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Bala na Cesta

O basquete das funções, o segredo do campeão Golden State Warriors

Fábio Balassiano

17/06/2015 12h30

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gsw11"Os Warriors mudaram a forma como o basquete é jogado. Exatamente como o meu Lakers do Showtime (década de 80) fez quando fomos campeões. Na próxima temporada da NBA todos os times tentarão contratar jogadores verstáveis como os Warriors têm" . Foi assim que Magic Johnson definiu a conquista do Golden State ontem à noite em sua conta no Twitter. Desnecessário dizer que trata-se de um dos maiores nomes do esporte mundial em todos os tempos, de alguém que de fato modificou o jogo com o Los Angeles Lakers (como ele mesmo cita) e que, por ser um empolgado por natureza, de vez em quando ele exagera (principalmente no calor das emoções de uma final).

gsw3Mas neste caso consigo entender e concordar com Magic Johnson, sim. Ainda estamos literalmente no calor do feito de ontem e muita coisa irá acontecer com esta equipe e com o próprio técnico Steve Kerr. Certamente o Golden State será mais visado por todos (adversários, imprensa, torcedores, patrocinadores etc.) e nem sempre é fácil lidar com isso. Mas a maneira como os Warriors jogaram esta temporada merece ser estudada com um pouco mais de calma. O time terminou com 67 vitórias, o MVP da fase regular (Steph Curry) e das finais (Andre Iguodala), o melhor ataque da NBA, a segunda melhor defesa, 11 jogadores jogando 10+ minutos por noite e um basquete lindíssimo, daqueles que enchem os olhos de todos. Não é, digamos, algo normal, usual, comum, visto por aí a cada esquina (ou quadra).

gsw7Um basquete de velocidade, de arremessos de três, de cortes, mas sobretudo de funções. Ao contrário do que estamos acostumados a ver, Steve Kerr teve a inteligência (e escrevi isso aqui antes da final) de verificar que a grande qualidade do seu elenco não era "só" a atribuição técnica de seu esplêndido grupo de atletas. O básico seria que o novo treinador utilizasse um sistema de jogo (no ataque e na defesa) que o agradasse e que o adaptasse ao Golden State. Golden State que, de mais a mais, já estava evoluindo nas mãos de Mark Jackson nos anos anteriores a chegada de Kerr.

kerr10Mas o novato fez diferente. E fez diferente por notar que ali havia algo mais, algo diferente de se encontrar em um punhado de atletas: uma heterogeneidade incrível no elenco, uma maneira que faria com que o jogo fosse disputado em outra dimensão. Parece simples dizer isso agora, mas requer estudo, humildade para conviver com o erro e muita persistência. Mas acabou dando certo (muito certo, obviamente). Com os 12, 15 atletas do Golden State o técnico-alquimista experimentou mais de 100 formações diferentes na temporada. Em nenhuma delas deixou claro ao adversário como se fazia para marcá-lo. Com todas elas explorou ao máximo o espaçamento em quadra, possibilitando que a maior arma (os chutes de três) fosse desferida quase sempre em liberdade e que, com a quadra aberta, os pontos de contra-ataques saíssem com naturalidade. A capacidade atlética de seu time, um dos pontos fracos apontados por todo mundo, não foi notada porque Steve Kerr conseguiu "escondê-la" brilhantemente.

gsw9Era muito mais fácil para qualquer técnico que estivesse chegando no Golden State (e para um novato ainda mais) que não ousasse. Era o básico, o caminho mais fácil e até natural. Mas Steve Kerr e os jogadores queriam, e até precisavam, de mais. Steph Curry não PODE jogar de maneira simples, no meia-quadra habitual justamente pelo seu físico e pela maneira como chuta após os dribles (algo completamente fora dos padrões). Pedir que Klay Thompson atue de maneira cerebral, travada, é castrar a sua principal habilidade (os arremessos rápidos). Cogitar que Draymond Green bata de frente com alas mais altos e fortes perto da cesta seria uma sandice.

gsw5A maneira, portanto e de modo a fazer com que este trio funcionasse da melhor maneira, foi testar, ousar, esquecer das posições e pensar apenas em funções. Na defesa, ao invés do mano a mano tradicional, um exército que marcava coletivamente e pressionando a bola a cada segundo foi a melhor solução. No ataque foi mais complexo. Pensar apenas na polivalência de um elenco que poderia fazer mais do que uma… posição ao mesmo tempo. O ala Harrison Barnes jogando perto da cesta para abrir espaço para o ala-pivô Green chutar de fora? Foi feito. Andre Iguodala, Barnes e Green nas alas JUNTOS para tirar os pivôs rivais de perto da cesta ou deixá-los totalmente confusos? Foi feito (e muito). Steph Curry liberado da condução de bola, com Shaun Livingston armando o ataque? Idem. Como parar um time assim? Fica quase impossível justamente porque é difícil prever o que estará do outro lado a cada posse de bola. O arsenal ofensivo é enorme, o talento é também muito grande e (palavrinha mágica) as variações tendem ao infinito.

gsw1E aqui, aliás, cabe uma recomendação a quem assiste basquete aqui no Brasil (de torcedores, passando por imprensa, dirigentes e técnicos): vamos esquecer de uma vez por todas essa bobagem de definir jogador pela posição em que, teoricamente, ele atua. LeBron James é o ARMADOR de seus times desde que entrou na NBA. Joakim Noah, em teoria o pivô do Chicago, exercia em muitos momentos a alcunha de armador da equipe ano passado. Steph Curry é armador e finalizador. Pivôs, hoje, chutam de três com facilidade. Armadores, atualmente, pegam muitos rebotes. Há alas que beiram as 8, 10 assistências de média. Sendo mais claro: não existe mais essa de "pré-definir" um atleta pela sua altura ou pela forma como as escalações figuram. Há uma histeria, um fricote, um ridículo espírito candinha de se ver as coisas de maneira atrasada por aqui que chegam a chocar em alguns momentos (principalmente na imprensa especializada, que deveria estudar mais ao invés de ficar presas a definições fáceis). Olhemos todos para as funções, para as maneiras como estes atletas agem dentro de quadra para avaliá-los. O basquete mudou muito de 15, 20 anos pra cá e ficar analisando a modalidade como se fosse o mesmo jogo de 40, 50 anos é um erro absurdo e que diminui absurdamente a capacidade de ver a beleza do NOVO jogo.

gsw12Mas, bem, voltando. O Golden State é, digamos assim, uma obra ainda em progresso. Pode ser que este núcleo aí formado por Steph Curry, Draymond Green, Klay Thompson, Andre Iguodala, Harrison Barnes e Andrew Bogut (os que têm contratos mais longos) nunca mais ganhe nada. Pode ser, até, que daqui a 10 anos a gente olhe para a conquista de 2015 e verifique que ela foi um sonho de uma noite de verão apenas. Aconteça o que acontecer, os Warriors deixam, desde já, um legado de como o basquete pode ser praticado de forma mais veloz, divertida, sem grandes preocupações com "nomes" de posições pré-estabelecidas e utilizando ao máximo os números ao seu favor (os tais analytics, como se costuma dizer nos Estados Unidos).

E isso já é coisa pra caramba.

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