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Bala na Cesta

'Comunidade do Basquete' não se mexe, e Carlos Nunes segue tranquilo na CBB

Fábio Balassiano

09/12/2015 00h25

nunes1No dia 25 de novembro Lucio de Castro fez matéria denunciando algo gravíssimo na CBB: que a verba da entidade máxima estava sendo usada para outra finalidade que não o desenvolvimento do basquete. Ontem, aliás, o Lucio voltou aqui no site para nova reportagem brilhante: "Grego contratou serviço de ar-condicionado de empresa da mulher na CBB".

Escrevi sobre Nunes no dia seguinte, falamos, Pedro Rodrigues e eu, no Podcast a respeito disso, ouvi a indignação de Oscar Schmidt e estava esperando alguma ação rápida e concreta da tal "comunidade do basquete" (ou do Ministério do Esporte, ou de instâncias BEM superiores que deveriam olhar isso com bastante calma). Nada feito.

kelly1E nada feito em relação a tal "comunidade do basquete" porque, embora a natureza dos problemas e das pessoas seja BEM diferente, fora de quadra o foco do esporte mudou rapidamente de duas semanas pra cá. Os temas foram mudando, na modalidade, de tal forma que Nunes acabou ganhando uma sobrevida.

Em primeiro lugar porque as meninas e os dirigentes do basquete feminino decidiram colocar um ponto final na relação com a CBB. As atletas enfim se organizaram, falaram firme (veja aqui o que a Kelly – na foto – disse), contaram com respaldo dos clubes (parabéns a eles!) e decretaram que se não houver diálogo não se apresentarão à seleção para o evento-teste de janeiro/2016 (mais aqui). Como se não fosse com ela, a entidade máxima optou por fazer a convocação normalmente na sexta-feira, não ouvindo as agremiações e chamando, inclusive, uma atleta (Damiris) que está lesionada há tempos, prova máxima que Zanon está longe de acompanhar a modalidade como um técnico de seleção deve fazer.

giovannoni1Para melhorar as coisas para Nunes, o Daniel Brito, aqui do UOL, divulgou que atletas da NBA (Leandrinho e Raulzinho) solicitaram verbas ao Ministério do Esporte através do Bolsa Atleta. Fui fazer uma varredura no site do ME e vi, também, que nomes como Guilherme Giovannoni (presidente da Associação de Atletas, vejam vocês – na foto), Marcelinho Machado, Marquinhos, Olivinha, Rafael Hettsheimeir e Alex Garcia também estão entre os contemplados. O maior erro, ao meu ver, está na concepção do projeto (do governo) e em permitir que atletas de ponta recebam por isso. Na minha modesta opinião, o incentivo deveria ser para base, para o fomento, pra galera que está começando e/ou de modalidades menos favorecidas e que precisam de apoio. Noves fora isso tudo, eu, se fosse atleta, não solicitaria o Bolsa-Atleta se estivesse em Seleção Brasileira (topo da pirâmide), mas isso NÃO é ILEGAL, que fique claro.

nunes1Como ponto culminante, os sempre lentos presidentes de Federação, os mesmos que elegeram Grego e Carlos Nunes nos últimos 20 anos (aplausos!), até que começaram um movimento para pedir explicações a Nunes, mas a trupe já parou de agir (como sempre acontece aliás). Alguns deles (dirigentes das federações) chegaram a me procurar, pedindo inclusive espaço neste blog. Precavido e conhecendo o histórico, afirmei a um deles que era preferível que eles fizessem o que quisessem fazer, divulgando (eu) as atitudes depois e não as pensatas primeiro. Obviamente a garganta para gritar por explanações convincentesno WhatsApp é muito eficiente. Se organizar / planejar para enfim cobrar algo concreto da entidade máxima, mais complicado e é algo que as Unidades Federativas aparentemente não estão muito dispostas a fazer.

nunes3O cenário todo somado (seleção feminina, foco no Bolsa-Atleta e Federações paradas) faz com que Carlos Nunes continue dirigindo a CBB tranquilamente como se nada de grave tivesse acontecido (e aconteceu). O basquete brasileiro é um mar de lama, uma modalidade administrada bizarramente, um lixo sem fim fora de quadra que acaba por refletir no que vemos dentro dela. E os principais envolvidos fingem que não podem fazer nada. Não é algo, obviamente, que surpreenda, como disse aqui no dia 11 de novembro, muito embora a acomodação assuste absurdamente pois os descalabros estão aí para quem quiser ver. A conclusão, tão triste quanto óbvia, é: as peças que poderiam movimentar o tabuleiro são passivas, têm muito medo e dificilmente vão tentar mudar um cenário que (na concepção dela) não lhes cabe (embora lhe pertença sobremaneira).

arg4Por fim, vale lembrar. No ano passado, em cenário de terra arrasada tão tenebroso quanto o nosso (crise financeira, gestão horrorosa e nenhum plano para desenvolver o esporte), os jogadores da seleção argentina (os campeões olímpicos, os que ganharam tudo, os que decididamente não precisariam mais fazer nada) se organizaram (aqui e aqui) e tiraram o presidente da Confederação, colocando por lá alguém que fosse de sua (deles) confiança (inclusive Fabricio Oberto, ex-jogador da geração campeã olímpica em 2004) para tentar arrumar uma casa que estava um verdadeiro pandemônio.

Por aqui, atletas, dirigentes, clubes e Federações optam pelo silêncio, por não agir, por acreditar que "só" jogar e participar de campeonatos está de bom tamanho. Com isso, palavras como "transparência", "desenvolvimento", "fomento", "organização" e "credibilidade" acabam ficando de fora da equação, né? Carlos Nunes agradecerá eternamente por isso.

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