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Bala na Cesta

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Qual o saldo da campanha da seleção masculina no Mundial da China?

Fábio Balassiano

10/09/2019 05h38

A seleção brasileira terminou a sua participação no Mundial da China na décima-terceira posição ontem após perder dos Estados Unidos, e a pergunta que fica agora é: como avaliar o time do técnico croata Aleksandar Petrovic no torneio? O que deu certo? O que deu errado? O saldo foi positivo? Vamos lá!

O QUE DEU CERTO

1) Veteranos -> Dos cinco primeiros cestinhas do Brasil no Mundial, quatro deles (Varejão, Alex, Marquinhos e Leandrinho) passaram dos 34 anos já. Alex, com 39, foi um dínamo contra Grécia e Nova Zelândia, na primeira fase, por exemplo. Jogaram muita bola e mostraram que a aposta do técnico Aleksandar Petrovic neles deu muito certo. Nenhum deles jogou mais de 22 minutos por partida, numa prova que o treinador conseguiu controlar bem o tempo de quadra dos veteranos.

NO PODCAST, ECOS APÓS A ELIMINAÇÃO DO BRASIL

2) Os dois armadores -> Os dois principais responsáveis pela condução do jogo do Brasil foram muito bem em partidas diferentes. Contra Nova Zelândia e Grécia, Rafa Luz arrebentou. Huertas foi bem contra Montenegro e Estados Unidos, principalmente. Dá pra imaginar uma rotação tripla, contando com a dupla que foi a China e também com Raulzinho, que não esteve no Mundial devido a lesão.

3) O técnico Aleksandar Petrovic -> Não resta dúvida que é um trabalho em desenvolvimento, uma obra em progresso, mas deu pra ver um Brasil com uma mentalidade diferente, um basquete mais arejado e com planos de jogos muito bem definidos contra adversários fortes (Grécia e Estados Unidos principalmente). Petrovic rodou bem o elenco, distribuiu minutos, deu uma roupagem mais moderna ao basquete do Brasil e mesmo com a geração longe de estar no auge competiu bem em todos os jogos. Eu gostei do que vi para uma primeira impressão. Quem sabe com mais tempo jogadas bem conhecidas do basquete mundial ("pepino", uma variação do sistema motion) podem ganhar um pouco mais de robustez.

O QUE PRECISA EVOLUIR

1) Faltam jovens pra aumentar a intensidade -> Está óbvio que temos um hiato de gerações. Quem deveria puxar o carro da seleção neste nível seriam jogadores de 25, 26, 27 anos. Nesta "altura" temos apenas Rafa Luz e Vitor Benite, que foram bem, mas é pouco. Yago foi muitíssimo mal e ainda sente o jogo internacional. Didi foi bem até fazer besteira contra a Grécia, não se recuperando mentalmente até o final da competição. Faltam opções e isso será cobrado em torneios curtos, onde a intensidade precisa ser mantida por 40 minutos. Em Olimpíada e Mundial os 12 jogadores precisam estar muito na ponta dos cascos e os mais novos também prontos para imprimir velocidade e intensidade quando a dos veteranos cair. Não foi o que ocorreu na China.

2) O jogo de garrafão -> Não dá pra jogar um Mundial com três jogadores de garrafão apenas. Augusto Lima não foi utilizado, Cristiano Felício foi muito irregular e apenas Anderson Varejão e Bruno Caboclo tinham a confiança de Petrovic. Precisam-se de corpos perto da cesta e também de pivôs que espacem a quadra para gerar arremessos. Rafael Hettsheimeir ainda me parece um bom nome para a seleção brasileira, e talvez testar Lucas Dias, ala de Franca, seja necessário. Ir a um torneio deste nível tão "curto" assim me parece um equívoco.

3) O senso de urgência -> Ainda não me conformo com a derrota do Brasil para a República Tcheca no último sábado, vocês vão me desculpar. É um time inferior, com apenas um atleta de primeiro nível (o armador Tomas Satoransky) e me parece que a seleção nacional não entrou com o devido senso de urgência para uma partida que era, sim, de vida ou morte. Se tivesse ganho, jogaria um amistoso nesta segunda-feira contra os EUA – e não com a necessidade de vencer um rival difícil pacas. Não sei exatamente se faltou alguma palavra de ordem mais forte, algum estudo prévio do rival ou algo assim, mas a postura não foi boa, a intensidade tampouco e a forma como o rival foi destrinchado me parece que não foi a ideal.

SALDO

Ficou um gosto de "quero mais", uma oportunidade de ir mais longe em um torneio dificílimo e com chance de garantir vaga no Pré-Olímpico Mundial após as três primeiras vitórias em uma chave que, sim, tinha tudo pra causar danos à seleção brasileira.

NICOLAS ASFOURI / AFP

Vamos remoer a partida de 7 de setembro contra os tchecos durante muito tempo e vai ser assim mesmo. O esporte não perdoa esse tipo de equívoco, ainda mais em competição de tiro curto. De todo modo, é preciso reconhecer que com uma geração veterana, com pouco tempo de gestão Petrovic (ele está com esse grupo que foi a Copa do Mundo há menos de seis meses), com as dificuldades financeiras de uma CBB ainda asfixiada em dívidas e com esse formato de Mundial bem complicado (levar campanhas de grupos tão distintos assim é surreal…) a campanha foi bem satisfatória.

Ao contrário dos últimos anos, quando houve torcida in loco (Rio-2016), elenco recheado de jogadores da NBA (que JOGAM na NBA – e não que ESTÃO na melhor liga do mundo) e um punhado de amistosos de alto nível, a barra não estava tão alta assim e a expectativa talvez na medida do que somos no cenário do basquete mundial. Vencemos um jogo improvável (a Grécia), perdemos outro de forma surpreendente mas no final das contas fomos o que fazemos na modalidade no dia a dia. Nem mais e nem menos. Faltaram jovens para aumentar a intensidade (ausência de um circuito de base mais promissor), mais aproximação com o público daqui (onde está o marketing da CBB?) e senso de urgência em um confronto de vida ou morte (erro recorrente dos últimos anos).

O tema deve ser abordado com profundidade em outro texto, mas acho bem óbvio que devemos começar a discutir o basquete brasileiro muito mais pelo seu principal alicerce, a base, do que pelo topo da residência, as seleções nacionais. Equipes nacionais, seja na base ou no adulto, são reflexos do que fazemos em clubes, federações, campeonatos internos – e não o contrário.

Enquanto acharmos que vamos ter resultados internacionais porque temos quatro, cinco jogadores muito bons, quando o "jogador médio brasileiro" ainda deixa a desejar em relação a fundamentos bem básicos do jogo, teremos problemas. Insisto na questão: quem são os atletas de 26, 27, 28 anos que brilham por aqui ou em nível internacional? Isso diz muita coisa…

Concorda comigo?

Sobre o blog

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