Bala na Cesta

Categoria : Raio-X do Basquete Feminino

Raio-X do Basquete Feminino: minha proposta de melhoria para a Liga de Basquete
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Fábio Balassiano

No post passado você leu um pouco do que eu faria com a seleção brasileira feminina de basquete, né. Agora é a vez de falar um pouco sobre a Liga de Basquete Feminino, que entra em sua terceira edição com um produto feio pacas. Coloquei alguns pontos que poderiam ajudar o torneio a evoluir:

1) Assim como o vôlei e o Instituto Australiano de Esporte (AIS) já fizeram, eu colocaria uma espécie de seleção brasileira Sub-20 para atuar por algum clube. As meninas que têm surgido não possuem tempo de quadra, precisam de espaço e necessitam de experiência e poderiam passar uma ou duas temporada treinando exaustivamente e com orientação direcionada para elas. Se fosse possível, colocaria o grupo (12, 15 atletas) para treinar justamente com o técnico da seleção brasileira adulta. É óbvio que seria necessária uma conversa com os clubes formadores, que deixariam de usar suas atletas, mas é só refletir um pouco. Americana, maior celeiro de jogadoras atualmente, quase não coloca Leila, Débora, Fabiana e Tássia pra jogar. Dois campeonatos depois, elas voltariam maduras, melhores e prontas para atuar no time de cima. Ah, e um supervisor-técnicos, como é Paulo Bassul agora no NBB, cairia muito bem também.

2) Conversaria fortemente com a Confederação Brasileira, com quem a LBF mantém relação estreitíssima (para dizer o mínimo), e trataria de fazer com que a entidade, que nada em dinheiro (orçamento de mais de R$ 20 milhões/ano), bancasse dois reforços estrangeiros para cada time, aumentando, assim, a competitividade e o nível técnico da competição. Seria muito bacana voltarmos a ver nomes de peso por aqui (só lembrando: Amaya Valdemoro, Cinthia Cooper, Vedrana, Vicky Bullet, entre outras, já atuaram por aqui…).

3) É fundamental aumentar o número de equipes que participam da Liga de Basquete Feminino. E se São Paulo parece ter “esgotado” seu estoque de times na principal competição do país, garanto que há espaço, e localidades, que gostariam de acolher uma agremiação da LBF. O Maranhão basquete já provou que há este tipo de demanda. É só correr atrás. Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Manaus são grandes capitais sem times de basquete na elite nacional. Que tal arriscar um papo com dirigentes destas cidades? Massificação, alguém entendeu isso também?

4) Além disso, é necessário sentar e conversar com clubes formadores que poderiam fazer parte da primeira divisão nacional. Jundiaí e Mangueira, para ficar em apenas dois exemplos de São Paulo e Rio de Janeiro, têm estrutura, trabalhos corretos e tradição para ingressarem na LBF. O que falta? Um pouco de apoio financeiro prioritariamente. Que a Liga, portanto, dê ferramentas (e não grana) para que estes clubes se organizem e consigam atuar. É inadmissível, sinceramente, que o Rio de Janeiro, cidade olímpica, não tenha um time no principal campeonato de basquete feminino do Brasil.

5) Para ajudar na relação com as comunidades locais, faria, como já foi feito por João Henrique Areias no começo do Nacional da CBB, parcerias com as faculdades, e colocaria um time de jovens para atuar com o time da cidade. Seria uma espécie de estágio supervisionado de estudantes de estatística, administração, publicidade, jornalismo, educação física, fisioterapia e outras áreas. Seria muito bacana para os jovens, que logo estariam em contato com o mercado profissional, e para os times, que teriam mão-de-obra local e com vontade de aprender/crescer (fora que o custo é menor, evidentemente). O Areias já fez isso em Uberlândia, e deu muitíssimo certo.

6) Contrataria duas agências urgentemente. Uma boa de marketing esportivo (vocês sabem bem de quem eu NÃO estou falando, certo?) e outra de promoção de eventos para ajudar a captar patrocínios, tornar o produto um pouco mais “vendável” e tentar transformar as partidas em pontos de encontro não para quem gosta de esporte, mas sim para quem quer se divertir. Não é tão difícil assim, sinceramente, enxergar que o produto precisa ser mais bem arrumado, certo?

7) Sei que os direitos de transmissão de TV a cabo são do Sportv, mas acho que para um maior alcance do produto a TV Aberta seria fundamental. A TV Globo dificilmente teria interesse, mas sinceramente acredito que a Band, que já passou Nacionais de basquete feminino (se não me engano o de 1998, aquele que o Fluminense venceu…), ou a Record se interessariam.

8) Por fim, faria um calendário maior, mais amplo. Não é possível que em 15, 20 jogos as meninas evoluam alguma coisa, mas certamente com 35, 40 alguma coisa em termos de desenvolvimento seria vista. Aumentando o número de equipes, claro, faria com que a tabela crescesse também, mas se não for o caso pra LBF3, que crie-se uma espécie de Copa da Rainha (Espanha), mais um turno ou algo do gênero. O torneio é curto demais atualmente.

E aí, o que acham da proposta? Comentem na caixinha!


Raio-X do Basquete Feminino: no capítulo final, minha sugestão de mudança (seleção primeiro)
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Fábio Balassiano

Durante os últimos dias vocês que acompanham este espaço leram aqui um triste, porém realista, panorama do basquete feminino brasileiro, que vem sendo violentado principalmente pela CBB há algum tempo. Hoje é o dia de eu apresentar a minha proposta de mudança. Dividi em duas partes. Primeiro, seleção brasileira. Depois, Liga de Basquete Feminino (próximo post para não cansar muito). Vamos lá:

SELEÇÃO BRASILEIRA

Na verdade esta não é uma proposta nova para quem acompanha este blogueiro. Em julho de 2010, depois do mico que foi o Mundial da República Tcheca (aqui e aqui), falei que promoveria uma renovação radical na seleção brasileira. Usaria os anos pré-Olimpíada do Rio de Janeiro para formar um time novo e teria quatro, cinco anos para dar experiência, vivência internacional e bagagem a ele. Nada disso foi feito por Hortência e Confederação, e obviamente dois anos se perderam nessa tentativa de mudança.

Mas minha ideia continua idêntica – e passa, necessariamente por muito investimento, como não poderia deixar de ser. Colocaria Érika como pilar central da seleção feminina e seria bem sincero com todos, ao anunciar que durante três ou quatro anos os resultados internacionais não seriam os melhores (como, diga-se, não vêm sendo mesmo com as mais veteranas). Jogar o Mundial de 2014 não me parece problema, seja com um time renovado ou com um experiente, visto que os EUA já estão classificados e a Argentina ainda não oferece grande resistência. Logo, ficar de fora da competição internacional não me parece viável.

Encheria as meninas de amistosos, torneios, clínicas, acompanhamento e competições internacionais, e levaria o grupo anualmente para uma excursão de dez, 15 amistosos na Europa com um técnico de primeira linha. Como o calendário de clubes aqui é cheio de buracos, períodos de treinamento não faltariam também. Fala-se em Tom Maher, o australiano, que é evidentemente um bom nome, mas não o único. O que a seleção precisa é de um técnico forte, competente e de uma comissão técnica imensa, cheia. Arriscaria fortemente em Mila Rondon como desenvolvedora destas meninas mais jovens, Maria Helena Cardoso como consultora-técnica e Maher ou algum/a australiana como técnico(a) principal. Seria um trio de respeito, não?

Fiz aqui uma lista boba, despretensiosa, das meninas que poderiam fazer parte, digamos, deste projeto de seleção para os próximos quatro anos. Se vocês notarem bem, de experiente só tem Érika (nem Iziane eu coloquei). Apostei em meninas altas, jovens, com potencial físico a ser explorado e com boa técnica. Ou seja: atletas que conseguiriam chegar na Olimpíada de 2016 com 22, 23 anos e desempenhar papel bem bom caso fossem bem treinadas e orientadas.

ARMADORAS: Débora Costa (Americana), Tainá (São José), Joice (de Ourinhos), Carla Lucchini (Jundiaí) e Babi (Americana)
ALAS:
Tássia, Raphaella (Mangueira), Joice Coelho (Jundiaí), Isabela Ramona, Maria Claudia Teixeira, Izabella Sangalli (foto à direita), Kananda, Patricia Ribeiro (São José) e Tatiane Pacheco (já convocada)
PIVÔS:
Érika, Damiris (foto à esquerda), Vanessa (Sassá), Monique Teresa, Clarissa, Fabiana Caetano, Franciele, Thamara Freitas e Thais Pinto (NCAA)

Na minha opinião este é o único caminho que enxergo para que o Brasil ao menos tente fazer alguma coisa razoável em termos internacionais na Olimpíada de 2016, quando este ciclo terminará (insisto: em Olimpíada não se começa uma renovação, como apregoa Hortência, mas sim é o ponto alto de um projeto que precisa ter começado quatro anos antes). Do jeito que está, e com a geração que por aí figura, já está mais do que provado que resultados nos torneios principais (Olimpíadas e Mundiais – vide vexames recentes em Pequim, Londres e República Tcheca) não virão. E aí, amigos, o que acham? Viajei na maionese?

Comentem!


Raio-X do Basquete Feminino: sobre Iziane, vale a pena insistir com ela na seleção?
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Fábio Balassiano

Está chegando ao fim o Raio-X do basquete feminino brasileiro feito por este blogueiro aqui (quem perdeu os capítulos anteriores, é só clicar para relembrar tudo). Amanhã colocarei aqui minha proposta de mudança, ou seja, algumas ideias que podem, sim, ser feitas a curto e longo prazo para tentar reativar a modalidade no país.

Mas hoje é a vez de um assunto sabidamente espinhoso. O nome dela é Iziane Castro Marques, e sua coleção de polêmicas renderia um livro de 400, 500 páginas. A última, vocês lembram, veio quando ela foi expulsa por Hortência da seleção feminina que em uma semana estrearia na Olimpíada de Londres por ter levado namorado pra dentro da concentração. Por isso a pergunta que fica é: ainda vale a pena insistir com ela para o próximo ciclo olímpico?

Minha resposta de cara seria não, mas acho que é preciso dar uma olhada com cautela para isso tudo e analisar alguns pontos importantes. O primeiro é: na WNBA, com gestão, disciplina e linha dura da técnica Marynell Meadors, Iziane não sai da linha, não apronta absolutamente nada de errado. Ou seja: ela respeita o que lhe é imposto. Em segundo lugar: no Atlanta Dream, seu último time, ela tinha uma função definida. Quando decidiu não mais cumprir, chutar como se não houvesse amanhã, saiu do quinteto titular e foi pro banco. Entendeu a situação, retomou seu basquete e foi fundamental no final da temporada passada. Simples, não? Fazia o que a técnica pedia, jogava. Não fazia, banco. Não é tão difícil.

Iziane tem um gênio difícil (embora, é bom dizer isso, sempre tenha me tratado muitíssimo bem), mas é importante olhar também para a draga que é o panorama técnico do basquete feminino atual. Se não é craque (longe disso), ao menos poderia contribuir como grande definidora de contra-ataque que sempre foi – desde que, claro, saiba exatamente qual é a sua função e que seja cobrada por isso. Em comparação com as demais alas que o país tem, ela sobra – em termos técnicos, físicos e em experiência internacional -, e é preciso que o técnico, seja ele Tarallo ou outro que Hortência escolha, saiba utilizá-la como ela deve ser usada (sem achar que ela vai resolver tudo individualmente, por exemplo).

O caso pré-Olimpíada foi absurdamente mal conduzido e, caso houvesse mais calma entre as partes, poderia ter sido resolvido interna e calmamente. De novo eu acho que vale uma conversa franca, uma conversa definitiva. Iziane está longe de ser um exemplo do que deve ser feito (está mais para ser exemplo do que NÃO deve ser feito), mas poderia ser usada ao lado de Érika como pontos de sustentação em uma renovação drástica que precisa passar o basquete feminino brasileiro.

Concorda comigo? Ou Iziane nunca mais na seleção brasileira? Comente na caixinha!


Raio-X do Basquete Feminino: ‘vítimas’, jogadoras poderiam tentar mudar o panorama
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Fábio Balassiano

Em uma de suas raras e boas entrevistas, Larri Passos, técnico de Gustavo Kuerten nos melhores momentos do tenista, disse o seguinte sobre as revelações que surgiam na modalidade: “É a geração MIC. Mulher, Internet, Celular. Se não colocar o esporte como prioridade, não chega a lugar algum”. Engraçado, foi na frase dele que pensei quando pensei no tópico jogadoras no Raio-X do basquete feminino que está rolando aqui no blog há uma semana.

Não dá pra generalizar, eu sei, e a tal geração MIC do Larri poderia ser descrita como, sei lá eu, PSIC (Pagode, Shopping, Internet e Celular) no basquete feminino brasileiro. O que sinto, de verdade, é que a grande maioria está muito tranquila com a situação que vive a modalidade, com os últimos (catastróficos) resultados, com as péssimas condições de trabalho a que são submetidas.

Para se ter uma ideia, em 2008 eu falei com uma das meninas que participaram da vexatória campanha na Olimpíada de Pequim e ela me voltou com um “não dá nada, acontece”. Engoli seco, mas quando vi uma foto de atleta (colocada em rede social pública) em uma loja de calçados com um rosto feliz um dia depois da eliminação nos Jogos de Londres eu me choquei. De todo modo, não surpreende. É só ver a LBF pra notar que temos atletas absurdamente foras do peso (Kelly, de Ourinhos e medalhista olímpica, é o melhor exemplo – na foto, comendo uma medalha), fundamentos terríveis e pouquíssimo comprometimento com o crescimento não dos seus respectivos times, mas da modalidade como um todo.

Mas isso, claro, é muito pouco, é reducionista demais. As jogadoras que ainda resistem ou começam no basquete são muito mais vítimas dos fatores anteriormente citados aqui (clubes, LBF, técnicos e principalmente a Confederação Brasileira) do que qualquer outra coisa, e acho que o momento triste da modalidade também deveria ensinar muita coisa. Ensinar pra mudar, não simplesmente ensinar pra dizer ‘ah, que bom, aprendemos com a derrota’. Não é admissível que uma seleção nacional treine 30 dias antes de uma competição mundial, não é admissível que .

E o que as jogadoras brasileiras fazem? Nada, absolutamente nada para modificar a situação. Enquanto não pensarem quer são as grandes responsáveis pelo basquete feminino (elas têm muita força, é só acreditar nisso), a situação não mudará. Caberia a elas exigir, sim, melhores condições de trabalho, campeonatos mais organizados, mais longos e um mínimo de respeito por parte dos dirigentes. Caberia a elas, também, mostrar em quadra um pouco mais de auto-respeito, cuidando de seus físicos e diminuindo erros que apenas com treinamento (sozinhas, que fosse) acabariam.

No final das contas, a situação para as jogadoras é bem simples. O basquete feminino sempre foi ignorado por aqui – mesmo quando foi campeão do mundo e duas vezes medalhista olímpico. Continuará sendo por causa dos resultados internacionais e da passividade das atletas. É só elas, atletas, escolherem um caminho: o do conformismo com a situação ou o da indignação para a mudança.

Atualmente elas se encontram, infelizmente, no primeiro estágio.


Raio-X do Basquete Feminino: da base ao adulto, técnicos ‘ajudam’ a diminuir qualidade
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Fábio Balassiano

Ontem acabou que não consegui dar prosseguimento ao Raio-X sobre o basquete feminino deste país, que, é bom dizer, acaba de terminar a participação no Mundial Sub-17 da Holanda vencendo a Turquia por 66-61 para ficar na décima-primeira e penúltima colocação. Pois bem, hoje é dia de continuar a dissecar o que se passa na modalidade. Falo, neste sábado, dos técnicos deste país.

NO POST QUE ABRIU A SÉRIE, ANÁLISE SOBRE A CBB

Este, aliás, é um post que poderia ser estendido ao masculino também, mas em menor escala evidentemente. No feminino o buraco, como se vê, é bem mais embaixo. Quem acompanha qualquer circuito de base (eu, por proximidade, ouço e vejo o do Rio de Janeiro e converso e tento acompanhar ao máximo o de São Paulo, o melhor e mais forte do país) sabe que há problemas gravíssimos desde a formação. Por conta da estrutura dos clubes e de uma mentalidade retrógrada de desenvolvimento de atletas (os dois juntos, misturados mesmo), treinadores acabam pensando em ganhar campeonato ao invés de formar atletas.

AQUI FALEI DE HORTÊNCIA

Não é raro, portanto, vermos meninas de 1,80m jogando apenas de pivô com 13, 14 anos, alas-pivôs de 1,75m sendo “educadas” desde muito cedo a “só” jogar de costas pra cesta e meninas com potencial técnico absurdo sendo “obrigadas” a decidir todos os jogos com mais de 15, 20 pontos desde a base. Exemplos não faltam, e quem acompanha as divisões de base do país sabe disso. Com isso, fundamentos básicos acabam sendo perdidos e conceitos essenciais para o basquete acabam sequer existindo (espírito coletivo, domínio completo de TODAS as técnicas do esporte e raciocinar/ler o jogo). As distorções, técnicas, de fundamento e comportamentais surgem, e é quase impossível corrigir isso quando a menina já é adulta (ou juvenil). E os resultados em torneios classe A nos últimos anos confirmam tudo isso, com micos bizarros (o Mundial Sub-19 de 2011 é a exceção que confirma a regra).

POR AQUI, UM POUCO SOBRE A LBF

Portanto, o nível técnico que vemos na LBF, principal campeonato adulto do país, nada mais é do que produto do que os técnicos da base fazem (ou não fazem) desde a formação. Há trabalhos bons, consistentes no país, mas a grande maioria do que se vê por aí é quase uma linha de montagem produzindo atleta da mesma maneira que se fazia há 20, 30 anos. E o basquete mudou, a forma de se entender e ensinar basquete mudou, e parece que os técnicos, principalmente os de formação, não entenderam isso. Some-se a isso tudo dirigentes ruins, que só pensam em títulos desde as categorias menores, e pais que despejam as suas frustrações de atletas nos filhos, exigindo dos rebentos desempenhos lebronianos ou bryantianos desde sempre. O resultado, obviamente, é catastrófico (insisto) técnicamente, taticamente comportamentalmente.

E TAMBÉM ABORDEI A QUESTÃO DOS CLUBES

Por isso não é de se estranhar quando se olha Luiz Cláudio Tarallo como técnico da seleção brasileira. Ele é o microcosmo, uma redução, de quase todos os técnicos do país. Conformado, passivo, achando que tudo que se faz aqui está de bom tamanho, Tarallo representa muito bem o estado das coisas em sua classe. Ele treinou sempre na base (lembremos: sua primeira equipe adulta em torneios que não regionais foi justamente a seleção brasileira em uma Olimpíada – e isso é surreal, sabemos), algumas das meninas com graves problemas de formação técnica passaram pela sua mão (não vou nem citar nomes) e métodos de ensino que ele utiliza não são mais aproveitados no jogo de alto nível (é só rever os jogos da seleção feminina em Londres ou checar as colocações dele, Tarallo, em Mundiais de base). Falhas constantes de raciocínio de jogo, entendimento do que se passa em quadra e técnica completamente mal treinada são constantes quando se olha para quase todos os times femininos deste país – da base ao adulto.

Antes da conclusão, um fator importante merece ser destacado. Se não há muita renovação nas pranchetas (também um fato), nomes experientes e que poderiam contribuir muito para o basquete feminino foram solenemente e inacreditavelmente descartados da modalidade de tempos pra cá. Gente boa, gente inteligente, que fez a modalidade crescer neste país acabaram ficando no limbo, na memória apenas. Por que não usar Sergio Maronezes, dínamo que ajudou demais na seleção campeã mundial de 1994? Por que não utilizar Maria Helena Cardoso (foto) como uma espécie de consultora-técnica? Onde estão Antonio Carlos Vendramini, Miguel Angelo da Luz, Eleninha, Mila Rondon, Paulo Bassul e tantos outros capacitados que não em uma quadra de basquete para ensinar a essa garotada?

É triste demais, mas o basquete feminino atual lembra um pouco do Mito da Caverna, de Platão (aqui). Se esconde em suas próprias trincheiras, com medo do novo e dando as costas aos que já fizeram tanto pela modalidade. Técnicos são professores, educadores, e hoje em dia eles certamente não passam, ou não sabem passar, corretamente o dever de casa para as meninas que começam no esporte. Como num dominó, os buracos se acentuam com o tempo e as falhas ficam ainda mais gritantes. Lembremos: resultados esportivos são meramente reflexos do que se produz nas categorias de base de um país.

Que tal os técnicos discutirem um pouco sobre isso também? Já passou da hora, não?


Raio-X do Basquete Feminino: com pires na mão, clubes agonizam e atletas sofrem
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Fábio Balassiano

Você que acompanha este espaço e ainda está gostando do Raio-X sobre o basquete feminino produzido por este blogueiro já leu aqui o que falei sobre CBB, Hortência e LBF, certo? Se não leu, clique aqui.

Hoje a vez é dos clubes, dos clubes que ainda teimam em investir na modalidade. E se digo teimam, é simplesmente porque há poucos atrativos para patrocinadores colocarem grana em um esporte cujo retorno mostrou ser baixíssimo nos últimos anos (é ROI que descreve isso de forma bonita, não?).

Há culpa em todo sistema do basquete feminino atual, que, como vimos, é equivocado e pouco organizado/planejado pela Confederação e pela Liga de Basquete Feminino. Isso, sem dúvida, está mais do que claro. Basquete feminino, hoje, é feito por e para heróis da resistência. Mas os clubes têm sua parcela de responsabilidade nisso tudo também. Quase todos são acomodados, passivos e conformados com a situação que lhes é imposta por CBB, LBF ou Federações. Para ficar em um exemplo, quem acompanhou a luta da Federação Paulista recentemente para organizar o Paulista adulto feminino sabe que há pouquíssima vontade de ajudar a transformar a modalidade em algo comercialmente bom. Se quiserem outro, é só pensar na luta que a Liga de Basquete Feminino trava, a cada ano, para colocar oito ou dez times para jogar em sua divisão especial.

Como há pouca grana na mesa, os clubes gostam de ser tratados como reféns e ficam literalmente chorando pitangas aos quatro ventos. Reclamam de taxas, de passagens, de hospedagens, de tudo, mas pouco fazem para, repito, melhorar a situação da modalidade no país. A formação, com isso, é prejudicada, o nível técnico desde a base caiu assustadoramente bons profissionais e atletas preferiram trocar de modalidade ou simplesmente abandonar o basquete (natural, não?). E aí entra um pouco também das concepção de esporte deste país. Querendo ou não, a realidade hoje aponta para os clubes como centros formadores, centros de desenvolvimento e revelação de talentos. Se os do basquete feminino estão com pires na mão, como serão formadas as futuras estrelas da seleção brasileira? Missão quase impossível, certo?

Há, claro, boas e honrosas exceções. A maior delas é Americana, cidade do interior de São Paulo que, com apoio da Unimed local, consegue formar, desenvolver, educar e revelar ótimas atletas. Não obstante tudo isso, possui um time fortíssimo no adulto (embora com poucas atletas das divisões inferiores atuando), ginásio cheio e relação excepcional com a comunidade. É um exemplo a ser seguido, um exemplo a ser olhado por Confederação e Liga de Basquete para mostrar às demais agremiações que há, sim, um caminho possível para agremiações de basquete feminino não falirem dia após dia.

É uma triste realidade, mas não há muito jeito. Enquanto os clubes estiverem nesta situação, com pires na mão e passivos até a alma, o basquete feminino não sairá da lama. Ainda dá tempo de mudar, mas chegou o momento de clubes, federações, CBB e LBF sentarem na mesma mesa para rediscutir o basquete e suas relações.


Raio-X do Basquete Feminino: sem ideias, LBF repete receita de insucesso de Nacional da CBB
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Fábio Balassiano

Seguindo com a série sobre o basquete feminino (espero que vocês estejam gostando), hoje é a vez de falar sobre a Liga de Basquete Feminino, a LBF (logo ao lado), mas antes gostaria de escrever uma coisinha aqui que esqueci sobre a CBB.

NO POST DE ONTEM, HORTÊNCIA

Pouca gente lembra, mas quem acompanha este espaço sabe que cobro pacas uma solução razoável para os Brasileiros de Base. O mínimo que a entidade máxima poderia, e deveria, fazer era um circuito de clubes decente em todas as categorias. Mas como pensar e planejar não é lá muito a praia da Confederação, os Brasileiros, ultrapassados, retrógrados e sem sentido, permanecem. Mas nem isso a CBB sabe fazer direito, né. De 2010 a 2011, nada menos que 11 Brasileiros de Base foram CANCELADOS, um absurdo (releia aqui).

Mas, bem, voltando. A Liga de Basquete Feminino surgiu há dois anos com o intuito de ser a LNB das meninas. Ou seja: uma Liga independente da CBB com ideias novas, arejadas e com o objetivo de tirar o ranço que sociedade, dirigentes e torcedores têm/tinham da entidade máxima. Não conseguiu nada disso. Em primeiro lugar porque Marcio Cattaruzzi trabalhou/trabalha com José Carlos Brunoro na BSB Sports, empresa que presta serviços de marketing à CBB (e temos visto tudo que Brunoro não tem feito pelo basquete brasileiro há três anos).

Em segundo lugar, porque a estrutura criada ainda é muito elementar, incipiente, bem básica mesmo. Tão elementar que clubes vão falindo sem que a LBF tenha sequer um plano de ação para mantê-los. Desde a sua criação há dois anos, Mangueira, Joinville, Araçatuba e Catanduva já fecharam as portas, e apenas o Maranhão, de notícia boa e nova, entrou. Em termos de divulgação/comunicação/marketing, a Liga de Basquete Feminino repete a receita de insucessos dos Nacionais da CBB, que eram absolutamente fantasmas e sem nenhum apelo para imprensa, torcedores e até atletas.

Além disso, é absolutamente inadmissível que cidades com potencial absurdo para o basquete (Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador etc.) fiquem de fora da LBF (é só ver o sucesso que o Maranhão conseguiu na LBF2 para vislumbrar o que aconteceria em outra capital do Nordeste ou do Norte mesmos). Estranho ainda mais o Rio de Janeiro, sinceramente. Não por ser minha cidade, mas por ser a sede da Olimpíada daqui a quatro anos. Será que a Liga não tentou nada para criar uma equipe por aqui? Será que a Mangueira não poderia voltar com seu projeto de basquete adulto com algum auxílio?

NO POST QUE ABRIU A SÉRIE, ANÁLISE SOBRE A CBB

Se isso tudo não bastasse, o nível técnico da competição é sofrível. Só quem ama muito basquete é que consegue acompanhar as partidas. Por isso, seria muito razoável se a LBF tentasse alguma forma de subsidiar atletas estrangeiras ou repatriasse as brasileiras que ainda atuam no exterior para que a competição ganhasse mais em termos técnicos. Érika, Adrianinha e Franciele já estão de volta, mas ainda é muito pouco para transformar o produto em algo razoável, em algo “comprável” pelo público.

Por isso não é mentira dizer que a LBF recria fielmente o ciclo vicioso de erros no basquete feminino. Sem ideias criativas ou inovadoras, apresenta roteiro pra lá de conhecido. E se o final não foi bom com os Nacionais da CBB, tampouco será com ela. Ou muda, para apresentar um produto melhor, ou o campeonato continuará a ser ignorado por quase todo mundo.


Raio-X do Basquete Feminino: Hortência e sua incapacidade administrativa
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Fábio Balassiano

Comecei aqui ontem o Raio-X sobre o basquete feminino brasileiro. Critiquei, como não poderia deixar de ser, a Confederação Brasileira de Basketball, responsável maior pela derrocada do departamento das meninas deste país. Hoje a vez é de avaliar o trabalho de Hortência, diretora de seleções femininas da CBB (aqui no organograma da entidade máxima).

É inegável que, como disse ontem, a grande parcela de culpa pela queda do basquete feminino brasileiro seja da Confederação Brasileira, que deveria formatar um programa decente, minimamente decente para a modalidade (homens e meninas, diga-se). Mas também é óbvio que esperava-se muito mais de Hortência. Carlos Nunes venceu a eleição no dia 4 de maio de 2009, e no dia seguinte a Rainha foi confirmada como diretora do departamento feminino. Em sua chegada, como que num prenúncio de outras frases e atitudes infelizes, disse o seguinte sobre o piloto Rubens Barrichello (relembre aqui): “O Rubinho Barrichello, por exemplo, tem estrela, apesar de muitos dizerem que não. O problema é que a estrela dele fica na bunda. Quando ele senta no cockpit, ela apaga”. “Baita” começo, não?

Foi uma frase infeliz de uma gestora infeliz. Hortência canta aos quatro ventos que garantiu todas as seleções de base em Mundiais. Na verdade, a seleção Sub-17 não foi ao Mundial de 2010, mas isso pouco importa. Na gestão anterior, tão péssima e opaca quanto a atual de Carlos Nunes, times nacionais de base tinham a mesma ou maior facilidade para dominar o continente americano (exceção, claro, aos Estados Unidos). O que se esperava, e ainda se espera porque nada foi feito, era um plano para fazer com que o basquete voltasse a revelar grandes jogadoras como foi a Rainha.

Mas nada, além da famigerada e atrasada ideia da seleção permanente, sustentada por um caminhão de dinheiro público do Ministério do Esporte, foi feito. E nada é nada mesmo. Não houve nenhuma iniciativa para a iniciação de meninas na modalidade, nenhuma aproximação dos clubes, que anunciam a falência quase que semanalmente (Catanduva, Araçatuba etc.), nenhuma capacitação de técnicos da base, mudança alguma nos patéticos circuitos de base da Confederação Brasileira (seleções estaduais até quando?) e pouca, pouquíssima evolução técnica das jogadoras das divisões inferiores (citemos Damiris e mais quem?).

Com isso, a qualidade técnica interna caiu assustadoramente, e sem surpresa alguma os resultados nos torneios Classe A têm sido uma prova de quão ruim é o nível do basquete brasileiro. Isso tudo, claro, sem gerar revolta, inconformismo algum de uma entidade tão passiva que chega a assustar. São duas Olimpíadas e um Mundial no mais alto grau da mediocridade técnica e absolutamente nada é feito, absolutamente nada é modificado em termos estruturais no departamento feminino da entidade máxima, que, sabemos, vive em um mundo irreal, um mundo que não existe.

Falei da parte de gestão, da parte de administração de Hortência, que é em minha opinião bem fraca, e é impossível não mencionar as trapalhadas dela na escolha de técnicos da seleção brasileira. Começou com Paulo Bassul, mas a queda de braço entre o treinador e Iziane fez com que Bassul saísse. Veio o espanhol Carlos Colinas, que não resistiu ao péssimo Mundial de 2010. A tesoura de Hortência tampouco suportou Ênio Vecchi, que deu lugar a Luiz Cláudio Tarallo, comandante tão insosso quanto inexperiente na Olimpíada de 2012 (foi o quarto técnico em quatro anos de mandato dela). Isso tudo, claro, com a promessa de que Janeth assumiria o cargo para o ciclo que culminaria em 2016 com os Jogos do Rio de Janeiro. Ou seja: organização e planejamento passaram longe do mais alto comando da seleção adulta feminina de basquete.

Sinceramente não esperava muita coisa de Hortência como diretora de seleções da CBB, mas é impossível não se entristecer com sua gestão (ou falta dela). Espremendo, analisando friamente e com senso crítico, há muito pouco que se possa elogiar do trabalho da Rainha na Confederação (o bronze no Mundial Sub-19 de 2011 e…). E falo isso com dor, com tristeza, porque quando a Rainha entrou na entidade ao menos era o indício de que alguém com um mínimo de conhecimento de causa do basquete feminino estaria por ali. Mas faltaram preparo, ideias, planejamento e coragem para renovar uma seleção adulta há seis anos que se arrasta em quadra com nomes que jamais conseguirão algo pelo país.

Se é bem verdade que Rainha está no lugar errado, não é possível deixar de criticá-la por uma administração que não trouxe evolução alguma ao basquete feminino brasileiro que ela tanto ajudou, dentro de quadra, a ser grande, a ser imenso. O problema é que, fora de quadra, Hortência caminha a passos largos para colocá-lo cada dia mais perto do fundo do poço. Do jeito que as coisas caminham, há boas chances de isso acontecer rapidamente.


Raio-X do Basquete Feminino: o começo da série com a principal responsável pela queda – a CBB
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Fábio Balassiano

Conforme prometido durante o mico olímpico que foi a participação da seleção brasileira feminina, começa hoje aqui no blog uma série de posts para tentar dissecar a quantas anda o lado feminino do basquete deste país.

Dividi a série em oito capítulos, que serão divulgados de hoje até a próxima segunda-feira (27/8):

a) CBB (hoje)
b) Hortência (21/08/2012)
c) LBF (22/08/2012)
d) Clubes (23/08/2012)
e) Técnicos (24/08/2012)
f) Jogadoras (25/08/2012)
g) Iziane (26/08/2012)
h) Minha proposta de mudança (27/08/2012)

Então vamos começar. E pra começar, é óbvio que tenho que falar do mal maior, da principal responsável por esta derrocada do basquete feminino brasileiro. É a Confederação Brasileira de Basketball, que desde os tempos de Grego absurdamente abandona, esquece as meninas deste país. E aí não há milagre. Vejamos os resultados internacionais em torneios classe A de 2007 pra cá:

COMPETIÇÃO

COLOCAÇÃO

Mundial Adulto de 2010

Nono lugar

Olimpíadas de 2012

Nono lugar

Olimpíadas de 2008

Décimo-primeiro lugar

Mundial Sub-21 de 2007

Oitavo lugar

Mundial Sub-19 de 2011

Terceiro lugar

Mundial Sub-19 de 2009

Nono lugar

Mundial Sub-19 de 2007

Décimo lugar

Mundial Sub-17 de 2012

Ainda disputando (ficará de nono pra baixo)

Mundial Sub-17 de 2010

Não participou

Ou seja: com exceção do terceiro lugar conquistado pelo time de Damiris e Tássia no Mundial de 2011, o “patamar” que está reservado ao basquete feminino brasileiro hoje é o do nono, oitavo, décimo lugar. Muito triste para quem viu, no final do século passado, times brigando pelas primeiríssimas colocações das principais colocações. Mas, insisto, não surpreende.

Se Grego foi o grande responsável pelo começo do sucateamento das divisões de base das meninas, Carlos Nunes tem sido o grande responsável por terminar o “grande” trabalho de seu antigo companheiro de gestão. Nunes não tinha plano algum para o basquete feminino (não sei se tem para o basquete como um todo, para ser sincero), trouxe Hortência para uma função que está provada não ser a mais recomendada (ela é esforçada, mas não consegue montar um planejamento de longo prazo com coragem para “bancar” resultados ruins que possam vir no começo) e sequer se pronuncia para dizer quais medidas serão adotadas para que o caos, instalado há mais de cinco anos, mude.

Falar em gestão, em planejamento, em desenvolvimento técnico no basquete feminino atualmente beira o devaneio, e o resultado prático disso tudo é que, em sã consciência, nenhuma menina que começa em um esporte de quadra prefira o basquete ao vôlei na atualidade. É bem básico: as gigantinhas que surgem olham para um clube de vôlei e outro de basquete, para um campeonato nacional de vôlei e outro de basquete, para uma Olimpíada de vôlei e outra de basquete. Responda rápido: o que vocês acham que elas escolhem? Pois é.

E se da quantidade se obtém a qualidade, é bom o basquete tentar começar a mudar o rumo das coisas. As escolinhas de basquete feminino andam vazias, os clubes estão falindo ano após ano e as jogadoras que ainda insistem em tentar a sorte na modalidade chegam na categoria adulta em péssimo estado físico, com fundamentos terrivelmente treinados e sem perspectiva de carreira alguma.

E o que a CBB faz para mudar isso? Nada, absolutamente nada. A entidade acredita bizarramente que as seleções permanentes são a última novidade para transformar o basquete do país, quando, sabemos, ela é muito mais um paliativo do que qualquer coisa. Ou começa a se pensar na modalidade desde a formação (que tal tentar explorar as escolas?), dando força, luz, caminhos, métodos e meios e federações e clubes, ou o basquete feminino continuará neste pálido estado em que encontra.

Sem a famosa reserva técnica de gênios que surgiram no século passado (Janeth, Hortência e Paula), um trabalho sério, consistente e com metas estabelecidas é o mínimo que se esperava para reerguer a modalidade por aqui. Mas não é este o panorama que se apresenta. Sem ligar muito, a CBB deixa o barco das meninas à deriva, solto no mar e pronto para uma derrocada que pode culminar com resultados e micos ainda maiores.

Fica a pergunta: se os resultados dos últimos cinco anos têm sido bizarros, por que diabos a Confederação Brasileira insiste em usar os MESMOS métodos?


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