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Bala na Cesta

Bala na Cesta

Sobre José Neto na seleção feminina, espero que seja um processo e não algo pontual

Fábio Balassiano

2018-06-20T19:05:39

18/06/2019 05h39

Acabou que devido às finais de NBB e NBA não comentei alguns assuntos importantes do basquete brasileiro, algo que começo a fazer a partir de hoje.

O primeiro tema que abordo é a contratação de José Neto para ser o técnico da seleção brasileira, algo que já havia antecipado aqui faz tempo. O namoro engatou, se tornou um casamento e ele foi anunciado recentemente. Seus primeiros compromissos serão o Pan-Americano de Lima, no Peru, e o Pré-Olímpico visando os Jogos de 2020 em Tóquio.

Em primeiro lugar, vale dizer. Gostei do movimento da Confederação Brasileira. Fugiu do óbvio, não se prendeu a dogmas e conceitos bobos, como o de que quem treina o feminino é que pode assumir a seleção das meninas, abriu a cabeça e trouxe o melhor técnico disponível para liderar um processo de transformação bem necessário na seleção feminina. Neto tem experiência, ótimas ideias, cuca fresca, entende muito do jogo moderno e certamente trará táticas, pensamentos e filosofias novas ao dia a dia das atletas. Bola dentro.

Neto é um cara trabalhador, que vai arregaçar as mangas, criar seus próprios diagnósticos, elaborar um conceito de jogo, conversar com pessoas e, a partir disso, ter a sua própria linha de trabalho. Eu só espero que não cobrem dele resultados que não vêm há quase 15 anos, quando o Brasil foi quarto lugar no Mundial de São Paulo em 2006. Depois disso, só fiasco e não será surpresa e nem culpa dele se a vaga olímpica não vier. Zero surpresa se acontecer, aliás. No continente hoje o país é muito mais fraco que Canadá e joga em igualdade contra a Argentina, de quem perdeu em Sul-Americano recente.

O ponto principal, pra mim, é se a contratação dele servirá de pano de fundo para uma transformação maior no basquete feminino – da base ao adulto, e isso eu não vejo aqui há brincando 20 anos. A CBB tem seus problemas financeiros, suas questões, mas sinto muita falta de um plano de salvação pro esporte das meninas, algo estruturado, com começo, meio e sem fim. Ainda não vi isso e torço muito para que isso esteja sendo trabalhado por Adriana Santos, diretora de seleções femininas, e toda diretoria da entidade máxima.

No momento em que escrevo, por exemplo, o Brasil perde do Canadá por 78-39 na Copa América Sub-16. Já foi tempo que no continente os EUA eram os únicos que faziam troça da seleção brasileira. Os tempos mudaram, e se mudou para as canadenses é porque lá não faltaram trabalho, metodologia, capacitação dos técnicos, esmero na formação das atletas e disciplina. O que falta aqui. Sem querer criticar uma menina de 15, 16 anos, mas este time não treinou 2 semanas para uma competição importantíssima. Não me parece o ideal e os resultados a gente vê na quadra.

Espero muito que Neto seja o começo de um processo de mudança de fora para dentro de quadra. Que ele não seja só o técnico, mas sim o maior agente de mudança no basquete feminino brasileiro. Já passou da hora de algo urgente, impactante e organizado ser feito por essas meninas. Não custa lembrar que veio delas as últimas grandes conquistas do país (1994, 1996 e 2000). Se trabalhar um pouco, um pouquinho, a chance de colher resultados rapidamente é bem maior do que no masculino.

Só espero que ele e sua comissão técnica não trabalhem sozinhos. É preciso um plano arrojado, de longo prazo e não algo pontual visando apenas a Olimpíada de Tóquio – ou a participação nela. Que seja um processo, organizado, trabalhado, sistematizado e focado principalmente na formação de técnicos e novas atletas. O basquete feminino brasileiro agoniza e é fundamental que todos estejam cientes disso. O nível técnico da LBF é de médio pra baixo. Os últimos resultados internacionais, pífios. A quantidade de jovens atletas chegando ao adulto para mudar o patamar da modalidade, ínfimo.

Tapar o sol com a peneira não vai ajudar a ninguém.

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