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Bala na Cesta

Sobre declarações do Ministério e FIBA Américas contra a CBB - o que mudou?

Fábio Balassiano

24/02/2014 06h15

nunes1Você leu no UOL, em reportagens de Daniel Neves (se não viu clique aqui e aqui), que o cerco se fechou definitivamente para a Confederação Brasileira de Basketball presidida por Carlos Nunes (foto à direita). FIBA Américas, via Alberto Garcia (Secretário-Geral), e Ministério dos Esportes, através do Secretário de Alto Rendimento, Ricardo Leyser, soltaram o verbo contra a CBB em Fortaleza depois do Jogo das Estrelas do NBB.

Antes de seguir, eu só quero dizer uma coisinha importante aqui. Quem acompanha este blogueiro sabe quão tenebroso é o estado financeiro e de gestão da CBB. Quem lê os balanços financeiros (aqui do lado há os dois últimos; aqui, o outro) da Confederação no blog sabe que não há NOVIDADE ALGUMA no que foi dito sábado a respeito da Confederação. Se outros (meios de comunicação, dirigentes, políticos etc.) se calaram e só agora abrem os olhos, eu só posso lamentar, pois a má utilização de dinheiro (quase sempre público) por parte de Carlos Nunes e seus comandados existe desde que ele assumiu o cargo de presidente em 04 de maio de 2009. E como eu venho dizendo aqui (relembre o que disse exatamente sobre isso): o problema da entidade máxima NUNCA foi de dinheiro, mas sim de como utilizá-lo. Pode entrar Eletrobrás, pode sair Eletrobrás, pode entrar Bradesco que não muda em nada. As cabeças pensantes (ai) são as mesmas de 15, 20 anos atrás – e os métodos, pouco inteligentes, também.

Vamos lá, pois as duas declarações merecem análises e questionamentos.

alberto1No sábado, Daniel publicou matéria mostrando que a FIBA Américas, através de declarações de Alberto Garcia (foto à esquerda), duvida do pagamento do convite devido à saúde financeira da entidade máxima: "Eles se comprometeram a pagar 1 milhão de francos suíços à Fiba até 2016. Pagaram uma parte, mas não tem como pagar o restante"; "Uma entidade que não tem esse dinheiro (US$ 15 mil para sediar os Pré-Olímpicos), terá dinheiro para quê?"; e "Também se comprometeram a uma série de investimentos na base, no fomento da modalidade, no basquete 3×3, mas até agora nada. Tenho certeza de que o Brasil fará um bom papel no Mundial, tem uma seleção sólida e grandes nomes. Mas e depois disso? Se você não fomenta a base, não tem praticantes, qual é o futuro do basquete nesse país? Tem que mudar essa administração, contratar gestores profissionais, pessoas do marketing. Se não tiver credibilidade, não atrai a iniciativa privada".

PERGUNTAS

1) Se a situação da CBB é tão caótica assim, por que a FIBA não levou isso em consideração à época da escolha dos convidados para a Copa do Mundo? Será que o convite conseguido pelo Brasil fez com que Alberto Garcia mudasse o tom? Digo isso pois para ele não há novidade alguma no caos da entidade máxima do basquete brasileiro. Em Barueri, no Mundial de Clubes de 2013, ele já havia me dito a mesmíssima coisa (com menos ênfase e indignação, é verdade, mas tinha).

2) Na prática, o que Alberto Garcia pode fazer para que a gestão da CBB seja mais austera, mais responsável?

alberto2MINHA ANÁLISE SOBRE AS ASPAS DE ALBERTO GARCIA:
Alberto Garcia tem TOTAL razão quando fala sobre gestão, administração, marketing, credibilidade e  tudo mais que anda em falta na CBB. É uma entidade falida em termos financeiros e de ideias, e temendo o enfraquecimento de um importante país das Américas no cenário mundial ele tem todo motivo do planeta para falar, criticar, expor o que realmente pensa. Mas o convite, uma das tábuas de salvação de Nunes e companhia, veio. O patrocínio, a maior das tábuas, também. O caos financeiro tende (notem o verbo tender, por favor) a diminuir, e a participação na Copa do Mundo também tende (notem o verbo tender de novo, por favor) a ser uma das melhores caso o país realmente vá completo. Espuma, sem dúvida alguma, mas uma espuma de efeitos anestésicos em muita gente (Federações, jogadores, parte da imprensa, dirigentes, políticos etc.). Que o alerta de Alberto siga ligado em todas as esferas, portanto.

leyser1Hoje Daniel colocou aqui aspas de Ricardo Leyser, Secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte. Amante de basquete, presença constante aqui no blog (só colocar o nome dele no buscador), Leyer disse algumas palavras interessantes sobre o atual mandatário da Confederação Brasileira: "Há essa chance (de o Ministério cortar apoio financeiro), pois a situação da CBB é muito delicada. É um desequilíbrio financeiro muito grande. O nosso patrocínio do Governo olha o basquete inteiro. Se o sistema como um todo não estiver rodando, não adianta o Ministério resolver um pedaço. Temos investimento na Confederação, mas temos também no NBB, na LDB, nos estados. Isso forma um todo. Para que a gente mantenha o investimento no basquete, esse todo tem que funcionar. E hoje a gente percebe que o ponto frágil desse sistema todo é a Confederação", disse, para depois emendar: "Para haver um apoio público, tem que ter uma avaliação da necessidade e da capacidade de gerir. A avaliação do Ministério é que a CBB chegou ao seu limite de gerir. Não adianta o Ministério ampliar os recursos se a CBB não ampliar sua capacidade de gestão. Ainda há uma avaliação geral de que são passos tímidos, é preciso que a CBB realmente faça uma coisa mais radical no sentido da sua profissionalização. É preciso que a CBB tenha respeito no mercado do basquete, dos patrocinadores, das televisões, que hoje ainda não é o ideal".

leyser9PERGUNTAS:

1) Leyser sempre deu todo suporte a Carlos Nunes e à CBB. Seja com declarações de apoio ao grupo de Nunes via este blogueiro (que o entrevistava), seja com investimentos de valor absurdo para uma entidade que NUNCA soube cuidar de dinheiro (veja tudo aqui e nos 3 links abaixo citados). Ricardo jamais havia criticado a Confederação de forma tão aberta (e o cenário é o mesmo de agora). Pelo contrário: o Secretário SEMPRE manifestou apoio a Nunes mesmo com todos os indícios de péssima gestão e administração de grana pública. Interessante que seu ponto de vista tenha mudado (salutar até), mas o que modificou a forma como Ricardo fala sobre não investir mais na Confederação?

2) Se o dinheiro é PÚBLICO, e há mau uso do dinheiro PÚBLICO como está provado há algum tempo, o que mais Leyser precisa para enfim CORTAR a grana PÚBLICA da Confederação? Qual evidência maior ele precisa? Não precisa de mais nada, certo? Só lembrando: sua pasta já liberou mais de R$ 14 milhões para a CBB. O retorno, como esperado, não está sendo bom, e já houve duas (conhecidas) reuniões em que o tema poderia ser tratado (uma em Brasíliaoutra no Rio de Janeiro). Qual a surpresa?

3) O patrocínio do Bradesco não atenuaria os problemas financeiros da CBB, dando a ela um pouco mais de autonomia à entidade máxima para investir?

leyser2MINHA ANÁLISE SOBRE AS ASPAS DE RICARDO LEYSER:
Respeito demais o Secretário Ricardo. Disse recentemente a uma amiga que me perguntou sobre ele que eu sinceramente confiava em Leyser por tudo o que vinha tentando fazer no basquete (como ele mesmo disse, não só na CBB, mas em LNB, LDB etc.). E está claro que houve uma mudança de rota, uma mudança em sua forma de analisar o cenário do basquete brasileiro (na parte da CBB). Leyser dera várias declarações de apoio à Confederação e neste sábado abriu fogo em Fortaleza (relembre aqui, aqui e aqui o que ele havia falado). Situações mudam as opiniões, e APARENTEMENTE houve algo que tenha modificado o panorama (desde sempre sombrio) pintado por Carlos Nunes. A administração Nunes é uma tragédia, mas ele conseguiu o convite para a Copa do Mundo, o patrocínio veio e a reeleição foi um sucesso (foi aclamado por 21 dos 27 votos). Leyser terá que manter o tom assim (crítico, fiscalizador) caso queira efetivamente mudanças claras e rápidas de gestão.

MINHA ANÁLISE FINAL SOBRE TUDO ISSO:

Pode parecer paradoxal, mas tanto Leyser quanto Alberto me parecem (notem o verbo parecer) ter usado muito bem a imprensa que esteve em Fortaleza para tratar de um tema maior, mais profundo, mais, digamos, espinhoso na relação Ministério, FIBA e Confederação. Tema este que para mim ainda é um mistério, ainda é desconhecido, ainda não é palpável. Respeito ambos (Leyser e Alberto) demais, demais mesmo, mas para mim não está claro o que está acontecendo – e algo está acontecendo, creio eu.

nunes3Reitero: todos os pontos mencionados pelo Ministério do Esporte e FIBA Américas são relevantes, conhecidos e reais, mas não são novos, não foram conhecidos na quinta-feira e levados a debate de forma inédita na sexta-feira em Fortaleza. Crise financeira, deficiência na gestão, ausência de credibilidade e falta de qualidade no trabalho de base estão na ordem do dia na Confederação Brasileira desde que Carlos Nunes assumiu o comando (e quem acompanha este blog sabe bem do que estou falando).

Para mim os dois (Leyser e Garcia) foram muito hábeis, inteligentes e cirúrgicos ao colocar publicamente os problemas da CBB para a imprensa, que na hora reverberou isso, amplificando as aspas do Ministério do Esporte (ME) e da FIBA Américas. Ambos pressionam a entidade máxima não só a dar explicações que certamente virão nesta semana mas a trabalhar, a correr atrás do desenvolvimento da modalidade e a sanear os problemas financeiros gravíssimos que existem desde que Nunes por lá pisou. Com boa parte da mídia nacional por lá, o barulho que se fez foi realmente grande, embora na prática não tenda (notem o verbo tender, por favor) a mudar muita coisa já que Nunes foi reeleito ano passado, o convite para a Copa do Mundo já saiu e o patrocínio com o Bradesco foi assinado. A fiscalização, o cerco à Confederação, seja de FIBA ou de ME (e até mesmo da imprensa), só deve aumentar neste momento. E isso é bom demais.

leyser2O ponto que para mim não fecha é: o que teria acontecido, então, de um mês (tempo da última visita de Ricardo Leyser na entidade máxima – como demonstra esta foto ao lado) para cá, para que Leyser e Garcia tenham cuspido fogo com força em Nunes e companhia depois do Jogo das Estrelas do NBB em Fortaleza?

Essa pergunta eu ainda não consigo responder, mas faria com que o entendimento sobre o que se passou no Ceará ficasse mais claro, menos contraditório como está parecendo agora.

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