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Bala na Cesta

Carlos Nunes, CBB, verbas e a estrutura esportiva brasileira

Fábio Balassiano

26/11/2015 01h36

nunes1Lucio de Castro explodiu uma bomba de proporções imensas ontem no UOL. Em mais um trabalho esplêndido de apuração (e documentação), ele divulgou um ótimo exemplo da falta de cuidado com a verba (seja ela pública ou não) por parte do presidente da CBB, Carlos Nunes (para dizer o mínimo). Há de tudo um muito no texto do Lúcio – de viagens, passando por compras e culminando com jantares. É de ler, reler (eu li umas vinte vezes para tentar capturar tudo), refletir e, o pior, se entristecer pra caramba. A Confederação emitiu, aliás, Nota Oficial em seu site no final da tarde (veja mais aqui).

cbb3Pode parecer que estou tentando lamber a própria cria, mas a verdade é que quem acompanha este espaço não se surpreendeu com a notícia desta quarta-feira. Pode ter, como aconteceu comigo, se chocado, indignado, entristecido. Mas surpresa, surpresa mesmo? Talvez pela desfaçatez da documentação apresentada na matéria, pode ser que pelos absurdos que estão detalhados no texto, mas não pelo fato em si. Que fique claro: e não digo isso por saber de algo em relação a Carlos Nunes na Confederação (se soubesse, com provas, teria divulgado), mas porque nos últimos anos o desempenho financeiro da entidade é uma verdadeira atrocidade que, se fuçada mais a fundo, sairia algo de estranho (como saiu). As análises dos Balanços Financeiros estão aqui do lado e são insanidades aprovadas, chanceladas e não contestadas por Federações e Associação de Atleta que agora (com o perdão da palavra) passam vergonha por não terem exigido mínimas explicações de algo errado que poderia estar ocorrendo – como estava.

cbbO problema, ao meu ver, está justamente no sistema e é preciso ampliar o olhar para analisar a situação toda (situação que é revoltante, obviamente). O sistema político que elege Nunes e afins nas Confederações brasileiras é arcaico, equivocado e "permite" que situações bizarras assim surjam. São 26 cidadãos que sentam em volta de uma mesa para definir os destinos de um esporte e o presidente NÃO remunerado de uma Confederação. Primeira pergunta boba: de que vive um presidente de Confederação? Se ele possui emprego ou negócios particulares, como irá se dedicar ao esporte da maneira profissional e integral exigida atualmente? Se ele não possui negócios particulares ou emprego, como paga suas contas? E sabemos que há presidentes de Confederação há anos em seus cargos, não? Nunes está na CBB, para citar um exemplo, desde 2009, não custa lembrar.

nunes1São estes mesmos 26 Presidentes de Federação que, depois da eleição, precisam ser cobrados pelo presidente da Confederação para desenvolver a modalidade em sua unidade federativa. Peraí, vou explicar de novo: o cidadão A, presidente da Federação X, decide votar em Y por acreditar que Y possui o melhor plano para estruturar e desenvolver o esporte. Eleito, Y passa a cobrar (vejam só vocês) ações e trabalho do cidadão A, que por sua vez pede verbas para Y para massificar o esporte na região X. Pode dar certo? Com todo respeito, não pode. A estrutura é deprimente, corroída, feita pra dar errado. Carlos Nunes, a quem respeito (sempre me tratou com o máximo de educação possível apesar de minhas severas críticas a sua gestão), está errado, muito errado. Fez algo que não deveria, mas fica uma pergunta singela: e os presidentes de Federação, que deveriam fiscalizar, cobrar, minimamente investigar os motivos de a conta da CBB estar alucinadamente endividada, como se sentem neste momento?

nunes1Será que Ministério do Esporte ou Comitê Olímpico Brasileiro (COB) não poderiam fazer algo em relação a melhor estruturação de Federações e Confederações deste país? Já vimos problemas desta natureza no futebol, no vôlei e agora no basquete (que eu me lembre de cabeça). Muito provavelmente não são as únicas. Não vou chegar ao ponto de dizer que o meio "proporciona" este tipo de situação, porque aí já seria demais (creio que a palavra 'ética' deva ser evocada por aqui), mas está muito claro para mim que as entidades esportivas deste país precisam ter um mecanismo mais profissional para eleger e manter seus dirigentes no cargo, e uma área de fiscalização eficiente e sobretudo independente,

aapb1Outra ponta importante que poderia fazer com que a situação não chegasse a este nível ridículo seria a dos atletas (atletas e técnicos). Como sempre a classe menos atuante no que tange a qualquer assunto fora das quadras, os jogadores, cuja Associação de Atletas aprovou as contas de 2013 da CBB mas se absteve de votar em 2014 (emitiu uma Nota lacônica ontem à tarde também), pouco fazem para mudar os rumos da modalidade – seja na forma estrutural precária como as coisas são feitas, seja para entender o porquê das dívidas crescentes, seja para exigir condições melhores para o esporte do país. Os veteranos estão satisfeitos com suas situações. Os jovens acham que não podem se expor. E aí, misturando as duas coisas, temos um deserto de ações que trava qualquer chance de mudança por aqui.

nunes2Gostaria de fechar este texto dizendo o contrário, que tudo vai melhorar mas não é possível. Infelizmente continuo achando que nada mudará no basquete brasileiro (ou no esporte daqui se quisermos aprofundar o debate). Já havia abordado isso aqui duas semanas atrás (e a bomba máxima do Lucio não tinha sido explodida), mas o silêncio de quem pode mover esta roda (atletas, dirigentes, clubes, técnicos, Ligas etc.) permite que Nunes e a turma que vêm levando a modalidade à bancarrota há tempos se perpetue no poder. Se perpetue no poder sem fazer absolutamente nada pelo esporte e ainda usufruindo das verbas, que deveriam ser usadas para investir exclusivamente no basquete do país, de maneira pouco recomendável.

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