Bala na Cesta

Dirigente de Americana fala sobre LBF e atual fase do basquete feminino brasileiro

Como vocês sabem, tenho batido muito na tecla de uma melhor organização do basquete feminino brasileiro no blog. Foi então que tive a ideia de pedir ao Presidente da ADCF (entidade que cuida do basquete de Americana, principal projeto da modalidade no feminino do país) para me enviar suas sugestões e avaliação da LBF, que terminou no sábado passado com título do Sport-PE e uma projeção para os próximos anos. Gentilmente e rapidamente o Ricardo Molina (foto) enviou e-mail com suas respostas e acho legal compartilhar com vocês. Ricardo é um dos maiores entusiastas do feminino, cuida com carinho do projeto da cidade e sabe o que fala. Vale a pena ler com atenção.

“A Terceira edição da Liga mostrou algumas fragilidades da LFB e também algumas evoluções. Vamos lá:

Planejamento: O início da LBF teve várias datas e com isso prejudicou principalmente o planejamento das equipes. Estava programada para novembro, depois dezembro e posteriormente janeiro. Sugestão: qual a dificuldade de definirmos antes de terminar uma edição o início da outra? Sem calendários os clubes não vão conseguir nunca se programarem, buscarem patrocinadores e ter uma continuidade do trabalho.

Recursos financeiros: O campeonato foi realizado em turno único, o que prejudicou equipes, atletas, o produto basquete e principalmente os patrocinadores de cada equipe, que, no final das contas, são os grandes vitoriosos do nosso basquete. Como sugestão, a Liga tem duração de 4 meses. Os outros 8 meses são suficientes para captação de patrocinadores. Não podemos deixar para o último momento para prospectarmos novos patrocinadores. Se essa captação já é feita antecipadamente, é preciso reavaliar a forma que está sendo realizada pois não está havendo resultados.

Fidelidade de Horário: “Bato” muito nesta tecla. Enquanto não tivermos horários e dias fixos para os jogos dificilmente conseguiremos conquistar novos admiradores da modalidade. Quem ama basquete vai atrás, pesquisa o horário. Porém que não acompanha, não pesquisa. Ou seja, horário fixo, divulgação antecipada e uma atenção maior da mídia principal: TV.

Escolha de jogos de transmissão: Acredito que realmente é preciso ser democrático com a divisão dos jogos transmitidos entre todas as equipes, porém estas mesmas equipes que recebem esta oportunidade irão permanecer na Liga? O produto basquete precisa ser vendido ao público e patrocinador – e para isso precisa ser bom. Então o que precisa vir primeiro: a divisão dos jogos ou apresentar melhor o produto? Sugestão: a TV realmente é a maior exposição para prospectar patrocinadores, porém quantas equipes desde a primeira edição saíram e entraram? Ou seja, acredito que neste momento o melhor é apresentar o melhor produto e talvez isso passe pelo sacrifício nas escolhas dos jogos.

O papel do marketing: Pergunte a qualquer amigo ou pessoa ao seu lado. Você sabe se estamos tendo um campeonato brasileiro de basquete feminino? Você conhece as equipes participantes? Você sabe quando há jogos? Sugestão: é necessário um sincronismo entre horário fixo de TV, data definida do início do campeonato com antecedência (não me refiro a toda tabela pois dependemos de quais clubes participarão, mas sim a uma data de início), apresentação do campeonato a mídia, criação de diferenciais de atração como jogos entre brasileiras e estrangeiras, como nunca houve, etc. . Tudo isso deve ser gerenciado por uma única fonte de marketing, seja agência ou profissionais, mas estas ações devem ser coordenadas e sincronizadas.

Gestão da Liga: De quem é a Liga? Uma pergunta básica onde a resposta é: dos clubes. Porém os clubes estão reféns de campeonatos subsidiados e com isso acabam não tendo voz ativa. Assim esta interrogação permanece. Sugestão: necessidade de “todos” os clubes se profissionalizarem para que possam ter realmente um Liga independente. É um processo não optativo e sim necessário. Sem isso, “todos” os clubes acabam aceitando “o que tem pra hoje” ou abandonam o barco. Basta ver o número de desistências de equipes antes de iniciar cada edição. Com um maior profissionalismo de “todos” os clubes com certeza aparecerão novas ideias, caminhos e principalmente condições de uma alta gestão. Não podemos deixar de citar evoluções e citar que estamos ainda na 3º edição enquanto o masculino está na quinta e o vôlei, que tanto falam,  está na vigésima edição.

Repatriar as jogadoras: Sem dúvida foi o grande ponto desta edição da LBF. As jogadoras voltaram a participar do campeonato nacional e principalmente engrandeceram o torneio. O nível ainda não foi dos melhores mas precisamos trabalhar em cima desta nova realidade e não olhar pra trás.

Quantidade de jogos transmitidos: O número de jogos transmitidos pela TV aumentou e melhorou a exposição. Se tivéssemos datas e horários fixos ficaria perfeito.

Descentralização do basquete: Tivemos nas primeiras edições participação de outros estados na Liga, mas esta edição ficou marcado por Estados que investiram pesado no projeto e isso deve ser aplaudido. Sugestão: precisamos valorizar aqueles estados que desde a primeira, segunda edição também participaram da Liga. Não fizeram grandes investimentos, não. Mas abriram as portas para a descentralização. Isso deve e precisa ser valorizado pois precisamos que todos os estados que já participaram da Liga em edições diferentes possam estar juntos na quarta edição, além da novas equipes que possam surgir.

Relacionamento entre as equipes: este ponto não é visto pelo público externo mas o relacionamento entre as equipes foi fantástico. Recepção de determinada equipe na cidade da outra, parceria, diálogo, disposição. Quem participou desde a primeira edição sabe o quanto este assunto evoluiu.

Enfim, claro que podemos citar tantas outras evoluções como melhorias porém acredito que são pontos não tão difíceis que podem ser atacados de maneira imediata já pensando na quarta edição da liga nacional de basquete. Talvez esta não seja a opinião e as sugestões que poderiam ser de todos, mas estamos tentando dar a nossa contribuição. Parabéns a todos os clubes participantes de todas edições da LBF, atletas, comissão técnica, Liga de Basquete e principalmente a todos patrocinadores locais e da Liga por acreditarem neste produto que já foi e pode ser novamente o segundo esporte preferido os brasileiros e brasileiras.

A propósito, quando começa a 4º edição da Liga?”.

Compartilhe:

Uma análise sobre o nível técnico do basquete feminino brasileiro – está muito ruim mesmo?

Comentei aqui há algum tempo que faria uma análise bem profunda sobre o cenário técnico do basquete feminino brasileiro. E, bem, terminei o estudo. Esperei a Liga de Basquete Feminino acabar para ter dados consolidados e mais certos de uma competição curtíssima (qualquer resultado poderia mexer com os dados, vocês devem imaginar). Demorou um pouco e vocês entenderão o porquê. Decidi não só pegar a história dos 15 nacionais que houve por aqui (12 da CBB e três como LBF) mas também fiz uma comparação com o que tem sido feito no exterior atualmente em quatro praças bastante distintas (Espanha, Turquia, Austrália e Rússia).

Como fiz aqui no estudo a respeito de Kobe Bryant, não emitirei opinião alguma. Deixarei o espaço para opiniões e análises de vocês. O cenário, obviamente, é assustador, bem assustador. Tentei cruzar dados, clicar em cima das imagens para ampliá-las. Quem precisar da planilha completa, cheia de fórmulas que aprendi a usar (obrigado, Lucas!) é só me pedir.

RADIOGRAFIA DOS NACIONAIS/LBF (Marco em amarelo aquele que acredito ser o ponto de mudança maior no basquete daqui)

DIFERENÇA ENTRE O BRASIL E OUTRAS LIGAS (ATUAL TEMPORADA – Reparem no índice assistência/erro)

O DESEMPENHO DAS CESTINHAS NO BRASIL (Notem que, com exceção de Iziane, ninguém supera a marca dos 20 pontos/jogo há 3 anos)

E aí, amigo leitor, gostou do estudo? Caiu muito o nível do basquete brasileiro ou os números são… só números? Comente e elogie o blogueiro, porque deu trabalho pra cacete!

Compartilhe:

Última campeã mundial em atividade, Alessandra conquista LBF e pensa em aposentadoria

Única remanescente do time campeão mundial brasileiro há 19 anos, Alessandra Santos de Oliveira tem um currículo de fazer inveja a qualquer atleta. Campeã Mundial (1994), duas vezes medalhista olímpica (prata em Atlanta-96 e bronze Sydney-2000) e quarto lugar em Mundiais (1998 e 2006) e Olimpíadas (Atenas-2004), ela viveu uma experiência inédita no sábado: aos 39 anos, a pivô de 2,00m conquistou, depois de passar mais de uma década jogando na Europa, seu primeiro Nacional Feminino Adulto. Conversei com ela longamente depois que ela deu um abraço afetuoso em Cintia Tuiu, sua companheira de garrafão no Mundial da Austrália (na foto ao lado), sobre carreira, memórias, aposentadoria, cultura esportiva e muito mais. Foi um papo sincero com uma das melhores e mais reflexivas mentes do basquete brasileiro.

BALA NA CESTA: Campeã mundial, duas medalhas olímpicas, mais de dez anos na Europa e 39 anos. Está chegando a hora de parar, Alessandra?
ALESSANDRA: Se eu penso em parar? Todos os dias dos últimos dez anos eu penso em parar. Quando eu paro? (Silêncio) Eu estou em uma transição, né. Difícil falar, muito difícil. São mais de 20 anos vivendo a mesma coisa todo dia em uma rotina de treino, pressão, jogo, viagem, aeroporto. Não é fácil, não. (Silêncio) Tive amigas estrangeiras que me diziam há uns cinco, dez anos: “Alessandra, se prepara sua pra encerrar a carreira e pra você fazer algo depois de parar. É um momento delicado. Vai se preparando”. E aquilo ficou muito na minha cabeça. Vi meninas estrangeiras tendo depressão depois que pararam de jogar. Vi outras com problemas terríveis de cabeça. Dá aquele baque, sabe. É isso que estou tentando fazer. Voltei pro Brasil ano passado em São José, agora estou no Sport-PE, tenho proposta pra voltar a Europa. Não sei bem o que farei, mas tenho pensado nisso, sim.

BNC: Mas o que você tem em mente para quando parar de atuar? O que você pretende fazer pra ocupar a cabeça e não cair na armadilha que suas amigas te falaram lá atrás?
ALESSANDRA: Olha, nunca fiz teste vocacional, nada disso. As coisas vão acontecendo na minha vida, você sabe bem. Nunca pensei que fosse jogar basquete e aconteceu tudo isso que você já sabe. Era jogadora de vôlei, sabia disso? Eu faço muitos camps com escolhinhas de basquete pra criança, e isso é uma coisa que adoro. Quero trabalhar com criança de 8 a 12 anos de idadei. Essa é a minha paixão. Fazia isso com meu ex-marido na Suíça, não fui na temporada passada devido a compromissos mas pretendo retomar isso, que é algo que gosto muito. Tenho, também, e essa é uma “herança” do meu ex-marido, uma empresa de vistoria automotiva. Caí de paraquedas nessa e tive que aprender na marra. Comentar jogos, como fiz no Pan-Americano e na Olimpíada, é algo que curti também e que posso pensar em fazer. Adorei comentar nas Olimpíadas, foi bacana. Para quem não sabia nada, foi bem legal. Para quem não sabia porcaria nenhuma até que fui bem.

BNC: Peraí, Alessandra, você não quer que eu repita seu currículo aqui, quer?
ALESSANDRA: (Risos) Cara, tem dia que eu acordo e penso: ‘Eu não fiz nada da vida’. Você acredita nisso? Gostaria de ficar no basquete, mas eu não sei bem… Do jeito que estão as coisas aí no feminino eu não sei, não. E posso te dizer uma coisa? O masculino me surpreendeu. Estava aí, no poço, nas trevas, e conseguiu sair. Não estou falando apenas por causa dos jogadores, mas pelo conjunto de ações que houve. As vaidades caíram, as individualidades foram colocadas em segundo plano e os resultados estão aparecendo. São 18 times em um campeonato nacional, gente. Problemas, lógico que vão ter. Isso ninguém é doido de achar que não haverá. O feminino, por sua vez, não consegue se juntar, evoluir, nada. Menina pra jogar, tem, a gente sabe que tem. Times aí fecharam as portas, e essas meninas não conseguiram se recolocar. Ano passado estava em São José e tinham meninas que hoje não estão jogando basquete. Ou todo mundo senta, se junta e vê como podemos sair dessa para melhorar, e não falo disso em relação a dinheiro, não, mas em relação a ideias, sugestões e críticas, ou o futuro do basquete feminino não vai sair dessa. O problema é que hoje quando você fala é mal visto, mal interpretado. Tem que acabar com isso. Quer o maior exemplo de como a união faz a força? Aquele Mundial de 1994 quando eu era uma pivete. Paula e Hortência sentaram, se arrumaram e fomos campeãs. Números pouco importavam, vaidades caíram e fomos campeãs mundiais. Alguém acreditava naquilo? O que adianta você ser cestinha? Nada. Tem que ter projeto, planejamento, mas eu me sinto com mão amarrada. Te falo com sinceridade. Me sinto com a mão amarrada. Passei 20 anos fora do Brasil e não posso fazer nada.

BNC: Mas o basquete feminino hoje tem projeto?
ALESSANDRA: (Silêncio) Olha, projeto em si o que você quer dizer? De seleção e de clubes? De seleção eu nem entro nisso. Não faço mais parte desse mundo, tenho ideias bem contrárias do que vi por aí e essas ideias ferem muita gente.

BNC: Mas, então, eu acho importante você falar um pouco. Poucas pessoas têm duas medalhas olímpicas, título mundial, que nem você. Que eu me lembre, Janeth, Cintia, Adriana e a turma do Wlamir e Amaury.
ALESSANDRA: É mesmo? Caramba, nem tinha me atentado a isso. Estou nesse grupo seleto? Poxa vida! Caramba! Me machuca ver uma seleção brasileira como vi nos últimos anos. Posso falar uma coisa? Quando estive em Londres na Olimpíada, muita menina que jogou contra mim na Europa vinha me perguntar: “Alessandra, o que está acontecendo?”. E eu não sabia responder, sinceramente. Todo mundo dizia que o estilo do Brasil mudou muito, que não há mais uma identidade de jogo, nada. Espero que isso com o Zanon melhore, porque ele sabe impor um jogo diferente do que estamos fazendo aqui.

BNC: O jogo aqui está corrido demais, não?
ALESSANDRA: Ah, demais, demais. Esse estilo de corre, corre e corre eu até consigo, ainda aguento, mas não é o estilo de basquete que me agrada, não. Não tem um estilo de jogo, parece uma maratona. Pelo amor de D’s, nem fala. Esse negócio de ficar correndo de um lado pro outro não é legal, não. Ninguém pensa, são arremessos que não existem, não tem padrão. Não tem leitura, um enredo que você pode dar num jogo e, por incrível que pareça, ações rápidas que tenho visto nos jogos da Superliga de Vôlei mas pouquíssimo no basquete.

BNC: Como ficou aquele seu processo movido contra a CBB devido a lesão que você teve no Mundial de 2006? Você alegou que não tinha seguro. Como ficou o processo?
ALESSANDRA: Olha, está nessas esferas judiciais aí. Demora, né. Não é problema do dinheiro. É pela falta de educação mesmo. Educação, isso me mata.

BNC: Essa falta de educação e respeito que você cita te deixa triste?
ALESSANDRA: Olha, não só comigo, mas principalmente com a geração do Wlamir Marques. Por exemplo, olha que coisa engraçada. Outro dia fui a um médico em São Paulo e o endocrinologista era o Menon, que jogou muito basquete. Não sabia muito sobre ele, e minha consulta acabou virando uma aula de basquete, uma aula de história esportiva. São essas coisas que aqui no Brasil a população não sabe, não conhece direito. Se você chega em um ginásio e pergunta: “Quantas vezes o basquete brasileiro foi campeão do mundo?”. Ninguém sabe, cara. E não acho que isso aconteça só no basquete, não. No próprio futebol, tirando esses medalhões aí, Pelé, Romário, Ronaldo, Zico, tem muita gente que fez muita coisa e não tem o reconhecimento que merece. É do brasileiro, né. Infelizmente.

Compartilhe:

Mais detalhes da festa do Sport-PE, campeão invicto da terceira edição da LBF

Por Aluísio Gomes Jr., direto de Recife (PE)

“O Sport que emociona, o Sport que a gente ama” é uma das frases favoritas da torcida do clube pernambucano. Está lá estampada nas arquibancadas do estádio da Ilha do Retiro. Pois se é emoção que a torcida queria, o time de basquete resolveu presenteá-la com altas doses de sofrimento na final da LBF, hoje pela manhã, contra a equipe de Americana. No final, porém, a festa veio com o título e triunfo por 62-57.

Depois de vencer a primeira partida em Americana (54×44) o Sport só precisava de mais uma vitória na série melhor de três para garantir o título, a torcida rubro-negra venho ao ginásio disposta a fazer festa. Uma hora antes do jogo 2.000 pessoas já se apertavam no Ginásio Jorge Maia. Enquanto o público chegava, a pivô Clarissa de Americana se aquecia tranquilamente, Iphone no ouvido, alheia ao que falavam para ela, com cara de quem queria estragar a festa.

Quando a bola subiu ficou claro que Americana tinha gostado da estadia em Recife e o time estava disposto a adiar a final. Num primeiro tempo muito fraco tecnicamente, o time paulista levou vantagem porque cometeu menos erros. Ambas as equipes tentavam acelerar demais o jogo e entregavam a bola de graça para o adversário. Com Karla começando no banco (contusão no joelho) o ataque de Americana se concentrava em Clarissa (19 pontos, 11 rebotes, melhor jogadora da competição) e a pivô correspondia usando da maior velocidade para passar pela forte marcação de Érika (16 pontos, 10 rebotes). A pivô do Sport, por sua vez, era a única que parecia está acordada no ataque rubro-negro que esteve anêmico no primeiro tempo chegando a passar mais de sete minutes sem converter nenhuma cesta. Ao final do primeiro tempo o placar marcava 21 a 17 para Americana. Sim, 38 pontos combinados para as duas equipes no tempo.

Não sei os que os técnicos Luiz Zanon e Roberto Dornelas falaram no intervalo, mas deve ter sido algo como: “Meninas, vamos jogar basquete” porque as duas equipes voltaram bem melhores no terceiro quarto e o jogo cresceu em técnica e emoção. Os arremessos de longa distância do time pernambucano começaram a cair, Palmira acertou duas nessa parcial, e o trabalho em cima de Érika começou a surtir resultados e as pivôs do time paulista se carregavam em faltas. Depois de ter cometido a sua terceira falta, Clarissa assistiu do banco, Franciele empatar o jogo em 39. Ao final do terceiro quarto, o escore estava rigorosamente igual em 41, (“A gente sabia que não ia ganhar o jogo em um quarto só, que a gente devia manter a atenção o jogo inteiro”, falou a armadora, Adrianinha).

O Sport pode não ter ganho o jogo em um quarto só, mas foi no último, na hora de ver quem tinha mais garrafa vazia, que a armadora leonina apareceu. Enquanto Americana inexplicavelmente abandonava o jogo coletivo e o trabalho em cima da sua maior jogadora para tentar jogadas individuais com Roneeka (06 pontos) e Karla ( 08 pontos) , Adrianinha (16 pontos, melhor jogadora do campeonato na votação da torcida do Sport) decidia o campeonato com uma bola de três a 1:41 do fim do jogo comemorado na arquibancada como se fosse um gol no último minuto de partida. No minuto final quando Érika fez a cesta que abriu oito pontos na liderança, a torcida rubro-negra finalmente soltou o grito de é campeão. Fim do jogo (62-57) e muito frevo nas comemorações, o Sport campeão invicto e primeiro time do Nordeste a ser campeão nacional de basquete feminino, “fizemos história aqui” declarou Adrianinha.

Agora é torcer para que essa história e perdure e der mais frutos, (“A palavra de Sport tem que ser continuidade, tem que aproveitar o momento bom que o desporto olímpico pernambucano está vivendo”, disse o técnico Roberto Dornelas). Quem sabe até o próximo ano o ginásio municipal da cidade (Geraldão) esteja finalmente reformado e apto a receber 15000 pessoas para uma final. Quem sabe tenhamos mais de sete equipes no campeonato e mais do Nordeste do país. Fica a torcida para que o basquete brasileiro se estruture e mais histórias como a de Clarissa, Mô e tantas outras apareçam.

Compartilhe:

Sport vence Americana, conquista LBF e é o 1° primeiro time do Nordeste a conquistar Nacional

De novo não foi um grande jogo (a média de pontos da final ficou em 108,5 pontos, muito pouco), mas isso pouco importa para os torcedores do Sport-PE. Jogando no ginásio lotado da Ilha do Retiro, as pernambucanas venceram Americana por 62-57 e conquistaram, de forma invicta (tal qual Ourinhos em 2005) a terceira edição da Liga Feminina de Basquete (foram dez jogos e dez vitórias).

Foi a primeira vez que, em 15 anos de Nacionais Femininos, uma equipe do Nordeste sagrou-se campeã da competição. Parabéns ao Sport-PE, time que mais investiu, a Roberto Dornelas, o abnegado e guerreiro técnico da equipe que sempre buscou retomar o projeto que estava adormecido há anos, ao torcedor de Recife, que lotou o ginásio da Ilha do Retiro sempre, e também a Americana, que tem o melhor projeto de basquete feminino do país há alguns anos.

Que o basquete feminino brasileiro utilize o Sport-PE e o Maranhão Basquete como motivo para crescer através e pelo Nordeste, pois as duas equipes mostraram que há, sim, caminho para o desenvolvimento da modalidade por lá. E que os projetos bons que há no país (Americana, Santo André, Sport, Maranhão, Ourinhos etc.) sejam espalhados e replicados para que o esporte enfim saia do momento crítico em que se encontra agora.

Viu o jogo? Curtiu? Comente!

Compartilhe:

Após jogo 1 ruim por Americana na final da LBF, Karla afirma: ‘Não vou jogar assim 2 vezes’

Karla Costa era a imagem de Americana depois do jogo 1 das finais da Liga de Basquete Feminino na semana passada. Após perder por 54-44 para o Sport-PE, a ala de 34 anos, quinta cestinha da competição com 14,1 pontos, estava sem entender o que havia se passado no Centro Cívico, onde minutos antes seu time vencia as pernambucanas até a metade do terceiro período e desandou completamente até perder o jogo. Ela errou seus oito arremessos de quadra, desperdiçou três bolas e terminou a partida com apenas um ponto, sua pior marca na competição. Com gelo no joelho e ainda tentando compreender o que havia acontecido, ela conversou comigo sobre o torneio, seleção, a situação do basquete brasileiro e ainda prometeu: ‘Não vou jogar assim duas vezes, não. Me conheço e sei que vou estar pronta para o jogo 2 no sábado lá em Recife. Pode anotar’. Confira o papo com a jogadora.

BALA NA CESTA: Já conseguiu entender o que aconteceu no jogo 1?
KARLA COSTA: Tem dia que parece noite, né. A gente não quer jogar mal, mas acontece. Tentei, mas não deu nada certo. Errei, tem que assumir. Mas eu me conheço, sei da minha capacidade, e dois jogos assim eu não vou fazer, não vou fazer mesmo. Pelo que eu treino todo dia é meio injustificável o que aconteceu no primeiro jogo. É bater no peito, porque sei que ficou faltando minha parte, mas acho que continua valendo pra gente, de Americana, que precisamos vencer dois jogos. Enquanto não nos matarem temos chances e vamos lutar pelo título da LBF até o fim.

BNC: O Zanon chegou a falar alguma coisa com você no final do jogo? Vi que ele te cumprimentou na última vez que você saiu…
KARLA: O Zanon me conhece, né. Ele sabe o quanto eu treino, o quanto me esforço. Sou a primeira a chegar, a última a ir embora, então realmente não foi por falta de treino ou vontade. Foi um dia ruim e acontece com tudo mundo. Ele sabe também que dois jogos assim eu não vou fazer. Ele mesmo disse: ‘Eu só posso pedir pra vocês fazerem. Não posso entrar na quadra e resolver’. A gente sabe que, sem tirar o mérito do Sport-PE, elas vieram pro jogo, mas quando você não bate acaba apanhando. Ficamos esperando, esperando e acabamos perdendo. Na hora que elas realmente bateram, deram o primeiro murro, a gente caiu e não teve reação. Estávamos sem vibração, que é uma coisa que eu acabo puxando muito. E aí fica complicado, buscando coisas que não são nossas. Ficamos esperando a torcida fazer cesta, o Zanon fazer cesta e isso obviamente não acontece. É um tipo de jogo que realmente contra uma equipe como o Sport, forte, não podemos ter cinco, dez minutos de apagão.

BNC: Falando especificamente do campeonato, conversei com a Érika, com a Adriainha e com a Alessandra, e nenhuma delas está satisfeita com os rumos que a LBF tomou nesta temporada. Queria ouvir sua opinião também.
KARLA: Na verdade o que falta um pouco mais pra gente é mídia mesmo. Na verdade, pra você ter uma ideia, essa temporada não veio ninguém aqui em Americana fazer aquelas reportagens especiais, que nos acompanham por todo o dia, pra essa final. Em momento algum veio, aliás. Aquelas coisas que na verdade colocam a gente um pouco mais em evidência. As pessoas não sabem quem somos nós, e o patrocinador não vai botar dinheiro em uma coisa que não aparece. Apesar de o nível técnico ter melhorado um pouco, a gente sabe que a quantidade de equipes (7) ainda é muito pequena. E tivemos Guarulhos, uma equipe que foi montada às pressas, apenas para participar, pra fazer número. Aí apanha de todo mundo, embora tenha tentado, mas não faz muito sentido isso. É complicado você querer esperar mais das pessoas, dos patrocinadores, nesse sentido. Acho que falta um pouco de respeito nesse sentido. E principalmente para quem viveu um pouco da fase gloriosa, como eu, que tenho 34, a Adrianinha, que é da mesma geração, a gente sente muito. Nós vivemos uma fase muito boa, né. A gente sabe o que era bom.

BNC: Legal, mas pra quem não viveu aquela época, conta como é que era. Você surgiu no time de Campinas, com a Paula e imagino que houvesse uma torcida, uma mídia imensa por trás.
KARLA: Cara, as pessoas que andavam na rua sabiam quem eram as jogadoras, isso era muito claro. Agora quando caminho e digo que sou jogadora de basquete eu chego a ouvir um “beleza, joga basquete, mas faz mais o quê?”. Como só jogo basquete? Eu faço isso o dia inteiro, me mato, é minha paixão, minha profissão. Acho que falta um pouco mais de valor, um pouco mais de respeito na modalidade feminina, que isso fique claro. No masculino, pelo que tenho visto, meu sonho é ver o feminino com tanto time jogando uma LBF, com um cuidado maior com as categorias de base e não tão longe assim em termos de distância entre um e outro. Se chegarmos próximos já está bom. Falta um pouco de gente que acredita um pouco na gente também. Eu tenho meninas da base aqui em Americana que não viram a Hortência e a Paula jogarem, e não têm muita noção do que elas fizeram pela modalidade. São ícones que essas meninas deveriam olhar e pensar: “Olha, que legal, quero chegar lá”. E elas não enxergam assim. Hoje vejo pais me perguntando: “Será que minha filha pode viver de basquete?”. E eu não sei responder. O Basquete Feminino hoje em dia, e eu falo por mim, não ganha um piso do masculino, tenho certeza disso. Absoluta que não. É mérito deles, e um demérito nosso. Eu culpo a mim também porque a gente é muito omissa, muito egoísta, tem medo de se expor, medo de falar a verdade, medo de lutar. É tudo tão pequeno que sei lá, viu. Já são sete times, se eu brigar com um, ficam seis. Com dois, cinco. Por aí vai.

BNC: Mas desculpe até perguntar isso, você não acha que com 34 anos, tendo vivido uma época de ouro e com uma capacidade de se expor bacana, com racionalidade, não deveria puxar um pouco mais essa discussão, um pouco mais os assuntos que são importantes para o basquete feminino voltar a evoluir?
KARLA: Então, eu tenho conversado bastante com a Adrianinha e com a Chuca para que nós possamos fazer alguma coisa por essas meninas que estão vindo aí. Acredito que com a chegada do Zanon as coisas vão melhorar na seleção, e me deu uma luz que preciso fazer algo. Eu com 34 anos guardei um dinheiro por ter jogado fora e consegui comprar meu apartamento aqui em Americana, mas se tivesse jogado aqui a vida toda eu não sei, não. É isso que precisamos ter em mente. Com certeza eu estou longe de, sendo uma jogadora de seleção, ter o status de um Alex, de um Giovannoni, de um Nezinho. Imagina, acho que o salario deles paga o nosso time todo. Eu estou mais pra parar do que pra continuar. E falo pras meninas mais jovens também buscarem as coisas por elas também. O basquete feminino também é muito egoísta, cada um brigando pelo seu. Chegou a hora de juntar, de todos brigarem juntos.

BNC: Você falou no Zanon, e ele agora será o técnico da seleção. Você tem 34 anos, mas está bem fisicamente. A Adrianinha já disse ali pra mim que volta se for convocada e quero saber de você se pensa em permanecer pro próximo ciclo olímpico.
KARLA: A Adrianinha é uma safada, né (risos). Fez aquele anúncio lá da aposentadoria em Londres pra ganhar bijuteria (Nota: Adrianinha recebeu um relógio da Confederação de presente) e agora diz que volta (risos). Mas falando sério agora, vamos lá. Eu me cuido muito. Não engordo, mantenho peso, corro todo dia de manhã antes de treinar em um dia e nado no outro. Treino todo dia e gosto de fazer o a mais todos os dias. Sou extremamente bitolada por isso, por fazer esse a mais. No dia em que eu não puder fazer isso, o além, o a mais, pode ter certeza que é a hora de eu parar. Uma coisa que eu comentava com o Virgil, o preparador físico, é que com dor eu não queria jogar. Dores normais, ok, mas eram dores muito insuportáveis. E hoje não tenho mais dores. É o a mais que me motiva, é o a mais que me deixa feliz pra estar em quadra. Por isso enquanto eu puder jogar, eu puder competir, vou querer jogar no alto rendimento. Se for até os 45 anos, vou jogar. Quando achar que não dá mais, eu paro. Então pra seleção, se eu aguentar, eu vou. Mas quero contribuir, não quero atrapalhar, não. E sou muito realista também. Nesse jogo 1 aí, minha vontade era de pedir pro Zanon pra me tirar, porque estava atrapalhando. Não dava nada certo, cara. Hoje em dia tenho maturidade, não quero que minha mãe me ligue dizendo que não tem problema. Tem problema, sim. Hoje (no sábado passado) foi uma bosta, então tenho que assumir isso. Quero somar. Da maneira que for.

BNC: Pra fechar, queria que você falasse sobre o que você espera com essa chegada do Zanon e do Vanderlei no departamento feminino.
KARLA: Olha, eu nunca vou deixar de acreditar que podemos melhorar. Quero sempre que o basquete melhore, que os ginásios voltem a ficar cheios. Eu vi os ginásios cheios. Na época da Paula e Hortência, eu ficava na arquibancada para vê-las treinar. Hoje falta um pouco disso, sabe. Meus domingos eram todos no Paineiras, no Taquaral, todo dia vivendo e treinando basquete. Naqueles tempos a gente não tinha Facebook, MSN, essas coisas. Mas não acho que seja só isso, porque os Estados Unidos têm essas redes sociais todas aí e continuam produzindo jogadoras o tempo todo. Hoje em dia aqui no Brasil é que se perdeu um pouco isso. A gente tem que resgatar essa paixão dentro das meninas. Mas com tudo melhorando a gente consegue resgatar. Tenho fé que consigamos voltar a ser como antes, com o basquete feminino forte.

Compartilhe:

Melhor jogadora do país, Érika quer título inédito com o Sport-PE e pede respeito à modalidade

No dia 3 de agosto de 2003, a seleção brasileira feminina Sub-21 perdeu a decisão do Mundial para os Estados Unidos por 71-55. Naquele dia, a então jovem Érika Cristina de Souza errou seus seis arremessos, desperdiçou duas bolas e teve sua pior atuação em uma competição que impressionou a todos com 12,4 pontos, 7,8 rebotes, 2,8 roubos e 65,2%. Uma década se passou, algumas meninas daquele time já pararam de jogar, mas Érika evoluiu sem parar, jogou dez anos na Europa, foi campeã de tudo que disputou (WNBA, Euroliga, Nacional, Campeonato Espanhol, tudo) e segue com fome de vitória atuando pelo Sport/PE pelo qual pode ser campeã da Liga de Basquete Feminino no sábado contra Americana. Melhor jogadora do país, cestinha das últimas Olimpíadas (16,8 pontos) e jogadora brasileira mais respeitada no exterior, ela não doura a pílula ao falar da situação da modalidade e pede respeito com as atletas em entrevista realizada no último sábado.

BALA NA CESTA: Você recentemente disse que o que vocês, atletas do basquete feminino, estão passando no país é um absurdo. O campeonato começou atrasado, só com sete times e não teve nem returno. Chegou a um limite, não?
ÉRIKA DE SOUZA: Ah, cara, é uma vergonha o que acontece com a gente aqui. Todo mundo sabe que é um absurdo, uma falta de respeito com a gente e com os patrocinadores que investem no basquete. Tem empresa investindo muito dinheiro com jogadoras boas, mas infelizmente aqui no Brasil só se pensa no futebol e também agora no basquete masculino. Acho que em um time do Nordeste indo bem, indo longe, como é o nosso pode melhorar, evoluir, mas o campeonato precisa começar na data certa e não pode ser assim tão curto. Todo mundo tem que continuar trabalhando e unido e quem sabe podemos crescer um pouco mais o basquete feminino aqui no Brasil.

BNC: Como você recebeu a notícia da saída da Hortência da diretoria de seleções femininas? Sei que você era muito ligada a ela. Tiveram chance de se falar?
ÉRIKA: Olha, ainda não. Estamos em fase final de campeonato e não tive oportunidade. Só tenho cabeça pra pensar nas finais agora, e depois vou ter um mês pra pensar na minha vida de clube e seleção, e falar com ela.

BNC: Falando nisso, como vai ficar a questão do calendário? Sabemos que sempre pra você, que joga na WNBA, é um problema. Ano passado você saiu do time pra jogar a Copa América, e neste ano tem Sul-Americano e o Pré-Mundial com a seleção agora comandada pelo Zanon.
ÉRIKA: Comigo é sempre assim, né. Já estou acostumada a isso. Se não for complicado não sou eu. Tem que ter emoção, né (risos). Mas todo mundo sabe que eu abro mão do que for pra jogar pela seleção, isso é muito claro. Independente de estar na WNBA ou em outro lugar, quero sempre estar defendendo a seleção brasileira em qualquer competição. Podem contar comigo sempre.

BNC: E sobre o segundo jogo da final, muita expectativa? O que vocês precisam mudar pra não repetir os erros do primeiro tempo do jogo 1 das finais?
ÉRIKA: Ah, a Ilha (do Retiro) vai estar lotada como sempre, né. O Caldeirão vai ferver, hein! Estamos muito animadas de poder jogar em frente a eles e conquistar esse inédito título para o Nordeste. Só temos, aliás, que agradecer a eles pelo apoio durante toda a competição. A torcida é o máximo, estão sempre com a gente, ganhando ou perdendo. Vai ser difícil, sabemos disso. Americana está ferido, mas temos uma missão pra cumprir. Sobre o primeiro jogo, começamos muito nervosas. Não jogamos como equipe, estávamos um pouco apáticas até, mas o time do Sport é um grupo forte e depois nos juntamos pra jogar o melhor basquete que temos. A chave é essa. Jogar coletivamente.

BNC: Por fim, como está sendo morar em Recife? Você está morando no Brasil depois de uma década morando fora (Europa e Estados Unidos) e é do Rio de Janeiro. Como está sendo a experiência?
ÉRIKA: Ah, espetacular, cara. Tem um sol pra cada um lá em Recife, é um calor danado, mas estou gostando demais. O Roberto (Dornelas, técnico) trata a gente muito bem, que nem filhas, e o carinho da torcida é imenso onde quer que a gente esteja. Espero continuar lá em Recife, ajudar o Sport, ajudar o basquete brasileiro. Sabemos que a fase não é muito boa, a fase é de troca-troca o tempo todo no basquete, mas quero ajudar no que for possível ao Sport e à seleção.

Compartilhe:

Feliz no Sport, Adrianinha repensa aposentadoria da seleção: ‘Se for pra ajudar eu volto’

No dia 5 de agosto de 2012 Adriana Moises Pinto registrou 15 pontos e 12 assistências contra a Grã-Bretanha antes de anunciar a sua aposentadoria da seleção. Naquela tarde nas Olimpíadas de Londres Adrianinha, bronze com o time nacional feminino em Sydney-2000 e quarto lugar em Atenas-2004, fechava um ciclo de mais de uma década e abria espaço para a nova geração dizendo-se cansada e um pouco frustrada com os dois últimos Jogos Olímpicos (penúltima em Pequim-2008 e nona em Londres-2012).

Mas o tempo passou, a armadora de 34 anos voltou a jogar no Brasil depois de mais de 10 anos (e ainda em altíssimo nível), o carinho do torcedor do Sport-PE, que venceu Americana no último sábado e agora pode conquistar o título da LBF no próximo fim de semana em casa, o deixou balançada e ela confirmou pela primeira vez que pode, sim, voltar a jogar pela seleção brasileira feminina adulta. Entre um pedido de casamento e outro da torcida de Americana (“é bom ouvir isso, né”) ela concedeu entrevista exclusiva ao Bala na Cesta.

BALA NA CESTA: Queria que você falasse um pouco deste primeiro jogo e da expectativa para o segundo duelo contra Americana que pode decidir o título no Recife.
ADRIANINHA: Foi bem difícil, como a gente já esperava, né. Elas têm uma defesa muito forte, e tiraram a gente do nosso melhor jogo no começo da partida. E pra vencer uma marcação como é a de Americana não dá pra individualizar muito, não. A gente conversou, ouviu o Roberto (técnico) e jogou coletivamente. Não tem mais essa de uma ou duas jogarem sozinhas para ganhar um jogo, isso é muito claro. Como equipe fomos muito bem na segunda etapa. Para o segundo jogo temos que repetir os 20 minutos finais, é isso que precisamos. Caso ganhemos será um fato inédito e será uma emoção muito grande. Quem sabe isso incentiva outros times de futebol a investirem no basquete, né. Está sendo muito bacana a experiência, só posso agradecer ao Sport-PE, que acreditou na gente desde o começo. O basquete feminino está muito carente de investimentos.

BNC: Você falou sobre essa “carência”, e queria falar com você sobre a LBF. Foram apenas sete times, não houve returno, o campeonato demorou a começar. É um absurdo isso, não? E como reverter?
ADRIANINHA: É falta de respeito, não dá pra dizer o contrário. Para reverter temos que repatriar as que ainda estão fora e dando forças as que estão aqui no país e não conseguem jogar. Houve times que fecharam as portas (Presidente Venceslau, Catanduva, São Caetano, Mangueira) e as meninas ficaram sem emprego, sem condição de atuar. É muito triste isso. A gente fica na expectativa de ter 10 times pra jogar, só isso. Olho pro masculino e vejo 18 no NBB e acho o máximo, Bala. A gente não tem isso. Precisamos nos unir, falta muita coisa. Pelo menos um playoff final com melhor de cinco jogos poderia ter ocorrido para chamar mais atenção para a competição, mas nem isso houve. É uma pena, é uma pena mesmo. Precisamos reagir.

BNC: No ano passado você jogou Olimpíada e terminou aquele jogo contra a Grã-Bretanha dizendo que era sua última participação com a seleção brasileira. Mas a Copa América vem aí, há um técnico novo e um comando novo na Confederação. Dá pra pensar em voltar ou acabou mesmo o seu ciclo?
ADRIANINHA: Olha, eu falei aquilo porque eu estava muito chateada com a situação do basquete. Não só com a campanha na Olimpíada mas principalmente com os quatro anos anteriores, com tudo o que passamos na seleção. Não foi legal. A gente estava precisando ter uma mudança. Para te citar um exemplo, a troca de técnicos não ajudou em nada a gente. A seleção, hoje, não tem uma cara. E te cito como exemplo times como a Argentina e o Canadá, que não têm muito talento mas que possuem a mesma filosofia de jogo, a mesma cara há anos. Por isso são respeitados. Não pelo time, pela colocação que chegam, mas sim por todo mundo saber que ali está uma equipe nacional com uma identidade. A Austrália a mesma coisa, mas em um nível técnico superior. Já nós não temos isso há algum tempo já. Nós trocamos de técnico o tempo todo. A gente não conseguiu criar uma identidade nossa, infelizmente. Agora trouxeram o Zanon, que pelo menos conhece do basquete feminino brasileiro e as meninas que atuarão pra ele na seleção. Isso vai dar muito certo. Não chegaram e jogaram ele lá, como fizeram com o Carlos Colinas, por exemplo. O Tarallo, por sua vez, nunca tinha tido uma experiência em uma equipe adulta. O Ênio, por sua vez, não conhecia muito do feminino e teve dificuldade. Então eu desejo sorte ao Zanon e torço de coração para o trabalho ter continuidade, ter sequência. Isso é o mais importante.

BNC: Tá legal, Adrianinha, mas você não respondeu. Joga ou não pela seleção?
ADRIANINHA: (Risos) Ah, eu volto. Se eu puder ajudar, nem que seja só pra treinar, eu volto. Se for pra ajudar as meninas e o basquete brasileiro eu volto, eu faço o que for. Se for só pra treino, pra dar conselho, eu contribuo. Eu só não quero tirar a vaga de ninguém, ocupar um espaço que poderia ser de outra pessoa. Mas se eu puder auxiliar, se eu ainda for útil, jogo na seleção, sim, sem problema algum e com o amor de sempre.

BNC: Pra fechar, uma perguntinha pessoal. Como tem sido este retorno ao Brasil? Você jogava há dez anos na Europa e agora tem a possibilidade de ficar com sua filha, Aaliyah, de seis anos (foto: Marcos do Carmo), ainda mais próxima da família.
ADRIANINHA: Cara, você não tem ideia, mas esta será a primeira vez que, em 10 anos, eu passei a Páscoa em casa. Isso não tem preço. Depois desses anos lá fora morar em Recife com minha filha tem sido o paraíso. Só quem já morou lá fora sabe que há momentos difíceis pacas. Há uma cultura nova, uma língua que você aprende, mas não é seu país, entende? Estou descascando no rosto por causa do sol, mas tem sido maravilhoso viver com minha filha em meu país. Passei dez anos passando frio e estou recuperando os 10 anos de neve no calor do Recife (risos).

Compartilhe:

Em jogo fraco, Sport-PE bate Americana em São Paulo e se aproxima do titulo da LBF

Não foi um um bom jogo de basquete o que vi no Centro Cívico ontem (acho que ninguém em sã consciência dirá isso). Mas mesmo assim o invicto Sport/PE bateu Americana fora de casa por 54-44 em um jogo de 98 pontos para abrir 1-0 na final da LBF e se aproximar do título.

Acho que só os “98 pontos” ali já falam por si só, não? Foi uma partida bem disputada, física até (ótimo), mas mal jogada e serviu como um espécie de síntese do basquete brasileiro (masculino ou feminino) que tem sido jogado aqui nos últimos 15 anos: muita vontade, nervosismo, excesso de tiros tortos de três pontos (foram 28 tentativas e apenas três acertos), erros de fundamento em profusão (28 em 40 minutos contra 24 assistências – ou seja, mais desperdício de bola do que passe pra cesta) e uma correria alucinante, desenfreada (já falei isso aqui, mas a impressão que me passam é que quando passa do meio da quadra não pode mais respirar).

No primeiro tempo, Zanon levou vantagem quando colocou Karen e Ronneka para frear Adrianinha e sua fúria ao cesto. Deu certo, e o potente ataque do Sport fez apenas 20 pontos no mesmo número de minutos.

Na segunda etapa, quando Americana ameaçou abrir o momento crucial do jogo. A norte-americana Alex (cestinha ao lado de Clarissa com 17) voltou na mesma hora que as donas da casa começaram a marcar por zona. Não deu certo para Americana, que viu Alex anotar 8 pontos seguidos (duas bolas de três pontos) para iniciar a virada do Sport, que passou a comandar o placar com tranqüilidade (nos 20 minutos finais fez 34-18) para vencer por 54-44.

Sobre Americana, duas coisinhas: Clarissa foi brilhante com 13 pontos no primeiro tempo (não fosse ela e seu time não teria feito 25…), mas na segunda etapa teve quatro desperdícios de bola (um deles quando tentou quicá-la por quase 20 metros). Karla, cestinha e melhor jogadora do time na competição, teve 0/8 e terminou com apenas 1 ponto (não é normal isso, obviamente).

Ganhou o Sport-PE, que deve acabar ficando mesmo com o título da LBF, mas o que vi hoje em Americana esteve longe de agradar. Em termos técnicos, Zanon viu o que o aguarda na seleção brasileira. E o basquete feminino brasileiro viu o que tantos anos de descaso acabam gerando – pobreza técnica, fundamentos esquecidos e vícios adquiridos.

Foi lindo ver o ginásio do Centro Cívico cheio, mas para o basquete feminino voltar a ser grande o trabalho precisa ser muito, muito forte – e pra já. Parabéns ao Sport e a Americana, que lutaram bravamente, mas esperávamos mais de uma decisão de campeonato com cinco jogadas que foram às Olimpíadas de Londres.

Viu o jogo? Gostou?

Compartilhe:

Com cinco olímpicas, Americana e Sport/PE começam decisão da LBF neste sábado

Começa neste sábado às 13h (com transmissão do Sportv) a decisão da terceira edição da Liga de Basquete Feminino entre Americana e Sport-PE no interior de São Paulo. E o mais bacana de tudo (ao menos pra mim, claro): estarei no Centro Cívico para acompanhar tudo de pertinho (fique de olho em Twitter e Facebook para ter notícias em tempo real).

E começa com atrativos de todo lado. Serão cinco atletas que estiveram nas Olimpíadas de Londres em quadra (Karla e Clarissa, de Americana, e Érika, Adrianinha e Franciele pelo Sport-PE – Tássia, das paulistas, também esteve lá, mas não jogará a decisão devido a lesão no joelho). Isso, claro, sem falar em Alessandra, das pernambucanas, campeã mundial em 1994 e medalhista em 1996 e 2000. Currículo, como se vê, não faltará logo mais!

Se isso não bastasse, será a primeira aparição de uma equipe do Nordeste em uma final nacional do basquete feminino. E o até então invicto Sport-PE, com um elenco caro e recheado de estrelas, entra com vantagem de ter o mando de quadra na série final melhor de três (a se lamentar, apenas, que este mando tenha sido conseguido contra Americana em apenas um jogo – lembremos que não houve returno nesta edição da LBF). Além disso, há Zanon, técnico que renovou com Americana por mais uma temporada e que foi anunciado como novo técnico da seleção feminina na quinta-feira. É mais um atrativo da decisão que começa logo mais.

O campeonato foi curto, começou atrasado, sem returno, com apenas sete times, tudo errado, mas chegam ao final os dois melhores times e elencos. Vale a pena ficar de olho, pois a promessa é que sejam dois (ou três) jogos.

Quem quiser que vence o jogo 1 logo mais? E o campeonato? Comente!

Compartilhe: