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As 34 rodadas de playoffs da Euroliga, por Rodrigo Salomão

Fábio Balassiano

15/12/2019 05h04

* Por Rodrigo Salomão

Onze mil pessoas ensandecidas, cantando sem parar, com bandeirão, com tudo. Times campeões e com histórica rivalidade no currículo (em finais inclusive), brigando a cada posse de bola, cada lance livre, cada revisão da arbitragem, numa disputa cheia de viradas e reviradas em meio a uma boa dose de superação. Isso é playoff, meus amigos!

Só que não era. Era "apenas" a 13ª rodada da temporada regular da Euroliga, em que Maccabi Tel Aviv e CSKA se enfrentaram numa noite fria, que poderia ser como qualquer outra na Menora Mivtachim Arena, em Israel. Mas não foi bem assim. O roteiro da partida trouxe uma energia bem difícil de descrever. Uma pena (ou nem tanto) que este é o meu trabalho. Porque de fato o que vivi ali foi surreal demais para se limitar a meras palavras. A gente vai tentar.

Primeiro um contexto bem importante: ambas as equipes, contenders (aspirantes ao título) este ano, estavam rigorosamente empatadas na tabela, brigando pelas primeiras posições (8 vitórias e 4 derrotas). O grande problema, pelo lado israelense, é que quatro jogadores estavam lesionados, dos quais três são titulares (o armador Nate Wolters, o ala – e ídolo – Omri Casspi e o pivô Tarik Black). Um elenco de apenas 10 nomes para a rotação diante do atual campeão. Tarefa dura, que pedia uma ajuda especial.

"São 11 mil de vocês hoje com bandeiras amarelas e azuis. Vocês serão nosso fator extra contra o CSKA! Precisamos de muita ajuda esta noite para superar os problemas do time, que vocês conhecem bem. Vamos, Maccabi!", convocou o locutor no ginásio antes da entrada da equipe.

O pedido foi acolhido de imediato. Eu nunca vi uma atmosfera assim num ginásio. É daquelas vezes em que uma criança jamais esquece e abraça a paixão pelo clube para sempre dali em diante. Realmente a torcida levou no colo, como se fosse o jogo mais importante da vida de todos. Mesmo quando o CSKA abriu 14 pontos de vantagem, as músicas (e as vaias ao adversário) não cessavam. Era muita tensão, mas ao mesmo tempo muita confiança num time que estava (e segue, desculpem o spoiler) invicto em sua casa na temporada. Não deu outra. Faltando 2:20 para acabar, o jogo estava 80-80. Foi quando a multidão mais uma vez percebeu que ela ia ajudar a decidir a parada. Pressão, pressão e mais pressão. Muitas bolas convertidas de um lado, nenhuma do outro. Fim de papo: 90-80 para o Maccabi no mais espetacular jogo de basquete que já vi ao vivo.

Porém, mesmo em choque, aqui é trabalho. Depois ainda fomos conversar com alguns personagens da partida, como o novo capitão da equipe anfitriã, o ala Jake Cohen, que nos contou sobre a emoção desta primeira vez como líder do plantel na Euroliga e o quanto os torcedores foram determinantes para a grande vitória:

"Eu fiquei muito satisfeito. Tínhamos muitas lesões esta noite e é por isso que todos nós estamos tão contentes com o que fizemos. Deixamos em quadra nosso coração, nossa coragem, mesmo quando estávamos mal, seguimos firmes e passamos num grande teste. Os nossos fãs foram gigantes, nos transmitiram muita energia, muito suporte. Sempre ajuda jogar com onze mil pessoas de amarelo, quando temos isso é um grande trunfo para nós. Sim, foi possível sentir uma atmosfera de playoff, sim. A gente vem tendo uma grande atmosfera na nossa arena ultimamente, os fãs têm sido fantásticos e vencemos ótimos times assim. Nos sentimos muito bem, o clima é espetacular", contou.

O cestinha da partida, Scottie Wilbekin (22 pontos), foi na mesma linha do capitão ao conversar conosco ainda no vestiário:

"Nós estamos orgulhosos de nós mesmos. Obviamente é só mais um jogo, ainda nem chegamos à metade da temporada, mas estou pessoalmente orgulhoso, porque todos deram conta do recado. Quem entrou correspondeu e fez um ótimo jogo. Sobre os nossos fãs, é sempre uma grande atmosfera aqui, esse é o nosso normal, os fãs serem sempre ótimos é o nosso normal", opinou o camisa 1.

Com uma fase inicial de apenas 34 jogos, cada confronto vale muito. Cada vitória a mais ou a menos faz a diferença. Não por acaso os atletas costumam falar que na Euroliga todos os jogos são de playoff. Desta vez vi isso com os meus próprios olhos. E senti, com o coração ainda mais apaixonado pelo basquete, que não é exagero.

Curtinhas da Euroliga:

  • A rodada também reservou outro jogo para lá de importante entre turcos no qual o irresistível líder Anadolu Efes derrotou o tradicional Fenerbahçe como visitante pela primeira vez na história do torneio. Com o triunfo, o time de Shane Larkin (20 pontos) acumula agora 11 vitórias em 13 partidas, uma a mais que o vice-líder Real Madrid (que venceu seus últimos 8 jogos). Já o Fener, com 5 vitórias até agora, segue sua saga em busca de melhores resultados. Está apenas na 13ª colocação;
  • Quem resolveu mostrar a que veio é um velho conhecido da NBA: Nik Stauskas! O canadense ex-Kings, Sixers, Nets, Blazers e Cavs dominou as ações pela primeira vez desde que chegou ao Baskonia e, com 22 pontos anotados, liderou a equipe espanhola ao passar pelo Estrela Vermelha por 72 a 64. O "sauce" está começando a ficar apimentado em Vitoria-Gasteiz;
  • Apimentada também foi a entrevista que Dimitris Itoudis, técnico do CSKA, concedeu ao site israelense Walla! Sport, antes da partida com o Maccabi. O treinador falou sobre Charles Barkley e a influência que a Europa tem sobre a NBA:

"Charles Barkley disse que a Euroliga é bobagem, e que a verdadeira liga é a NBA. Eu não sou o tipo de cara que solta grandes frases, respeito o Barkley e não o conheço pessoalmente, mas a Euroliga é uma liga difícil. Não apenas profissional, mas mentalmente também. Deus abençoe Luka, ele já tinha esse talento todo aos 13 anos e não está sozinho. Você vê caras como Giannis Antetokounmpo e Bogdan Bogdanovic, que também são embaixadores do basquete europeu. Hoje, as equipes da NBA querem mais essa influência, quase toda franquia tem algum europeu na comissão técnica, um olheiro, um analista…". Será que vai ter tréplica? Aguardemos;

  • Nomes bem conhecidos foram anunciados esta semana para a corrida da escolha do time da década. Tivemos as indicações de ninguém menos que Milos Teodosic (que atualmente joga a Eurocup pelo Virtus Bologna), Nemanja Bjelica e Thomas Heurtel. A briga promete ser boa por um lugar ao sol entre os dez mais.

 

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