Bala na Cesta

Arquivo : Kareem Abdul-Jabbar

Coluna ExtraTime: Abdul-Jabbar afirma que pouco tempo de NCAA afeta qualidade da NBA
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Fábio Balassiano

“Sou constantemente perguntado sobre os motivos que levaram as pontuações da NBA a terem caído tanto. Para se ter uma ideia, no jogo 6 das finais da NBA entre Lakers e Celtics (vitória do Los Angeles), o Boston anotou 100 pontos, patamar mínimo de qualquer um dos times naquela série final. Naquele jogo, os Celtics tentaram nova bolas de três, o máximo da decisão”

“Como contraste, neste ano vemos poucos times chegando aos 100 pontos e mais de uma dezena de chutes do perímetro por noite. Antes focávamos mais em criar espaços e em tentar tiros com maior possibilidade de acerto (de perto da cesta). Muitas coisas mudaram (as regras, a liberação das defesas por zona, etc), mas o maior problema vem antes dos jogadores entrarem na liga”

“Na minha época, os times da NBA eram repletos de atletas que tinham passado um tempão na universidade, jogando para técnicos renomados e disputando palmo a palmo minutos de quadra contra outros grandes jogadores. (…) Hoje em dia, o que vemos são atletas que ficam muito pouco tempo nas faculdades, que se tornaram apenas um pré-Draft para jogadores ótimos no um-contra-um e ainda não tão ótimos no jogo coletivo como deve ser encarado o basquete”

“O que acontece é que estes atletas nunca chegam, ou chegarão, aonde poderiam chegar. Eu trabalhei pessoalmente com um atleta (nota do editor: Jabbar foi técnico de Andrew Bynum quando o jovem chegou ao Los Angeles Lakers) que não conseguia ajustar as suas incríveis habilidades físicas ao grande jogo que é o basquete.”

“Outro caso interessante é o de Dirk Nowitzki. Pessoas contam que ele deixou de vir jogar na NCAA porque ele teria problemas em defender e pegar rebotes. Ele foi para a NBA, e sinceramente acho que ele, embora um ótimo arremessador, poderia ter se tornado um atleta extraordinário se tivesse sido ensinado a defender, bloquear, essas coisas.”

“Os times titulares da NBA hoje em dia raramente contêm atletas com um extenso currículo de serviços prestados ao basquete universitário, e eu acho de verdade que isso tem afetado a qualidade do basquete que temos assistido. Concluindo: os torcedores de hoje não têm recebido o espetáculo que eles deveriam receber simplesmente porque os atletas não sabem como fazer, não foram ensinados. Acho que isso tudo tem a ver com o ‘progresso’ que o basquete norte-americano quer dizer que tem nos últimos anos.”

As declarações são de Kareem Abdul-Jabbar, seis vezes campeão e MVP da temporada, e foram retiradas de um artigo escrito por ele (aqui) para o site da ESPN. Kareem fala sobre a qualidade atual dos jogos da liga norte-americana, sobre a formação dos jogadores e sobre como um período maior na faculdade afetam no que vemos nos jogos da NBA. Sem dúvida vale a reflexão sobre o assunt, não?

Concorda com Kareem? Comente na caixinha!

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Coluna originalmente publicada em 18.06.2012 no ExtraTime, site hospedado no UOL.


Sobre Kareem Abdul-Jabbar, Vagner Love e a falta de cultura esportiva no Brasil
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Fábio Balassiano

Eu não sei se vocês sabem, mas ontem Kareem Abdul-Jabbar (Lewis Alcindor para os mais antigos) esteve no Rio de Janeiro. É um “cidadão comum”, dono do maior número de pontos da história da NBA e de seis títulos da principal liga de basquete do mundo. E aí o que acontece quando ele vai a Gávea, sede do Flamengo, na tarde de sexta-feira (queria muito ter comparecido, mas não consegui)? Sua presença é ofuscada pela apresentação de Vagner Love, novo reforço do futebol rubro-negro (leia mais aqui).

Nada contra o Flamengo (aconteceria o mesmo no meu Fluminense, no seu Corinthians, no seu Grêmio ou no seu Cruzeiro), mas me deu um pouco de vergonha do tamanho que a contratação de um jogador teve e do tamanho que a vinda de um gênio, de mito, ganhou.

Noves fora a imprensa ter perguntado a Jabbar sobre futebol (vocês está na frente de um dos maiores do basquete de todos os tempos e vai falar sobre futebol, é isso mesmo?), o que me deixa absolutamente embasbacado é que na presença de um mito do esporte imprensa e público dêem mais valor a uma apresentação de um atleta não mais do que comum (repito: ocorreria o mesmo se fosse na semana passada com o Thiago Neves, com Kléber Gladiador etc.).

Fala muito sobre a falta de cultura esportiva do país, fala muito sobre como anda a gestão do esporte brasileiro (assusta mais ainda por ser no Flamengo, clube presidido por uma ex-nadadora, que deveria dar mais valor aos chamados esportes olímpicos) e mostra também uma dependência da imprensa em relação a venda/cliques bizarra, triste. Desculpe, mas a capa de O Globo, um dos maiores jornais do país, ontem e hoje foi sobre Vagner Love, e não sobre um mito não só das quadras, mas também alguém que tentou fazer do basquete um “trampolim” para falar de coisas maiores, bem mais importantes (preconceito, desigualdade, fome e cuidados com a saúde).

Em ano olímpico, a vinda de Kareem Abdul-Jabbar foi uma maravilha – e deveria ter sido mais bem explorada e reverenciada. Não é todo dia que você recebe alguém que foi 19 vezes All-Star da maior liga de basquete do mundo. Não é todo dia que você recebe alguém com seis MVP’s de temporada regular. Não é todo dia que você recebe um Hall da Fama que teve sua camisa 33 retirada em duas franquias (Bucks e Lakers).

E aí ele vem ao seu país e é ofuscado. Me desculpem, mas dá um desgosto profundo.