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Bala na Cesta

Bala na Cesta

As razões que explicam o fato de nenhum craque da NBA querer jogar pelo New York Knicks

Fábio Balassiano

03/07/2019 05h24

Divulgação Madison Square Garden

"Tirando Chicago, não há melhor lugar pra jogar do que no Madison Square Garden", Michael Jordan

"O ambiente é diferente. As pessoas entendem de basquete, há os torcedores-símbolo, o clima é muito legal. O ginásio é incrível", Kobe Bryant

"Fico feliz de ter atingido 61 pontos neste ginásio. Me sinto honrado de ter dado meu melhor em um espaço como o Madison Square Garden. É uma meca do esporte", James Harden

São frases de alguns craques da história do basquete sobre o Madison Square Garden, mítico ginásio que abriga o cada vez mais pálido New York Knicks, uma das franquias fundadoras da NBA lá na década de 50. Pra azar dos nova-iorquinos, todos os atletas amam jogar no Garden. Todos os atletas amam jogar CONTRA os Knicks, e não por ele. A maior das últimas evidências veio no mercado de agentes-livres do último fim de semana. Com doses cavalares de crueldade, aliás.

Querendo Kyrie Irving, Kevin Durant, Klay Thompson e Kawhi Leonard no mercado de agentes-livres, além de sonhar com o primeiro pick do Draft para fisgar Zion Williamson (algo que não conseguiu – ficou em terceiro), os Knicks foram solenemente esnobado por todos eles (Kawhi nem ouviu a proposta da franquia…) e ficaram com jogadores de segundo e terceiro escalões. Pra piorar as coisas, viu o vizinho de cidade, o Brooklyn Nets, que estava em uma reconstrução danada de três anos pra cá, fisgar Durant e Irving, além do próprio DeAndre Jordan, ex-pivô dos Knicks que jogará lá nos próximos anos.

Ao invés de craques, vieram jogadores medianos como Taj Gibson, Julius Randle, Elfrid Payton, Bobby Portis e Wayne Ellington. Nenhum deles empolga uma mosca sequer para agitar o Madison Square Garden. Madison Square Garden de um Knicks que foi a apenas 4 playoffs neste século XXI, tendo vencido uma série de pós-temporada em apenas uma ocasião (em 2012/2013). Desde 2013, aliás, o time de Nova Iorque não joga o mata-mata. E nada parece mudar em um futuro breve para uma franquia que tem dois títulos (1970 e 1973) e outras seis finais (1951, 1952, 1953, 1972, 1994 e 1999).

Sem querer ser profeta do apocalipse, mas foi exatamente o que escrevi neste blog no dia 1º de fevereiro de 2019 quando os Knicks trocaram Kristaps Porzingis para o Dallas Mavericks pensando em abrir espaço na folha salarial para atrair agentes-livres. Era uma alucinação, um devaneio, um profundo não conhecer a própria história do time. Foi um erro de concepção gigantesco abrir mão do único craque, do único All-Star, que a franquia tinha em mãos para tentar algo incerto. É o famoso trocar o certo pelo duvidoso. No caso da turma da Big Apple, do praticamente impossível. Era desconhecer demais um passado bem recente, a forma como tem sido conduzida a franquia e o que todos os jogadores ao redor da NBA falam dela. Os Knicks arriscaram, perderam e tiveram literalmente que pagar não pra trazer estrelas, mas montar o time. O que escrevi lá atrás acabou acontecendo, olhem só:

"Eu só não consigo entender que confiança é essa de Steve Mills (o gerente-geral), visto que os dirigentes de Nova Iorque não conseguem trazer grandes estrelas no mercado de agentes-livres há tempos (Amare Stoudemire, há mais de uma década, foi o último?). A franquia, que tampouco acerta a mão nos Drafts com frequência, deixou de ser atraente para os grandes jogadores a partir do momento em que se tornou um pandemônio organizacional. Nenhuma estrela já consagrada na liga parece querer trocar a segurança de brigar fundo em playoff por um lugar, embora muito midiático e com os holofotes absurdamente gigantescos, zoneado e sem perspectiva de grandes vitórias.

Em um mundo globalizado, a diferença entre o quanto você é visto jogando em um disfuncional Knicks e um organizado Bucks é bem pequena – só ver o quanto de sucesso está fazendo o Giannis, o Greek Freak, nesta temporada e nas anteriores também. Não custa lembrar que em 2010 o Knicks fez a mesma coisa pra tentar assinar com LeBron James e Chris Bosh. A dupla foi pra Flórida e o Knicks ficou realmente sem nada.

Meu medo, vendo de longe, é a franquia buscar Kevin Durant e Kyrie Irving, por exemplo, não conseguir nenhum dos dois e fazer contratações, como fez recentemente, de jogadores medianos com salários altíssimos (o famoso pagar acima do que vale). Em julho pode acontecer do Knicks ter perdido um ídolo local, como Porzingis se tornou, e acordar apenas com um pick alto de Draft tendo só atleta razoável em volta".

É horrível dizer isso, mas nenhum craque consagrado da NBA quer jogar no New York Knicks. Nenhum é nenhum mesmo. O principal motivo atende pela estrutura organizacional tenebrosa causada pelo péssimo modelo de gestão do dono James Dolan.

Proprietário à moda antiga, ele centraliza todas as grandes decisões, inclusive as de basquete, demite técnico, evita de fazer oferta a atletas, como foi no caso de Kevin Durant (o Knicks enviou um comunicado dizendo que Dolan preferiu não fazer oferta a Durant devido a lesão do craque, que ficará um ano parado praticamente…), briga com ex-jogadores (o ídolo Charles Oakley foi expulso do Garden por seguranças depois de criticar os rumos da franquia), contratação e demissão de um ídolo como Phil Jackson para uma função que ele nunca havia exercido antes (a de presidente de operações de basquete) e forma elencos erraticamente caros e sem profundidade alguma.

Dolan bate boca com torcedor, responde a e-mail de proprietário dos carnês (um deles criticou o time e recebeu uma resposta desaforada de Dolan, que viu a carta do senhor de quase 80 anos…), entra em vestiário e procura ter relações pessoais com atletas. No manual do que não fazer com um time profissional, o cara preenche TODOS os requisitos – e isso não é bom, obviamente. Em nenhum momento ele, dono da MSG Company, que detém os direitos não só do Knicks, mas do time de hóquei no gelo, do da WNBA e da MSG Network, televisão a cabo local, entendeu que o jogo mudou e que um novo modelo de gestão era recomendável.

Insisto que em uma NBA cada vez mais global, cada vez mais internacional, cada vez com menos importância a localidade (fisicamente falando), faz pouca diferença jogar pelo Knicks ou pelo Bucks. É óbvio que tradição conta, camisa conta, um ginásio mítico conta. Tudo isso é verdade, mas está muito claro que esta geração de jogadores busca atualmente o seguinte: contratos máximos (OK, isso o Knicks tinha pra dar), chance de ir longe em playoff, elencos sólidos em volta e tranquilidade pra trabalhar no dia a dia. Os três últimos itens a equipe está longe de entregar. O Nets tinha os três itens para oferecer e fisgou dois craques.

Pro Knicks atualmente só existem duas saídas. A primeira é o dono vender a franquia. A segunda é fazer um trabalho de longo prazo de reconstrução via Draft, algo penoso demais para um time que não vai fundo em playoff há mais de duas décadas e que quase nunca acerta a mão na seleção dos jovens valores. Pra azar dos torcedores de Nova Iorque nenhuma das duas possibilidades me parecem que vão acontecer tão rapidamente assim.

Enquanto isso um dos fundadores da NBA vai se apequenando cada vez mais. O ginásio continua lindo, mas no momento é só isso que o New York Knicks tem a oferecer.

Sobre o blog

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