto pra Washington, na WNBA. Também frustrante?
IZIANE: Pô. Essa aí eu fiquei puta de não ter jogado. Não fui antes pra WNBA pra ficar treinando com a seleção. Abri mão do maior salário da minha vida. Tinha acabado de sair de uma final com o Atlanta, valorizada, fui pro Washington e fiquei na seleção. Treinei, me dediquei e não rolou. Olha, Bala, pra mim nessa idade é muito desgastante, sabe. Nessa idade, concentração, treinamentos. Me dediquei, ajudei e não deu certo. Estava injuriada mesmo.

izi1000BNC: Achou que depois daquele momento nunca mais iria voltar pra seleção?
IZIANE: Olha, foi diferente. Eu queria não mais voltar à seleção. Tudo bem que era uma regra, que tirassem meu salário, mas me cortar por causa daquilo e levar 11 para a Olimpíada? Achei demais, sabe.

BNC: Aí você volta pro Brasil, monta o time lá com o Betinho, o Maranhão Basquete, e lembro que nos encontramos uma vez no aeroporto logo depois do Jogo das Estrelas em Franca, 2015. E te disse: ‘Izi, reflita. Tem uma Olimpíada pela frente e você ainda é capaz de ajudar’.
IZIANE: E eu te disse: ‘Se me chamarem, eu volto. Se precisarem, eu volto’. Depois que passam esses momentos você reflete. Eu estou aqui, treinando com a seleção brasileira e vou dar o meu melhor para ajudar a seleção brasileira.

barbosa8BNC: Quando o Barbosa voltou você sentiu que tinha uma chance ali com ele, não? Porque eu converso com o Barbosa e ele me diz que te entende…
IZIANE: A gente sempre se deu muito bem. O Barbosa é muito bom técnico de seleção porque sabe lidar com diferentes egos. Seleção brasileira são as melhores de seus clubes que chegam pra jogar juntas. O Barbosa sabe disso. Fiquei muito feliz quando ele assumiu não por mim, mas porque sei que ele entende do basquete feminino e seria capaz de brigar pela gente.

izi2BNC: Pra fechar aqui a parte de basquete. Como foi ganhar o título nacional pelo Sampaio Correa? Pela sua cidade, diante do seu povo, ginásio lotado…
IZIANE: Fiquei muito feliz porque foi um prêmio para o projeto de quatro anos. Conseguimos premiar o povo maranhense, que abraçou o projeto com muito carinho. Enquanto tinha a LBF, transformamos a cidade na capital brasileira do basquete. Ia ficar muito frustrada se não tivesse conseguido dar o título para a cidade. Acho que aquela torcida merecia, sabe. O Maranhão é muito carente de alegrias e o basquete conseguiu dar isso. Quando acabou o último jogo todo mundo estava pulando, saltando e eu fiquei parada. Eu queria aproveitar aquele momento vendo a alegria dos outros. Queria guardar na minha cabeça a felicidade dos outros, entende? O jogo já estava meio ganho, estava quase 30 pontos e eu lembro que ficava olhando pra arquibancada, pros torcedores, pros amigos.

iziane1BNC: Sua relação com a imprensa, como é?
IZIANE: Olha, eu sempre tive uma convivência muito boa com a imprensa, apesar de eu achar que ainda se bate muito nessa parte ruim da minha carreira. Mas hoje eu entendo como as coisas funcionam e o que vende, o que dá audiência. Realmente acho que falta uma cobertura maior. As finais da LBF, por exemplo, foram pouco divulgadas, sabe. Precisamos de uma maior abertura na imprensa, principalmente na televisão, que é o que traz público. A internet fez com que o basquete feminino não morresse em termos de cobertura, mas para vender o basquete feminino mesmo a gente precisa de mais televisão.

izi1BNC: Você guardou dinheiro?
IZIANE: Guardei, mas dentro daquilo que o basquete feminino permite. Os salários não são imensos, bizarramente altos. Mas consegui guardar alguma coisa, sim. Não descarto trabalhar com o Sampaio, mas como dirigente, por exemplo.

BNC: Você pensa em continuar o esporte, mas em outras funções, né?
IZIANE: Sim, não penso em abandonar essa parte esportiva.

BNC: Fora de quadra, como a Iziane passa o tempo?
IZIANE: Hoje em dia é 90% do tempo com meu Instituto. Se não estou jogando ou treinando estou cuidando das coisas do Instituto. Hoje em dia são 120 crianças que a gente atende lá em São Luís há dois anos. Temos pedagogia, assistência social, tudo isso lá. E tenho que cuidar de tudo isso. Um pouco de lazer que consigo é ir para a praia aos domingos. Ali na Praia do Meio. Temos um grupo de amigos que sempre frequenta ali há muito tempo. E cinema. Gosto muito de filme, de todos os tipos de filme. Vejo de tudo. Eu sou muito ativa. A vida precisa ser vivida. A gente descansa quando for morrer. É mais fácil.

izi2BNC: Ser mãe, você não quer?
IZIANE: Nunca quis, sabia. Nunca nem sonhei com o príncipe encantado, essas coisas. Sempre me dediquei muito a minha carreira e talvez isso tenha tirado um pouco esse lado mais pessoal. É o ônus da carreira de atleta. Ser mãe, pra mim, é uma dedicação pra mim que eu não quero pra minha vida. Quero ter um companheiro, mas sou muito crítica em relação ao mundo e não sei se quero colocar alguém no mundo do jeito que ele está hoje, não. As pessoas hoje não são tão humanadas como eram antigamente. As pessoas deixaram os valores humanos meio de lado. Eu tenho um sobrinho que joga, tem 14 anos e a gente conseguiu colocar os nossos valores nele. Mas é complicado, porque o mundo vai corrompendo as pessoas. Não sei se quero passar por essa luta.

izi3BNC: Quando você olha a situação do Brasil hoje, te preocupa?
IZIANE: Sim, e muito. Me preocupa muito. Estávamos até em Americana disputando a LBF quando votaram o impeachment da Dilma e me preocupava muito com o rumo das coisas. E eu pensava: ‘Caceta, vou é me mandar daqui. Vou aproveitar meu sobrinho, que deve estudar nos EUA em breve, e fico lá de vez’. Mas a verdade é fico muito triste, sabe. Isso é algo que me visualizo fazendo para tentar melhorar a vida das pessoas. Me filiei ao PSL (Partido Social Liberal) e quem sabe concorra ao cargo de vereadora no Maranhão. Eu acredito muito na política enquanto teoria, mas as pessoas aqui no Brasil querem entrar na política não para melhorar a vida do próximo, mas sim para se beneficiar pessoalmente. São coisas bem diferentes. As pessoas esquecem que ali estão os sonhos do país inteiro para ter uma vida mais digna. Em São Luís eu moro em um bairro onde as pessoas não têm o que comer, não tem água. Bala, não tem água. As pessoas às vezes criticam o Bolsa Família, mas se não for isso aquela pessoa ali vai comer o quê? O nosso Brasil me decepciona um pouco nisso, sabe. Quando chegam, estes políticos, ao poder e não olham para o povo isso me decepciona demais.

izii1BNC: Dos políticos, quem você admira?
IZIANE: Está difícil, né? No Maranhão, é impossível negar o poder da família Sarney. Chegou a presidência da República, isso é importante. Mas hoje em dia os valores que eu acredito como básicos para a população estão muito longe dos políticos que deveriam representar o povo. Não consigo ver um político se dedicando ao cargo como deveria, sabe. Eu sinto sempre que meu direito democrático está sendo violado pelos políticos.

BNC: Isso tudo acaba voltando para o que você falava de não querer ter filho, não?
IZIANE: Como vou botar um filho nesse país assim, Bala? Eu fico abismada com as pessoas. Minha amiga estava grávida do terceiro filho e eu só olhava pensando no absurdo. Mas isso sou eu, claro, eu que penso assim. Eu não me vejo em condições de colocar uma criança no mundo. A vida não é um mar de rosas o tempo todo, mas hoje em dia está complicado pensar em ter alguém que dependa 100% de mim.

iziiiiBNC: Quantas atletas têm esse nível de entendimento político? Por quê atleta se mete tão pouco em questões políticas relativas ao esporte?
IZIANE: São muito poucas as que se metem. Quando houve aquele boicote à seleção no começo do ano eu trouxe este tema. Quem estava lutando pelos atletas? Naquele momento, era uma luta das jogadoras ou de terceiros? Entende o que quero dizer? Falava pra elas sobre como as coisas funcionavam, como elas deveriam entender, tudo isso. Falo inclusive em relação às coisas da CBB. Se tem convênio, o que é convênio, o que é Lei de Incentivo, o que é patrocínio. Todos deveríamos saber disso. É o básico. Falo isso com as atletas, falo muito. Eu mesmo pergunto tudo, mas o atleta em geral não se mete muito. Só foca na quadra e deixa o resto com o cartola. É uma pena, mas os atletas não gostam muito. É cultural, é reflexo do país também. Deveria ter aulas de política nas escolas desde muito cedo. O esporte é reflexo do país, nada mais que isso.

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Personagens do Basquete Brasileiro: Iziane – Parte I
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Fábio Balassiano

izi1005Aos 34 anos, Iziane Castro Marques começa amanhã contra a Austrália (17h30) a disputar a sua segunda Olimpíada. Presente em 2004 e cortada em 2008 e 2012 por motivos disciplinares, a maranhense de São Luís tenta recolocar o basquete feminino em posição de destaque depois de desempenhos ruins em Pequim-2008 e Londres-2012.

Dona da personalidade forte, a jogadora, campeã recentemente pelo Sampaio Correa na LBF, admite que depois do Rio-2016 parará de jogar profissionalmente. Iziane é uma Personagem do Basquete Brasileiro.

izi104BNC: Você jogou uma Olimpíada em 2004, foi cortada duas vezes por problemas de disciplina em 2008 e em 2012, passaram mais de 10 anos e vai jogar a sua segunda e última 12 anos depois. Nem se você escrevesse esse roteiro daria certo, né? Sua última, né?
IZIANE: Ah, com certeza que não conseguiria escrever esse roteiro. Eu falo pra todo mundo que jamais imaginei jogar uma Olimpíada. Agora serão duas e essa em casa. Que atleta que jogou uma Olimpíada em casa? É um sonho, sonho. Sobre ser minha última, tem muita gente que fala que estou bem, que ainda posso seguir mais um pouco, mas o corpo está sentindo. E penso: ‘Por que não fechar bem?’. Fechar com uma Olimpíada, com um título brasileiro pela minha cidade, sendo MVP das finais. Se tiver uma medalha olímpica nesse final seria excepcional. Meu desejo é terminar bem.

izi1001BNC: Você fez 34 anos. O que pensa pro fim da carreira? Quando você deseja parar?
IZIANE: A medalha olímpica é uma fixação e quero muito terminar a minha carreira com ela no peito. Em termos de carreira eu acho que fui muito além do que todos esperavam. Minha história diz isso. Jogar Mundial, Olimpíada em casa. Jogar 11 anos na Europa e WNBA, títulos. A carreira foi além do que esperava. Nunca imaginei o mundo esportivo que existia ao redor. Só queria saber de seleção brasileira. Não espero mais nada. O que vier hoje é lucro.

izi2BNC: Vai jogar até os 40 anos então, é isso?
IZIANE: Não, nada disso. Pretendo terminar bem. Consegui o título com o Sampaio, quem sabe agora a medalha olímpica pra fechar bem…

BNC: Peraí. Então se você ganhar uma medalha você encerra a sua carreira? É isso?
IZIANE: Na seleção termina agora. Em clube já disse que encerrei. O pessoal é que não acredita. Depois do Rio-2016 o pessoal não vai mais me ver em quadra. Essa é a ideia. Já falei antes e sigo falando isso.

izi1BNC: Eu não acredito nisso. Se o Sampaio tiver um time lá na LBF, próxima temporada, você não mais jogar?
IZIANE: Não, não. Não quero mais. Estou bem, satisfeita, realizada com o que propus para a minha carreira. De repente, se precisar da Iziane para conseguir um patrocínio, pro basquete não acabar lá, aí quem sabe eu fico mais um ano. Mas minha ideia é parar mesmo e ficar em cima do que construí. Quero seguir com meu Instituto Iziane Castro.

izi1004BNC: Antes de falar mais de basquete, conta pra gente quem é a Iziane Castro Marques. Infância, formação, família, essas coisas…
IZIANE: Sou de São Luís do Maranhão, nascida na Santa Casa de Misericórdia, no Centro de São Luís, no dia 13 de março de 1982 às 06h20 da manhã. Foi uma sexta-feira, 13. Estou brincando. Foi sábado (risos). Tenho uma irmã dois anos mais velha, a Isis, que me chama de Neném até hoje inclusive. A gente sempre morou com a nossa avó, porque meu avó era cego. Então minha mãe ajudava a minha avó a cuidar do meu avô e todos morávamos juntos. Crescemos nesse vínculo familiar muito forte. Todos sempre agarrados, né. Estudei no Colégio Batista, onde comecei a jogar basquete. Quando era criança, antes do basquete eu fiz balé e também natação. Em São Luís todo mundo faz natação por causa da praia, né. Quando criança eu sempre fui muito de rua. Brincava de tudo. Desde empinar pipa até jogar futebol, boneca, elástico, pular corda, essas coisas. Eram tempos antigos de brincar na rua e estudar.

betinho1BNC: Como o basquete surgiu então?
IZIANE: Foi na escola mesmo. Nas minhas aulas de educação física a gente fazia todas as modalidades. Meu colégio era muito tradicional, de gente rica mesmo, e como eu era uma menina de rua, de brincar de tudo, eu nunca tive frescura de nada. Nas aulas, o professor, vendo meu biótipo, pediu para eu tentar jogar basquete. Eu não queria, mas ele insistiu tanto, mas tanto que teve uma vez depois de quase um ano que eu falei pra ele: “OK, vou lá jogar só pra você parar de me encher o saco”. Foi assim que eu comecei. Quando esse professor me viu jogar, logo me encaminhou ao Betinho (Nota do Editor: primeiro técnico da Iziane) e foi assim que comecei. Tinha 11 para 12 anos, e me apaixonei. Logo o Betinho viu que tinha facilidade para aprender, para evoluir e fui participar dos campeonatos escolares e estaduais.

izi10030BNC: Uma coisa que me chamou atenção: você falou que era de um colégio de galera rica. Mas você veio de uma família de classe média, não?
IZIANE: Sim, de classe média. Meu pai era técnico de edificação, ganhava bem na época e sempre enfatizou muito essa parte de educação. Minha mãe é professora, e tudo o que eles tinham eles investiam na parte educacional minha e de minha irmã. Minha mãe, Marinei, passou fome. Meu pai, Aldeir, sempre enfatizou essa questão do estudo.

BNC: Você sofreu algum tipo de preconceito por estudar em um colégio com uma galera mais rica que você?
IZIANE: Não, não mesmo. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Inclusive ainda levava a galera para o meu bairro, que é a Liberdade, bairro de pobre mesmo. E levava porque era muito estudiosa, boa aluna, e quando tinha trabalho em grupo todo mundo queria fazer comigo. Aí chegava lá, um monte de carrão na porta do bairro e eles vinham estudar comigo. Minha avó continua morando neste bairro. Quando meu avô faleceu, meus pais se mudaram. Eu, como nunca gostei de morar em apartamento, sempre mantive meu quarto na casa da minha avó, até porque passei 11 anos jogando fora do país, né. Depois que eu votei pro Maranhão eu comprei uma casa, mas quase não ficava lá. Dormia quase direto na casa da minha avó. Mudei, mudei mesmo, ano passado, quando minha avó teve um AVC muito sério e minha mãe teve que voltar pra casa da minha avó. Fico hoje em dia todo na casa da família e só retorno ao bairro da minha casa, São Francisco, pra dormir.

izi1000BNC: Aí você começou a se destacar jogando basquete na Escolinha do Betinho…
IZIANE: Comecei, comecei indo bem. Peguei seleção colegial, seleção maranhense e fui indo. Teve um ano que o Maranhão jogou a Copa Brasil, que hoje é a LBF mesmo. Havia o time da Paula, o BCN, e o nosso time foi lá. Eu tinha 14 anos, e já jogava de titular. Disputando essa Copa Brasil de 1998 eu lembro bem que o primeiro jogo foi contra o BCN e eu fui cestinha, sabia? Lembro que tinha Claudinha, Tuiu, galera toda de seleção e eu lá jogando. Foi engraçado que recebi o convite da Maria Helena Cardoso e da Eleninha para jogar no BCN, mas o Betinho não me disse nada, acredita? Passou o ano todinho, ele deixou acabar o campeonato e pediu para que elas duas contatassem a minha família para explicar o que elas queriam fazer comigo. Ainda era infantil, né.

izi1000000BNC: Aí você foi pro BCN no final de 1999. Já era em Campinas?
IZIANE: Estava saindo de Piracicaba para Campinas. Era engraçado que eu treinava com o time de base em Piracicaba e com o adulto em Campinas. Fazia esse trajeto algumas vezes na semana. Esse convite surgiu e no começo minha família não queria deixar, claro. Era muito nova, mas falei pra minha mãe que eu queria tentar, queria seguir na carreira de jogadora profissional de basquete. Ela foi, viu tudo, mas não assinou, acredita? Meu pai é que teve que convencer minha mãe.

BNC: Você ainda era estudante do segundo grau, seus pais sempre falaram muito de estudo e você passaria a praticamente a viver de esporte. Eles Não ficaram preocupados com o fato de você se dispersar um pouco do caminho do estudo?
IZIANE: Imagina! Disseram que se eu não estudasse, se não tivesse boas notas que eu voltaria correndo. Tanto foi assim que eu estudava em escola particular. Era das únicas do time que estudavam em escola particular. A maioria fazia escola pública de manhã. Eu, escola particular à noite, depois de treinar em dois períodos. Era pauleira, e em um colégio tradicional, o Anglo-Americano. Me formei no segundo grau e ainda passei na faculdade, acredita?

izi20.BNC: Sério? Faculdade? Essa eu não sabia…
IZIANE: Em Medicina na UNIP…

BNC: Pô, mas essa eu não sabia mesmo. Iziane, então quando as pessoas te chamarem daqueles nomes feios você precisa falar essas coisas todas…
IZIANE: Minha mãe sempre disse que eu seria médica, é mole? E aí eu passei pra medicina, só que preferi continuar como jogadora mesmo.

maria2BNC: Como foi esse começo com Maria Helena e Eleninha, duas técnicas muito vencedoras. Você veio de um time humildade, quase amador, direto para uma potência do esporte, com treinadoras de ponta e estrelas no time adulto. Esse início assustou um pouco?
IZIANE: Foi duro, Bala. Eu tive dois anos seguidos anemia, sabia disso? Por causa da adaptação à comida. Até hoje eu acho ruim a comida de longe de casa, mas atualmente já consigo comer melhor. Mas naquela época foi difícil. Passei fome, cara. Não sabia a quem consultar, com quem falar. O BCN era muito organizado, tinha refeitório, nutricionista, tudo direitinho, mas eu que achava todas as comidas ruins, mesmo. Minha mãe teve que vir do Maranhão para fazer a minha comida, meus lanches. Sentia falta da farofa, do açaí, do tempero do Maranhão. Além disso tinha o clima, o frio. Lembro que cheguei a São Paulo de sandália, saia, blusa sem manga. Mas logo vi que o sol não esquentava. Chuva, frio, chuva, comida e ainda tinha o boicote da galera, né. Você chega, nova, do Maranhão, as meninas pensam que você vai tomar o espaço delas e começam a te boicotar. Não foi fácil não, cara.

paula3BNC: E quando foi que você começou a perceber que daria pra ser jogadora profissional? Quem estava lá naquele time adulto da época?
IZIANE: Ah, estava a Paula, Karina, Adrianinha, Kelly.

BNC: Verdade, tinha a Paula. Como era treinar com a Paula?
IZIANE: Rapaz, você tinha que me ver treinando contra a Paula. Como eu era infanto, só podia treinar na categoria. Jogar, não. Mas aí treinava contra elas. A Maria Helena e a Eleninha adoravam ver, adoravam me ver treinando contra a Paula. Eu tinha vergonha de falar com a Paula. Tremia, sabe, tremia mesmo. Até hoje quando a vejo fico meio assim, meio tímida. Um ídolo, uma referencia pra mim. Acha que é fácil? Eu tentava fazer o meu melhor, não errar, fazer tudo direitinho.

paula5BNC: Ela te dava algum conselho?
IZIANE: Nossa, bastante. Lembro que a gente jogou um Jogos Abertos com a gente porque estava em recuperação e entrou pra atuar pra ganhar ritmo de jogo, essas coisas. Aí ela vinha me levando às vezes pro treino, conversava, explicava coisas de basquete e da vida. Tentava absorver tudo o que ela falava.

BNC: Aí chegou a primeira convocação para a seleção adulta, é isso?
IZIANE: Sim, foi em 2001 na Copa América lá em São Luís. Mas ali eu já tinha uma perspectiva. Já estava encaminhada, sabe? Tinha pego seleções de base, jogava em um time adulto forte, tinha ótimas técnicas e uma bagagem. Fiquei muito feliz de poder estrear pela seleção brasileira jogando na minha casa. Eu era reserva da Janeth, quase não jogava, mas pra mim aquilo ali tudo era o máximo. O Castelinho ficava lotado e ainda no final conseguimos o título em cima de Cuba.

izi100BNC: Qual foi a sensação da sua família e a sua naquele momento específico? Você saiu do Maranhão, foi jogar em São Paulo e volta para atuar no Maranhão com a seleção brasileira adulta. Foi uma vitória ali, não?
IZIANE: Lembro que pensava assim: ‘Caramba, estou conseguindo realizar tudo aquilo que eu tinha planejado quando saí daqui (do Maranhão)’. Era esse filme que passava pra minha cabeça. Quando saí de lá, lembro que falei pra minha família: ‘Vou sair daqui, vou jogar bem em São Paulo, vou chegar à seleção brasileira e vou jogar uma Olimpíada’. Minha mãe titubeava e eu dizia que venceria. Aí quando eu volto me sinto realizada por estar dando andamento ao meu sonho e também ao da minha família. Estava vendo que todo aquele sofrimento, tudo o que passava, estava valendo a pena. E eles são muito colados comigo até hoje. Nos jogos do Sampaio Correa na LBF, por exemplo, estão todos lá sempre ao meu lado me apoiando. Acho que eles têm muito orgulho, muita felicidade da minha trajetória. Creio que eles também se realizem através das minhas realizações.

izi1008BNC: Lembro que um dos primeiros jogos que vi seus foi pela TV Bandeirantes. Acho que era um sábado ou um domingo pela manhã, foi um jogo do BCN, você apareceu, começou de titular esse jogo, acho que você não tinha nem 20 anos e entrevistaram a Maria Helena para falar a seu respeito. Lembro dela falando que você seria o futuro do basquete brasileiro, te tecendo elogios absurdos e tal. Você sempre foi tratada assim, né? Como potencial, como pedra preciosa. Isso atrapalhou alguma coisa?
IZIANE: Creio que não. Me acostumei com isso porque desde sempre as coisas fluíram neste sentido. Não acredito que tenha atrapalhado em nada, não. Sempre soube lidar com isso. As pessoas também me blindaram muito. As pessoas me incentivavam, e não me expunham neste sentido.

maria1BNC: Como era com Maria Helena e Eleninha? Ambas são muito exigentes…
IZIANE: Foi tranquilo, bem tranquilo. Elas me acolheram como uma pupila, como uma filha. Elas queriam desenvolver o meu potencial. A Macau, que era a minha técnica no infanto, tinha que brigar com elas pra eu parar de treinar (risos). Elas se envolveram muito comigo tipo nessa época aí que fiquei doente, sabe? Me chamavam direto para almoçar com elas. Todas ficaram muito preocupadas comigo. Cansei de ir na casa delas almoçar. Algumas vezes com minha mãe inclusive. Me trataram como uma pessoa da família mesmo.

izi10010BNC: Nessa época você já tinha jogado um Mundial Sub-19 em 2001. Naquele Sub-19, ali com o Paulo Bassul, você e a Érika meio que surgiram para o mundo. As pessoas olhavam pra vocês e viam que tinha algo diferente. O que você lembra desse torneio, desse começo de trajetória com a seleção brasileira de base?
IZIANE: A gente teve uma geração muito boa, né. Sempre entre as quatro primeiras do mundo, sempre com destaque internacional. Foi essa geração que foi vice-campeã do mundo Sub-21 em 2003. Eu não fui neste torneio porque estava na WNBA, mas era uma galera bem talentosa e que tinha o respeito de todo mundo. Lembro que fazíamos jogos duros inclusive contra a galera da mesma idade dos Estados Unidos. E eram Diana Taurasi, Seimone Augustus, Lindsay Whalen, só fera. A gente sempre conseguiu manter o equilíbrio contra essa galera. Você cresce com essas meninas, joga contra essas meninas e quando chega no adulto não tenha aquela estranheza, aquela coisa de bicho-papão. Elas nos conheciam, e a gente conhecia a elas também. Existia um certo respeito, e isso ajudou muito na minha carreira e também na da Érika na WNBA.

izianeBNC: Aí logo em 2004 você foi para a sua primeira Olimpíada. Tinha 20, 21 anos e teve a média de 15 pontos por jogo. Ali realmente foi a primeira vez que te vi jogar e fiquei um pouco assustado. Era um time que tinha a Janeth como líder, como craque, e você foi a segunda cestinha em um elenco que tinha Alessandra, Helen, Cintia, Kelly… Como foi aquela primeira Olimpíada da sua carreira?
IZIANE: Ah, tem uma história interessante dessa Olimpíada. Um dia antes do primeiro jogo a Karla (Costa) me deu uma joelhada sem querer no treino e eu tive uma hiperextensão. Não conseguia nem andar. A Vila Olímpica era enorme e para eu andar até o quarto era um sofrimento. Preocupada pra caramba, os médicos me fizeram uma bandagem lá e eu disse a eles: “Nem que eu quebre o joelho eu vou jogar. É minha primeira Olimpíada. Não perco isso por nada”. O primeiro jogo foi bem fácil contra o Japão (128-62), joguei 20 minutinhos e depois fui poupada porque sentia muitas dores.

izi1002BNC: Como foi fora das quadras? Vila Olímpica, os ídolos, a cerimônia de abertura…
IZIANE: Cerimônia de abertura? Queria saber também, porque nós não fomos (risos). Não deixaram a gente ir porque tinha jogo logo da manhã do dia seguinte à cerimônia. Mas eu aproveitei muito aqueles Jogos ali na Vila. Fiz vídeos, fotos, caramba. Muita gente, muito personagem legal, sabe. A gente é jogador, mas ao mesmo tempo é torcedor, gosta de esporte e dos esportistas. O Mauricio (Lima), levantador do vôlei, está em quase todas as minhas fotos. Lembro da seleção americana de basquete, Serena Williams, o próprio Manu Ginóbili. Nessa Olimpíada o time masculino não ficou na Vila, ficou em um navio, mas foram para a Vila antes da cerimônia de abertura e aí aproveitei. Não só eu. Teve menina que chorou e tudo. A Adrianinha se emocionou quanto tirou foto com o Allen Iverson, sabia? Eu sempre fui muito focada, muito concentrada, mas ali na Vila Olímpica era possível também ser um pouco fã do esporte. Sempre que podia assistia aos jogos do Brasil também. Não tenho muitas memórias das coisas, mas dessa Olimpíada eu lembro de tudo. Da alimentação, dos ginásios, dos treinamentos, dos trajetos. Tudo. E sabe o que é o pior, Bala? O primeiro jogo ganhamos de quase 70 pontos. E eu dizia assim: “Foi por isso aí que nós não fomos na cerimônia de abertura?”.

izi1BNC: Você disse isso alto, né? Consigo imaginar…
IZIANE: Disse, disse (risos)…

BNC: Pena que o final foi um pouco frustrante, não? Derrotas para Austrália na semifinal e para a Rússia no jogo do bronze. Lembro que xingava muito a vocês na disputa do bronze. Estavam com o jogo encaminhado e perderam o último período meio feio (24-16)…
IZIANE: Aquela Olimpíada, na quadra, foi meio esquisita. Perdemos duas vezes na fase de classificação para Austrália e Rússia, mas tivemos um jogo para ir adiante contra a Espanha nas quartas-de-final. Lembro que a Janeth jogou muito aquela partida (27 pontos) e guiou o time para a disputa das medalhas. Infelizmente depois alguns momentos do jogo, detalhes, nos impediram de chegar à medalha. Tínhamos um time bom, focado, mas acabou não dando certo. Apesar de não termos conseguido medalha acho que foi uma boa experiência pra mim, sabe. Era muito nova e a comissão técnica do Antonio Carlos Barbosa me dava uma força danada. Me passavam uma confiança, Bala, que você não tem ideia. Isso foi muito importante pra mim, sabe. Tinha menina ali que eram minhas ídolos, sabe. Janeth, Alessandra, Cintia, Helen. Era fácil jogar com essa geração. Só tinha craque.

iziane1BNC: Você saiu dessa Olimpíada e saiu muito valorizada pra caramba, retornou pra WNBA ainda mais por cima…
IZIANE: Verdade. Já tinha jogado na WNBA, mas saí da WNBA para treinar com a seleção pros Jogos Olímpicos de 2004. Nesse ano eu perdi meu título da WNBA, porque o Seattle Storm acabou sendo campeão. A técnica Anne Donovan ficou doida comigo, me queria muito lá, mas eu estava me preparando com a seleção. Eu era titular daquele time que tinha Sue Bird, Lauren Jackson, Betty Lennox.

BNC: E tinha a Europa no meio disso tudo também, né? Você rodou um bocado…
IZIANE: Sim, era metade do ano na Europa e a outra na WNBA. Eu sempre coloquei pros meus agentes assim: “Tem proposta boa, pode me colocar sem problema algum que eu vou”. Nunca tive medo de absolutamente nada. Comecei com 19 anos na Espanha em 2001. Foi muito inteligente por parte dos meus agentes me colocar em Lugo, Espanha. Era frio lá, viu. Fui bem lá. Era uma equipe que precisava de uma estrangeira, ficamos na primeira divisão, conseguimos o objetivo. Depois fui pra França e logo de cara fomos campeãs europeias com o Aix-En Provence, mas só tinha sete jogadoras, sabia? Éramos eu, uma australiana, uma francesa, uma alemã, outra americana e duas reservas que mal entravam. O técnico matava a gente (risos). Nessa época tinham mais seis brasileiras na França. Adriana Santos, Claudinha, Mamá, Kelly, então a gente se encontrava muito. Nos primeiros anos fora do Brasil havia sempre muita brasileira jogando e a gente sempre se via.

iziBNC: Depois você foi parar no Ekaterinburg, na Rússia…
IZIANE: A Rússia foi tenso, sabe. Não de basquete, mas de adaptação ao país, cultura, clima, e eu não topei, não. E na época ganhava-se muito bem lá, você não tem ideia. Não consegui. Foram sete meses trancada em casa. E você me conhece, eu sou muito ativa. Nem dormir de tarde eu durmo. Mas tinha que fica trancada em casa porque não dava pra sair devido ao frio. Era papo de 30 graus negativo. Aviões antigos, bem antigos, sabe. Toda vez que entrava no avião eu ligava pra minha mãe me despedindo, dando tchau (risos). Ficava o dia inteiro em casa. Sabe o que eu fazia? Via série. Lembra aquela série “24 horas”? Acho que vi todas as temporadas possíveis em uma semana. Naquele time tinha muita fera – Teresa Edwards, Yolanda Griffith e uma sérvia. A base éramos nós quatro mesmo. Fomos campeãs da Copa da Rússia em casa. No campeonato perdemos do CSKA. Voltei pra Espanha, no Perfumerias Avenida, em Salamanca, depois fui para a República Tcheca, França um pouco.

Continua…

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Personagens do Basquete Brasileiro: Maria Helena Cardoso (Parte II)
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Fábio Balassiano

A PARTE I VOCÊ VIU AQUI…

maria1BNC: Qual o erro que a senhora mais se lembra? Fazendo uma análise, olhando pra trás…
MARIA HELENA: Acho que no início da carreira… Eu tinha sido jogadora, você sabe. E essa passagem de quem foi jogadora para técnica é muito, muito difícil. Não é moleza não, Bala. Você pensa como jogadora, como atleta, e não como técnica. Você quer, de cara, que aquele seu novo atleta faça aquilo que você, enquanto atleta, levou anos para conquistar, para fazer. E aprendizagem não é isso. Ele não tem que fazer porque eu falei. Atleta precisa aprender o conceito, testar, errar e aí sim estar pronto. O começo eu acho que passei deste ponto. Eu exigia dos atletas a performance que eu havia alcançado ao longo da minha carreira. Mas o tempo vai fazendo você mudar. Você não pensa mais como jogador, entende? Nos últimos anos que eu trabalhei eu nem lembrava que havia sido jogadora. Minha cabeça já estava totalmente voltada pro lado de técnica mesmo.

paula3BNC: Como foi esse começo com a Paula. De cara você percebeu que era um gênio do esporte? A senhora sabia que era um diamante?
MARIA HELENA: Sabia, claro. Claro que sabia que era uma pedra preciosa do esporte. Eu ia buscar o quê? Diamante. Na época que vimos a Paula jogar a Eleninha se identificou demais. A Paula era mais ou menos como ela, Eleninha jogava. Então nesse começo quem auxiliou muito a Paula foi a Eleninha mesmo. Ela foi muito importante porque ouvia bastante a gente e passou a ser a cara do projeto. As meninas novas se espelhavam nela, e a Paula sempre teve, além de muito talento, um comportamento exemplar, fora da média mesmo. Posso dizer que ela aprendeu muito conosco, e todos que estiveram com ela também. É uma pessoa excepcional, tão excepcional como foi quanto atleta. Quem teve o prazer de trabalhar com ela só pode agradecer. E eu tive.

maria15BNC: Aí você ficou em Piracicaba até 1990, quando foi pra Ponte Preta, em Campinas, mas neste período de Piracicaba teve a seleção. Em 1986 você voltou à seleção, mas como treinadora. Como foi?
MARIA HELENA: É emocionante pra caramba. Foram anos de seleção como atleta. Aí você para de jogar, imagina que sua vida naquele local (de seleção) acabou, e depois a vida te dá uma nova oportunidade de representar o país, só que de outra forma. Sempre dizia às atletas que da escola que elas estavam frequentando eu já tinha passado. Então muitos problemas que aconteciam eu já sabia como resolver o problema. A questão toda não é ter o problema em si, mas como solucioná-lo da melhor maneira possível. Como alguns se repetiam, eu tinha mais tranquilidade para antevê-lo e resolvê-lo. Ter sido jogadora me ajudou muito. Tinha a experiência de grupo, mas não grupo de clube. Experiência de você juntar meninas de clubes diferentes e ter que fazer uma equipe dentro disso.

maria4BNC: A senhora chegou em 1986. Foram pro Mundial, ficaram em décimo-primeiro…
MARIA HELENA: Foi. Foi ruim, na verdade. Mas era um grupo muito novo, muito no começo ainda. Até 1988, quando fomos para a Malásia, no Pré-Olímpico que não tivemos sucesso, ainda era um grupo muito novo, muito no começo de sua vida profissional. Era um time verde mesmo. Em 1986 mesmo, fomos para o Goodwill Games em Moscou e todos me perguntavam de onde tinha saído aquela equipe. Ficaram encantados com as meninas do nosso time. Fizemos jogo duro no Mundial com todas as equipes, mas na hora de decidir faltava a experiência. Jogador novo, na hora que o bicho pega, ele titubeia por causa da responsabilidade. Elas eram muito novas, mas ali eu já sabia que aquela geração teria muito sucesso porque todas elas tinham as ferramentas necessárias para ir longe. Todas. Só faltava aumentar a altura mesmo. Quando assumi a seleção a média de altura era de 1,72m. Isso pra nível internacional é baixo, você sabe. A Hortência tinha 1,74m, e jogava contra mulheres de 1,90m marcando ela. A Hortência, aliás, é um fenômeno do basquete. O que ela jogava era um absurdo. Fazia de tudo na quadra. Fazia ponto de tudo que é jeito, marcava ponto com muita facilidade. Jogar com ela no time era fácil. Marcá-la, quase impossível. Que atleta fenomenal. Depois entraram Janeth, Marta, Alessandra, Leila, entre outras. Eu fui ao Pan-Americano em 1987. Nós jogamos contra os Estados Unidos. Fizemos um primeiro tempo ótimo, tudo igual. Intervalo veio, voltamos e perdemos de quase 20. Fomos para a conferência de imprensa, aí a técnica americana comentou o que ela fez para ganhar o jogo. Ela disse assim: “O Brasil está apoiado em duas pilastras. Paula e Hortência. Anulamos as duas e ganhamos o jogo”. Isso em 1987. Aquilo ficou na minha cabeça. Martelou, martelou e vi que precisávamos, como país, encontrar uma solução para aquele problema que se apresentava. A gente precisava de mais gente. Precisava aumentar a altura, ter mais opções de pontuação. Ser mais equipe mesmo. Porque no nível internacional se você não for um time muito coeso, muito homogêneo, não adianta. Não existe time de dois jogadores que ganhe algo no nível de Mundial e Olimpíada. Janeth chegou pra nós juvenil e a gente formou.

trio1BNC: Maria Helena, as grandes jogadoras todas foram formadas por você. Você sabe disso, não?
MARIA HELENA: É complicado eu dizer isso, mas quando a comunidade do basquete percebeu que ali em Piracicaba tinha um polo interessante não da modalidade, mas principalmente de desenvolvimento de pessoas, elas mesmo vinham nos procurar. Ou seja: um menino de Miracema (MG), indicava uma menina e íamos olhar. De Franca, a mesma coisa. A Janeth chegou pra gente juvenil. Ficou três anos conosco e explodiu. A gente trabalhava dois, três anos a menina, elas ficavam no ponto e vinha um time com mais dinheiro e contratava a menina. Então tínhamos sempre muita troca nas equipes. Era ruim, porque o time mudava muito, mas era bom também porque captávamos meninas diferentes o tempo inteiro. As únicas que ficaram mais tempo foram Paula e Vania. Algumas meninas saíram por causa de dinheiro mesmo, de outras propostas. A gente tinha várias “escadinhas” nos nossos times que faziam as meninas do infanto jogarem no juvenil, as juvenis jogarem no adulto. Ou seja: quando precisava repor as peças, todas já estavam preparadas. Era difícil, porque outras equipes tinham mais poder econômico na época, mas era gratificante ver que sempre nos finais dos anos tínhamos de novo equipes formadas, atletas formadas, disputando títulos e com fundamentos lapidados.

maria1BNC: Aí vocês não foram pra Olimpíada de 1988, no Mundial de 1990 também não foram bem (décima posição). Outra frustração…
MARIA HELENA: Em 1990 você quer saber o que houve? Puseram a gente pra fazer excursão na Europa com 21 jogos em 30 dias. E de lá ir direto pro Mundial porque não tínhamos dinheiro pra voltar ao país. E viajando de ônibus. Não tinha treino, Bala. Só jogávamos, jogávamos, jogávamos. Então chegamos ao Mundial de 1990 absolutamente acabadas. Realmente extenuadas mesmo. Foi um erro de planejamento descomunal na época. As meninas não andavam. Estavam cansadas mesmo. Nos olhos delas estava escrito isso. Chegamos em Moscou, depois de viajar o tempo inteiro, e tínhamos que ir para Minsk, onde era a nossa sede. Chegamos às quatro da tarde e teríamos o jogo da estreia contra a Bulgária no dia seguinte pela manhã. Veio o chefe da delegação e disse que teríamos que ir para Minsk de trem. Não tinha dinheiro pro voo. Aí eu disse: “Eu não vou. Volto daqui, mas não pode acontecer isso. Esse time não pode passar por isso”. Nenhum time do mundo merece passar pelo que nós passamos naquele Mundial. Conseguimos um avião, mas chegamos de madrugada. Todas mortas e no dia seguinte de manhã tinha uma partida com a Bulgária. As meninas faziam bandeja e pareciam que estavam travadas.

maria6BNC: Aí no ano seguinte vocês tiveram uma glória, que foi ter ganho o Pan-Americano de Havana, em Cuba. Ali o basquete feminino começava a ter sucesso em termos de títulos, né…
MARIA HELENA: Foi emocionante sabe por quê pessoalmente? Porque foi exatamente 20 anos depois de eu ter conquistado o título do Pan como atleta em 1971. Ou seja: duas décadas se passaram, o basquete não conseguiu mais vencer, e só retornou ao lugar mais alto do pódio em 1991. Por sorte estava nestes dois momentos – um como treinadora. Outro como jogadora. Como técnica, foram duas grandíssimas emoções – ter conseguido chegar a um título internacional que o Brasil não conquistava há muito tempo e deixar o Brasil em uma Olimpíada, algo que fizemos no ano seguinte em Barcelona. Meus sonhos eram estes, e eu realizei. Olha, Bala, eu não sou muito de ficar emocionada, ficar lembrando. Cabeça de técnico é meio maluca mesmo. A gente ganha, vibra, sorri um pouco e já começa a pensar no próximo, no que está por vir.

trio1BNC: Mas aquele Pan foi especial, não foi? Por tudo o que cercou. Fidel Castro, aquelas coisas…
MARIA HELENA: Foi, foi bem especial, mágico. E começamos mal aquela competição. Os primeiros jogos não foram bons, sabe. O time estava pronto, mas não deslanchava no começo daquela competição. A Hortência e a Paula estavam voando, a Janeth estava indo bem, mas não encaixava. Ali no final da primeira fase é que o time jogou como equipe, como equipe mesmo. Na final é que chegamos bem, mas teve aquele lance de pressão do Fidel antes do jogo que jamais me esqueci na vida. Pouca gente sabe, mas ele queria falar com as nossas atletas antes da partida. A Eleninha é que veio me contar que ele queria falar. E eu mandei avisar lá: “Antes, ele só fala comigo. Com as atletas, só depois”. E ele falou comigo, conversamos, batemos papo. Mas pelo menos não influenciou, não pressionou as atletas, entende? E aqui vou te dizer uma coisa: naquele Mundial de 1994 que elas foram lá e ganharam elas poderiam ir sem técnico que seriam campeãs. Não digo isso em crítica a ninguém, não, mas é porque elas estavam maduras, prontas, realmente bem treinadas, preparadas e tendo passado pelas experiências que a vida exige para formar um time campeão. O Miguel (Angelo da Luz) foi muito feliz de conduzir o trabalho com tranquilidade, com coerência. Mas a preparação, a construção toda, já havia sido feita mesmo.

BNC: Peraí, mas deixa eu voltar um pouco aqui pra não perder o fio da meada. Um dos primeiros jogos que me lembro de basquete feminino foi aquele Brasil x Austrália no Pré-Olímpico de Vigo, em 1992. Teve aquele jogo maluco com a Austrália, prorrogação, o Luciano do Valle não parava de gritar, mas ali o Brasil se classificou para a sua primeira Olimpíada no Feminino. Foi um momento de glória, e imagino que muito emocionante pra você também. A senhora lutou muito pra jogar uma Olimpíada, mas não aconteceu porque não tinha na época. Realizar seu sonho olímpico como treinadora deve ter sido gratificante, não?
hortencia1MARIA HELENA: E você não sei se lembra, mas chegamos no Pré-Olímpico e perdemos os três primeiros jogos. Aí falei: “De novo, caramba”. Mas conseguimos corrigir tudo. As meninas se juntaram, resolveram os problemas internos que havia na equipe e saímos mais fortes para terminar a competição. As coisas acontecem no momento que têm que acontecer, né? Houve um problema muito sério lá, sabe. Problema de gente ao redor atrapalhando o trabalho. Pessoas que queriam ajudar, mas que atrapalhavam. Perdemos um jogo da China, e não tínhamos nenhum vídeo da China para ver antes. Começa o jogo, e elas abrem 21-5. Negócio de louco. Aí entra o lado do técnico. Se você sabe que o jogo será decidido até o final, você precisa correr pra buscar a diferença, mas preservar as suas principais atletas. O que eu fiz? Precisava mudar a cara do jogo. Para marcar a gigante Haixia, eu precisava marcar pressão a quadra toda. Se boto Hortência e Paula pra correr, elas ficam cansadas no final do jogo. O que eu fiz? Tirei as duas e começamos a marcar lá na frente. Entraram Branca, Nádia, a menina. Conseguimos. Encostamos no jogo, comecei o segundo tempo com as duas, China abriu de novo. Coloquei as garotas novas de novo, e aí recebi até bilhete no banco de reservas, você acredita?

paulahortBNC: Que bilhete?
MARIA HELENA: “Põe a Paula e a Hortência”. Era o presidente da Confederação na época e que já tinha sido técnico. Situação chata, né. Mas eu sabia o que estava fazendo. Coloquei Paula e Hortência no fim do jogo, mas mesmo assim perdemos o jogo. Buscamos, encostamos, mas não deu. Cheguei ao hotel, e recebi críticas porque não tinha colocado Paula e Hortência. Aí é fogo, porque todo mundo fica buzinando na cabeça de atleta nestes momentos. E menina vai ouvindo, o grupo vai escapando, as coisas vão indo para um lado não muito legal. Aí entra a mão de D’s também. Estava sem sono uma noite, encontrei uma menina meia noite no corredor do hotel e chamei pra conversar.

maria8BNC: Quem era essa menina?
MARIA HELENA: Prefiro não falar. O que importa é que fiquei com ela até 2h da manhã conversando, explicando, trocando ideia. E ali depois o time se acertou, se consolidou e conquistou a vaga. Aquele jogo contra a Austrália foi espetacular. E vou te contar uma coisa. Pena que ele não está vivo para confirmar. Uma noite o Luciano do Valle me chama lá em Vigo e me diz: “Maria Helena, sai disso. Não é pra você isso aí, não”. E ele tinha razão. Eu não estava aguentando mais. Ele falou como meu amigo, algo que ele era, e como pessoa que gostava de mim, que me via sofrendo coisas que não deveria sofrer. Estavam me sacaneando, puxando meu tapete. Mas eu merecia ir a uma Olimpíada, sabe. Houve um monte de coisas lá na Espanha que você não tem ideia…

maria5BNC: Tipo o quê?
MARIA HELENA: Tipo Dirigente chamando jogadora pra dar instrução. Dirigente que me exigia fazer reunião de trabalho todo dia pra entender minha metodologia de trabalho e pedir uma série de mudanças. E eu fazia a reunião. Não só por hierarquia, não, mas porque ele também tinha sido meu técnico. E nenhuma vez ele me disse que eu estava errada, mas depois as jogadoras achavam que quem estava organizando tudo era ele, e não eu. Assim as jogadoras passaram a perder um pouco de confiança em mim, entende? E eu não percebia isso claramente. Só depois que entendi. Quando saímos de Vigo e fomos pro primeiro treino para a Olimpíada na cidade de Caxambu, fiz aquela reunião de avaliação do Pré-Olímpico e fiquei sabendo de tudo. Coisas do arco da velha. E aí disse: “Eu não vou mais”. A comissão técnica principalmente me chamou um dia e me disse: “Você não vai fazer isso. Lutou tanto pra disputar uma Olimpíada, e agora vai deixar aí de lado? Faz 20 anos que você está trabalhando por isso”. E aí pensei: “Eu tenho o direito e a honra de dirigir o Brasil em uma Olimpíada”. Mas aí quando cheguei em Barcelona entreguei ao Chefe da Missão Brasileira a minha carta de demissão da seleção brasileira. Com o resultado que fosse eu sairia da seleção. Na carta expliquei tudo o que tinha acontecido, o que eu sentia, o que pensava. Ele leu tudo em voz alta e devolveu a carta. Disse o seguinte: “Não vou entregar essa carta. Caso o faça você está morta pro basquete. Não faça isso”. Fiz outra. Elogiando ao máximo agradecendo, mas dizendo que não tinha mais condição. Entreguei, e ele encaminhou ao Brito. Algumas coisas eu não tolerava mais, sabe, Bala.

BNC: Tipo o quê?
MARIA HELENA: Olha. Fomos fazer um torneio amistoso em Santos. Depois do torneio eu dei uma folga de uma semana de folga. Uma atleta não se apresentou depois de uma semana de folga. Pedi pra ligar pra atleta, estava preocupada. E aí a jogadora disse ao responsável pela delegação: “Ah, não, foi pouca a folga que ela deu. Vou ficar mais”. E não era estrela, hein. Imagina só. Faltando pouco pra Olimpíada e eu tendo que ouvir isso. Falei pro chefe da delegação que se a atleta ficasse mais um dia longe estaria fora. Uma semana depois a atleta chega com o Dirigente, que me fez engolir aquilo ali. E eu engoli. Ele era o presidente. Ele chamou a imprensa ainda e disse: “Eu trouxe a atleta de volta”. Este foi um caso. Houve outros mais.

maria11BNC: Isso impactou no rendimento da equipe na Olimpíada certamente, não? Porque era um time já maduro, vindo de um título importante, mas que ficou em sétimo lugar.
MARIA HELENA: Mais ou menos. Houve coisas até piores, sabe. As meninas perderam o foco, se deslumbraram com a Olimpíada. A Vila Olímpica é uma coisa de louco para quem está não muito focado, você me entende? Tem muito atrativo, muito oba-oba, muita gente bonita. Algumas meninas se perderam um pouco. E lá na Olimpíada quem manda é o Chefe da Missão que manda. Eu falei com o cara, alertei, e tive que ouvir: “Na quadra você manda. Aqui fora, mando eu”. Duro, né, Bala. Fiquei de mãos atadas. Eu não tinha mais estômago pra seguir. Aí quando terminou a Olimpíada o presidente da CBB disse que iria trocar os dois técnicos. Que fora uma decepção, que precisava renovar, aquelas coisas que você sabe. Aí liguei pro Chefe da Missão, lá de Minas, e falei pra ele: “Lembra daquela carta que você disse pra eu não entregar? Se o presidente (nota do editor: Renato Brito Cunha) não parar de falar eu vou publicar a carta”. A minha demissão eu que pedi. Não foi ele que iria me demitir. Em Barcelona, a equipe estava pronta tecnicamente. O problema é que o fator externo atrapalhou demais.

BASQUETE - PAULABNC: Nessa época você saiu da seleção, e veio viver em Campinas uma das fases mais gloriosas da sua brilhante carreira. Foi campeã de tudo com a Ponte Preta, inclusive duas vezes campeã mundial em 1993 e 1994. É diferente ganhar para um time, digamos, de futebol?
MARIA HELENA: Bala, foi espetacular. Espetacular. A torcida da Ponte era espetacular. Acompanhava e levava a equipe nas costas mesmo. A equipe era muito forte, mas o apoio deles era fundamental. Éramos nós contra o time da Hortência. Aí depois conseguimos unir, no clube, Paula e Hortência. Aí perdeu a graça, né… O time era muito forte. Pra jogar aqui, o Campeonato Brasileiro, era disputa pra ver quem era o vice-campeão. Era apenas administrar. Digamos que 80% psicológico, 20% tático. O time era fantástico. Tinha Paula, Hortência, uma russa, a Elena, a pivô Karina. O time entrava pra ganhar e ganhar. É muito diferente o time que entrar pra não perder do que entra só pra ganhar. Além de tudo, nosso trabalho de base era muito bom. Em 1994, depois de três anos e meio de trabalho, a gente foi campeão de TODAS as categorias da federação. Éramos eu, Eleninha, Paulo Bassul e a Mila Rondon, além do Hermes Balbino, preparador físico. Sentávamos toda semana e preparávamos o planejamento da semana do mirim ao adulto. Todos juntos. Então a menina que começava conosco ela estava sendo preparada. A filosofia de jogo era a mesma em todas as categorias. Então eu pegava meninas da base, colocava no adulto e não tinha problemas. Helen, Silvinha, várias, todas foram dessa leva aí. Eram sempre sete adultas e cinco da base. Perdíamos muitas meninas por conta de propostas de fora. O que fizemos não foi um trabalho pessoal, mas o trabalho bem feito de uma equipe técnica, algo que é difícil de ver hoje.

maria6BNC: A gente estava conversando antes de gravar a entrevista sobre sua paixão pelo jogo, sua paixão por vencer, sua paixão por treinamento. Falta muito disso hoje quando você vê o basquete feminino hoje?
MARIA HELENA: Vou dizer uma coisa. Você falou na palavra paixão. Não. Eu tinha e tenho amor pelo basquete. Paixão é uma coisa que vem, dá e passa. Amor é diferente. Não passa. É eterno, contínuo, 24 horas mesmo. Tinha e tendo ainda. E me faz mal ver a situação que está. Eu tenho pena de ver a situação que está chegando, ou a que chegou. Agora, com essa chegada do pessoal do NBB, talvez seja uma luz no fim do túnel, uma última chance do basquete feminino sair do buraco. Se isso der certo podemos melhorar muito. Agora, acho também que as pessoas vão passando. O basquete é que não passa. O que não pode acontecer são as pessoas saírem de cena e não ter continuidade. Será que nada do que fizemos prestava? Há um monte de meninas que trabalhavam com a gente que ainda seguem trabalhando. Macau, a Anne de Freitas estão aí. Mas tem muitas que estão sem trabalhar. Fala-se muito do trabalho do técnico, mas técnico é aquele que tira o melhor do sue jogador. Não tem muito jeito. Não tem omelete sem ovo. E talento você extrai quando tem muita quantidade, algo que não vemos por aqui atualmente.

maria10BNC: Por fim: daqui a 50, 60 anos, como você quer ser lembrada?
MARIA HELENA: Como educadora. Como uma boa educadora. Eu acho que fui uma boa técnica, mas uma pessoa que ajudou muito a vida das pessoas. Os ensinamentos ficam, ficaram, ficarão. A filosofia de vida delas é baseada nas coisas que nós ensinamos. Gostaria de ser lembrada como alguém que ajudou a pessoa a crescer. Não como alguém que auxiliou a pessoa a fazer cesta, porque fazer cesta até uma máquina faz. Mas o que sempre falamos era como você viverá depois de fazer cesta. Eu tive a felicidade de ter um período longo, porque fui jogadora e técnica, mas normalmente a carreira é curta e sempre fiz questão de mostrar isso, de mostrar que é preciso estar preparado pro próximo passo sempre. Ser lembrada pelo que eu deixei além da quadra.


Personagens do Basquete Brasileiro: Maria Helena Cardoso (Parte I)
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Fábio Balassiano

maria1A história do basquete feminino brasileiro se confunde com a de Maria Helena Cardoso. Maria Helena Cardoso é, na verdade, na essência, de fato e de direito, o basquete feminino brasileiro. Nascida em Descalvado há 76 anos, fez parte da primeira geração que brilhou internacionalmente, conquistando o bronze no Mundial de 1971 em São Paulo (4,5 pontos de média) e o primeiro ouro da história da modalidade no Pan-Americano de 1971 em Cali, Colômbia.

Como técnica, formou um punhado de atletas (Paula entre elas), deu a geração de Paula, Hortência e Janeth a chance de ganhar o primeiro título (o Pan-Americano de 1991) e levou o grupo a primeira Olimpíada (em Barcelona, 1992). Por clubes, abocanhou três mundiais interclubes (dois pela Ponte Preta em 1993 e 1994 e outro pelo BCN em 1998). Maria Helena Cardoso é uma personagem do basquete brasileiro sem dúvida alguma.

maria3BALA NA CESTA: Queria que a senhora começasse a falar da sua vida primeiro. A senhora nasceu em uma cidade chamada Descalvado, do interior de São Paulo. Era uma família de dez irmãos, nove mulheres e um homem, e havia algumas que jogavam. É isso?
MARIA HELENA CARDOSO: Sim, é isso. Uma das minhas irmãs que jogava é a Maria Aparecida Cardoso, a Cida , mãe do Cadum, que jogou na seleção brasileira. Na minha casa era assim. Quando minhas irmãs iam jogar, todos íamos juntos. Nos intervalos do treino, eu brincava com a bola, arremessava, fazia exercícios com a bola de basquete. Assim que comecei. Foi engraçado que, depois quando já jogava, havia outras quatro irmãs atuando e queríamos montar um time da família. Uma ficou noiva, parou e não deu pra montar o time das irmãs. Meu pai, Osvaldo Cardoso, apelido Calá, foi jogador de futebol, minha mãe, Ana Cardoso, jogou basquete na escola, então a família inteira sempre gostou muito de esporte. Tem um vídeo da história da minha vida que o Museu de Descalvado fez em minha homenagem que fala um pouco dessa minha história.

maria8BNC: E como começa a sua história no basquete efetivamente?
MARIA HELENA: A cidade disputava Jogos Abertos, ali na década de 50. Comecei a jogar em 1954. No ano seguinte fui fazer um torneio em Piracicaba, jogando pelo time de São Carlos. Tiveram informações minhas, me buscaram em Descalvado e fui jogar por eles. Em 1956 a minha irmã Cida jogava no Pinheiros, capital de São Paulo. Ela queria me levar pra jogar lá para me desenvolver. Tinha 16 anos, muito jovem, meu pai não deixava eu sair de casa pra jogar basquete. Eram outros tempos, né. Como não podia ir morar na capital, ia treinar só nos fins de semana. Viajava seis horas de trem, treinava sábado, domingo e voltava pra casa no final da noite de domingo. Isso em 1956. Mas treinava muito, muito mesmo. Treinava e jogava pelo Pinheiros. Neste mesmo ano fui convocada para a seleção Paulista. Logo depois pela seleção brasileira. Em 1958, Piracicaba queria montar uma equipe para disputar os Jogos Abertos e montou uma equipe. Fomos cinco direto – eu, Eleninha, Delci e Genesia, de Sorocaba, e Zilá. Isso em 1958, hein. Aí fiquei em Piracicaba direto. Já havia me formado para ser professora, comecei a dar aula e jogava. Fui da primeira turma de Educação Física que houve na cidade inclusive.

maria11BNC: Na seleção, então, a primeira vez com 16 anos…
MARIA HELENA: Exatamente. E com uma coisa engraçada: quando cheguei na seleção, foi a minha primeira vez na equipe e a última da minha irmã. Fomos ao Sul-Americano do Equador em 1956. Logo depois, Mundial no Rio de Janeiro em 1957. Eu fui, mas ela não foi. Foram 16 anos na seleção brasileira, 156 partidas.

BNC: Você pegou literalmente o começo do basquete feminino brasileiro. Como era essa época?
MARIA HELENA: Quando entrei, em 1956, eram oito novatas e quatro das que tinham ganho o Sul-Americano de 1954. Então tinha muita coisa de novidade pelo basquete, e muita coisa diferente por ser um grupo totalmente novo, de idade e de entrosamento mesmo. A gente, por isso tudo, demorou a começar a ganhar. Fomos sentir um gostinho do que era vencer, disputar medalhas, a partir do Mundial de 1971 em São Paulo, quando fomos terceiro, perdendo a medalha de prata no saldo de pontos mesmo. Foram quatro Mundiais com a camisa da seleção brasileira.

basketBNC: A geração da Paula e da Hortência é a que mais teve resultados internacionais, claro, mas a sua teve resultados internacionais interessantes e quase ninguém sabe…
MARIA HELENA: Sim, teve mesmo. Apesar das dificuldades da época, de um estilo de se fazer basquete totalmente diferente do que é feito hoje, fomos um time que teve um sucesso danado. E numa época que o basquete feminino não fazia parte do programa dos Jogos Olímpicos. Teve até uma história engraçada. Fizemos um jogo exibição com a seleção brasileira em Madri contra a Thecoslováquia. Era para o pessoal do Comitê Olímpico Internacional olhar e aprovar a nossa entrada. O problema foi que o México, que seria a sede em 1968, não quis. Depois os outros países não quiseram e o basquete feminino só entrou mesmo em 1976. A minha geração só jogava Sul-Americano, Pan-Americano e Mundial.

baske2BNC: Foi neste ano de 1971 que você teve uma das grandes glórias da sua vida esportiva, a conquista do Pan-Americano de Cali, na Colômbia…
MARIA HELENA: Foi o primeiro grande título do basquete feminino brasileiro. Ah, foi lindo, lindo, né, Bala. A gente tinha acabado de sair do Mundial de São Paulo, então a equipe estava muito bem treinava. Você vê, o tempo passa, né. Foi neste ano a primeira vez que o Antonio Carlos Barbosa foi de assistente técnico do Waldyr Pagan. Neste ano de 1971 ganhamos não só o feminino, mas também o masculino naquele Pan. E aí surgiu uma figura importante demais pro basquete, que foi o Luciano do Valle. Ele nos ajudou muito com entrada na televisão. Foi um momento de afirmação pro basquete, de desenvolvimento e popularização mesmo. Ele era repórter na época e se entusiasmou com o nosso esporte.

maria8BNC: Não sei onde foi que eu li, ou quem me contou, mas a primeira viagem para a Europa da senhora como atleta foi depois de 10 anos de seleção. Como não havia intercâmbio algum, e as competições naquela época eram na sua maioria nas Américas, você foi cruzar o oceano mesmo apenas depois de dez anos de seleção. É isso mesmo?
MARIA HELENA: (Risos) Como é que você sabe disso? É isso, é isso sim. Foi em 1965. Já estava com 25 anos. Esse intercâmbio fazia muita falta. Eram outros tempos, mas fazia falta, sim. Quando a gente ia jogar contra o pessoal da Europa era um desespero, era a cega mesmo. Quando eu era técnica mesmo era complicado. Fomos jogar com a China no Pré-Olímpico de 1992, o de Vigo, Espanha, e fazia cinco anos que a gente não sabia nada da China. Não tínhamos informação, vídeo, nada. Hoje é fácil, está tudo aí na internet. Pra estudar a mesma coisa. Eu, como treinadora, cansei de pagar viagem do meu bolso para ir a Itália, Espanha, Estados Unidos aprender. Para ir a Olimpíada a mesma coisa. E era engraçado, porque eu começava a pagar dois anos antes dos Jogos acontecerem e terminava de pagar dois anos depois. Comprava o pacote, ia para a Olimpíada, continuava pagando mais 24 meses. Quando estes 24 meses acabavam, entrava mais uma Olimpíada. Foram várias assim, viu. Ia pra aprender, para adquirir conhecimento. Pagava do meu bolso porque queria aprender e não me arrependo. Vi cada treino do Bob Knight, lendário treinador universitário americana, que me lembro até hoje. Adorava ele, adorava mesmo. Tinha um técnico da Colômbia que era assistente dele e que eu conhecia. O cara me mandava cartas com jogadas, método de treinamento, vídeos de treinamentos. Aprendi muito com isso.

maria4BNC: Eu vi um pouco da carreira da senhora já como técnica. Como era a Maria Helena jogando?
MARIA HELENA: Eu era uma jogadora tapa-buraco. Jogava em todas as posições, menos de armadora. Era polivalente, e era bom porque assim sempre tinha um lugar pra mim nas equipes, né. Levei uns seis, sete anos para ser titular da seleção. Era muito nova, estava chegando. Demorei um pouco para ser titular mesmo, mas no treinamento eu sempre entrava, tinha espaço. Sempre fui uma jogadora de equipe. Não gostava de aparecer, de destaque. Defendia muito, jogava mesmo pra equipe.

BNC: Imagino que nessa época de fim de carreira a senhora também treinava times em Piracicaba enquanto jogava, certo?
MARIA HELENA: Sim. Eu dava aula em uma escola. Eleninha em outra. E uma outra professora, considerada a bicho-papão de títulos de Piracicaba, em outra. Ali começou-se a criar um movimento interessante de basquete na cidade. Eram três colégios com boa estrutura e que tinham bons times. Em 1973 eu parei de jogar e comecei a minha carreira de técnico mesmo. Comecei como técnica da base, de divisões inferiores mesmo. A Eleninha é que era técnica do adulto da UNIMEP quando fomos convidadas para montar a equipe e todas as suas equipes da cidade. Todos de Piracicaba se acostumaram, e gostavam, da nossa equipe. Não só porque a gente ganhava título quase direto, mas sim porque tínhamos equipes em todas as categorias. Eram muitas meninas jogando e treinando conosco, algo que me orgulho demais.

maria2BNC: Foi nessa época que você conheceu a Paula?
MARIA HELENA: Sim. Estávamos com o time já em Piracicaba e eu fui ao Pan-Americano de Porto Rico de 1979. Foi o Pan que o Brasil perdeu das Ilhas Virgens no masculino. Aquele que o Bob Knight meteu o dedo na cara do Isiah Thomas em um treino. E eu vendo aquilo. Chamei uma vez a Paula e a Vania para ver se elas tinham interesse em vir jogar conosco. Quem nos ajudou muito nessa época foi a Marina Jurado, que jogou na seleção brasileira e que me conhecia bastante. Trouxemos a Paula ainda como juvenil. Ela era de Jundiaí, mas vimos nela um potencial grande para aumentar o nível da nossa equipe. Não sou muito saudosista, sabe, Bala. Não sei se porque vivi muito, vi muitas coisas, mas essa época foi muito maravilhosa. Passaram mais de 500 meninas pelas nossas mãos desde essa época. Todas com histórias de vida diferentes, todas que pudemos ajudar de alguma maneira. Hoje em dia com o Facebook eu recebo várias mensagens de meninas que foram treinadas pela gente e que mesmo longe do esporte me avisam que estão utilizando, em suas carreiras, a nossa metodologia de trabalho, de motivação, de capacitação. Isso é gratificante, sabe. Dá mais prazer do que ganhar. A gente não tinha o objetivo de ganhar, só. Eu sempre dizia a elas: “Eu não quero uma máquina de fazer cesta, um robô pra jogar basquete. Eu quero que vocês sejam as melhores pessoas que puderem ser”. Ninguém chega ao topo se não tiver essa parte do valor humano muito apurada. Nosso primeiro trabalho, portanto, era de formação, de conhecimento da pessoa. Depois entrávamos com a metodologia esportiva, com o basquete em si. Somos professoras, né, educadoras. Ainda mais que estávamos dentro de uma universidade, a UNIMEP, então o nosso lado de professora convergia com o ambiente que estávamos. Foi um momento muito legal da minha vida e da Eleninha também.

lena2BNC: Foi fácil o seu começo como técnica, ou nada disso? Digo, na parte de ensinar, passar conceitos, metodologia…
MARIA HELENA: Fácil? Nada fácil. Foi bem difícil, Bala. No começo a gente teve muita jogadora que brigamos muito, demais mesmo. Passava o tempo e elas vinham dizer que estávamos certas, que o que fazíamos era para o bem delas. Elas pensavam que a gente era brava, que gostava…

BNC: Você sabe que eu te admiro bastante, mas que a senhora era brava, era brava…
MARIA HELENA: (Risos) Não é que era brava. É que eu queria disciplina. Sem disciplina você não chega a lugar algum, Bala. Para o atleta jovem, isso em alguns momentos gera uma interpretação ruim, equivocada. O jovem quer liberdade, né? Mas se você perguntar para essas jovens aí, que treinavam conosco, se elas gostavam, vai ver lá o que elas vão te responder. Todas vão dizer que hoje compreendem o que fazíamos. Elas se reúnem e ficam contando aquelas histórias lá. Eu, por exemplo, só me lembro do professor que mais me deu bronca, que mais exigiu de mim. O professor bonzinho eu não lembro. Você lembra?

maria5BNC: Não lembro mesmo…
MARIA HELENA: O exigente marca. Eu tive uma passagem neste sentido no Pan-Americano de 1991 em Havana, Cuba. Nesta época eu trabalhava muito para ter a Marta, grande jogadora, mais integrada ao grupo. No início tive uma dificuldade de fazer a Marta entender a filosofia, essas coisas todas. Teve uma vez que ela me disse: “Ah, mas você não larga do meu pé. Você só briga comigo”. E eu disse a ela: “Parei com você então”. Fiquei três dias sem falar com ela. Parei mesmo. Passou esse tempo, e ela veio me procurar dizendo: “Eu te fiz alguma coisa, Maria Helena? Você não fala mais comigo…”. E aí eu disse: “Não foi você que pediu?”. Jogador acha ruim, mas gosta que você exija dele. O grande técnico, o grande líder, não é aquele que exige todos da mesma maneira. É aquele que consegue descobrir a forma singular de falar com pessoas completamente diferentes. Cada pessoa tem uma porta de entrada que você, como líder, deve descobrir. Tem jogador que se você gritar com ele, ele não joga. Tem outros que precisam desse fogo. Aí é o segredo. Sempre pedi a D’s para me dar a palavra certa, na hora certa. Para que eu pudesse falar e ter a resposta certa da pessoa. Isso sempre norteou muito a minha vida. Sempre fui honesta, e sabia que tinha Alguém olhando. Bala, sou uma pessoa de fé. Vou lhe dizer uma coisa. Sabe aquela bola de fim de jogo que cai? E aquela bola que não cai? Pode ter certeza que a bola que cai é daquela pessoa que treinou muito, mas muito mesmo. É a bola do mérito, é a bola do merecimento, é a bola da pessoa que lutou muito para fazer aquilo ali acontecer. Se você treina muito, se teu grupo é coeso, a bola vai cair. É a bola do merecimento que eu sempre falo. Não é detalhe. Acredito muito nisso em toda vida. Se você é honesto, trabalha direito, faz as coisas de forma correta, não tem como dar errado. Meu trabalho sempre foi norteado nisso. Eu errei? Sim, errei muito. Mas sempre tentando fazer as coisas corretamente.

CONTINUA…


Personagens do Basquete Brasileiro: Hélio Rubens Garcia
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Fábio Balassiano

helio6Casado com Maria Helena. Pai de Helinho, Ana Beatriz e a Ana Helena (casada com o Dedé, hoje em Rio Claro). Avô de Maitê, Luma e Benício, de 2 anos e que já arremessa em todos os lugares da casa. Hélio Rubens Garcia, 75 anos recém-completados em 2 de setembro, dispensa apresentações. Campeão como jogador do Franca Basquete e técnico por onde passou (Franca, Vasco da Gama e Uberlândia, além da seleção brasileira), ele é um dos “Personagens do Basquete Brasileiro”. Confira a entrevista completa com ele!

BNC: A gente hoje conhece as suas conquistas, mas queria voltar bem lá atrás. Como você chegou a uma quadra de basquete? Queria entender o começo, bem o início mesmo…
HÉLIO RUBENS: Sou nascido e criado em Franca. Tive o privilégio de, no Colégio Estado de São Paulo em que estudava, ter conhecido o Professor Pedroca. Ele era o Professor de Educação Física da minha escola. Pedroca foi indicado por um amigo dele e veio de São Paulo para ser professor em Franca. Era um visionário. Nas aulas de educação física ele fazia o que se faz nos Estados Unidos, por exemplo. Mostrava os princípios básicos de todos os esportes e depois perguntava pra molecada qual modalidade cada um gostaria de seguir. Ou seja: eram clubes desportivos dentro da escola. Isso se estendeu a Franca, e o campeonato colegial era incrivelmente forte. Nessa época, ali pelos anos 30, 40, em Franca já se jogava basquete. Meu pai, o Chico Cachoeira, fazia parte do time da cidade e perguntava a ele: “Papai, como você jogava se não tinha nem quadra?”. E ele me respondia: “Nós construímos uma quadra onde fica a agência do Banco do Brasil hoje. Todos do time ajudaram a construir. Levantávamos às 4h da manhã, pegávamos em pás, enxadas e tijolos para fazer com que nosso sonho desse certo”. A cidade de Franca respira basquete há quase um século, portanto. Ter jogado basquete foi quase que natural por aqui então.

helio7BNC: Como foi a sua passagem do colégio para o time de basquete da cidade?
HÉLIO RUBENS: Olha, quando nasci eu jogava futebol no time do meu bairro (o bairro da Saúde). Meu pai é que deu o nome do bairro, sabia? Comecei a jogar futebol na várzea, nos campeonatos amadores, essas coisas. Aí a Francana, time de futebol da cidade, um dia me puxou para jogar e fazer amistosos contra os times da capital que vinham para o interior fazer partidas. Jogava bem, marcava muito, cabeceava legal e tinha uma condição física anormal. Treinava, corria, pulava e nem água tomava. Meus colegas às vezes pediam para eu diminuir o ritmo, é mole? Jogava de volante, zagueiro, lateral, tudo. Joguei contra Flamengo, Corinthians e São Paulo. Isso eu tinha 18 anos, foi em 1959, por aí. O São Paulo queria me levar para o time, sabia? Teve um lance engraçado também. Neste mesmo ano fomos jogar contra o Atlético-MG e eu já tinha o convite do São Paulo. Um colega de time me chamou no canto e disse: “Você já tem uma proposta, vai jogar aí contra o Atlético. E se você se machucar? Pede uma garantia para o presidente”. Gostei da ideia e fui lá falar com o Seu Angelo, presidente da Francana. Angelo me disse que não podia me dar garantia de nada. Não só não me deu garantia como contratou um cara pra jogar no meu lugar com medo de eu não jogar bem com medo de me machucar. Ou seja: não tive garantia e não joguei contra o Atlético. Saí de lá chateado, chorava feito uma criança. Minha mãe me consolava e dizia: “Filho, não fica triste. Vai pro basquete, lá o ambiente é melhor”. Foi no ano que ela faleceu, mas o conselho valeu a pena e fui pro basquete.

helio2BNC: Então foi por causa de uma partida não jogada no futebol que você foi de vez para o basquete, é?
HÉLIO RUBENS: Olha, já jogava basquete, mas estava na dúvida para qual esporte ia derivar a minha carreira. Naquele ano, de 1959, decidi que iria para o basquete mesmo. Depois continuei jogando futebol amador, mas aí fui me dedicar mesmo ao basquete. Continuei com o Professor Pedroca e em pouco tempo comecei a ser convocado para a seleção brasileira. Em âmbito nacional, a história de Franca começou a ser escrita mesmo nesta época.

helio5BNC: Tá. Aí deixa eu dizer uma coisa pro senhor que me incomoda um pouco. Sei que sua humildade não lhe permite fazer, mas quando o senhor diz que a história de Franca foi escrita pelo Professor Pedroca não é verdade, não. O primeiro jogador de Franca a ser convocado pela seleção foi o senhor. No mínimo há uma dupla participação aí…
HÉLIO RUBENS: Ah, não. Eu era partícipe de uma engrenagem apenas. Naquela época não tinha campeonato estadual, nacional, essas coisas. Eram regionais no máximo. Fomos jogar um campeonato contra o XV de Piracicaba, São Carlos e São José. Só timaço. Wlamir, Rosa Branca, Edvar, só craque. E eu lembro que conversava com as pessoas na cidade dizendo que teríamos chances de ser campeões. E todo mundo duvidava. Isso em 1963. Wlamir era campeão mundial, veja só você. E na época o Pedroca já falava em “não deixa pensar”, “marca a linha do passe” e “pressione o oponente com a bola”, conceitos que se fazem modernos até hoje. Lembro que falei da minha confiança na conquista do título com o Sr. Juca, dono do cartório de Franca, que disse que eu estava maluco ao achar que poderíamos ganhar daqueles timaços. Se ganhasse ele me daria uma moto. Fomos jogar em São José dos Campos. Ganhamos e levei a moto.

helio2BNC: Foi nesta época que veio a sua primeira convocação, né?
HÉLIO RUBENS: Foi, foi sim. Em 1967. Só que naquela época você não imagina a dificuldade. Hoje a informação é fácil. Antes tínhamos campeonato do interior e da capital. E ninguém olhava para o interior. Na época eu tinha 26 anos de idade e a seleção brasileira passava por um processo de renovação depois dos títulos mundiais de 1959 e 1963. Qual era, portanto, a justificativa para me chamarem? Nenhuma, aparentemente. Mas a Confederação sabia que Franca estava começando um trabalho legal e ligou para o time. Perguntou quem era o melhor do time e disse que estaria convocado para o período de treinos com o Professor Kanela. Assim que fui convocado. Era mais um estímulo ao time da cidade mesmo. Fui pro período de treinos. E logo o Kanela, técnico, disse: “Aqui são 35 convocados. Tem gente jovem, campeões do mundo, mas comigo não interessa. Vão ficar os 12 melhores independente de qualquer coisa nestes dois meses de treinamento”. Ali me inflamei e comecei a marcar e treinar loucamente. Vinha campeão do mundo e eu parecia um carrapato. Não tinha nenhuma chance de pontuarem em cima de mim. No ataque fui influenciado no meu arremesso pelo Pecente, que jogava em Piracibaba. Só que por ser muito bom fisicamente arremessava com as duas mãos e lá do alto. Isso impressionou a todos da seleção, porque marcava bem e ainda arremessava de um jeito diferente.

helio1BNC: A lista foi diminuindo, as chances aumentando, mas você acreditava que ia ficar entre os 12?
HÉLIO RUBENS: Acreditava, acreditava sim. Eu percebia que aqueles conceitos que estava colocando em prática os outros não conheciam. Era algo que praticava no clube e os outros não acompanhavam. Levava vantagem, portanto. Marcava todo mundo. E eram craques do nosso basquete, hein. Quando éramos em 15 começamos a fazer amistosos. Fomos jogar no ginásio do Corinthians, em São Paulo, contra a Polônia, na época um timão. Fui o cestinha, fiz 20 pontos, e o Kanela me chamou de canto e disse: “Helinho, aquele cara ali é o melhor jogador do time deles. Você vai marcá-lo”. Só faltava colar no rival. O cara não pegava na bola. Foi assim que fiquei entre os 12.

helio1BNC: Assim, aos 26 anos, começava a sua história na seleção brasileira…
HÉLIO RUBENS: Isso mesmo. Aos 26 anos e fomos bronze no Mundial do Uruguai em 1967. Aos 29 já era não só parte integrante mas também capitão da seleção brasileira de basquete. Fomos prata no Mundial de 1970 na Iugoslávia. A geração bicampeã do mundo foi saindo de cena e entrando a minha com Marquinhos, Sérgio Macarrão, Adilson e ainda o Ubiratan. Em Belgrado, em 1970, fiquei na seleção ideal da competição. Coisa maravilhosa. Meu primeiro título foi em 1971 contra Cuba na final do Pan-Americano. Bati os dois lances-livres que deram o título ao Brasil naquela vitória de 63×62. Disputei quatro Mundiais, duas Olimpíadas, cinco Pan-americanos. Minha maior decepção pela seleção brasileira foi não ter jogado a Olimpíada de 1976 em Montreal. Perdemos no Pré-Olímpico acho que do México já em Montreal e não nos classificamos. Nós pegamos o vôo para retornar ao Brasil e no aeroporto a gente via as delegações chegando para os Jogos Olímpicos. Foi uma baita decepção para mim. Dois anos depois, porém, estava no time que ganhou o bronze no Mundial das Filipinas em 1978 naquela cesta do Marcel do meio da rua. Me orgulho muito da minha carreira como atleta e de ter sido escolhido entre os 1.000 maiores atletas do século passado. Sem a orientação adequada, porém, não teria conseguido nada.

pedrocao1BNC: E como foi ter vivido de basquete em um momento do esporte praticamente amador?
HÉLIO RUBENS: Praticamente, não. Hoje é tudo profissional, organizado. Mas quando joguei eu ganhava é nada. Ganhei salário depois como técnico, professor de educação física e representante de produtos químicos. Dava aula em Batatais (interior de São Paulo), Uberlândia e voltava para treinar no fim do dia. Outros tempos, sem dúvida alguma. Hoje é dedicação total, exclusiva ao esporte. Gosto sempre de citar uma frase de Jesus Cristo: “O que eu faço qualquer um pode fazer – e muito mais”. O que isso quer dizer? Nós, seres humanos, é que nos limitamos, mas somos ilimitados. É preciso querer sempre mais, buscar sempre evoluir. Seja no esporte como atleta ou técnico, seja em outro ramo de atuação.

pedrocaBNC: E como foi conviver com o Pedroca por tanto tempo?
HÉLIO RUBENS: Pedroca ofereceu um legado ao basquete brasileiro por ter apresentado conceitos do que seria o jogo muito tempo antes daquelas tendências de fato se realizarem. Marcávamos pressionando a saída de bola muito antes de essa tendência chegar aqui. Como treinávamos muito, tínhamos preparo físico invejável e tudo muito sincronizado. Saía cesta, pressionávamos a saída de bola do adversário na quadra toda. Era bonito de ver. E assim fomos ganhando jogos e títulos importantes para a cidade de Franca.

BNC: Uma dúvida: como o Pedroca, sendo um professor de educação física, teve tanta antevisão de fatos do jogo que são atuais até hoje? De onde veio isso?
HÉLIO RUBENS: Eu não sei te explicar, não. Só sei que ele era um visionário. Aqui ele além de um grande técnico era uma figura muito querida. Ele comprou uma Kombi para levar o time todo para os jogos. Do dinheiro dele. Não ganhava dinheiro algum, é mole? Era amor, vontade de fazer mesmo. Cada um do time tinha sua profissão. Eu mesmo. Me sacrifiquei loucamente para me manter jogando. Saía de madrugada para dar aula em Uberlândia, dava aula até 11h e depois voltava para treinar à tarde aqui em Franca. A cidade foi se contagiando, outros colégios foram gostando da ideia. Mas é difícil fazer basquete. Não é fácil, não. A experiência me mostra que de 200 jogadores das categorias de base você tira apenas um de alto nível. Não é fácil, não. Franca, por exemplo, com toda essa tradição não tem 30 de alto nível – top, top mesmo. Ao mesmo tempo, aqui em Franca temos promotores, juízes, médicos e outros profissionais de alto nível que falam da importância do basquete em suas formações. Essa foi a importância do Professor Pedroca na cidade. Foi além do basquete.

helio2BNC: De cinco, dez anos pra cá qual a grande diferença do jogo, na sua opinião?
HÉLIO RUBENS: A velocidade está revolucionando tudo. Tudo está sendo feito cada vez mais rápido e com a mesma eficiência. Os aspectos psicológicos também (união, superação, amizade etc.) também influenciam muito na construção das grandes equipes. Mais do que isso, consigo ver que as grandes nações usam o esporte como método transformador, algo que sempre falei como sendo fundamental para o nosso país. Sempre disse que a partir do momento que o governo brasileiro decretasse obrigatória a prática de esportes nas escolas a gente naturalmente seria uma potência esportiva mundial em todas as modalidades. Todas. Não tenho a menor dúvida disso. É o que acontece com os Estados Unidos, né? Não conheço um pai de família norte-americano que não tenha praticado esporte. É o aspecto educacional, formativo do esporte. O mundo está mostrando isso. O Brasil, porém, ainda está engatinhando nisso. Quando fizemos esporte nas escolas viraremos uma potência em todos os aspectos.

helio11BNC: Como foi a transição para ser técnico? Imagino que algo totalmente natural…
HÉLIO RUBENS: Foi, foi sim. Em 1979, já com quase 40 anos, o Pedroca começou a ter problemas de saúde. E me disse para assumir o time. Ainda argumentei que estava jogando bem e que seria precoce, mas não teve muito jeito. Com 39 anos eu fui o melhor jogador da Taça Brasil, é mole? Fui técnico e jogador por um ano e meio. Ali com 43 anos é que fui virar técnico, técnico mesmo. Em Franca.

BNC: Vou contar uma coisa ao senhor. Lembro que quando comecei a gostar e ver basquete um conhecido meu me disse: “Você quer aprender basquete, né? Então vamos ver os treinos do Vasco porque aquilo ali é basquete”. E eu ia ver os treinos do senhor no Vasco e ficava maravilhado. Ficava ali em São Januário meio escondido, só olhando, anotando, observando…
HÉLIO RUBENS: Eu aprendi com o Pedroca e meu pai que o respeito, a disciplina e a convivência em grupo faziam o grupo evoluir. Falava com meus atletas que o lema tinha que ser: “A cobrança é meu maior elogio”. E falava isso com aquele time do Vasco, que era muito bom. Eu elogiava, mas cobrava muito. A repetição é a mãe da perfeição. Repetíamos, repetíamos, repetíamos até acertar. Aquele time era muito bom e bolava algumas coisas diferentes. Foram várias e várias atividades que se assemelhavam ao dia a dia de jogo. Os caras treinavam como se fosse jogo. E assim evoluíam quase que naturalmente. Aquele time do Vasco tinha muita amizade fora da quadra também. Foi um período lindo da minha vida.

hr1BNC: Você fala muito em educação, respeito, disciplina, e seu trabalho é o de um professor mesmo, de ensinar, passar. Vencer acaba sendo consequência disso tudo, né?
HÉLIO RUBENS: A coisa que mais me orgulha na minha carreira como técnico é que 99% dos jogadores no final da temporada chegam para mim agradecendo e dizem que terminaram o campeonato melhor do que começaram. Isso me enche de alegria. Todo técnico na verdade é um grande educador, alguém que quer fazer com que seu atleta evolua, melhore, seja um pouco mais forte a cada dia. O esporte nos mostra conceitos de vida. Este é o maior prêmio que eu tenho na minha carreira. Este reconhecimento.

helio20BNC: Tem uma passagem engraçada que é logo no começo da sua carreira de técnico ter treinado, na seleção brasileira, muitos dos atletas que o senhor conviveu como jogador. Como foi isso?
HÉLIO RUBENS: Não foi fácil, porque Oscar e Marcel, por exemplo, tinham conceitos de jogo muito diferentes daquilo que eu aprendi em toda minha vida com o Pedroca. Fomos bem no Mundial de 1990, com o quinto lugar, mas lamentavelmente na minha segunda passagem, ali no Mundial de 2002, eu não me dei bem com o presidente da Confederação Brasileira, o Grego, e saí. Pouca gente lembra, mas naquele Mundial de 2002 em Indianápolis eu levei 7 jogadores com menos de 20 anos. Ficamos entre os oito primeiros, todo mundo falava que éramos o time do futuro, mas percebi que o Grego não estava muito satisfeito. Só não falava pra mim, mas aquilo ia chegando. Aí falei: “Sabe de uma coisa? Eu não ganho nada com isso, faço por amor e só me machuca. Vou cair fora”. E pedi para sair. Avisei ao Lula e ao Flávio, que eram assistentes. Fiz o relatório direitinho e pedi para sair. Foi minha última passagem pela seleção brasileira. Eles (Lula e Flávio Davis) disseram que sairiam se eu pedisse para sair. Eles continuaram, mas me dou bem com todos eles (risos).

helio15BNC: Nessa época, de 2002, o senhor renovou a seleção. Todo mundo falava que era um time para o futuro, e está aí até hoje. O senhor se arrepende de ter pedido demissão da seleção naquela época?
HÉLIO RUBENS: Não, não me arrependo. Todos os jogadores me encontram e dizem que não estariam onde estão hoje se não fosse aquele Mundial na seleção brasileira. Mas eu briguei com quem mandava no basquete e não tinha como ficar mesmo. Paciência. Lamentei muito, mas era um funcionário. Tiago Splitter, hoje campeão da NBA, tinha 17 anos e eu coloquei como titular. Titular de seleção brasileira em um Mundial. Muita gente saiu daquele Mundial para ir depois para a NBA.

bra2BNC: Como o senhor olha a seleção brasileira hoje, o que o senhor sente?
HÉLIO RUBENS: Acho que o Magnano faz um bom trabalho (Nota do Editor: A entrevista foi feita em Fevereiro/2015). Fiquei frustrado na Copa do Mundo da Espanha porque achei que o time poderia ter ido melhor. Aprendi na minha vida a importância do controle emocional. Todos nós podemos ter descarga emocional. Por causa de coisas boas e coisas ruins. Foi o que aconteceu, na minha opinião, depois do Brasil ter vencido da Argentina nas oitavas-de-final. O time chegou para jogar contra a Sérvia nas quartas-de-final, um jogo que levaria para a medalha, afetado mentalmente. Tinha ganho do mesmo time dando uma lavada na primeira fase. O que aconteceu para ter perdido daquele jeito uma semana depois? Eram os mesmos times, né? Descarga emocional. Não tinha outra explicação. Este tipo de coisa, de controlar o jogador, eu não sei se os técnicos de hoje em dia têm. E isso faz a diferença na hora de ir para uma medalha, ir para uma fase mais aguada da competição.

helinhoBNC: Você acha que seu filho, o Helinho, sofreu muito por ser seu filho?
HÉLIO RUBENS: Sim, sofreu muito. Muita gente colocava em dúvida o que ele fazia em quadra por achar que ele era meu filho. Nunca teve nada disso, e ele acabou lidando com tudo isso de maneira muito mais tranquila que eu até. Sem medo de errar eu posso dizer que tenho um orgulho danado de ter tido um atleta como ele ao meu lado. Independente da paternidade, hein. O Helinho sempre foi muito disciplinado, correto e dedicado. Não tenho dúvida alguma que na sua carreira depois de parar de jogar ele também terá sucesso.

heliovascoBNC: Em Franca foi de 1980 até 1998, quando você foi para o Vasco. Como foi este convite do Vasco?
HÉLIO RUBENS: Ah, essa foi muito engraçada. Em 1998 tínhamos ganho de um timaço do Vasco na final do Nacional. Aí o Vasco veio, não teve dúvida e levou Helinho, Rogério e o Vargas, os três principais jogadores que eu tinha. Havíamos ganho o Nacional dentro do Maracanazinho e os caras tiraram os três melhores jogadores de Franca. Perdemos os três jogadores e logo em seguida teve a Copa das Américas da Venezuela. Adivinha: Vasco x Franca na final. E ganhamos do Vasco, mesmo com Rogério, Helinho e Vargas do lado deles. Isso foi em outubro de 1998. O pessoal do Vasco ficou doido da vida. Uma vez fui visitar o Helinho lá no Rio de Janeiro e ele disse: “Papai, o Eurico Miranda quer conversar com o senhor”. Fomos jantar, estava sentado e do meu lado estava meu irmão, o Fransergio. Fransergio que dizia pra mim: “Eurico levou o time todo, perdeu e agora quer levar o técnico”. Na época o Vasco tinha muito dinheiro do Bank of America e o Eurico me fez uma proposta muito forte. Além de ser técnico eu seria Coordenador dos Esportes Olímpicos do clube. Na época os salários de técnicos no Brasil eram baixos, muito diferente do que é hoje. Eles me fizeram uma proposta mais alta do que eu recebia em Franca, mas meu irmão logo se meteu e disse: “O Hélio pra vir ele não pode ganhar menos do que qualquer jogador do time”. E ele sabia que os jogadores do Vasco ganhavam muito bem. Nessa hora minha perna começou a tremer, porque os valores já estavam muito altos na mesa (risos). E aí o Fransergio deu uma tacada certeira: “Por menos que XXX ele não pode vir pra cá e nem tem conversa”. O valor era absurdo de bom, e eu achei que não ia mais acontecer. Saímos, fomos embora e uma semana depois o Fernando Lima, Diretor do Clube, ligou para dizer que não podia chegar ao valor que meu irmão falou, só a 60% dele. E aí eu falei: “Fernando, eu tinha pensado em um pouco mais. Abre a mão em um pouco, eu também e vamos fechar”. E aí começou minha história no Vasco. Na época eu nunca tinha ganho tanta grana. Maria Helena não acreditava. Fomos morar de frente pro mar na Barra da Tijuca, uma coisa maravilhosa.

vasco2BNC: No Vasco você era tudo então…
HÉLIO RUBENS: Acordava 4h30 da manhã para ter reunião na Sede Náutica com os remadores. Não tinha descanso. No futebol eu também me metia porque tinha liberdade do Eurico para isso. Lopes, Joel Santana, Evaristo de Macedo. Oswaldo de Oliveira, todos eles eu tive boa interface. Tinha vezes que chegava no futebol e via aquele treino mole de dois toques, aquela coisa. Ficava louco. E chamava o técnico para perguntar: “Isso aí vai acontecer no jogo? Eu duvido. Se não vai, melhor não treinar”. E eles mudavam o treino. Cheguei a dar treino de cruzamento de lateral para atacante, é mole? Teve uma vez que o Marcelinho Carioca mesmo veio me agradecer e disse: “Depois do que o senhor fez aqui técnico nenhum precisa abrir a boca”. Romário adorava porque os laterais davam bola pra ele passando cada vez melhor. Passou a me levar pra churrascaria, me fazia festa. Ele era um virtuoso e treinava muita finalização. Não errava uma.

vascoBNC: Além da coordenação na quadra ganhou tudo…
HÉLIO RUBENS: Muitos torcedores do Vasco me encontram e até hoje dizem que sentem um orgulho danado daquela equipe. Ganhamos realmente tudo – e ganhávamos bastante do Flamengo também. Cheguei lá em 2000 e precisei implantar um regime de disciplina pesado. Rio de Janeiro, você sabe bem como é aquilo lá. De onde todo mundo morava o ginásio onde a gente treinava era longe. Logo no primeiro dia o Vargas e outros dois chegaram atrasado. E como se nada tivesse acontecido. Aquilo ali me subiu. Primeiro dia. Já reuni o grupo e falei: “Olha, nosso trabalho aqui é de dedicação e disciplina. O primeiro item da disciplina é o cumprimento de horário. Por qualquer motivo, se achar que não vai dar pra chegar é só dar meia volta porque não vai treinar. Dois minutos, cinco minutos, não interessa. Não vai treinar”. Nunca mais ninguém chegou atrasado. Os caras perceberam como iria ser. A gente discutia, discutia muito. Lembro que uma vez com o Charles Byrd a gente discutiu que eu achei que a gente ia sair na mão. A intenção, porém, era a melhor possível – evoluir e vencer. Tratava cada um ali de maneira distinta, conhecendo as raízes de cada um. Todos eles me têm como família até hoje. O problema do Vasco foi financeiro. Ali em 2003 quase não tinha mais time. Mas fiquei até o final. Até hoje o Vasco me deve dinheiro e fui um dos únicos a não ter entrado na Justiça, sabia?

nene1BNC: Neste período do Vasco teve o Nenê, né?
HÉLIO RUBENS: Olha, foi um menino que chegou e foi tratado igualzinho aos outros. Só que no meio disso tudo teve a NBA chegando. Foi engraçado que um dia no treino vieram os caras da NBA para tirar as medidas dele. Só na medida da mão os caras falaram: “Não vamos ver ele treinar, não. Com essa mão aí já está no Draft”. Aí ele saiu antes de terminar a temporada. Faltavam dois meses. Não tinha como dizer não. Sonho da vida dele. Até hoje mantemos contato. Uma vez ele veio a Franca, chegou em um carro blindado do nada. Fomos jantar e ele muito simpático. Temos uma relação excelente e gosto muito dele. Como os outros atletas, é um filho para mim também.

helioBNC: Depois do Vasco o senhor foi para Uberlândia, onde também ganhou absolutamente tudo. Campeão nacional em 2004, Sul-Americano, Mineiro. E com outro dirigente polêmico também, o Wellington Salgado…
HÉLIO RUBENS: Polêmico, polêmico. Fomos recebidos pelo Aécio Neves, então governador do Estado, e ele disse para o Wellington na frente de todo mundo: “Este time ganhou tudo o que o Estado de Minas nunca tinha ganho. Olha lá, não dispensa este moço (apontando para mim) de jeito nenhum”. Foi um período muito legal. Uma cidade que tenho muito carinho. Foi lá que comecei a dar aula lá atrás, 30, 40 anos antes. Quando saí de Uberlândia a cidade clamava minha volta.

BNC: Tem uma coisa que chama a atenção também é que, tal qual acontece no basquete universitário americano, o senhor criou muitos pupilos. Hoje em dia temos Demétrius, Chuí, Guerrinha mesmo. Quando o senhor olha essa galera que o senhor formou seguindo seus passos qual é a sensação?
HÉLIO RUBENS: Isso me gratifica, porque mostra que eu deixei boas sementes. Criei um clima bom e eles corresponderam. Mérito todo deles. Todinho mesmo. Não fiz nada mais que minha obrigação. Eu sentia que precisava transmitir conhecimento para os outros.

dexterBNC: Teve algum jogador que te marcou? O Dexter, por exemplo?
HÉLIO RUBENS: Ele é um. Marcou muito, sim. O Dexter chegou a Franca e deixou todo mundo maluco – para o bem e para o mal. Fazia 25, 30 pontos por jogo com facilidade. Antes das partidas, no aquecimento, me falava: “Aquele ali que vai me marcar?”. Quando dizia que sim, ele logo respondia: “Fique tranquilo, então. Já ganhamos o jogo”. E ganhávamos fácil mesmo. Ele era fogo. Controlá-lo fora da quadra é que não era fácil. Outro gringo fantástico que tivemos foi o Tato Lopez, do Uruguai. Ganhamos tudo com ele. Jogador esplêndido, coração enorme, uma raça impressionante. Nervoso pra caramba, mas me dizia: “Você trabalha. Por isso que eu te respeito”. Os que conviveram mais tempo comigo cultivamos um amor de pai para filho e ficam muito também – Rogério, Demétrius, Helinho, todos eles.


Personagens do Basquete Brasileiro – Shamell
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Fábio Balassiano

Shamell1Com 27 pontos, Shamell Jermaine Stallworth chamou a responsabilidade e foi o cestinha e principal jogador de Mogi na vitória contra Bauru na primeira partida da semifinal de domingo (o jogo 2 será hoje também em Bauru). Com um basquete plástico, este norte-americano nascido em Alabama há 34 anos está no Brasil faz uma década e se tornou um dos melhores e mais carismáticos jogadores do país.

Com passagens por Araraquara, Limeira, Paulistano, Pinheiros e Mogi, time que defende desde o começo da temporada 2014/2015, o pai de Shamell Jr. e Jordan (de 7 anos) conta a sua história de vida, admite não ter frustração por não ter jogador na NBA e muito mais. Confira o papo com um dos mais interessantes “Personagens do Basquete Brasileiro”.

shamell4BALA NA CESTA: Antes de falar sobre basquete em si, vamos a pergunta mais básica: de onde você veio, como você começou, essas coisas?
SHAMELL: Nasci em Alabama em 1980, e quando eu tinha um ano fui morar em São Francisco, Califórnia, com meu tio. Aí éramos eu, minha mãe, meus irmãos e meu tio. Quando tinha sete, oito anos, nos mudamos para Fresno, também na Califórnia, onde morei até os 18 anos. Lá foi onde eu cresci. Comecei a jogar basquete com 15 anos, um pouco tarde. Meus esportes preferidos eram futebol americano, atletismo e baseball. Aí um dia estava brincando na aula de educação física e um técnico me chamou para treinar basquete. Só que fiquei jogando todos os esportes. Só no terceiro ano do colégio é que decidi ficar apenas no basquete. Cheguei a fazer um acordo verbal para jogar na Universidade de Villanova, que era da Big East, uma conferência mais forte. Mas aí minha mãe quase morreu e decidi ficar mais perto de casa, jogando na Universidade de San Francisco de 1999 a 2003. Joguei bem, cheguei a tentar jogar na NBA, fiz até uns três ou quatro testes (New Jersey, Golden State, Sacramento…), mas não rolou. Na época eu era magrinho. Era bom de bola, mas era muito magro pra jogar na NBA. Até que gostaram de mim, mas havia outros caras mais prontos. Meu Draft era o de 2002, aquele em que o Jay Williams, de Duke, foi o número um. Acabou não dando certo, quebrei o meu pé duas vezes e decidi voltar para a faculdade para me formar.

BNC: E aí você começou a sua carreira profissional?
SHAMELL: Me formei, falei para minha mãe que ia começar a trabalhar, mas nem pensei que iria jogar basquete profissionalmente. Aí houve uma coisa engraçada. Criaram uma excursão de jogadores jovens para viajar pela Europa para fazer amistosos. O objetivo era que os clubes vissem a gente. Aí conheci o Luiz Martin, um agente. Voltei para os Estados Unidos, e ele me ligou: “Olha, consegui um emprego para você no Brasil”. Foi assim que começou minha carreira no Brasil.

montana2BNC: Antes de chegarmos aqui ao Brasil, deixa eu tirar uma dúvida: quem eram seus principais ídolos no esporte quando você era criança e adolescente?
SHAMELL: Não tinha tantos no basquete porque meu negócio na época era futebol americano. Gostava do Joe Montana (foto à direita), lendário jogador do San Francisco. Quando comecei a jogar basquete é que passei a admirar mais os caras do esporte. Gostava do Hakeem Olajuwon, que era muito magro e com muita rapidez nos movimentos. Adorava o Charles Barkley, que apesar de baixo era muito duro jogando. Estes eram os caras que passei a admirar quando jogava de pivô, de ala, perto da cesta. Mas quando vi que não estava crescendo tive que mudar meu jogo. E passar a ver outros caras. Comecei a admirar demais o Ray Allen, Allan Houston, todos esses caras que tinham arremesso de fora. Gostava do Michael Jordan, claro. Não gostava do time do Chicago, mas gostava da determinação e da liderança dele. Passou o tempo e gosto do Kobe Bryant. Quase igual ao Jordan, né? Vi aqueles vídeos editados dos movimentos, todo mundo comentou, mas eu não tinha dúvida alguma que eram parecidos. Se você quer ser o melhor, que se espelhe no melhor. Foi isso o que o Kobe fez.

shamell3BNC: Você cresceu vendo estes caras, é dos Estados Unidos e lá é a terra da NBA. Bate alguma frustração por nunca ter jogado uma partida na melhor liga do mundo?
SHAMELL: Não bate. Na época em que me formei eu não era um jogador muito bom. Isso está muito claro na minha cabeça. Era um jogador comum. E na NBA você não pode ser um jogador comum. Pra jogar lá você tem que ser diferente. Na época, quando estava na faculdade, eu vejo que tinha muito mais jogadores de qualidade em relação a hoje. Você consegue listar 40 jogadores de altíssimo nível nos times. Hoje em dia tem muito de marketing, relacionamento, conhecimento. É diferente. Muita coisa mudou. Quando estava na faculdade tinha o Carlos Boozer, Jay Williams, Caron Butler, Lamar Odom, caras que realmente jogavam muito basquete. Nestes quatro anos de faculdade tinham muitos atletas excelentes, e não três ou quatro. Acredito que as coisas acontecem quando e onde devem acontecer.

caboclo1BNC: Falando em NBA, você treinou e jogou com o Bruno Caboclo (foto à direita) no Pinheiros. É muito difícil a adaptação que ele está passando em Toronto?
SHAMELL: É um mundo muito diferente. Tudo muito diferente. Os caras não vão ficar lá passando a mão na cabeça toda hora. Os times querem que você ganhe maturidade rápido. É difícil, porque tem muito dinheiro envolvido, isso mexe com a cabeça, mas o principal é essa molecada que vai para a NBA entender que essa é uma oportunidade única e muito grande de mudar a vida, mudar de patamar profissional. E é uma porta que se abre para o Brasil, para os jogadores jovens do Brasil. Lá não tem babá. Não vão ficar com alguém dizendo o que pode ou não fazer. Cada um que cuide de si e que se garanta em quadra. Olhe a história dos caras que estão lá há muito tempo. Leandrinho, Varejão, Tiago Splitter, Nenê. Ralaram muito, ainda ralam, precisam provar a cada dia que podem estar ali. E são reconhecidos por isso. Essa galera não representa só a si mesmo, mas o país de onde eles saíram. Não sei se essa molecada nova tem essa perspectiva na cabeça. Você vai lá, faz qualquer coisa errada, reflete no Brasil e algumas portas vão se fechar. Qualquer coisa que você faz reflete na imagem que os gerentes-gerais da NBA vão pensar do país. O foco tem que estar no basquete, na evolução, na chance que foi aberta.

tomBNC: Aí você sai dos Estados Unidos e vem pro Brasil. Choque cultural logo de cara?
SHAMELL: Sim, fui para o Uniara/Araraquara, em 2004. Faz mais de 10 anos já. Muito diferente, muito diferente. Cultura, língua, calor, como se joga aqui. Era bem difícil. Eu não falava a língua e tinham muitos jogadores da minha posição. O Tom Zé (foto à esquerda) foi meu primeiro técnico. Tinha, naquele elenco, eu, Dedé, Gilson de Jesus, Thulius, Thiagão, Pipoka, Luis Fernando. Eram bons jogadores. Foi difícil, mas serviu para eu aprender. Você chega em um time, ninguém te conhece, não fala a língua. Tem que aprender na marra.

shamell6BNC: Teve alguém que te ajudou muito neste primeiro momento?
SHAMELL: Quem me ajudou muito foi minha primeira esposa, a mãe dos meus filhos. A Lucilene me auxiliou muito. Me explicando, me entendendo, fazendo de tudo para eu deixar as coisas melhores na quadra. Ela falava: “Você precisa dar ‘Bom dia’ às pessoas. Não pode só chegar na quadra e jogar. Precisa se enturmar, entender o ambiente, falar com todo mundo. Foi importante para eu entender como funcionava não o esporte, mas o povo. Com elas tive meus dois filhos, Shamell Jr. e Jordan Jermaine, de 7 anos.

shamellBNC: Aí você sai do Araraquara e vai jogar no Paulistano. Sai do interior e vai jogar em uma cidade grande, algo completamente diferente…
SHAMELL: Sim, sem dúvida tem isso. Mas como havia morado em São Francisco minha adaptação a cidade grande não foi difícil, não. No interior é mais difícil. Chegando no Paulistano meu foco era só basquete, porque de cultura e de língua já estava melhor. Tive o José Neto como técnico no primeiro ano e só tinha que me preocupar com basquete. Mas ele não me quis no time, sabia? Foi o Claudio Mortari, então supervisor do clube, que me manteve lá no time dizendo que a equipe precisava de um ala para pontuar. Os caras não me queriam, e ele me segurou. Depois o Neto se acostumou comigo, fiquei três anos no Paulistano (de 2004 a 2007). Saí do clube, joguei um ano na Croácia e meu técnico era o irmão do Drazen Petrovic. Vimos muitos jogos do Drazen, falávamos bastante dele e foi uma experiência muito bacana. Passei na China em 2008 e aí sim voltei ao Brasil de vez.

sha1BNC: Você jogou em Limeira no primeiro NBB (2008/2009), foi campeão Paulista, mas logo depois o time acabou, né? E aí você foi para o Pinheiros, onde ficou de 2009 a 2014, é isso?
SHAMELL: Quando saí de Limeira já estava com 27, 28 anos, maduro e já entendia bem como funcionavam as coisas aqui. Tentei deixar a minha marca no basquete do Pinheiros, ganhar cada vez mais e deixar meu nome marcado no basquete daqui. Foi um período lindo da minha vida, onde ganhamos uma Liga das Américas em 2013, um Paulista em 2012 e uma série de outras finais, algo inédito na história do clube.

BNC: Você falou que não tem frustração por não ter jogado na NBA, mas e a sua naturalização que não sai nunca? Bate frustração com isso? Você é mais brasileiro que muita gente aqui no país…
SHAMELL: Essa é uma questão que é difícil de falar e não quero mais pensar nisso. Deixo nas mãos de advogados e vamos ver se caminha como gostaria. Entreguei documentações para advogados de Mogi e só me resta aguardar. Não há muito o que eu possa fazer em relação a isso.

oscarBNC: Você já está há uma década no país. Já conseguiu entender o basquete brasileiro como um todo? Mudou muito com a criação do NBB, né?
SHAMELL: Dá pra dividir entre dentro e fora de quadra. No jogo, o aspecto defensivo tem melhorado bastante. Cada vez mais os times marcam melhor, exigem mais dos atletas neste sentido. Esta é uma diferença que consigo detectar em relação a quando cheguei. Fora de quadra, é possível ver que com o NBB houve mais organização, mais times com bom investimento, mais projetos fortes no basquete daqui. É só ver a tabela e verificar que a tabela está cada vez mais embolada, cada vez com mais times brigando forte pelo título. Isso é bom e mostra a força do basquete do Brasil. Não só pelo que vemos no NBB, mas principalmente pelo que a gente tem feito na Liga das Américas e Liga Sul-Americana. Antes era uma ou duas equipes e já está bom. Agora são vários times nestas competições e quase sempre ganhando. Isso mostra a força não de um clube ou outro, mas do campeonato, do todo. A cada ano melhora. Antes era muita briga de dirigentes, lembra? Era a Liga do Oscar Schmidt, era outra liga da CBB. Brigavam muito, discutiam por tudo. E nós, atletas, no meio. Agora com a chegada da NBA vai melhorar ainda mais, pode esperar. Meu único medo é que os caras que hoje tocam a Liga Nacional tão bem larguem de mão. Mas acho que isso não vai acontecer. Espero que não fique apenas na mão de uma pessoa, mas do coletivo. Temos que trazer mais patrocinadores, quem sabe passar partidas em canal aberto, essas coisas.

shamellBNC: A próxima geração vai aproveitar mais dessa, digamos, plantação que tem sido feita pelo NBB? Você acredita nisso?
SHAMELL: Olha, vou falar a verdade para você. Quem vai ser a estrela do NBB em três, quatro anos? Olha como estamos agora. Temos Alex, eu, Giovannoni, Marcelinho Machado, Marquinhos, Nezinho. Todos jogadores de 30 e poucos anos. Não falo de estrangeiro, porque isso dá para contratar, mas quem serão os brasileiros ótimos que vão levar o nome da liga? Temos poucos hoje. Aqui no Brasil não tem ala, ala da posição 3. Agora vocês falam do Caboclo, que já está na NBA, mas, peraí, só tem um cara nesta posição? Olha o tamanho do país, olha quanta gente pode jogar basquete. E só tem um? É pouco. Aqui no Brasil tem muitos pivôs, mas faltam alas e até armadores. Hoje jogador só pensa em ir embora muito cedo. E aí daqui a três, quatro anos a gente aqui vai ter problemas. Franca tem um ala muito bom, o Leo Meindl, talentoso pra caramba, mas é pouco. Temos o Ricardo Fischer. Quem mais? Isso que tenho medo. Fui ver a Liga de Desenvolvimento em Mogi. Muitos meninos bons, mas quantos deles irão jogar o NBB? Quem vai conseguir entrar e já ajudar um time de NBB? Poucos.

shamell1BNC: E estes meninos que você viu na LDB saem com muitos problemas de fundamento?
SHAMELL: Você sabe, técnico no adulto às vezes precisa ter paciência de explicar tudo a uma pessoa de 23 anos. É difícil. Este jovem já deveria chegar ao adulto mais pronto. Falei com algumas equipes na LDB que eles deveriam aproveitar a oportunidade. Quando saí do Paulistano, e isso não faz 10 anos, são poucos os que ainda jogam. Não que jogam bem ou mal, mas que ainda estão atuando profissionalmente. Eu penso: “Como isso acontece?”. Treino com eles lá em Mogi e tento passar várias informações. Não sei exatamente. Aqui no Brasil tem muito jogador grande, alto, forte. É realmente incrível o material humano que há por aqui. Faltam fundamentos, treinamento, apenas. Olha o que a França está fazendo? De uma hora pra outra saem jogadores igual a água. Hoje tem aos momentos aí, mas eles começaram não tem muito tempo. Brasil tem uma mistura muito boa. Falta um pouco mais de leitura.

mortari1BNC: Você fala de técnicos. Quem foram os que mais te marcaram?
SHAMELL: Claudio Mortari (foto à direita) sem dúvida alguma é o principal deles. Fiquei com ele dez anos. Desde o Paulistano e depois no Pinheiros. Foi o técnico dos melhores jogadores do Brasil. Independente da parte tática dele, no que ele é muito bom e pouca gente fala é na parte de te colocar nas melhores condições de jogo. Muitas vezes ele fazia de tudo para nos colocar em ótimas posições de arremesso, por exemplo. Como eu poderia refutar o que um técnico campeão mundial me dizia? Não podia. Ele treinou o Oscar Schmidt, a seleção, ganhou tudo. Isso traz credibilidade ao que ele falava também. Aprendi muito com ele fora de quadra também, com o Claudio me passando muito da cultura de basquete do Brasil e a história do esporte aqui. Além dele, no Pinheiros eu conheci o (João Fernando) Rossi, diretor do clube que sempre me ajudou. Eram conselhos em todas as áreas da minha vida. Conselhos de irmão, pai, amigo. Algo totalmente diferente de como havia sido tratado por um dirigente. Ele é um cara especial. E, como técnico, cito o Neto também. Foi um começo difícil no Paulistano, mas depois nos entendemos bem e ele me acrescentou muito profissional e pessoalmente. De tática e de técnica dá pra ver que ele sabe muito. E ele sempre foi muito dedicado, diferenciado. Lembro que no Paulistano ele passava vídeo, e o time queria dormir. O time não entendia o que ele estava querendo fazer. Isso, aliás, é uma cultura que já mudou bastante de um tempo pra cá. A preparação para um jogo já melhorou demais.

shamell1BNC: Lembro que depois do Mundial de 2013 contra o Olympiacos você disse que tinha tomado uma grande lição. De basquete coletivo, de fundamentos, de tudo. Acha que ainda falta evoluir muito nessa parte tática que já vemos com mais força no basquete europeu?
SHAMELL: Acho que independente da parte tática o que ficou mais claro pra mim é que a qualidade do time europeu não cai quando um ou outro jogador sai de quadra. Você pôde ver isso lá em Barueri quando perdemos (Pinheiros) deles. Eles tinham 10, 11 jogadores do mesmo nível. Aqui, é bem menos. E a intensidade cai. É natural. Olha o Flamengo atual, por exemplo. São oito, nove jogadores bons em um elenco excelente. O time do Olympiacos tinha 12 jogadores do mesmo nível. São oito, nove minutos de porrada, de intensidade alta. Tem que jogar no alto nível o tempo todo. Cansou? Troca. E a qualidade é a mesma. Isso o Paco Garcia, aqui em Mogi, tem tentado trazer. É difícil, é uma mudança de cultura, mas o Paco tem tentado instaurar isso conosco e tem dado resultado. Se é pra estar em quadra, é para dar o máximo. Não é fácil, porque às vezes há um jogador de 30, 32 anos que joga igual há anos. Eu mesmo mudei bastante com o Paco. Estava jogando no Pinheiros de um jeito havia muito tempo. Com ele é diferente, muito diferente. Mas eu tive humildade para aprender, reconhecer que aquilo que ele nos passava era importante para irmos adiante. Uma coisa que ele fala muito é para não usar a individualidade desde o começo da jogada. Ele fala para trocar passe, achar um bom companheiro livre. Se não deu, faltando oito, sete segundos você usa o seu talento a favor do time – e não de si mesmo. É uma filosofia maravilhosa e que tem dado certo no mundo todo.

shamell2BNC: Pra fechar, quem é o Shamell fora de quadra?
SHAMELL: Adoro ficar em casa…

BNC: Peraí, cara. Aham, não gosta da noite, não gosta de samba…
SHAMELL: (Risos) É que quando você fica mais velho a recuperação é mais difícil. Antes dava pra sair. Agora se sair são três, quatro dias para recuperar totalmente. A idade pesa (risos). Mas adoro estar com meus filhos. Agora que eles estão crescendo já entendem um pouco mais e pedem para eu treiná-los. Não sei se você sabe, mas eu jogo Golf também. Gosto muito. E é um esporte muito difícil, que requer muita concentração. Em Mogi tem um campo bacana, onde inclusive ficou a seleção da Bélgica na Copa do Mundo de 2014. Da comida, amo feijão. Como todo dia. E churrascaria uma vez por semana. Não dispenso uma picanha. Amo bife a milanesa também. Antes ia a restaurante, mas agora faço em casa. Aqui há muito tempo, adoro samba e pagode. Gosto do Pericles, Thiaguinho, Revelação, Xande de Pilares. E do Corinthians, claro. Vou direto aos jogos.

shamellBNC: Quando acabar a sua carreira você pretende voltar a morar nos EUA?
SHAMELL: Não sei, ainda não sei. Tenho dois filhos pequenos, não dá pra saber muito. Se eu conseguir ficar no basquete do Brasil, e eu acho que posso ajudar, gostaria de ficar. Tenho bastante coisa na cabeça que poderia fazer. Quem sabe depois eles podem ir pra lá fazer uma faculdade lá. Mas ainda é cedo. Temos muita coisa pela frente.


Personagens do Basquete Brasileiro: Marquinhos
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Fábio Balassiano

mark2Filho de Arides e Eleide, casado com Sigrid e pai de Maria Eduarda (9 anos) e Beatriz (6 anos), Marcus Vinicius Vieira de Souza, 30 anos, é um dos melhores jogadores brasileiros da atualidade.

Nascido no Rio de Janeiro, criado em São Paulo, Marquinhos começou a carreira no Monte Líbano e hoje brilha por Flamengo e seleção. Campeão Paulista pelo Pinheiros, Nacional por Bauru e do NBB, Liga das Américas e Mundial pelo rubro-negro, ele é um “Personagem do Basquete Brasileiro”.

mark1BALA NA CESTA: Já se recuperaram do trauma que foi ter perdido a Liga das Américas, ou ainda está difícil de esquecer?
MARQUINHOS: Agora zera tudo para as finais do NBB. Vamos ter essa pausa antes do começo dos playoffs e isso será muito importante para nós. Foi uma tristeza ter perdido a Liga das Américas em casa, mas passou e temos o título do NBB pela frente. É o que vamos buscar. Acho que de dois anos pra cá, e principalmente com a chegada do técnico Rubén Magnano a seleção, meu basquete cresceu muito. Jogando e treinando diariamente no Flamengo, com grandes jogadores e uma comissão técnica fantástica, ajudou muito a desenvolver meu jogo também. Atuar pelo Flamengo é aquilo que você sabe. Uma torcida incrível, com os caras sempre nos apoiando. Você joga em lugar legal, viaja e fica em lugar legal. Isso ajuda muito.

marcus1BNC: Agora, sim, entrando um pouco na sua carreira de forma mais ampla. Você está com 30 anos e queria saber como você começou com o basquete.
MARQUINHOS: Sou natural do Rio de Janeiro, mas com 9 anos eu me mudei com a família para São Paulo pois meu pai foi transferido do emprego. Comecei na escola mesmo a me destacar e foi indo. Fui jogar um torneio no Centro Olímpico de São Paulo, que era do outro lado da rua onde era meu colégio, e me destaquei. Lá eu fui meio que descoberto pelo Andre Germano, que hoje está em Bauru mas que na época era do Monte Líbano. Ele me convidou para um teste, comecei a jogar, mas logo depois o clube terminou as suas atividades. Fui para o Corinthians ainda na base, fiz um bom ano e logo em seguida me convidaram para jogar em Bauru. Eu estava começando e já era daquele time que foi campeão nacional. Era uma equipe que tinha Vanderlei, Leandrinho e eu iniciando a carreira em 2002. Logo depois eu fui chamado para a seleção brasileira para um torneio na Venezuela, me destaquei muito naquela equipe que tinha o Alberto Bial como técnico e fui chamado por muitas faculdades dos EUA para jogar na NCAA. Não tinha 20 anos e muitas coisas já começavam a acontecer para mim.

marcus2BNC: E mesmo assim você preferiu não ir para a NCAA?
MARQUINHOS: Tive convites de muitas faculdades dos EUA, mas preferi ir para a Europa. Em 2005 fui para o Pesaro, trilhei meu caminho lá, fiz um contrato de quatro anos, tinha uma projeção de seguir por muito tempo lá, mas não poderia jogar logo de cara pois havia três estrangeiros no elenco já. A ideia era de me usarem no segundo ano, mas logo que começou a temporada mudou toda a diretoria e a forma de gerenciar a equipe. Foram contratadas estrelas da Europa na época e falaram que o objetivo não era investir na molecada. Fui para a segunda divisão emprestado, fiz um campeonato muito bom pelo Montegranaro e me destaquei bastante. Foi ali que a NBA começou a me olhar…

mark10BNC: Então foi por causa da segunda divisão da Itália que você foi parar no New Orleans (NBA), é isso?
MARQUINHOS: Foi na Itália que estava jogando muito bem e os olheiros começaram a prestar atenção em mim. Fiz aqueles treinamentos na NBA (work-outs), fui selecionado pelo Hornets, atuei lá dois anos, mas fui trocado pelo time no final da temporada 2007-2008. Voltei para o Pinheiros e joguei um restinho de SuperCopa que havia na época. Atuei no primeiro NBB pelo clube e logo em seguida eu voltei para a Europa. Tive um bom ano no Montegranaro, mas meus três meses finais foram de salários atrasados devido a crise na Europa. Deixei dinheiro pra trás lá inclusive. Quando eu vi que o NBB estava começando a bombar decidi voltar e desde 2010, quando o Pinheiros me trouxe de volta, estou aqui.

oscarBNC: Quando você começou a jogar, quem eram seus ídolos?
MARQUINHOS: Oscar, era o Oscar mesmo. Comecei a me apaixonar mesmo por basquete sabe como? Na escola a gente teve uma palestra com o Oscar, ele desceu de helicóptero e ali fiquei vidrado no cara, nas coisas que ele dizia. Ele era o Michael Jordan do Brasil. Acabou incentivando muito a minha carreira e é um dos motivos que eu uso a 14 na seleção brasileira até hoje. Era apaixonado pelo estilo de jogo dele, pelo amor dele a seleção e certamente ele é um dos motivos pelos quais eu me apaixonei pelo basquete.

romarioBNC: Na seleção está claro que você joga com a 14 por causa do Oscar. E no clube, por que o 11?
MARQUINHOS: A camisa 11 é por causa do Romário. Sou muito fã do Romário. Na Copa de 1994 ele era o cara do time, o melhor jogador. Por causa dele que comecei a adotar o número. Gosto muito dele e da personalidade que ele sempre teve.

marquinhos1BNC: Eu lembro bem da sua primeira passagem pelo Pinheiros em 2009 e hoje você é um cara completamente diferente. Na época você não era fácil, né?
MARQUINHOS: Não, não era mesmo. Peguei uma fase meio Bad-Boy. Hoje eu aprendi a controlar isso, falava tudo o que vinha na cabeça e pagava por isso. Hoje, não. Se eu via que não estava funcionando alguma coisa, falava mesmo. Eu amadureci muito depois que fui aos Estados Unidos e Europa. Ser também mexeu muito comigo, me criou mais responsabilidade. Essa fase de ser mais protagonista, mais líder dos times, fez com que eu crescesse muito também não só na quadra, mas fora dela principalmente.

rossi1BNC: Teve alguém que te serviu como segundo pai, digamos assim?
MARQUINHOS: Ah, sim, com certeza. Vou te contar uma coisa aqui. Teve uma época que eu estava meio mal, pra baixo mesmo. E um dos caras que fez com que eu não desistisse do basquete se chama João Fernando Rossi (foto à direita), diretor do Pinheiros e atualmente também Vice-Presidente da Liga Nacional. É um dos caras que tenho uma relação muito forte até hoje. Me dá conselhos até os dias de hoje, é um cara que toda vez que fala eu paro para escutar, tento sempre ouvir e aprender muito. Quando vim da NBA para o Brasil em 2008, 2009, eu voltei muito desmotivado, derrubado mesmo. E ele me ajudou muito a me redescobrir, a acreditar em mim. Sou grato a ele até hoje, e ele sabe disso.

pejaBNC: Você, hoje mais velho, consegue detectar o que houve para não ter dado certo na NBA?
MARQUINHOS: Achava que indo para a NBA teria uma carreira longa por lá, que teria algumas chances de mostrar meu jogo. Tanto que as oportunidades que tive eu fui bem. Mas NBA, você sabe, é aquilo – além de você ser bom tem que ter sorte de estar no time certo, no momento certo, essas coisas. Infelizmente quando fui escolhido no Draft de 2006 eles contrataram o Peja Stojakovic, que acabou pegando todos os meus minutos. Não jogava, mas aprendi muito com ele. Em relação a arremesso, trabalho de fundamento, preparação para os jogos, como jogar bem todas as noites. Acabou não acontecendo na NBA da maneira que eu sonhava.

markBNC: Você chegou mesmo a pensar em desistir do basquete?
MARQUINHOS: Ah, sim, com certeza eu pensei em parar de jogar. Foi frustrante demais ter ido para a NBA e não ter rolado da maneira que eu imaginava. Aquele sonho acaba se tornando um pesadelo. Para você ter uma ideia, estava em casa com minha esposa jantando, vi na televisão o meu nome e meu agente logo me ligou avisando que tinha sido trocado (Nota do Editor: em 21 de fevereiro de 2008, Marquinhos foi enviado para o Memphis Grizzlies, onde acabou não atuando). Foi frustrante demais para mim. Foi um golpe muito duro.

BNC: Nessa época você deu uma declaração naquele Pré-Olímpico de 2007 afirmando algumas coisas sobre o grupo que não foram muito bem recebidas, lembra?
MARQUINHOS: O que houve ali realmente aconteceu…

lulaBNC: E o que aconteceu, conte aí…
MARQUINHOS: Eu falei que o Lula Ferreira havia perdido o controle, que os jogadores meio que tinham assumido o controle da situação e que o time estava meio perdido. Alguém me perguntou e eu falei a verdade. Só que acabei expondo uma situação interna que deveria ficar entre nós, jogadores e comissão técnica. Ali quebrei um dedo na mão, liguei para o meu time. O New Orleans disse para eu tratar lá, antes de começar a pré-temporada, e foi isso que eu fiz. Fui muito impulsivo, e hoje na seleção eu já pedi desculpas por esse caso para a maioria dos jogadores.

BNC: Chegou a pedir desculpas ao Lula?
MARQUINHOS: Fui pedir desculpas ao Lula muito depois, em um jogo meu. Quando eu falei aquilo não ficou legal nem para mim e nem para ele. E o Lula aceitou tranquilo, a vida seguiu.

markBNC: Uma pergunta que é na verdade uma curiosidade. Como funciona entre os jogadores, ali no vestiário, quando alguém acaba expondo uma situação que deveria mesmo ficar apenas entre vocês? Gera um clima ruim?
MARQUINHOS: Na verdade, quem me ajudou muito nessa história toda foi o Leandrinho. Ele, com quem havia jogado em Bauru, me ajudou muito. E ele disse: “O que você falou estava certo, mas o que você disse deveria ter sido mantido dentro do grupo, exposto apenas para nós”. Este foi o meu erro mesmo. Fui perguntado por um repórter, e eu disse que estava acontecendo uma situação mesmo. Eu não menti, mas acabei abrindo. Mas isso passa. Depois, quando voltei para a seleção com o Magnano em 2010, os jogadores me receberam muito bem. O que passou, passou.

mark1BNC: Essa sua mudança de temperamento que estamos falando. Você consegue ver exatamente que teria feito diferente anos antes, quando era mais explosivo?
MARQUINHOS: Ah, sim, em várias ocasiões. Hoje acontece alguma jogada, eu respiro fundo e passo adiante. Não xingo, não faço nada. Aprendi a me controlar. Dois, três anos atrás certamente eu poderia falar com árbitro, reclamar até cansar. Você que me conheceu naquela época sabe que estou muito mais calmo hoje em dia mesmo. A vida mesmo te ensina coisas que ficam.

BNC: Você sabe que é um dos melhores jogadores do país, foi sondado pela NBA recentemente e certamente recebe convite da Europa com constância. Tem horas que você assiste às partidas de fora e pensa um “Poxa vida, eu poderia estar lá”?
MARQUINHOS: Eu sou um cara apaixonado por basquete e vejo tudo. Minha esposa até brinca que só tem canal de basquete na nossa casa. Meu estilo de jogo é muito parecido com a NBA, mas não me iludo muito mais, não. Recentemente tive essa sondagem de lá, do próprio New Orleans, e é óbvio que jogar lá é uma honra, um privilégio. Mas hoje deixo acontecer.

mark1BNC: Você fala isso porque para você não adianta só estar lá, mas sim que precisa ir lá para jogar?
MARQUINHOS: Sem dúvida que sim. Acho que eu falei isso com você mesmo na época que eu recebi a sondagem da NBA. Cheguei a um ponto da minha carreira que quero jogar, quero estar em quadra me divertindo e jogando bem. Atuo em um clube maravilhoso, vivo em uma cidade linda, tenho minha família por perto. Não há porque ir pra lá e ser um daqueles caras que vai entrar cinco, dez minutos. Sem desmerecer ninguém, claro. Não me acho uma estrela, mas não me vejo o cara que vou ficar no banco para alguém que considero que sou melhor, entende? É uma visão minha, um jeito meu de pensar.

neto1BNC: Dos técnicos que você teve, quais são suas maiores influências?
MARQUINHOS: Tive três grandes técnicos. O Claudio Mortari, o Magnano na seleção e o José Neto no Flamengo. Ele é um paizão para mim no Flamengo, eu mesmo tentei levá-lo para o Pinheiros. O motivo de eu ter vindo para o Flamengo foi ele mesmo. Entendo a filosofia dele, gosto e consigo passar tudo o que ele quer adiante também. Aprendo diariamente com ele.

mark1BNC: Falando de seleção brasileira agora. Bate um pouco de frustração por você fazer parte de uma geração muito talentosa mas que ainda não conquistou nenhum título grande, nenhuma medalha relevante?
MARQUINHOS: Acho que primeiro a gente tem que entender o momento do basquete brasileiro. Desde que o Magnano assumiu a seleção subiu de nível, subiu de patamar. Principalmente do lado tático. Hoje a gente parece uma seleção europeia. Tem uma esquema ali, a bola roda no ataque, tem muita defesa…

mark3BNC: Pô, até você defende, cara…
MARQUINHOS: (Risos) É verdade! Mas, respondendo a sua pergunta, a maior frustração mesmo foi naquele jogo contra a Sérvia no Mundial de 2014 na Espanha. A gente fez um Mundial excelente, estava sendo apontado como o time que iria brigar com EUA e Espanha e caímos. Basquete é duro por causa disso. Você dá uma bobeada, esquece, perde. Ninguém imaginava que a gente iria perder da Sérvia daquele jeito, daquela maneira. Foi um momento, um lapso e já era. Ganhamos deles muito bem na primeira fase. Mas o esporte te dá chances, te dá oportunidades. Teremos os Jogos Olímpicos em casa e quem sabe poderemos fechar o ciclo dessa geração com uma medalha diante da nossa torcida. Estamos maduros e será um tudo ou nada para nosso time. Não é o meu caso, pois espero seguir jogando pela seleção, mas muita gente sairá da equipe após os Jogos do Rio-2016.

mark14BNC: Foi a maior frustração sua com a camisa da seleção?
MARQUINHOS: Certamente que sim. É bem difícil de engolir. Até porque ganhamos dos caras na primeira fase. Achávamos que seria um jogo duro, mas que teríamos chance de vencer, de ir adiante. Aquelas faltas técnicas ali foram cruciais não para perdermos a cabeça e sairmos do jogo. Nosso plano tático foi errado. Até o próprio Magnano assumiu na época. Fica o aprendizado. O nível mundial é fortíssimo. Do segundo ao décimo é todo mundo muito parecido. Veja a França. Fez um Mundial excelente mesmo toda desfalcada. Nesse nível, deu uma bobeada é difícil de recuperar. Foi uma oportunidade que perdemos.

mark2BNC: Para fechar. Você é um cara reconhecido, e certamente pôde realizar alguns sonhos para sua família. O que te dá mais emoção quando você olha pra trás e vê que conseguiu propiciar para as pessoas que te cercam?
MARQUINHOS: Olha, formar uma família como a que tenho é gratificante, é lindo. Mas poder ter dado uma casa para meu pai e outra para minha mãe é maravilhoso, é lindo mesmo. Lembro muito que meu pai cruzava a cidade de São Paulo para me levar e me apanhar nos treinos. E hoje poder dar um pouco mais de conforto para ele não tem preço. Ele saía do ABC, rodava a cidade inteira, esperava eu acabar os treinos e voltava. Isso por longos meses, um período imenso. É um orgulho para mim ter conseguido proporcionar isso a eles.


Personagens do Basquete Brasileiro: Guerrinha
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Fábio Balassiano

guerra1O técnico Jorge Guerra acaba de conquistar o continente. Campeão da Liga das Américas por Bauru, o ex-jogador da seleção por 13 anos tornou-se há anos um dos melhores treinadores do país e no domingo, no Rio de Janeiro, colocou em sua estante de troféus um dos poucos que ainda não tinha ganho em sua vitoriosa carreira.

Nascido em Franca há 55 anos, ele se diz completamente diferente fora das quadras do que o cara que fica à beira dela orientando e falando compulsivamente com seus atletas e assistentes. Filho de Osvaldo Guerra e Maria Bernabe Guerra, casado com Renata e pai de três filhos (Guilherme, engenheiro ambiental, Marcelo, agrônomo, e a Carolina, que estuda nos Estados Unidos), o cozinheiro e jardineiro de mão cheia tem uma história bem linda na modalidade. Guerrinha é um dos melhores “Personagens do Basquete Brasileiro” que há. Vamos a entrevista que fiz com o campeão da Liga das Américas 2014/2015 por Bauru.

guerra3BALA NA CESTA: É a conquista mais emocionante de sua carreira?
GUERRINHA: Isso é resultado da química, de como esse time se entrosou em tão pouco tempo. Um projeto novo, de cinco meses e que já estamos colhendo resultados. Queremos mais e vamos trabalhar para isso. O Mundial vem aí e temos condição de jogar de igual para igual com qualquer equipe da Europa. Estamos muito felizes. Conquistar a Liga das Américas é a realização de um sonho.

guerra2BNC: Você considera que esta conquista não é só de Bauru, mas sim de todo um basquete brasileiro que se organizou através da Liga Nacional
GUERRINHA: Sim, sem dúvida. O resultado de Bauru é reflexo de todo basquete brasileiro e do trabalho que vem fazendo a Liga Nacional. Os últimos três anos temos equipes brasileiras ganhando a Liga das Américas. Bauru é um produto dentro de uma organização, dentro de um planejamento, e reflexo dentro do basquete brasileiro de clubes. A gente fará de tudo para representar bem o Brasil no Mundial, como fez o Flamengo contra o Maccabi em 2014. Só posso agradecer a Bauru e não posso esquecer de também agradecer aos demais técnicos brasileiros. Nós trouxemos quatro jogadores de fora, de outros times e eles já chegaram muito bem.

bauru2.jpgBNC: Sua história no basquete não começou neste fim de semana. Onde iniciou tudo?
GUERRINHA: Meus pais moravam a duas quadras do Clube dos Bagres, em Franca. Pra quem não conhece, o basquete em Franca começou no IETC, um colégio que o Pedroca dava aula, e no Clube dos Bagres, local que as pessoas iam jogar depois da escola. Então basquete em Franca era escola e clube. Eu comecei assim também. E é o que falta hoje, né? Fala-se muito em especialização, que é importante, mas falta muito o esporte em escolas e clubes. Foi uma sequência até certo ponto natural. Para você ter uma ideia, por Franca eu fui cinco vezes campeão paulista, cinco vezes campeão brasileiro, cinco vezes sul-americano e uma vez vice-mundial. E sabe quantos títulos colegiais do estado? Um só. Era difícil pra caramba, muito disputado.

paisBNC: Mas nesse começo, como era? Seus pais te incentivavam?
GUERRINHA: Não, nada disso. Meu pai tinha uma fábrica de chuteira em Franca. Meus irmãos jogaram futebol quase que profissionalmente. Fazia natação, judô, futebol e basquete como todo mundo. Como era muito disciplinado, ficava vendo os treinos no Clube dos Bagres pra depois fazer igual. Queria ver, aprender e repetir depois. Era minha rotina. Até que um dia, com o passar do tempo, quando tinha 14, 15 anos, era muito bom no um contra um, nos joguinhos de arremesso. Acho que esse basquete de rua, essa malícia boa que o jogo de rua dá, faz muita falta hoje em dia. Quando faltava alguém no treino eles me chamavam. Aí não parei mais. Eles começaram a ver meu potencial e fui ficando. O Pedroca gostava porque eu era muito disciplinado. Tudo o que ele pedia pra eu fazer uma vez já saía como ele queria. Isso sempre esteve muito comigo. Quando eu fui treinado pelo Edvar Simões no Monte Líbano, ele chegou pra mim e disse: “Olha, você é muito inteligente. Não consegui te dar uma bronca neste ano”.

BNC: E não levar bronca do Edvar é um feito, hein…
GUERRINHA: (Risos) E ele disse: “Porque você não fez um erro para eu te dar bronca. Tudo o que lhe pedi você fez”. Eu era tão disciplinado quando jogador que só de ouvir o técnico pedir coisas aos outros jogadores eu já sabia o que tinha e o que não tinha que fazer. O atleta que tem essa percepção sai na frente e adianta muito o trabalho do técnico. Em casa ouvia meus pais falarem com meus irmãos mais velhos e aprendia. Na quadra foi apenas a extensão disso.

francaBNC: E como foi jogar no time adulto da cidade que você nasceu? Imagino que uma emoção tremenda…
GUERRINHA: Ah, sim, foi uma emoção imensa. Quando era adolescente entrava nos jogos com a bolsa dos atletas para não pagar ingresso, sabia? Aquela coisa de moleque. O Hélio Rubens, o Fausto e os outros caras chegavam, eu pegava a bolsa e ia entrando no ginásio. Depois evoluí. Eu, para não perder os jogos, fazia a súmula das preliminares e depois via o jogo principal. Aí comecei a jogar as preliminares. Aquilo era um sonho pra mim. Imagina, jogar a preliminar no ginásio de Franca. E fico pensando muito nisso. As coisas acontecem tão rápido que a gente nem se dá conta. Costumo dizer aos meus atletas. Demora muito para você ter 18 anos e tirar a carteira de habilitação de motorista, né? Depois que tira a carteira é tão rápido que você nem percebe que precisa renovar a carteira. E jogador é a mesma coisa. Você está ali naquela fase de juvenil, quando vê já está como veterano do time. Passa muito rápido e pra mim foi um elemento de formação muito grande ter convivido com o pai do Helio Rubens, Seu Chico Cachoeira. Ele viajava com a gente e dava muito conselho sobre o que fazer ou não. Vivi naquela década de 70, 80 que tinha muita droga, muita coisa solta. E a gente tinha que manter a cabeça no lugar, ter um objetivo muito certo. Até brinco nas minhas palestras que quando você nasce em Franca te jogam na parede. Se ficar na parede é jogador de basquete. Se cair vira sapateiro. E eu fiquei na parede mesmo com um pai como dono de fábrica de calçado. A logística de morar perto do clube ajudou muito também.

faustoBNC: Como foi jogar com os ídolos? Hélio Rubens, Fausto (foto à direita)…
GUERRINHA: Poxa, eu fui reserva do Hélio Rubens por quatro anos. Aprendi horrores com ele. Muito mesmo. Entrei no adulto com 15 para 16 anos. Quando cheguei era incrível o time. Eram cinco jogadores de seleção e dois estrangeiros. Treinar ali já te evoluía muito. Adilson, Gilson, Robertão, Fausto, Hélio, só craque, cara. Foi um sonho jogar com eles. E aprendi demais, posso te dizer isso. Hoje os jogadores querem jogar muito rapidamente. Para mim foi um doutorado ter estado com eles. Defesa, leitura de jogo, decisão, respeito.

pedrocaBNC: E o Pedroca (foto à esquerda), lendário técnico de Franca, como era?
GUERRINHA: Vou lhe dizer: ele era um péssimo técnico de quadra, porque ele se envolvia emocionalmente com a partida e com os atletas durante os duelos, mas um excelente treinador. Visionário mesmo. Aquelas coisas que ele falava há 40 anos, tipo de não deixar o adversário pensar, são regras até hoje. Franca, naquela época que comecei, era um time baixo. Quando tinha um cara de dois metros eles foram buscar lá no Rio de Janeiro. Foi o Robertão, pivô que era do bairro do Zico (Quintino), lá no Rio. Todo mundo marcava por zona. Mas o Pedroca pensou diferente. Como éramos baixinhos e tínhamos um ótimo preparo físico a gente marcava pressionado, fazia pressão a quadra toda. Se a gente jogasse os grandões pra fora da posição ideal deles o adversário ia para o improviso. E aí a gente ganhava. Foi assim que foi formada a escola de Franca de Basquete. Time baixo, marcava muito, transição rápida de contra-ataque. Veio de uma necessidade e o Pedroca teve essa visão. Ele tinha uma didática completamente diferente. Eu faço muitas coisas no meu time que ele nos ensinou.

texBNC: Você lembra de algum causo ou história engraçada sua com ele que possa contar?
GUERRINHA: Em 1973 a Coca-Cola patrocinou um intercâmbio de basquete e veio a Franca o Tex Winter (foto à direita), o criador do Sistema de Triângulos, famoso no Chicago e no Lakers do Phil Jackson. E na época eu gostava de ficar perto do técnico pra ver o que eles pensavam. Tinha gente que já dizia que eu era técnico enquanto jogava. Mas, bem, aí vi lá com o Pedroca o Tex Winter e perguntei o que ele tinha achado. A resposta dele foi sensacional: “Você precisa entender o conceito por trás das palavras dele. Não adianta usar o remédio dele e tentar usar no seu enfermo porque as necessidades e capacidades são diferentes. Não adianta ficar copiando”. Ele disse isso pra mim em uma época que os treinadores iam para palestras e clínicas e só voltavam com apostilas imensas. Hoje a gente vê muito isso, né? Ninguém fica só anotando, é preciso entender os conceitos. Ele falava isso em 1973, hein…

guerra1BNC: E ele era ruim mesmo de jogo?
GUERRINHA: De jogo ele era ruim, mas no treino nunca vi igual. No jogo ele se perdia porque ele era muito educador, muito professor mesmo. Por exemplo. Um jogo o Hélio estava mal e o Fausto estava bem. Aí ele falava: “Entra lá no lugar do Fausto”. E aí eu perguntava se não era melhor deixar o Fausto, que estava bem, tirando o Hélio, que estava mal. E ele emendava: “Deixa ele lá que ele vai melhorar”. É o educador. Não estava preocupado com o resultado, mas sim com o ser-humano. É lindo isso, mas hoje em dia isso é impensável.

BNC: Foram 20 anos pelo time de Franca, é isso?
GUERRINHA: Fiquei em Franca de 1975 a 1992 na equipe do Franca. Aí fui pro Monte Líbano, joguei um ano e atuei quatro anos na outra equipe que tinha aqui em Franca, o Dharma. As pessoas em Franca falam que jogando pelas equipes da cidade é o Chuí que detém o recorde de mais partidas. Mas sou eu mesmo, contando com Franca de 1975 a 1992 e com o Dharma de 1993 a 1997. As pessoas não consideravam o Dharma como parte do time da cidade, mas o título que ganhamos eles absorveram para o Franca Basquete. Com título conta (Risos). Faz parte. Era uma briga muito grande na cidade. Times fortes do Brasil na mesma cidade. Cadum, Fernando Minucci, Gema, Janjão e eu. Timaço mesmo o do Dharma. Quando acabou o Dharma eu fui para o Ribeirão Preto (Polti/COC). O técnico era o José Medalha, e em uma das conversas entre nós ele me chamou para jogar. Foi assim que começou a história do Ribeirão Preto.

dharmaBNC: Foi seu último ano jogando aquele de 1997. Você já sabia que ia virar técnico?
GUERRINHA: Eu sempre gostei. No Pan-Americano de 1987 eu ia com o Medalha (assistente) e com o Ary Vidal (técnico) ver todas as partidas. O Medalha anotava tudo e o Ary só olhava para os bancos, nem olhava o jogo. E eu perguntei pra ele sobre isso. Ele dizia: “Eu só fico vendo o comportamento do técnico , as reações dos atletas e o que muda com as substituições para eu fazer alguma coisa. A parte de treino e técnica vocês (jogadores) e o Medalha tomam conta”. Ele tinha este discernimento. O entendimento dele de banco era incrível. Mas de treino ele era ruim. Os assistentes é que comandavam mesmo. Medalha, o próprio Waldyr Boccardo. Agora, de gestão de grupo, de banco, ele era o melhor. Melhor mesmo.

guerra15BNC: Antes de entrar na sua vida como treinador deixa eu puxar ainda um pouco dessa questão de seleção. Você vinha de uma escola francana que se baseava em defesa e chegava na seleção e via Marcel e Oscar arremessando muito de três, a especialidade deles. Como era aquilo pra você? Foi um choque?
GUERRINHA: Eram duas escolas diferentes. A do Sírio, com Marquinhos, Oscar e Marcel, e a de Franca, uma família, todos se ajudando. Para você ter uma ideia de como eram as coisas no Sírio, quando tinha falta técnica pra eles quem saía mais rápido batia o lance-livre. Nós, não. Era coletivo. Totalmente diferente. Ali na seleção eu aprendi que toda religião te leva a D’s. Não existe certo e errado. O certo a gente sabe que é utopia. Dentro dessa época era tudo muito contraditório pra mim, mas nas duas esferas eu conseguia navegar.

duplaBNC: Tem alguma história engraçada com eles dois, Oscar e Marcel?
GUERRINHA: Ah, várias. Um jogador passava por mim, não tinha rotação e eu fazia falta. Aí vinham Oscar e Marcel perguntar se eu estava maluco de fazer falta. Eu não entendia porque eles falavam aquilo, até que eles diziam: “Deixa os caras fazerem de dois e a gente faz uma de três”. Teve um jogo na China antes de irmos para as Olimpíadas de Seul em 1988 que ganhamos da Espanha de mais de 60 pontos. Depois enfrentamos a China. Eu era o armador. A gente atacava, mas o Oscar não voltava. Eles vinham com cinco, a gente defendia com quatro. Eu peguei a bola lá na defesa, dava pro Oscar e ele nem ia pra bandeja. Livre ele arremessava, e acertava de três. Até que o armador chinês percebeu e ficou no Oscar. Ficou um jogo de quatro contra quatro, até que o Marcel ficou no ataque também. Aí éramos eu, Gerson e Israel defendendo, com Oscar e Marcel do outro lado o tempo inteiro (risos). Erravam os chineses, e a gente passava. Os dois malucos arremessando de três. E acertando sem parar. Eles eram incríveis, cara. Os dois e o Ary tinham umas inovações que eram diferenciadas à época. Lembro que fomos ao Sul-Americano da Colômbia em 1985 e o armador titular era o Nilo (Guimarães, hoje supervisor de Mogi). Os caras estavam tão endiabrados que a final começou e matamos oito bolas de três seguidas com Nilo, Oscar e Marcel. A gente olhava do outro lado e estavam todos assustados. Estatisticamente o nosso time era o que pegava mais rebotes, sabia? No Mundial de 1986 o time que pegava mais rebotes era o nosso, e do torneio o Gerson, Israel e o Oscar foram os três primeiros no quesito. E o Arvydas Sabonis estava lá jogando, hein. O aproveitamento deles era de mais de 60% dos três. Como você vai proibir? Não pode.

guerra2BNC: Essa geração ganhou pouco? Em termos de medalha foi apenas a do Mundial de 1978, nas Filipinas.
GUERRINHA: Difícil dizer. É porque na época não era dividido como são hoje os países. Hoje há maior quantidade de seleções. Antes era Brasil, Estados Unidos, Iugoslávia e União Soviética. Olha como era a União Soviética. Era brincadeira. Muito difícil chegar ao pódio. A não ser quando tinha uma geração especial. O Brasil teve duas – do Wlamir e Amaury, e do Oscar e do Marcel. Hoje você tem 20, 25 seleções jogando em bom nível. Antigamente pra chegar entre os três era mais difícil.

doisBNC: Falando destas duas gerações, por que esta geração sua tem problema com a do Wlamir e Amaury?
GUERRINHA: Não acredito que seja um problema de geração, não. Eu particularmente tenho um relacionamento ótimo com o Amaury, ótimo com o Wlamir Marques também. Pode ser que Oscar e Marcel tenham problemas com eles, mas da minha parte e posso citar até o Cadum também não há problema algum. Muito pelo contrário. A gente tem uma admiração muita admiração, um respeito muito grande pelo que eles realizaram. Acredito que o que você esteja dizendo seja um problema muito mais entre eles (Oscar e Marcel) do que um problema de geração em si.

guerra3BNC: E onde você, como jogador (na foto ao lado ele está marcando ninguém menos que Drazen Petrovic), se coloca no meio disso tudo? Tem muita gente que diz que, se tivesse jogando hoje, você certamente estaria ou em Europa ou na NBA…
GUERRINHA: A gente nunca vê por aí. A gente sempre se acha ruim. Quando eu era jogador sempre fui muito disciplinado, aplicado dentro de quadra. Acho que jogaria muito bem na Europa, mas acabou não acontecendo. Ia rolar na década de 80 na Itália, mas quando fui os jogadores italianos fizeram uma greve lá e não aconteceu. Naquela época para você ir pra Europa era mais difícil do que ir hoje para a NBA. Só ia cestinha, essas coisas. Oscar, Marcel, essas coisas. Israel, o pivô que era, foi para a segunda divisão.

guerranacionalBNC: Aí você começou a ser técnico em 1997…
GUERRINHA: Quando fui para Ribeirão já tinha 37, 38 anos. Já queria parar e falei para o Chaim Zaher, diretor do COC. Disse a ele que queria ser gestor do time. Aí ele: “Eu não vou ter grana pra te pagar como gestor e outro técnico. Você vai acumular as funções”. Falei pra ele que queria estudar dois anos, fazer cursos, mas não deu certo. Eu não pedi para ser técnico. Foi ele que me colocou de treinador (Risos). No segundo ano do Ribeirão Preto eu era o técnico e fizemos a final contra Franca. Foi muito incrível e muito rápido. Fomos vice-campeões brasileiros dois anos. O Edvar chegou, eu decidi sair e três meses depois eu fui chamado para tocar o projeto de Bauru. Tudo também muito rápido. No primeiro ano nos classificamos para o Nacional da CBB via Paulista. No outro já fomos campeões Paulista e Brasileiro, além de vice Sul-Americano (perdendo do Vasco do Flor Melendez na prorrogação).

BNC: Até a temporada passada era o maior título internacional de Bauru, hein…
GUERRINHA: Ah, sim, era mesmo. Foi uma festa incrível na cidade essa época. Fiquei cinco anos em Bauru, até que acabou o patrocínio da Tilibra.

guerra2BNC: E como foi ser campeão brasileiro como técnico? É uma sensação diferente da de um atleta?
GUERRINHA: Completamente distinta a sensação. Você tira uma pressão. Muita gente só te avalia bem se você é campeão, se dá resultado. Você pode ter um bom trabalho e não ter resultado. E há casos de trabalhos ruins com resultados bons. Acontece em todas as esferas. Veja aí o caso do LeBron James. O cara era criticado pra caramba até ganhar o primeiro título dele na NBA. Acaba que somos muito avaliados pelos resultados. Olha aí o exemplo do Demétrius no Minas. Dificilmente ele será campeão, mas que trabalho excelente ele está fazendo. Quando se é campeão a pressão sobre você diminui. Ser campeão é a premiação de algo feito com muito sacrifício. É um alívio muito grande.

guerra18.jphBNC: Isso é engraçado. Você já é o terceiro ou quarto técnico que fala na palavra ‘alívio’ quando descreve o sentimento da conquista. Por que isso?
GUERRINHA: É muito mais alívio do que diversão, tenha certeza disso. Principalmente no começo da carreira. Atualmente, sim, eu me divirto. Antes eu ganhava um jogo, um torneio, e já pensava no dia seguinte, no treino que teria que dar. Hoje, com mais maturidade, eu consigo me divertir mais. Meu time também me dá essa segurança. O que me incomoda muito é que tem muita gente que só fala de Bauru de 2014/2015. Mas ninguém fala do projeto que começou lá atrás, sete anos atrás, no primeiro NBB. Eu era o gestor do time. Sempre dizia: “Nós somos pobres, mas somos limpinhos. Aqui nós vamos fazer tudo direitinho”. E o dia que entrasse dinheiro a gente faria um time para ser campeão. A mesma coisa acontece no futebol, né? A estrutura do Atlético Paranaense é incrível, mas sempre os resultados chegam porque há rivais que contratam mais, têm mais dinheiro, embora nem sempre paguem.

lbBNC: Nessa época de Bauru você treinou o Leandrinho. Como foi o começo com ele?
GUERRINHA: Um assistente meu, o Cássio, me falou que tinha um reserva do Palmeiras no Juvenil que era um estouro. Fui lá ver e era o Leandrinho mesmo. Quando fui, bati o olho, era aquele mesmo que eu precisava e trouxemos. Só tínhamos o Raul de titular, mas com outra característica. E, olha, vou te falar. O Raul, pai, é bem melhor do que o Raulzinho, viu. Sem tirar o mérito, nada, mas o Raul jogava muita bola, espetacular. Arremesso perfeito, drible, marcava muito. Aí chegou o Leandrinho, um jogador mais rompedor, alguém que infiltrar. Mas era um cara que carecia de muita coisa ainda. Fizemos um plano de trabalho com o cara e foi impressionante a evolução dele. Leandrinho só queria saber de treinar. Ele chegava 5h30 da manhã na porta do ginásio e quando estava fechado, sem ninguém pra abrir a porta, ele ficava do lado de fora fazendo parte física. Treinava igual a um maluco e dizia que seria NBA. E conseguiu.

guerrinha2BNC: Leandrinho foi um dos jogadores que mais te marcaram como técnico?
GUERRINHA: Foram vários. Um dos que mais admiro é o Vanderlei (foto à direita). E sabe por quê? Ele sempre foi um atleta limitado em termos físicos mas que fazia o que precisava ser feito. Ele sempre teve um foco profissional muito grande e rendia demais para a equipe. Leandrinho, por essa parte dele de querer muito, me marcou também. Ele é como o Garrincha. Fora da quadra ele não tem muita noção das coisas, do que atingiu, de onde chegou, essas coisas. Mas dentro do campo ele tinha um foco absurdo. Hoje tenho o prazer de trabalhar com o Alex. Jogador consagrado, cheio de títulos, mas um exemplo dentro e fora da quadra. Mais do que um técnico dentro da quadra, sabe. O Larry Taylor também, outro cara exemplar. Nível de comprometimento altíssimo.

BNC: Depois de Bauru, na primeira fase que terminou em 2003, você foi a Campos e também ganhou um título lá…
GUERRINHA: Sim, ganhamos um título estadual por Campos em 2003. Foi a segunda vez que um time de fora do Rio de Janeiro ganhou um estadual (Liga Angrense foi o outro). Lá eu vi um fato inédito. Ganhamos do Flamengo na final e eu vi diretor do meu time triste. O cara era mais flamenguista do que do time. Eu fiquei maluco com isso. Lembro quando cheguei era período de carnaval e me avisaram que o time ia voltar depois de não sei quantos dias. Eu falei: “Vocês estão loucos. Nada disso. Vamos treinar que comigo não funciona assim”. Sabe o que eu fiz? Fiz cópia da chave do ginásio da cidade, eu mesmo abria o local pra treinar. Não achava ninguém na rua. A peixaria fechada, mercado fechado, tudo fechado. Perguntei pro cara do meu prédio e ele me disse: “Ah, Seu Guerra, agora eles vão todos pra praia. Só voltam depois do Carnaval mesmo”. Fiquei um ano lá e antes de ir pra Rio Claro eu passei cinco meses em Phoenix acompanhando tudo com o Mike D’Antoni e a comissão técnica do Suns.

lb2BNC: Não te chamaram pra ficar por lá, não?
GUERRINHA: Não porque aquilo ali é reserva de mercado. É muito difícil de abrir pra técnico de fora. No San Antonio é que abrem, mas você veja os outros. É raríssimo. Eu só consegui entrar lá por causa do Leandrinho. A franquia faz tudo pro jogador. Frequentava a reunião deles às 8h da manhã, aquela de planejamento de treino, de vídeo, essas coisas. Mas eu não abria a boca. Pra mim foi terrível não poder falar nada (risos). Depois fui pra Rio Claro, fomos terceiros do Nacional, mas logo o time terminou.

guerra1BNC: E aí sua história com Bauru recomeçou em 2007, certo? O projeto começou com a Itabom e o Grupo GRSA, e agora ganhou, digamos, outro vulto com o investimento do Grupo Paschoalotto. Você considera que ter pego o projeto de baixo, bem de baixo mesmo, te deu sustentação para quando crescer, crescer direitinho?
GUERRINHA: Concordo inteiramente com isso. Muita gente fala: “Bauru agora tem dinheiro e traz todo mundo”. Mas quando a gente não tinha nunca falei sobre orçamento dos outros. Franca anos de patrocínio forte e não soube aproveitar. E quando perdia de Franca e outras equipes nunca falei sobre jogadores contratados, elencos caríssimos montados. Hoje a gente ouve e é chato. É da pessoa que pensa pequeno e não é profissional. Quando se é profissional você trabalha com humildade e tenta trazer, ajustar, para a sua realidade. Foi o que fizemos. Temos um Conselho Gestor, um trabalho completamente comprometido. Nossa base está começando agora e vai ser fortíssima muito em breve.

guerra1BNC: Te dá tristeza com a situação francana de hoje?
GUERRINHA: Olha, aprendi na minha religião (espiritismo) que a gente não pode ter dó, pena de ninguém. É preciso ter compaixão e torcer para melhorar porque quando o adversário melhora você cresce junto. Na hora que melhorar administrativamente volta a disputar títulos. O que não pode no basquete é ter a mentalidade do futebol – de primeiro ganhar títulos e depois ver o que vai acontecer em termos de estrutura e organização. Isso é ser dirigente pro torcedor. Tem que ser ao contrário. Deveriam ter feito igual ao que o Minas fez este ano. Um time mais novo, só molecada, sem estrangeiro. Não cair, melhorar administrativamente, fazer uma base e depois crescer trazendo um por ano. Trouxemos o Murilo. Este ano era o Alex. É que vieram duas oportunidades de mercado, como o Jefferson Willian e o Rafael Hettsheimeir, que não tínhamos como perder. Tudo sempre planejado e dentro da realidade. Nosso planejamento está rigorosamente em dia. Quando você passa a confiança para o jogador de ter um contrato de dois, três anos tudo fica até mais barato.

lulaBNC: Pra fechar, alguns assuntos. Você foi assistente-técnico do Lula Ferreira na seleção em uma época muito conturbada. Saiu em 2007 quando entrou o Moncho Monsalve e vou te dizer uma coisa que eu nunca lhe disse. Todos com quem conversava na época diziam que você era o mais preparado para assumir. Que tinha a bagagem necessária, uma história com a seleção…
GUERRINHA: Eu fico muito feliz por isso, mas vamos lá. A nossa comissão técnica pagou um preço muito grande pelo momento daquela época. Era tudo muito conturbado. Muitas das coisas que estão sendo feitas agora, em termos de treinamento, de organização, foram idealizadas pelo Flávio Davis (também assistente) e pelo Lula Ferreira. Nós fomos vítimas daquele momento. Eram jogadores em começo de NBA, uma dificuldade incrível. Eles não sabiam o que queriam e até onde poderiam esticar a corda. Não havia comprometimento com o país, mas sim com os agentes e com os times. O mundo da NBA é assim. E aqui, por outro lado, não davam a segurança pra eles.

guerra6BNC: Vocês ficaram marcados por não terem levado o país às Olimpíadas, né?
GUERRINHA: Muita gente fala que não conseguimos isso, mas era outro momento. Os Estados Unidos hoje não jogam Pré-Olímpico por causa da classificação direta do Mundial. Na minha época de assistente não tinha isso. E outra coisa: nós nunca ficamos fora do Mundial. E essa comissão técnica aí ficou de fora do Mundial. Só foi porque pagaram convite. Ficamos por uma bola em Porto Rico (2003), outra em 2007. Depois os atletas entenderam que era preciso comprometimento com o país. Não adianta nada você ter milhões e não ser conhecido no país. Isso bateu nos caras depois de muito tempo. Hoje eles, mais maduros e há mais tempo na NBA, percebem que podem dar um pouco de tempo e do talento deles para o país sem problema com a franquia. Foi uma combinação de vários fatores. Nunca contei isso pra ninguém, mas depois do Mundial de 2006, no Japão, fui sondado para ser técnico da seleção brasileira. Fui chamado para ser técnico da seleção do meu país, mas decidi nem continuar a conversa. Caso fechasse ficaria parecendo que a culpa seria apenas do Lula, o técnico. Todos nós erramos. Não queria fazer como muitos fazem. Sair e logo depois voltar como técnico. Essa minha ética vale uma amizade minha com o Flávio e com o Lula que não tem preço. Cumpri um ciclo muito grande com a seleção. Foram 18 anos. Treze como jogador e cinco como assistente. Sem férias, nada. É lindo isso, não acha?

guerra8BNC: Sim, muito bacana. Mas você não sonha em ser técnico da seleção brasileira?
GUERRINHA: Olha, no momento eu acho que estou bem preparado. Maduro, principalmente. Mas não trabalho para isso. Não coloco isso como desejo número um da minha vida. Trabalho para mostrar aos demais técnicos brasileiros que não é porque o cara é estrangeiro que é melhor que a gente, não. Há excelentes técnicos por aqui, excelentes mesmo. Dou o exemplo do Flamengo. Trouxe um argentino (Gonzalo Garcia), não ganhou nada. Veio o Neto, organizou a casa, foi campeão mundial. No Minas a mesma coisa. Todo ano era um argentino. E nada contra argentino, por favor. Mas aí vem o Demétrius. Sem verba, sem estrela, olha lá o que ele está fazendo. Gustavo de Conti, no Paulistano, outro grande trabalho. Acho que o Magnano cumpriu o trabalho dele, mas eu hoje não trabalho pensando na seleção, não. Trabalho para ser um bom profissional para Bauru, onde estou muito feliz.

guerra11BNC: Você falou antes sobre análise de resultados. A imprensa de basquete do Brasil analisa demais pelas conquistas e menos pelo trabalho?
GUERRINHA: Não é a imprensa. É a nossa sociedade mesmo. A sociedade vive muito de rótulos. É a marca, é o currículo que contam. Se fosse pelo meu currículo eu seria titular de Bauru. Mas eu não sirvo nem pra completar treino mais. Acho que às vezes há muitas tendências, tipo a de que técnico brasileiro é ruim. Eu lembro que te procurei uma vez e te disse: “Fábio, quero te mostrar que técnico brasileiro é bom, que tem seu valor”. Nós não podemos generalizar nem pro bem e nem pro mal. Há técnicos que estudam e há outros que não estudam. Você vê. Eu fiquei revoltado ano passado quando fui a um treino da seleção brasileira em São Paulo e o próprio Rubén Magnano me olhou atravessado. Poxa, eu fui um patrimônio da seleção no passado, joguei 13 anos. Será que se estivesse dando treino na seleção da argentina ele fecharia a cara e nem cumprimentaria um ídolo do passado? A gente aqui no Brasil não pode assistir a um treino. Tem que ser aberto. Óbvio que vai ter o seu momento tático, o seu momento mais reservado, aí você fecha e pronto. O que não pode é blindar. Aqui não é Estados Unidos. Culturalmente é preciso da abertura. E já falei isso para a Confederação. A CBB deveria colocar ao técnico como devem ser feitas as coisas também. Se não a seleção fica muito longe de imprensa, técnicos, ex-jogadores, torcedores mesmo. Na nossa época a gente recebia técnico de tudo que é canto.

guerra4BNC: E fora de quadra, quem é o Guerrinha?
GUERRINHA: Sou muito diferente fora de quadra. Sou um cara muito simples, muito tranquilo. É difícil, porque agora os filhos moram longe, mas quando podemos nos reunir é sempre uma festa. Os três são nascidos em Franca, mas hoje estão morando longe – o Guilherme em Ribeirão Preto, o Marcelo em Goiânia e a Carolina, agora nos Estados Unidos. Gosto de cuidar do meu jardim, de cozinhar e de cuidar da casa. Amo pescar. Não sou muito bom, mas eu gosto.


Personagens do Basquete Brasileiro: Alberto Bial
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Fábio Balassiano

bialAos 62 anos, Alberto Bial é casado com Leila, pai de Melina e Marcela, avô de Alice (5 anos) e dono de uma das mais ricas histórias do basquete brasileiro. Formado como atleta nas categorias de base do Fluminense, dirigiu Botafogo, Liga Angrense, Vasco, o próprio tricolor das Laranjeiras, seu time do coração, Goiânia, Joinville e está no Basquete Cearense, único representante do Nordeste no NBB, há três temporadas. Saiba mais da história e do que pensa Alberto Bial no papo abaixo.

BALA NA CESTA: Pouca gente sabe, mas você não é carioca…
ALBERTO BIAL: Verdade. Nasci em São Paulo. Nasci em uma coxia de teatro praticamente. Meu pai era contrarregra do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), da Cacilda Becker. Minha mãe fazia figurino, mas era um período complicado. Meu pai e minha mãe são imigrantes alemães que fugiram da Segunda Guerra Mundial e se encontraram no Brasil. Conheceram-se em São Paulo e foi lá que eu nasci. Meu pai não conseguia emprego e aí sim viemos para o Rio de Janeiro. Minha família não era do esporte, sabia? Eu fiz uma inclusão distinta, diferente e que acabou dando muito certo. Por ser muito magro eles me colocaram no Fluminense, perto de onde morávamos, para nadar. E aí a transformação aconteceu. Ele era um viciado em corrida de cavalos e quando comecei a nadar ele passou a me acompanhar no clube, viver o dia a dia do clube. Acho que a partir dali a família inteira passou a gostar de esporte – e também do Fluminense, claro.

pinheiroPor uma dessas sortes da vida um dos meus melhores amigos da natação era amigo do Pinheiro (foto à direita), do Jair Marinho, do Zezé Moreira, ícones do futebol do Fluminense na época. Eu virei o “Pirão”, meu apelido, e eles passaram e me levar para todos os lugares. O Pinheiro, já técnico no América anos depois, tentou me levar para fazer um teste lá mas eu fui um desastre. Ficava impedido toda hora, ficava com vergonha. Lembro de um dia na casa deste meu amigo e estavam Pinheiro, Zezé, o Castilho, lendário goleiro do Fluminense e meu maior ídolo, Telê Santana e muito mais. Eles me adotaram e meu pai começou a ir comigo a todos os jogos do Fluminense, do juvenil ao profissional com os aspirantes no meio disso. Ou seja, a gente passava o dia inteiro no clube e vendo as partidas com aquelas feras. Foi uma iniciação esportiva e tanto.

bial1BNC: E sua história no basquete, começou como?
BIAL: A primeira equipe adulta que eu dirigi foi em 1983. Minha vida no basquete começou 20 anos antes quando meu pai me levou para ver a final do Mundial masculino no Rio de Janeiro de 1963. Tinha 11 anos, cara. O Brasil venceu os Estados Unidos e eu fiquei maluco quando vi o Amaury Pasos jogar. Ele sempre foi uma grande referência técnica para mim. Foi a primeira vez que pisei no Maracanazinho, ele estava lotado e vi o Brasil ser campeão mundial. Já nadava pelo Fluminense, queria ver outras coisas, me levaram para uma quadra de basquete e ali começou tudo.

BialBNC: Você lembra como foi seu primeiro jogo de basquete?
BIAL: Claro que lembro. Foi um Fla-Flu infanto-juvenil. Foi um Fla-Flu, rapaz, veja só. Isso eu tinha 12 anos, era um brigador, insistiram comigo. Aos 13 comecei a jogar todas as categorias pelo Fluminense. E ganhava tudo. Não porque eu era bom, não, mas porque no nosso time estava simplesmente o Marquinhos. Marcos Abdalla Leite é um dos maiores jogadores do basquete brasileiro e jogava conosco. Dos 14 aos 24 anos eu ganhei todos os campeonatos que disputei pelo Fluminense. Foi uma coisa impressionante. Do infanto, passando pelo juvenil e chegando ao primeiro ano de adulto nós ganhamos tudo, você consegue imaginar isso? Aí o Marquinhos foi embora para São Paulo, chegaram outros caras (Sergio Macarrão, Peixotinho etc.) e continuamos com time bom. Tanto é assim que fomos pentacampeões cariocas direto (de 1970 a 1974), uma coisa incrível. Da base até aquele momento eu não sabia o que era perder. Era muito louco. Aí em 1974 o Francisco Horta, presidente do clube, acabou com o basquete do Fluminense e eu fui parar em que time? No Flamengo. E fui campeão logo de cara. Ganhamos o campeonato carioca em 1975. No ano seguinte perdi o campeonato para o Vasco e aí sim comecei a entender o que de fato era o esporte. A essência daquilo tudo, exaltar os vencedores, entender o lado da derrota. Foi há exatos 30 anos e um grande aprendizado para mim. Achei que era imbatível, predestinado, essas coisas.

bialBNC: E nessa época você já era técnico, certo?
BIAL: Sim. Entrei para a Faculdade de Educação Física em 1970 porque fiz uma redação bonita e era um cavalo de forte. Sempre fui um péssimo aluno, mas passei em primeiro lugar no vestibular. Ninguém queria cursar Educação Física, Bala. Tinha 18 anos e naquela época era coisa de malandro. Ainda estudando o Fluminense montou uma categoria de Mini-Basquete e acabei me sobressaindo. Logo em seguida houve um Mundialito de Mini-Basquete na Espanha em 1971, eu fui o técnico e em 1972 a mesma coisa. Era uma espécie de Festival de Basquete com uma turminha de garotos de 80, 90 países. Então eu treinava um cara do Congo, um Etíope, um Suíço, era uma mescla bacana e eu só não podia treinar brasileiro. Foi um aprendizado incrível. E eu tinha 18 anos, veja só. E sabe quem foi comigo? O Beegu, o Marcos Mendes, que jogou no Flamengo e hoje é um dos maiores especialistas em Sistema de Triângulos no Brasil. Ali não parei mais. Quando fui para o Flamengo em 1974 eu botei uma banca: “Só vou se me derem um time das categorias de base para treinar”. E toparam. Depois fui para o Municipal, melhor trabalho de base que fiz com certeza, Mackenzie e aí voltei para o Flamengo. Rapaz, aí teve uma história engraçada. Um Sheik árabe veio contratar um técnico de futebol no Flamengo e me viu na quadra de basquete. O Djalma Cavalcante, este técnico do futebol, falou para o Sheik: “Não quer levar o de basquete também?”. E aí o Sheik se interessou, me levou para montar um time de basquete. Ainda joguei um Flamengo x Botafogo, arrebentei e fui para os Emirados Árabes Unidos. Isso foi em 1983. Fiquei três anos de treinador lá, uma experiência sublime.

bial2BNC: Ali você de fato começou sua carreira de técnico então…
BIAL: Sim. E vou te contar a história toda. Terminou lá em 1986 e não arrumava mais mercado. As pessoas me perguntavam se eu queria jogar e tal, mas meu negócio já era ser técnico. Aí o Botafogo me chamou. Vesti a camisa do Botafogo na alma mesmo. Não tinha dinheiro, mas tinha uma molecada boa. Fiquei lá por cinco anos e em 1991 o Emil Pinheiro, presidente que tinha ajudado o Botafogo a ganhar o Estadual de futebol em 1989 depois de anos na fila, me chamou e perguntou: “O que precisamos fazer para ser campeões estaduais?”. E eu respondi: “Me traz dois americanos que a gente ganha isso”. Os outros times eram bons, o Flamengo era um timaço e eu recebi os americanos. Adivinha? Ganhamos a final do Flamengo de 2-0. Foi um período maravilhoso. Lembro até hoje do dia. Foi no dia 20 de dezembro de 1991 e o Maracanazinho estava lotado. Depois disso o Botafogo nunca mais ganhou no basquete, você acredita? Meu primeiro título carioca como técnico adulto foi justamente no palco que eu pisei pela primeira vez para ver uma partida. Aí fiquei uns três anos em Angra, fomos campeões em 1993, mas era tudo muito familiar, pouco profissional ainda.

albertoBNC: Aí eu me lembro bem pois foi quando comecei a acompanhar. Você voltou ao Fluminense…
BIAL: Exato. Foi em 1995, 1996 que me chamaram de novo para o Fluminense. Comecei o trabalho, estruturei tudo, montei o time. Fiquei um pouco lá e o Vasco, que tinha acabado de retomar suas atividades depois de quatro anos parado, me chamou para tocar o projeto. O diretor era o Fernando Lima. Achei sensacional um clube que eu nunca tinha representado me chamar para ser o técnico do adulto. E aí eu fui e logo em 1997 fomos campeões estaduais em cima do Flamengo em uma final que vencemos por 3-2. Fomos campeões Sul-Americanos naquele ano, chegamos na final contra o Flamengo, perdemos de 3-2 e fui mandado embora na véspera do Natal de 1998. Aquele momento me machucou, cara. Em um ano eu estava pintando como grande técnico, a gente viaja nessas coisas, e no ano seguinte eu estava sendo demitido depois de perder uma final. Foi meio duro, mas quem abriu as portas para mim de novo? O Fluminense. Em 1999 eu voltei ao clube.

espigaBNC: Foi nessa época que você montou um bom time lá, né?
BIAL: Pô, cara, eu lembro que você colocou no seu Facebook a escalação toda daquele time e eu fiquei todo arrepiado. Foi o time que eu mais gostei de dirigir, você sabia? Eu botava Espiga (foto à direita), hoje meu assistente-técnico, e Alberto na armação, Brent na ala, Mike Higgins e Gema perto da cesta. Foi um trabalho legal, né?

BNC: Foi com esse time aí que eu passei a ir no ginásio, Bial. Se quiser eu escalo os 12 aqui direto…
BIAL: (Risos) E, olha, eu adorava aquele time. Poderíamos ter sido campeões, poderíamos ter chegado mais longe. Perdemos um playoff de Estadual para o Botafogo na terceira prorrogação, uma loucura. Estava tudo lindo, trouxemos muita gente, o time estava pronto para ser campeão mas faltou dinheiro. Lembro bem de um jogo que ganhamos já com o Marcelinho Machado no nosso time. Foi a estreia do Nacional de 2002 contra o Uberlândia…

brentBNC: A estreia do Nacional daquele ano. A Band transmitiu. Era um domingo ao meio-dia, um calor dos infernos…
BIAL: (Risos) Você lembra disso como? Era isso mesmo. Uberlândia tinha um timaço, eu lembro que estavam lá Valtinho, Vargas, Márcio, Cambraia, só fera. O jogo foi transmitido pela Band, o narrador era o Sílvio Luiz, o hino nacional cantado pelo Alexandre Pires, um cenário insano mesmo. Fizemos um último período extraordinário (24-15) e vencemos os caras lá. Naquela época eu fumava muito e prometi que se ganhasse aquele jogo pararia de fumar. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida ter parado naquele momento, mas mesmo assim tive um enfarte anos depois – e lógico que ter fumado por tanto tempo “ajudou”. Tivemos bons momentos, poderíamos ter ganho, mas não aconteceu. Lembro que perdemos um jogo de playoff para o Vasco estando ganhando de 8 pontos faltando um minuto. Coisas de Hélio Rubens, de quem eu sou fã. Aí surgiu o Ajax, de Goiânia, com uma mega proposta e eu fui.

bial3BNC: Você falou do Hélio Rubens. Você é amigo de todos os técnicos?
BIAL: Amigo, não. Mas eu me relaciono com todos eles. Outro dia um jovem treinador veio me perguntar como eu fazia essas coisas de dialogar e tal e eu disse pra ele que é preciso ter união e humildade. Lembro que quando treinei nos Emirados tinha muito técnico eslavo, dessa escola fantástica. Eram pessoas simples, humildes. Aqui no Brasil técnico ganha dois, três jogos e já fica com nariz empinado, é uma coisa de louco. Se acham demais, se levam muito a sério, se acham acima do bem e do mal.

fluBNC: Há dois jogos dessa época sua de Fluminense que me marcaram muito. Eu era torcedor de arquibancada, ia aos ginásios e te xingava muito, mas de fato aquele era um time bacana de torcer. Lembro de um jogo domingo pela manhã no Municipal que o Fluminense perdeu da Uniara, do Tom Zé, uma partida muito ganha e que você ficou enfurecido. E outra em um estadual que o Pablo, hoje assistente-técnico de Macaé, roubou uma bola no meio-campo e o Espiga ganhou um jogo contra o Botafogo no Maracanazinho com uma bandeja…
BIAL: Lembro bem dos dois momentos. Contra o Uniara foi meu último ano. Ali já estava meio enrolado, com problema de salário atrasado, essas coisas. Do jogo do Pablo eu lembro que o José Trajano, da ESPN-Brasil, estava no ginásio e quando ganhamos eu saí correndo que nem um maluco para abraçar minha família e dei um abraço no Trajano. Ele até escreveu uma coluna no jornal no dia seguinte sobre isso.

bial4BNC: O que me chama a atenção em você é que apesar de ser muito identificado com o Rio de Janeiro você sempre pegou projetos em lugares sem muita tradição de basquete e colocou estas cidades, estes times, em evidência. Já parou para pensar que mais do que um técnico seus papéis ultimamente têm sido de fomentar a modalidade? E isso é um mérito incrível ao meu ver…
BIAL: Já pensei sim, Bala. Vejo e de certa forma foi bem consciente. Eu sempre fui um rebelde. Sempre fui um rebelde contra o sistema, contra tudo. Detesto essas coisas de fazer o modismo. No basquete o Waldir Boccardo ia para os Estados Unidos, trazia algumas coisas e todos copiavam. Achava aquilo terrível. Tínhamos que aprender, sim, mas nada de só ficar copiando. Precisávamos adaptar, trazer para a nossa realidade. Essa minha rebeldia, vamos lá. Essa corrupção que hoje estoura aí eu já tinha percebido há 20, 30 anos fazendo esporte e lidando no dia a dia com algumas situações bizarras. Os pais de alguns meninos que jogavam comigo eram lobistas, faziam coisas erradas, era terrível. Antes eu era rebelde sem causa. No começo dos anos 2000 eu percebi que dava para fazer um pouco da transformação que eu sempre sonhei através do esporte. E isso é o que me dá fôlego, me dá essa entusiasmo, me dá essa vontade de viver e de continuar fazendo. Eu acho que com o basquete eu posso trazer muitas oportunidades para crianças e jovens aqui no Brasil. O esporte é muito mal utilizado aqui no Brasil, essa é que é a verdade. Canso de ver em Santa Catarina, no Ceará, em Joinville o desperdício de talento. Adoro competir, odeio perder, amo fazer parte do NBB, mas o que me fascina mesmo é o social, a educação, os valores que o esporte transmite. E foi isso que coloquei na minha cabeça. Onde quer que eu fosse eu iria fazer dos meus projetos uma grande pirâmide de transformação social. É isso o que que tenho tentado fazer no Ceará. Estamos completando três anos de projeto e tenho certeza que deixarei coisas boas, um legado importante por lá. O Brasil tem que ser potência mundial no basquete. E eu não acho isso por achismo, não. Tenho certeza disso porque aqui as pessoas amam basquete, há material humano de sobra e há grandes técnicos também. Eu vejo às vezes discussões sobre a qualidade dos técnicos e isso me revolta um pouco. Temos ótimos treinadores por aqui. Olha um Hélio Rubens, um Ary Vidal, um Gustavo de Conti, um Régis Marrelli, um José Neto e olha a capacidade desses caras. Aqui não se valorizam os técnicos por nada. E outra: o cara que vem de fora é o máximo, é sempre uma unanimidade. Veja o exemplo do Rubén Magnano, técnico da seleção masculina adulta. Ele é excelente, campeão olímpico, mas, poxa, ele é humano e às vezes erra. É natural, você não acha?

rubenmBNC: Não só acho como eu devo ser o único que o critica quando ele erra…
BIAL: Mas é claro. Todos erram. Só o que me bate estranho é que quando ele erra os erros dele não são nunca questionados. Agora, um técnico daqui quando faz algo errado em um jogo de NBB, em uma seleção, é um inferno, o mundo acaba. A gente aplaude por ser um campeão olímpico, mas se fosse um brasileiro seria criticado absurdamente. Não tenho referência como técnico, mas se tivesse que encontrar alguém eu colocaria o Hélio Rubens como minha maior referência. E hoje ele está fora do NBB. Isso é impossível na minha cabeça.

BNC: Como é a sua relação com a imprensa?
BIAL: Olha, Bala, eu venho de uma família com um jornalista. Então eu entendo bem o trabalho de vocês. Não existem perguntas mal feitas. Existem respostas mal respondidas. Por isso eu tenho respeito. Sem o jornalista não tem esporte – principalmente o basquete, que tem tão pouco espaço. A única coisa que eu acho que poderia acontecer mais é valorizar mais são os esportes olímpicos que não o futebol. Não tem só o futebol por aqui. Há pessoas fazendo ótimos trabalhos em outras modalidades. A imprensa esportiva do Brasil melhorou demais, mas falta um maior aperfeiçoamento. Há pouquíssimos que cobrem basquete, por exemplo. Precisamos de mais opiniões. Você escreve bem, mas quanto mais diversidade, melhor. Precisamos de mais vozes. A grande riqueza do Brasil é a pluralidade.

felipaoBNC: Tem uma questão dos técnicos que me chama muito a atenção. Quando o Brasil perdeu de 7×1 de Alemanha eu vi um tratamento absurdo em relação ao Felipão. Ele errou muito, foi mal na Copa, mas muita gente disse que os 7×1 apagariam o título mundial dele de 2002. Falta um pouco de respeito aos técnicos do Brasil de um modo mais amplo?
BIAL: É muito ruim o tratamento, Bala. Quando minha filha foi para os Estados Unidos estudar eu fui por quatro anos para lá. O técnico da faculdade me recebia, ficávamos juntos, eu ia ver os jogos e treinos e percebi que o tratamento dispensado a ele era absurdamente diferente do o que vemos aqui. Os técnicos são tratados com respeito. Acho que a palavra é essa – ‘respeito’. Hoje eu entro em ginásios e sou xingado. Entro no ginásio do Flamengo e minha mãe de 90 anos me vê sendo xingado de “filho da…”. Isso é legal? Isso é educado? O respeito só é adquirido com educação. E isso a gente não deixa de ver só no esporte, não. Quantos pais de família você vê educando bem? A questão é maior do que apenas esportiva.

bial5BNC: E é muito difícil fazer basquete no Nordeste? Há preconceito, você percebe isso?
BIAL: Não é preconceito, mas sim uma distância, uma dificuldade diferente. É tudo mais difícil, mas a vontade de acertar que eu vejo por lá é incrível, dá muito gosto. O que nosso time Sub-22 está fazendo na Liga de Desenvolvimento (LDB) é belíssimo. Eles aceitaram nossas condições e foram com tudo em busca do objetivo deles.

BNC: Que condições?
BIAL: Fazer no amor, fazer na raça mesmo. Quando voltei para lá em julho, agosto, eu falei para essa molecada das condições e eles toparam, foram pra cima e hoje estão na ponta da LDB. Isso é emocionante, isso mexe com a gente.

BNC: Seu time fechou 2014 com salário atrasado, certo?
BIAL: Sim, estamos com salário atrasado. E eu faço questão que isso não afete. Vamos regularizar, tenho certeza disso. Sei que é difícil, tenho 62 anos e consigo assimilar, mas eu falo para a molecada que o objetivo está lá na frente e não no salário em si. Olha o caso do Davi. Ele não está preocupado com o que está acontecendo. Tem o que comer, tem os suplementos para tomar, tem a academia para ganhar físico e está fazendo um NBB brilhante. Colocou na cabeça que o foco é o basquete, o jogo, a quadra e está se saindo muito bem.

aaalbertoBNC: Mas, Bial, isso não é uma praga (de salários atrasados) no esporte brasileiro? Não terá fim isso?
BIAL: Sem dúvida, Bala. Isso é a cara do Brasil. O que se planejou no Brasil até hoje? Por aqui foi sempre tudo assim, sem nenhum planejamento, nada. Entra um governo, sai outro e muda-se tudo. O Brasil tem mais de 500 anos e eu nunca senti um pouco de planejamento no cotidiano. Não é o nosso caso lá no Ceará, que isso fique claro. Tivemos problemas burocráticos, mas estamos acertando. De todo modo você está certo. É algo que não pode mais ocorrer mesmo. A organização é sempre fundamental e temos que buscar isso fortemente.

bial9BNC: E onde você acha que dá pra chegar com o Basquete Cearense?
BIAL: Olha, Bala, eu sou um cara com muitas ambições, com muitos sonhos. Fico pensando se eu consigo colocar o Basquete Cearense, o Nordeste como campeão do NBB. Pode ser que pensem em mim para a seleção brasileira. Por que não? Se eu não pensar assim que pensará? Você já imaginou que coisa bacana que seria? E isso é possível. Precisamos de um pouco mais de grana, mas temos boa estrutura, uma torcida fanática. O sonho é meu combustível para viver mais e sempre melhor. É como o Michael Jordan dizia: a meta tem que ser sempre a mais alta possível. O que eu mais me apego, mesmo, é onde eu acho que tenho mais a acrescentar: nas relações humanas, na gestão de pessoas. E isso é hoje tão difícil, não é mesmo? Hoje em dia a gente vê tanto problema, tanta falta de verdade. É difícil apertar a mão e olhar nos olhos. A honestidade está no dia a dia mesmo. As pessoas estão admirando as pessoas erradas, Bala. Tem pessoas que eu gostaria de falar aqui e que não vou falar. Os ícones estão todos errados. As pessoas admiradas no esporte hoje estão todas corrompidas. E o esporte é justamente o inverso disso. Olha aí o exemplo do vôlei, Bala. Machuca quem foi criado dentro de uma quadra, pode ter certeza. O Shilton, hoje no Minas, é o exemplo mais claro disso. Lembro que quando o dirigi em Joinville nem ele acreditava nele e eu dizia: “Você é muito bom, cara. Você sabe fazer coisas que ninguém sabe. E você é líder por natureza”. E ele acreditou nele mesmo, passou a fazer coisas importantes para o nosso time e depois veio para o Flamengo ser campeão de NBB e peça importante na equipe.

fernandoBNC: Você falou muito sobre política e queria dividir as duas coisas, se é que é possível. A esportiva e a de Brasília, digamos assim. Como é para um técnico, um grande formador de pessoas, ver as pessoas que estão nos maiores escândalos hoje terem sido jogadores. O Ary Graça, e eu não estou fazendo julgamento aqui, está envolvido em uma série de problemas graves. E veio da quadra…
BIAL: Pô, Bala, isso é muito triste, triste mesmo. Você fala dessas coisas… machuca, cara. Vou te contar uma coisa. Um dos melhores atletas que eu tive na minha vida chama-se Fernando Cavendish. Você tem noção disso? (Nota do Editor: Fernando Cavendish foi presidente da Delta, empresa de Engenharia investigada por uma série de irregularidades – mais aqui). Ele foi meu jogador no Flamengo e era extraordinário. Eu fico pensando: como isso acontece, como ele é levado a essa condição? Eu não tenho a menor dúvida que foi muito educado, jogava basquete pra cacete e era amigo do time inteiro. Eu nem sabia exatamente no que ele estava trabalhando quando começaram a surgir os problemas. Quando olhei um dia no jornal a foto dele fiquei mal, aquilo me deu uma tristeza absurda. Vi a foto e entrei em choque.

guardanapoAquela foto com guardanapo na cabeça em Paris me deixou muito mal. Que fique claro. Eu não estou fazendo nenhum tipo de análise dele como pessoa, até porque fico sabendo das coisas por jornais, mas que dá uma tristeza, isso dá. Na nossa família tivemos muitos problemas na infância, o Pedro (Bial, irmão dele) é um sucesso que todos conhecem e jamais se envolveu em um problema ético desses. Se isso tivesse acontecido seria a morte para a nossa família…

BNC: Atleta se mete pouco em questões políticas do esporte?
BIAL: Sim. Atleta deveria se envolver mais, sim. Mas são poucos com visão, com essa capacidade de olhar o todo. Os jogadores pensam de forma muito curta, muito individual. É complicado isso. Hoje no meu time tenho o Davi, o Fischer, mas são poucos que é possível olhar e conversar sobre tudo. Muita gente só pensa no seu, em si, e política é ir além, é pensar no todo, no bem comum, no coletivo. Vou te contar uma coisa. Eu fui chamado por uma professora de uma escola estadual (Torres Cavalcante) de Mucuripe, perto de onde eu moro. Havia uma série de rebeliões, tráfico, violência e as crianças não conseguiam ir às aulas, professores não conseguiam dar aula. A professora me pediu uma ajuda. Eu fui lá com meu time. Fizemos um trabalho na comunidade, com as crianças, com tudo. Hoje as crianças vão às aulas e está tudo bem. Isso me dá um orgulho danado, Bala. Hoje estão tendo campeonatos de basquete. No recreio há partidas de basquete. Olha como essa gestão ajudou a transformar a região. O resultado vem rápido. Eu falei uma hora, o time se apresentou e no final fizemos um círculo, essas coisas. Olha aí, deu certo.

bial19BNC: No tema de uma política mais ampla. Você está morando no Nordeste, um dos grandes focos da eleição presidencial passada, com muita gente falando besteira. Como você vê o país de lá e o que está esperando para 2015 do Brasil?
BIAL: Eu morro de medo. De corrupção, de tudo. O mais importante pra mim é o sentimento da rua, o sentimento desse Brasil que quer passar por uma transformação. O Brasil precisa disso, precisa dessa transformação. As mudanças, pelo que eu entendo, precisam partir do povo, mas eu não vejo o povo pronto para exigir isso, pronto para partir para essa mudança. Eu estava lá no Ceará e vi muita gente falar nessa separação (do Brasil). Isso é uma idiotice. O Brasil tem muitas pessoas de bem, que podem mudar o país, mas isso passa por um processo político de mudança.

Alberto Bial teEle sofreu um acidente isquêmico transitórioBNC: Falamos muito sobre a palavra respeito e de longe eu acompanhei a sua saída de Joinville. Te machucou muito aquilo ali, não?
BIAL: Ah, Bala, aquilo ali foi horrível. Foi assim, cara. Lá eu fui buscando pessoas para fazer o projeto comigo e fiquei por lá 7 anos. Sozinho você não faz nada e eu tive pessoas que me ajudaram muito. Só que o projeto cresceu, algumas coisas aconteceram e certamente não terminou da maneira que eu acreditava. O olho cresceu, o ambiente ficou muito ruim lá. Abri mão de muito dinheiro, de prestígio. Fui ameaçado, fui caluniado, fizeram o diabo da minha pessoa lá em Joinville. Foi muito traumático pra mim. Eu perdoo tudo, mas isso eu demorei a perdoar, acredita? Só quando surgiu o Ceará que eu consegui apagar isso da minha cabeça. O Espiga até hoje não conseguiu (perdoar). Não quero falar de nomes, mas houve pessoas que eu confiei e que depois me apunhalaram pelas costas de uma maneira horrível.

kouros1BNC: Você viu a Liga Nacional sair do papel e sete anos depois já temos o NBB associado à NBA. Como você enxerga o NBB hoje?
BIAL: Traz entusiasmo, cara. Tudo o que vem deles (da NBA) é bem feito, dá certo. Eles sabem mexer, sabem fazer coisas. Aqui é o contrário. Quase tudo o que a gente faz dá merda, dá problema. Ninguém aqui sabe trabalhar o coletivo, sabe mexer realmente pensando no bem comum. Aqui apareceu o Kouros Monadjemi (foto à direita), primeiro presidente da Liga Nacional. Mas ele é um cara. Lá na NBA são todos. Comercialmente ela vai mostrar de que forma é que são trazidos parceiros e torcedores para dentro dos ginásios. Eles sabem fazer não só basquete, mas também a seleção de pessoas para os cargos importantes para o desenvolvimento do produto basquete. Nisso eles são craques e precisamos aprender. O sentimento que fica, depois desse tempo todo, é de orgulho. E lá atrás eu acreditava, posso te dizer isso. Estamos andando, mesmo que de forma lenta, mas estamos andando, estamos caminhando e a evolução é nítida. Olha essa Liga de Desenvolvimento, que coisa linda, que coisa espetacular. Precisamos explorar mais isso no Brasil, precisamos criar essa cultura do bem maior, do coletivismo no Brasil. O Kouros sabe que ele foi o grande responsável por isso, por juntar a todos na mesma página. Se não for dessa forma não vai pra frente. O basquete é a metáfora da vida, Bala.

pedroBNC: Quem é seu maior crítico?
BIAL: Ah, o Pedro. Ele me dizia que eu tratava jogador com muita benevolência, com muito carinho. Pedro me dizia que eu precisava tratá-los no máximo do profissionalismo, no máximo da razão. Uma vez ele citou uma frase do Armando Nogueira (jornalita, ex-chefe do departamento de jornalismo da Globo): “Não administre caráter. Administre talentos. Essa é a sua função como gestor de equipes”. Nunca quis mudar o caráter de ninguém e passei a administrar talentos com mais profissionalismo ainda.

finalBNC: Pra fechar. Como é o Bial em casa?
BIAL: Ah, Bala, nós, a Leila e eu, ficamos muito sozinhos no Ceará. O restante da família fica no Rio de Janeiro. Temos 41 anos de união e a Leila é uma mulher muito parceira. Quando estamos no Rio temos a casa da minha filha Melina, que é mãe da Alice, minha neta de 5 anos, da Marcela, minha outra filha, da minha mãe, Suzane, de 90 anos, e a do Pedro, meu irmão. Minha mãe é que é fogo, rapaz. Não perde um jogo do Fluminense. Outro dia teve um churrasco na casa do Pedro e ela só foi porque ele garantiu que teria uma televisão para ela ver a partida. Sinto falta deles, mas sentiria muito mais falta do basquete se estivesse no Rio de Janeiro sem poder treinar. Eu sem o basquete eu não consigo me relacionar com as pessoas. Adoro competir, cara, e hoje eu sei ganhar e perder. Por isso minha vida no Ceará acaba sendo 100% basquete. No repouso eu acabo vendo vídeo, falando com jogador, preparando o treino da semana. O basquete não me enjoa, cara, isso é o mais importante da vida.

BNC: Quando as pessoas forem lembrar do Alberto Bial daqui a 40 anos, como você gostaria de ser lembrado?
BIAL: Olha, gostaria de ser lembrado como um cara que formou pessoas. Como um professor mesmo. Quando ouço isso de algumas pessoas há um valor imenso. Queria ser visto como um cara solidário, que amou o que fez e que conseguiu melhorar as pessoas a sua volta.


Novidade no blog: Personagens do Basquete Brasileiro
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Fábio Balassiano

Começa amanhã a série ‘Personagens do Basquete Brasileiro’ aqui no Bala na Cesta. Nela alguns nomes importantes e com muita história para contar do basquete brasileiro serão entrevistados de forma longa, bem detalhadas. O objetivo é mostrar um pouco mais de pessoas que já estão por aqui fazendo o nosso querido basquete faz tempo.

Começaremos, amanhã, com Alberto Bial, técnico agora no Basquete Cearense, único representante do Nordeste no NBB, e com histórias ricas em Joinville, Goiânia, Fluminense e Vasco. Fiquem de olho. O papo ficou realmente muito bacana.

Depois dele outros personagens ricos em histórias passarão por aqui.


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