Bala na Cesta

Categoria : 20 anos do Mundial de 1994

20 anos do Mundial de 1994: Entrevista com Magic Paula
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Fábio Balassiano

paula1Maria Paula Gonçalves da Silva é uma dessas jóias raras do esporte brasileiro. Craque de bola dentro de quadra, crítica fora dela, Magic Paula conversou com o blog sobre a conquista do Mundial de 1994 e muito mais. Sem mais delongas, vamos à entrevista com ela (chamo a atenção para um trecho que para mim até então é inédito que ela conta sobre a quase saída de Miguel Ângelo da Luz antes do Mundial).

BNC: Conversei com a Hortência antes de falar com você e ela me disse que o sentimento dela em relação a conquista que se completou 20 anos ontem foi de “alívio” por ter conquistado algo tão grandioso no final da carreira de vocês e depois de tanto tempo batendo na trave. É o mesmo sentimento que você tem?
MAGIC PAULA: Não muito. É óbvio que tem todo este lado de ter tirado um peso das costas, mas para mim o sentimento é de felicidade, de alegria, de que depois de tudo o que passamos chegamos ao lugar mais alto possível. Era meu quinto mundial, se não me engano, e eu me lembro que um dia antes da estréia eu comentei com as meninas no vestiário: “Olha, provavelmente este será meu último Mundial. Não quero voltar pra casa com a sensação de que algo poderia ter sido feito. Vamos nos entregar 100% em quadra para fazer valer tudo o que treinamos”. Por isso a sensação que fica é de missão cumprida, de ter carimbado com um troféu uma vida de muito desgaste e, óbvio, frustrações na seleção. Além disso, posso te dizer que quando você sobe lá no alto do pódio e ouve o hino do seu país existe um sentimento muito forte de “eu sou capaz”, algo que acaba te destruindo quando as derrotas chegam.

paula8BNC: Você já parou para rever os jogos daquele campeonato? Ou nunca?
MAGIC PAULA: Inteiros, não. Em minhas palestras há alguns trechos, mas jogo inteiro, não. É meio estranho ficar se vendo, né. Parecia um jogo mais lento, diferente, não sei dizer muito bem.

BNC: Naquele Mundial o Brasil chegou desacreditado, com uma comissão técnica nova e passou por duas derrotas e um jogo duríssimo (Espanha) antes de chegar às semifinais. Vocês também duvidavam que poderiam ser campeãs?
MAGIC PAULA: Não sei se a palavra certa é ‘dúvida’, mas não sabíamos bem o que poderia acontecer. Começamos o campeonato não jogando muito bem. Ganhamos de Taipei, depois perdemos um jogo (Eslováquia), voltamos a perder na segunda fase (China) e depois suamos horrores contra a Espanha em uma partida em que perdemos o jogo quase todo para chegar às semifinais. É natural que as pessoas que acompanhavam o torneio nos olhassem sem colocar favoritismo na gente. Mas a nossa evolução foi nítida e linda da segunda fase para a semifinal. Crescemos muito defensivamente, as meninas mais jovens começaram a se encaixar, tudo passava a fazer sentido ali.

paulaBNC: Da partida final em si, há alguma lembrança especial?
MAGIC PAULA: Duas. Uma que foi no vestiário, antes de começar o jogo. Eu pedi a palavra e disse: “Moçada, fizemos tudo certo. Já chegamos aqui. Agora vamos ganhar, né”. E lembro também que o ginásio da final ficava perto de um bairro chinês em Sidney. Então jogávamos de novo contra a torcida. Mas chegando lá vimos algumas bandeiras do Brasil e sentimos que pelo menos um pouco do ginásio estava conosco. Querendo ou não, quando você joga fora do seu país se apega a pequenas coisas para te dar força. Lembro que quando fomos campeãs, e eu só me senti realmente campeã do mundo quando o jogo acabou, que comecei a chorar e fui pegar uma dessas bandeiras que estavam com alguém na arquibancada.

paula2BNC: Muita gente fala sobre o trabalho técnico que foi realizado pelo Miguel Ângelo da Luz e pelo Sergio Maroneze (seu assistente). Há alguma situação bem bacana que havia dentro da comissão que você lembre com mais clareza?
MAGIC PAULA: Sem dúvida que sim. Lembro com muita clareza dos trabalhos que o Hermes Balbino (preparador físico) fazia com a gente. O Hermes era meu preparador físico no clube, e naquela época ele teve uma idéia excelente. No começo do ano ele começou a conversar com outros preparadores físicos de times que tinham atletas selecionáveis e a passar o que estava fazendo. Houve uma troca de informações importante e que beneficiou a todo mundo. Eu falava pro Hermes: “Pô, você está ensinando todos os nossos truques”. Quando chegamos com o grupo na seleção, havia quatro sub-grupos de atletas muito bem divididos para que as atividades fossem as mais específicas possíveis. Em pouco tempo estávamos todas muito bem, na ponta dos cascos. Tem outra pessoa fundamental, que é o Waldir Pagan, supervisor. Ele foi um dos poucos que vi que se posicionou como supervisor mesmo, sem querer se meter no trabalho de áreas que não lhe cabiam. Além disso, o Waldir todo dia colocava nos murais das nossas salas de reunião fotos, frases motivacionais, estatísticas nossas e das adversárias e informações importantes do dia a dia. Pode parecer pouco, isso nunca vai para os holofotes, mas nos dava segurança muito grande de que estávamos bem assistidas em todos os lados.

paula3BNC: Sobre o Miguel especificamente, qual foi o sentimento de vocês meninas quando ele foi anunciado como técnico principal?
MAGIC PAULA: Olha, no começo o sentimento foi de revolta. Não há como dizer o contrário e isso é claro para todo mundo. A gente sentiu aquilo como um desprestígio com quem fazia o basquete feminino do Brasil. Foi trazido um técnico que ninguém conhecia, ninguém sabia de onde vinha. Vinha do masculino, não tínhamos referências. Foi natural o choque. Mas aos poucos o Miguel e o Sergio, que dava boa parte dos treinamentos, foram trazendo a filosofia deles e mostrando coisas diferentes, novas. Aos poucos as meninas mais jovens foram inseridas no sistema e vimos uma coisa muito bacana. Naquele Mundial as mais novinhas não tinham a sensação de que estavam ali para colaborar comigo e com a Hortência. Elas tinham funções e responsabilidades muito claras. Cada uma com alguma coisa importante para se fazer em quadra, cada uma com uma atividade para ser desempenhada em algum momento do torneio. Aquilo trouxe um sentimento de integração muito grande, de construção de uma identidade de grupo mesmo.

paula4BNC: Teve algum momento que foi mais turbulento na relação com o Miguel com o grupo?
MAGIC PAULA: Com a gente, não. Pelo contrário. Ele sempre foi um cara de diálogo, de conversar as coisas e mostrar o que e o porquê de estar tomando alguma atitude. Não foram raras as vezes que Hortência e eu estávamos com ele em reunião para discutir algo de plano de jogo, de treinamento ou qualquer outro assunto. Foi uma lição de humildade também. Ele chegou em um ambiente novo e precisava do máximo de informações, né. Quem pegava muito no pé dele era o Renato Brito Cunha. O Renato, então presidente da Confederação Brasileira, tinha sido técnico e entendia de basquete. Então ele ia aos treinos, falava, reclamava. Não sei se alguém já falou disso, mas teve uma série de amistosos contra Cuba para se preparar para o Mundial. Era lá no Nordeste, a gente jogava cada dia em uma cidade. Viajávamos, jogávamos, viajávamos de novo. Em um desses jogos, se não me engano em Recife, o Miguel chamou a mim e a Hortência e anunciou que estava pedindo demissão. Que não estava mais agüentando, que era muita pressão. Na hora nós duas falamos que ele não poderia fazer aquilo, que pressão ele sofreria em qualquer lugar e que o grupo estava com ele. Ficamos muito intranqüilas com aquela situação até que ele nos disse na manhã seguinte: “Vou ficar”.

paula5BNC: Tem uma pergunta que talvez não faça sentido agora, mas vamos lá. Você foi campeã mundial em 1994, medalha de prata em 1996 e disse que terminaria ali, em Atlanta na Olimpíada, a sua história na seleção. Mas em 1998, no Mundial, você voltou a jogar pela seleção brasileira. E não saiu muito animada mesmo com a quarta colocação. Por quê?
MAGIC PAULA: Não foi pelo aspecto de quadra, mas sim pelo fato de que não deveria ter passado por tudo aquilo de novo. Mesmos problemas, mesmas situações não muito boas. E existia um clima comigo de “vai lá, você é que tem que decidir” muito diferente de tudo o que tinha vivenciado nos últimos anos. Me arrependi, confesso. Era uma outra turma, em outro estágio e vivenciei coisas que não precisava vivenciar. Algumas meninas jogavam comigo em clube, e na seleção olhavam para mim como se fosse diferente delas naquela situação. Era um ambiente diferente. Algumas vezes, na ida para o vestiário, no intervalo, vi duas jogadoras conversando e dizendo uma pra outra “ela que vá lá e decida”. Era pra mim. Foi chato. O que mais lembro do grupo de 1994 era a harmonia que tínhamos, o companheirismo que carregávamos. Era tão bacana que quando tinha dia de folga as 12 iam comer pizza junto, iam se divertir junto. Lembro de uma vez, lá na Austrália, que fomos tentar ver o canguru, o tal canguru. Ficamos horas esperando, toda hora alguém dizia “lá vem ele (o canguru)”, mas nada de o bicho vir (Risos). Era um grupo com responsabilidades divididas entre as 12, e com todas na mesma página. Todas foram parte integrante do sucesso, cada uma com seu esforço, responsabilidade e dedicação.

paula6BNC: Depois de 20 anos dá pra dizer que o basquete brasileiro não soube aproveitar a “onda” pós-título mundial de vocês?
MAGIC PAULA: É algo que o esporte brasileiro está acostumado, né. São sempre ações pontuais, raras. As pessoas normalmente só olham quando o processo já está no final, quando os resultados já começam a aparecer. O basquete vive dos clubes ainda, e os clubes estão iguais há 20, 30 anos. É chato demais isso, né. Na geração que joga hoje a gente não vê reflexo do que poderia ter sido plantado 20 anos atrás. Dava tempo, né. Na época os holofotes se voltaram para nós, mas não houve um encadeamento de pensamento, planejamento, estrutura. É triste porque o que poderia ter sido aproveitado não foi feito. Na nossa época tinha pouco dinheiro, jogávamos basicamente contra Cuba e times de meninos e treinávamos muito, mas não jogávamos contra escolas diferentes. Hoje em dia há muito mais grana e não se pode falar que melhorou muito – pelo contrário. Para você ter uma idéia, quando fomos campeã mundial eu recebi uma caneta Mont Blanc. Para mim era o que menos importava. Eu queria mesmo era ter sido campeã do mundo.


20 anos do Mundial de 1994: Entrevista com a genial Hortência
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Fábio Balassiano

hortencia2A chinesa Haixia Zheng foi eleita a melhor jogadora do Mundial de 1994. Ninguém, porém, jogou mais naquela competição que Hortência, a camisa 4 da seleção brasileira feminina. Ela terminou como a cestinha do torneio (27,6), a jogadora que mais lances-livres chutou (69, para 59 conversões) e a segunda que mais atuou (36,4 minutos por partida). Números, como sempre, expressam muito pouco da importância da Rainha para aquela geração em particular e para o basquete brasileiro de um modo geral. Abaixo a entrevista com ela sobre os 20 anos da conquista daquele Mundial.

BALA NA CESTA: Vinte anos depois, qual é a sensação que fica quando você olha pra trás e vê que foi campeã do mundo com a seleção feminina em 1994 na Austrália?
HORTÊNCIA: Olha, é um alívio muito grande. Sinto-me, hoje, muito aliviada. Esta é a sensação. Mais do que felicidade, foi um alívio, pois era a nossa última chance de ser campeã do mundo, de marcar uma geração. Não tínhamos ganhado quase nada até aquele momento, só um Pan-Americano (de Havana, em 1991). No Mundial da Austrália começamos a jogar e vimos que poderíamos ir adiante, ir longe, chegar realmente no patamar que todas nós queríamos.

horte4BNC: Do Mundial em si, já vi vocês falando que saíram daqui sem ninguém no aeroporto, sem ninguém esperar muita coisa do time…
HORTÊNCIA: Quem é boa de lembrar as coisas todas é a Paula, você sabe, né. Tem vezes que em enrolo com os detalhes. Mas a recordação que eu tenho é que saímos do Brasil e só se falava em futebol, da Copa do Mundo de futebol. O que é natural para o país que somos. Chegamos na Austrália, ficamos lá na Tasmânia na primeira fase. Ninguém conhecia ou falava da gente. De repente os olhares de quem acompanhava o Mundial se voltaram pro Brasil quando fomos para Sidney para a fase final. Ali vimos que tínhamos alguma chance, que poderia ser a nossa chance. Lembro pouco dos jogos, essas coisas, mas lembro bem do vestiário contra a China, antes da final, que a Paula disse: “Moçada, já que chegamos até a decisão é pra ganhar, né”. Tínhamos perdido para a China na fase de classificação, mas na final era outro jogo, outro momento. Estávamos bem confiantes e chegamos ao título.

hort4BNC: A falta de repercussão por parte da imprensa chegou a entristecer vocês?
HORTÊNCIA: Não muito. Até hoje o Brasil é o país do futebol. Já estávamos acostumadas com isso. E, é bom lembrar, que até aquele momento nunca havíamos ganho nada. E só aparece, em TV ou em qualquer meio de comunicação quem ganha, quem vai pra medalha. É natural. Faz parte. É negócio. Não tinha internet, celular, TV a cabo pra potencializar nossa conquista. Não é algo que me deixe triste, não.

BNC: Talvez seja difícil falar disso hoje, com o título na mão, mas como seria para você, talentosa pra caramba e reconhecida por todos, ter uma carreira sem um título tão relevante como foi aquele Mundial?
HORTÊNCIA: Olha, difícil. Porque era ruim, ruim demais. Tinha a Paula e eu sendo cestinhas, destaques, reconhecidas por todos, mas não íamos longe, os resultados não chegavam. Acabava que, mesmo sem querer, nós duas transmitíamos uma mensagem individualista para as pessoas. O questionamento era claro: “Ótimo, vocês jogam muito, mas cadê os títulos?”. A entrada da Janeth, da Alessandra, da Leila, da Ruth fez com que o nosso jogo de garrafão ficasse mais forte, que ganhássemos força física perto da cesta. Antes tudo ficava muito concentrado em mim e na Paula. Quando nosso jogo interno melhorou, dividiu nossa responsabilidade e as coisas fluíram mais. Individualmente eu acho que eu me sentiria realizada pelas conquistas individuais que tive, mas coletivamente você só marca uma geração quando sobe no pódio. Aí você pode dizer “eu fui campeã do mundo” e isso te complementa, te completa, passa a dar sentido às suas conquistas individuais.

trio1BNC: O jogo mais marcante daquele Mundial foi contra os Estados Unidos mesmo, na semifinal? Ou não é bem assim
HORTÊNCIA: As pessoas falam muito da vitória da gente contra os Estados Unidos no Mundial de 1994, mas já tínhamos vencido o time delas no Pan-Americano. Naquele Mundial tivemos a sensação que, enfim, tinha chegado o nosso momento. Era uma fase de maturidade e de muita confiança também. Tem uma frase que diz; “Ganha o jogo não a melhor equipe, mas sim quem joga melhor naquele momento”. Aquele time dos EUA podia até ser melhor que o nosso no papel, mas naquele momento, naquela fase da competição não foi. Ainda bem.

BNC: Você falou deste jogo dos Estados Unidos, e naquela partida a Teresa Edwards, uma das melhores jogadoras de todos os tempos, anotou 5/25, na pior atuação dela no Mundial. Você que marcou a Teresa durante muito tempo…
HORTÊNCIA: Olha, eu procurava ser em boa em todas as áreas do jogo. Queria chutar bem de 3, de 2, lance-livre, queria ser tudo. Tinha essa coisa de guerreira, de me matar em quadra. Não aceitava perder e não correr atrás de algo melhor. Quando via que podia marcar uma determinada jogadora mais forte para ajudar o time, fazia. Eu queria ser importante na defesa também. Independente dos meus pontos, que eram muito importantes, eu queria também ajudar na marcação. Não me importava com desgaste. Eu me cobrava muito e queria muito vencer. Só isso.

helen1BNC: Você fala deste seu lado de querer vencer sempre e se irritar com as derrotas. Uma vez ouvi uma história, não sei bem de quem, que naquele Mundial, depois da derrota para a Eslováquia, você estava muito irritada. E dividia o quarto com a Helen (foto), então uma recém-chegada à seleção. Devido ao revés, você exigiu que ela ficasse a noite inteira jogando carta com você, é isso?
HORTÊNCIA: (Risos) Acho que foi isso mesmo. Não lembro muito os detalhes, mas eu dizia: “Se eu não vou dormir depois de perder você também não vai. Perdemos juntas”. Ficava me culpando, remoendo mesmo. Não ficava nervosa, mas sim ansiosa. Jogo muito importante eu não conseguia dormir nada. Na véspera da final contra a China eu me lembro que peguei no sono lá pelas 4h da manhã.

dupla1BNC: Na época seus filhos (João Victor, 18, e Antonio, 17) não eram nascidos quando você conquistou o título mundial. Hoje, 20 anos, depois, qual é a relação deles com a ex-atleta Hortência que é a mãe deles?
HORTÊNCIA: Ah, eles não me viram jogar, né. E eu não gosto de ficar falando de mim para eles. Tem os DVD’s aqui em casa, e apenas uma vez pegamos para assistir. O pai (o empresário José Victor Oliva) fica falando de mim pra eles. É melhor, né. Santo de casa não faz milagre, você sabe como é. Meus filhos não me enxergam como ídolo, mas sim como mãe, embora saibam quem eu fui como atleta. Não fico falando muito com eles. Isso é papel do pai, né. Ele fala tudo, conta as histórias. Ainda mais para adolescente, você sabe como é. Adolescentes têm uma rejeição grande em ouvir.

BNC: Teve algum momento que você pensou “Caramba, vamos ser campeãs do mundo”?
final1HORTÊNCIA: Sendo sincera: só no final do jogo mesmo. Lembro da hora que a Paula estava chutando lance-livre no final do jogo e eu pensava: “Se ela acertar a gente não perde mais”. Ali eu me senti campeã do mundo. Se ela acertasse, não existiria mais chance de perder. Até então eu não tinha realizado nada, não pensava em nada. Ali faltavam poucos segundos e eu vi a medalha de perto. Ali eu falei “sou campeã do mundo”. Teve um episódio engraçado, que foi quando a Janeth veio dizer pra eu não chorar, pra eu não comemorar, que tinha jogo. Aí eu não agüentei e dei um grito: “Acabou, pô. Já somos campeãs do mundo”. E nós três, Janeth, Paula e eu, nos abraçamos no centro da quadra.


20 anos do Mundial de 1994: Título e a consagração da seleção brasileira
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Fábio Balassiano

time1

brasil1Domingo, 12 de junho de 1994. Naquela noite na Austrália (e madrugada no Brasil), o Brasil dormiria (ou acordaria) como campeão do mundo pela segunda vez em 1994: após um primeiro tempo arrasador (51-42), os 27 pontos de Hortência seriam decisivos para manter a diferença intacta e a China, rival da final que já havia derrotado o time brazuca na fase de classificação, bem longe de seus objetivos.

Haixia, a gigantona de vermelho, fez 27 pontos, mas cometeu seis erros (ótima marcação!) e viu a agressividade ofensiva brasileira levar o time de Miguel Ângelo por 27 vezes a linha de lance-livre (17 a mais que as orientais).

Os 96-87 fariam do Brasil o melhor time do mundo naquele ano, feito inédito para o basquete feminino do país e que tornou o Brasil (naquela época) o primeiro a quebrar a hegemonia de Rússia e EUA como o único campeão mundial (a Austrália, em 2006, entrou no grupo também).

trio1A PALAVRA DE QUEM ESTEVE LÁ: “Era uma única oportunidade de marcamos a minha geração pois eu já tinha 35 anos e queria parar para ter um filho. Eu sempre disse que um grande jogador, se não for campeão do mundo, nunca será completo. Quando eu realizei que realmente eu era campeã do mundo, foi uma emoção indescritível. A sensação é maravilhosa. O sentimento é de dever cumprido”. A palavra é de Hortência, craque do Mundial.

CURIOSIDADE: Aquela foi a única partida em que Janeth não cobrou lances-livres no Mundial de 1994. Alessandra, grande revelação daquele campeonato, esteve perfeita em sua primeira decisão de alto nível: 10 pontos (4-4 nos arremessos), seis rebotes e nenhum desperdício. Pressão? Que pressão?

Deste canto, a gente só pode agradecer a quem participou daquela maravilhosa conquista. Vamos lá:

ATLETAS
Adriana Santos, Alessandra, Cíntia Tuiu, Dalila, Helen Luz, Hortência, Janeth, Leila Sobral, Magic Paula, Roseli, Ruth e Simone Pontello.

COMISSÃO TÉCNICA
Waldir Pagan (chefe da delegação); Raimundo Nonato (supervisor), Miguel Ângelo da Luz (técnico), Sérgio Maroneze (assistente técnico), Hermes Balbino (preparador Físico), Dra. Marly Kekorius (médica) e Marizia Libeis (fisioterapeuta) .

Abaixo os momentos finais da decisão:


20 anos do Mundial de 1994: Baile contra os EUA e vaga na final
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Fábio Balassiano

magic1Dá para imaginar uma seleção com Teresa Edwards (você leu sobre ela aqui ontem), Dawn Staley, Ruth Bolton, Katrina McClain e Lisa Leslie perdendo para alguém? E se essa seleção terminar a partida com 107 pontos? Não perde para ninguém, certo? Perde. E foi isso que o Brasil fez naquele sábado, 11 de junho de 1994.

Com os 110-107 nas semifinais, as comandadas de Miguel Ângelo da Luz já colocariam seus nomes na história: desde 1983 as norte-americanas subiam no lugar mais alto do pódio em Mundiais. Não seria o que aconteceria em 1994, quando os 32 pontos de Hortência (a MENOR marca daquela naquela competição foi de 22 na estreia) e os 29 da inspiradíssima Paula (15 lances-livres convertidos em 18 tentados) colocariam a seleção a apenas um passo daquela conquista. Além delas, Leila (13+8 rebotes) e Janeth (22+4 rebotes) também brilharam em uma partida memorável, histórica.

Para muitos (e eu me incluo aqui), aquela foi a maior atuação de um time feminino brasileiro em todos os tempos.

trio1A PALAVRA DE QUEM ESTEVE LÁ: “Os Estados Unidos sempre foram o nosso bicho papão. Entrávamos sempre com a sensação que elas eram imbatíveis. Foi um dos melhores jogos da nossa geração. Ou o melhor. Estávamos perfeitas. Equilíbrio tático e emocional. O importante foi ser campeã do mundo. Ser atleta da seleção da competição passa a ser secundário com a idade que estava”. O depoimento é de Paula, que não descansou um minuto sequer naquela partida.

A PALAVRA DE QUEM ESTEVE LÁ2: “Lembro que estávamos perdendo por 12 ou 15 minutos e nos olhávamos sem entender como viraríamos aquela partida. Mas conseguimos, e as americanas é que não entenderiam nada. Foi uma partida emocionante, e sabíamos, a partir dali, que tínhamos toda a capacidade de ganhar o torneio”, relembra Janeth.

CURIOSIDADE: Na semifinal, o Brasil, ultra-super-mega azarão, diminuiu os erros (cometeu apenas 12), contou com uma Leila inspirada (13 pontos e oito rebotes em apenas 22 minutos) e viu o seu trio de ferro anotar, pela terceira e última vez na competição, mais de 20 pontos cada: Paula (29), Hortência (32) e Janeth (22). Para se ter uma noção do que aquela vitória significava, a seleção norte-americana ficaria sem perder uma competição pelos próximos 12 anos (até o Mundial de 2006, no Brasil).

Abaixo os momentos finais da partida:


20 anos do Mundial de 1994: Teresa Edwards lembra derrota para o Brasil
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Fábio Balassiano

2000 Olympics: USAB vs. AustraliaPrestes a completar 50 anos, Teresa Edwards segue como uma das maiores jogadoras que o basquete feminino já viu atuar. Como parâmetro, em 2000 a revista Sports Illustrated colocou-a na 22ª posição entre as melhores atletas do Século XX. Com 1,75m, pontaria certeira e uma agilidade incrível, a armadora, nascida na Geórgia, atualmente é assistente-técnica do Atlanta Dream, time em que atuam as brasileiras Érika de Souza e Nádia Colhado. Sua história com o basquete do país, no entanto, vem de mais tempo.

Quatro vezes medalhista de ouro em Olimpíada (1984, 1988, 1996 e 2000) e campeã mundial em 1990, ela perdeu apenas dois jogos oficiais com a seleção dos Estados Unidos. Um deles na Olimpíada de Barcelona, em 1992, contra CEI (Comunidade dos Estados Independentes). O outro, na semifinal do Mundial da Austrália em 11 de junho de 1994 para a seleção brasileira de Hortência, Janeth e Paula. Conversei com Teresa, Hall da Fama em 2011 e dona de 12,3 pontos de média naquele Mundial, sobre aquele jogo de maneira mais específica e sobre o que ela viu no time brasileiro que no dia seguinte seria campeão mundial de basquete.

teresa5BALA NA CESTA: Qual é a sua maior memória sobre o jogo contra o Brasil na semifinal do Mundial de 1994? Depois de bater o time norte-americano do qual você fazia parte o Brasil ganharia a medalha de ouro contra a China.
TERESA EDWARDS: A maior memória que eu tenho daquela partida é que logo depois de perdemos elas (jogadoras da seleção brasileira) começaram a dançar na quadra. Lembro-me que estávamos desenvolvendo jogadoras, passando por um processo que teve a entrada de uma nova treinadora, atletas jovens como Lisa Leslie e Dawn Staley. Já era uma veterana no time, junto com a Katrina McClain, junto com uma turma jovem e muito talentosa. Posso te dizer que depois daquela partida não me senti nada bem, e me prometi que jamais perderíamos para o Brasil novamente.

teresa4BNC: Uma vez eu entrevistei a Lisa Leslie, e ela disse que a perda do jogo contra o Brasil foi a sua única derrota em uma partida com a seleção dos EUA. Você pode imaginar como foi importante para o Brasil a vitória contra vocês em 1994?
TERESA EDWARDS: Posso, mas nem gosto muito… Elas saíram para o jogo atuando de forma dura e nos venceram de uma forma completamente brilhante e justa. Posso imaginar, até pela comemoração delas, quão orgulhosas elas ficaram com a essa vitória.

trio1BNC: Naquele jogo você teve 5/25, algo estranho em uma carreira tão espetacular como a sua. Hortência, que marcou você, ainda teve forças para anotar 32 pontos. O que você lembra deste duelo contra a camisa 4 do Brasil?
TERESA EDWARDS: Em minha opinião Hortência é uma das melhores jogadoras de basquete feminino de todos os tempos. Simples assim. Ela era, para ser bem sincera, imarcável, por sua estatura, rapidez e técnica nos arremessos. Certamente, em ambiente de seleções, ela foi a melhor jogadora contra quem eu joguei diretamente. Tudo que o Brasil conquistou no basquete feminino deve ser creditado a Hortência. É um esporte coletivo, mas sem ela o país não teria conquistado nada. Foi uma atleta fora do comum e merece tudo o que obteve em sua vida. É uma Hall da Fama, campeã mundial e medalhista olímpica. Suas conquistas falam bem em que patamar ela deve ser colocada.

BNC: Além da Hortência, naquele jogo também atuaram muito bem a Paula (armadora) e a Janeth Arcain, que depois viria a ser multicampeã com o Houston Comets na WNBA. Você poderia nos contar um pouco sobre como foi enfrentá-las?
TERESA EDWARDS: Internacionalmente, as duas que você citou entraram no time brasileiro e deram a Hortência tudo o que ela precisava. Talento para armar o jogo com Paula e força física para marcar e infiltrar com Arcain (Janeth). Elas trouxeram mais talento e habilidade, o que ajudou o Brasil a se tornar mais reconhecido e respeitado em nível internacional. Elas eram marcadas de forma bem pesada, e no nosso jogo tentamos de tudo para pará-las. Lembro bem que a orientação era tentar detê-las a qualquer custo.

1996 Olympic Gold Medal: USA Women's National TeamBNC: Dois anos depois, os Estados Unidos enfrentaram o Brasil no jogo da medalha de ouro em Atlanta-1996. Desta vezes, vitória dos EUA por 111-87. Qual foi a sua abordagem para esse jogo? Existia, por parte de vocês, um sentimento de revanche? O jogo de 1994 ainda estava em sua mente?
TERESA EDWARDS: Não foi revanche. Foi um pouco além disso (risos). Foi além de revanche porque nos preparamos muito para aquela Olimpíada e mais especificamente para enfrentar o Brasil em uma eventual final (o que acabou acontecendo). Não daríamos a menor chance para ver o que aconteceu em 1994, na Austrália, se repetir na nossa casa. Eu, tendo nascido na Geórgia, ainda mais. Não deixaríamos elas ganharem, pode ter certeza que faríamos de tudo o que estivesse em nosso alcance para sair com aquela medalha de ouro em nosso país. E, sim, lembrávamos da derrota na semifinal do Mundial de 1994 de forma bem clara, bem fresca em nossa mente. A nossa missão naqueles Jogos Olímpicos era vencer quem viesse pelo caminho. E sabíamos que o Brasil estaria no meio dele (caminho). Tínhamos uma chance e quando as vimos pela frente sabíamos que não poderíamos vacilar. Assim foi feito.


20 anos do Mundial de 1994: Vitória contra a Espanha e vaga na semifinal
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Fábio Balassiano

janeth1No dia seguinte à derrota para a China, o Brasil enfrentaria a Espanha naquele 9 de junho de 1994 em uma partida nervosa e que valia vaga na semifinal do Mundial da Austrália de 1994. E o jogo não começou bem para o time de Miguel Ângelo da Luz, não. A equipe voltou a cometer erros bobos na primeira etapa, foi ao intervalo perdendo por 53-45 e viu a vaga para as semifinais ficar mais longe. Mas quer ver como um grande time aprende com os seus erros?

Nos segundos finais do primeiro tempo, Paula despejou uma bola de três do meio da quadra, dando sinal de que as coisas mudariam. E tudo mudou nos 20 minutos finais. Tudo é tudo mesmo. Com 26 pontos do elenco de apoio (dez de Leila Sobral), a seleção equilibrou as ações, diminuiu a sanha de Blanca Ares (ela, que terminaria com 36 pontos, fez oito na segunda etapa) e contou com a calibrada mão de Janeth (24 pontos) para se garantir entre os quatro melhores do campeonato.

Vitória por 92-87 (25 de Hortência) e vaga garantida nas semifinais contra as temidas americanas. Todos apostavam contra as meninas de Miguel Ângelo, principalmente porque o jogo coletivo ainda não fluía completamente (contra as espanholas foram apenas três assistências e 49 dos 64 arremessos de quadra vindo das mãos de três atletas – e vocês imaginam quem são elas). Algo precisaria mudar para vencer as norte-americanas.

jane1A PALAVRA DE QUEM ESTEVE LÁ: “Esse é o jogo que eu me lembro mais. Já passou muito tempo, mas é o que mais me recordo. Sei que estávamos perdendo e marcamos uma defesa por pressão para recuperar a bola. Uma espanhola ficou encurralada e tentou jogar a bola na minha perna. Só que ela bateu na minha coxa e amorteceu. Peguei a bola, puxei um contra-ataque e levei uma falta dura. Deram anti-desportiva e eu converti os dois lances-livres. Na reposição de bola do meio da quadra, sofri outra falta, bati outros dois lances e acabamos vencendo aquela partida. Foi bem emocionante”, relembra Janeth.

CURIOSIDADE: Nesta partida Janeth cobrou 20 lances-livres (maior marca do Mundial) e acertou 18. Ao final do Mundial, a ala terminaria com o quarto melhor aproveitamento da linha fatal (88%) e a segunda com mais tiros cobrados (60). A primeira seria Hortência, com 69.

Abaixo os momentos finais (tremido, mas vale) da partida contra a Espanha!


20 anos do Mundial de 1994: Adrianinha relembra momentos da conquista
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Fábio Balassiano

adriana-tenta-passar-pela-marcacao-de-atleta-da-russia-em-segunda-rodada-do-basquete-feminino-1343667269546_1920x1080Nascida em Franca, Adriana Moises Pinto tinha 15 anos quando a seleção brasileira adulta feminina ganhou o título mundial na Austrália. Então jogando nas divisões de base da Ponte Preta e sendo desenvolvida para se tornar uma das melhores armadoras do Brasil na geração seguinte a do título, ela relembra como foi aquele momento de efervescência no esporte, a convivência com Paula e Hortência em momentos distintos e quanto o basquete brasileiro poderia ter “aproveitado” melhor a chance de ter tido um time campeão mundial para ganhar pontos na evolução da modalidade.

dri2BALA NA CESTA: Para quem tinha 15 anos na época e já jogando basquete nas divisões de base, como foi acompanhar aquele Mundial da Austrália?
ADRIANINHA: Olha, me marcou muito acompanhar aquele Mundial – e conseqüentemente a conquista. Eu jogava no infantil da Ponte Preta e fomos receber as campeãs lá no aeroporto! Sendo eu muito nova naquela época hoje posso te dizer que aquilo ali me inspirou muito. A grandeza desse título talvez eu entenda hoje melhor do que antigamente, pois sei o quanto é difícil para o Brasil chegar ao topo do basquete feminino em meio a tantas dificuldades. Ainda mais conhecendo a estrutura e a organização que as outras seleções têm lá fora.

BALA NA CESTA: O quanto aquela conquista influenciou na sua decisão de jogar basquete profissionalmente? Depois do Mundial, a exposição do basquete aumentou muito, não?
ADRIANINHA: Aumentou em partes porque foi um título inédito, tanto que é celebrado até hoje. Mas acho que o fato do Mundial de basquete feminino ser no mesmo ano da Copa do Mundo de futebol (nos Estados Unidos) tirou um pouco da visibilidade do nosso esporte.

dupla1BALA NA CESTA: Sobre Paula e Hortência principalmente. Como foi pra você jogar com a Paula e depois ter a Hortência como dirigente recentemente na seleção brasileira? Que tipo de lições/conselhos elas te passavam na quadra e fora dela?
ADRIANINHA: Paula foi essencial na minha carreira, sem sombra de dúvida. Tive a oportunidade de jogar com ela e isso me ajudou muito. A Hortência eu conheci mais tarde, e também sempre me deu conselhos essenciais para minha vida dentro e fora das quadras. É muito especial pra mim poder dizer que tive contato com duas das melhores jogadoras de basquete do Brasil e do Mundo.

BALA NA CESTA: Depois da Paula, você, Helen e a Claudinha foram as que mais tempo ficaram como armadoras da seleção. Como se sente jogando na mesma posição de uma das melhores armadoras de todos os tempos?
ADRIANINHA: Sinto-me honrada, pois aprendi um pouquinho com cada uma! Jogar com todas elas (Helen, Claudinha e Paula) me ensinou muito. Mas acho que cada destas três dentro do seu estilo é incomparável.

adrianaBALA NA CESTA: Vinte anos depois da conquista do Mundial, dá pra dizer que o basquete brasileiro como um todo não aproveitou quase nada daquele ouro na Austrália para plantar uma semente de um esporte melhor, mais organizado? Ou é exagero?
ADRIANINHA: Difícil essa pergunta. Não evoluímos como poderíamos, mas estamos sobrevivendo! O Brasil conseguiu ser bronze em Sidney-2000 e apesar de alguns resultados ruins sempre esteve presente em todos Mundiais e olimpíadas desde 1992. O esporte amador no Brasil em geral sofre para sobreviver, ainda mais o feminino. Então ganhando título ou não a guerra dos esportes amadores será sempre a mesma, ou seja, por patrocínios e uma organização melhor. Hoje podemos dizer que estamos no caminho certo e espero que a Liga de Basquete Feminino, a exemplo da masculina (NBB), consiga evoluir a cada ano.


20 anos do Mundial de 1994: Contra a China, derrota e ensinamentos
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Fábio Balassiano

haixia1Se todo time vencedor precisa de grandes lições, o Brasil teve a sua no dia 8 de junho de 1994. A seleção contou com espetaculares atuações de Hortência (36 pontos), Paula (21 pontos, quatro assistências e cinco rebotes) e Janeth (27 pontos e nove rebotes), mas viu o elenco de apoio anotar módicos seis pontos.

Ou seja: dos 90 pontos do time, 84 vieram do trio (93%). Mais que isso: a bola não rodava entre as outras nove atletas. Dos 57 tiros tentados, apenas 11 saíram de outras mãos que não a das três citadas.

O resultado, cruel, não poderia ter sido outro: derrota por 97-90 para a China, que contou com ótima atuação da pivô Haixia Zheng (31 pontos e 14 rebotes – na foto à esquerda) e colocava-se como uma das grandes favoritas da competição.

Ficava o aprendizado: sem jogo coletivo o Brasil não iria a lugar algum. O roteiro, que mudaria nos capítulos seguintes, era muito parecido ao que foi visto nas Olimpíadas de Barcelona, aliás.

miguel1A PALAVRA DE QUEM ESTEVE LÁ: “Já estávamos praticamente classificados para a próxima fase. Lógico que o pensamento era a vitória, mas estávamos, desde aquele momento, estudando todos os pontos positivos e negativos da adversária. Tentamos neutralizar as ações dos arremessos de três pontos e o jogo interno (garrafão). Encontramos muita dificuldade, mas em alguns momentos mantivemos o jogo equilibrado”, Miguel Ângelo da Luz (técnico).

CURIOSIDADE: Hortência, Paula e Janeth estiveram em quadra em 118 dos 120 minutos possíveis. Paula atuou os 40, e as outras duas descansaram apenas um minutinho. Além disso, os 57 pontos que o Brasil levou na primeira etapa foram a maior marca do time em um período em toda a competição. A defesa, que vinha bem, voltou a falhar.


20 anos do Mundial de 1994: Prova de força contra Cuba
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Fábio Balassiano

ruth1Três anos depois de bater as cubanas no Pan-Americano de Havana, a seleção feminina iniciou a segunda fase do Mundial da Austrália contra as mesmas rivais naquele 7 de junho de 1994 na Austrália.

As cubanas contavam com Leonor Borrell, que terminaria a competição com 15,9 pontos e 7,2 rebotes de média. Assim como ocorreu em 1991, naquele 7 de junho as meninas do Brasil estavam impossíveis. Depois de um primeiro tempo avassalador (61-48), a soberba atuação de Janeth (38 pontos, cinco assistências e quatro rebotes) garantiria o triunfo do time de Miguel Ângelo (111-91). Seguindo a tendência do jogo anterior, Hortência fez 25 e o time todo só chutou oito bolas de três pontos (acertou quatro).

Foi uma prova de força de um time que começava, ali, a ganhar confiança e a ter seu jogo ganhando forma. Além, claro, de espantar um fantasma que sempre assustava aquela geração – cuba e seu basquete físico.

CURIOSIDADE1: Presença constante em todas as seleções no começo da década de 90, a pivô Ruth (foto) começava a perder espaço para as jovens Alessandra e Leila. Mas na partida contra as cubanas ela esteve estupenda, principalmente no combate a Yamile Calderon (4-14) nos arremessos. Se isso não fosse o bastante, Ruthão, como era conhecida, ainda despejou 16 pontos e seis rebotes nas cestas cubanas em sua melhor atuação na competição (mais sobre seus números aqui).

CURIOSIDADE2: Os 38 pontos de Janeth não foram somente a melhor atuação da ala no Mundial de 1994. Foi, também, a maior pontuação de uma atleta na competição. A camisa 9, endiabrada, superou, em dois pontos, a atuação de cinco jogadoras (36 pontos). A ala teve 10/15 em bolas de dois, 2/2 nas de fora e 12/12 nos lances-livres. Se não bastasse, cinco assistências e quatro rebotes.


20 anos do Mundial de 1994: Assessor, Sergio Barros relembra conquista
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Fábio Balassiano

Por Sergio Barros (Assessor de Imprensa do time campeão mundial em 1994)

sergio1Comecei a trabalhar na assessoria de imprensa da CBB em 1992. De cara, fui ao pré-olímpico masculino de Portland e assisti a seis jogos do Dream Team ao vivo, a cores e de muito perto. Inesquecível, é claro, mas, acreditem, entre os momentos mais marcantes que vivi no basquete fica em segundo lugar. Longe. O Mundial de Basquete Feminino da Austrália de 1994 vai estar sempre no topo do pódio.

Não me lembro da primeira vez que vi Paula e Hortência, mas entendi, de cara, que eram diferentes e especiais. Elas me fizeram começar a acompanhar o basquete feminino em tempos de poucas transmissões na TV. O que passava eu via. Várias vezes as assisti jogando uma barbaridade e perdendo.

Também vi grandes vitórias e comemorei muito o título do Pan em 1991 e a classificação para as Olimpíadas de 1992. Em 1994, quando fui escalado para cobrir o Mundial, fiquei muito feliz. Mas não imaginava que ainda ficaria muito mais.

trio1Acompanhei a preparação da seleção desde a série de amistosos contra Eslovênia, Cuba e Argentina no Nordeste. Aos poucos fui conhecendo as jogadoras e me entrosando com a comissão técnica. Era um grupo muito divertido e trabalhador, que me acolheu. Na volta ao Rio, ainda no avião, fiz uma versão de um samba enredo que terminava com a frase: “Tô indo para a Austrália, quero voltar campeão”. Escrevi mas não acreditava. Sabia que era um time forte, bem preparado, com jogadoras determinadas e três craques (Janeth completava o trio), mas ser campeão era um sonho distante.

Fui mostrando o samba aos poucos para os que já estavam mais próximos. Miguel, Sergio, Hermes. Eles gostaram e eu tomei coragem pra cantar pra toda a delegação. Se não me engano, tínhamos chegado a Melbourne, onde aconteceu a adaptação ao fuso australiano. À noite, depois das preleções do Waldir Pagan e da comissão técnica, a Paula pediu a palavra e disse que não queria voltar para casa com a sensação de que poderiam ter feito mais. Logo em seguida eu cantei o samba e as meninas o adotaram.

Lembro de cada jogo: a estréia nervosa mas sem sustos contra Taipei, a atuação muito ruim contra as eslovacas, o sofrimento para ganhar da Polônia enquanto a gigante Dydek esteve em quadra. Na segunda fase, show da Janeth no passeio sobre Cuba, uma derrota esperada pra China e o jogo dramático contra a Espanha. Nesse, dois momentos me marcaram muito: Espanha melhor, Blanca Ares comendo a bola (36 pontos no total) e a Paula chuta do meio da rua no estouro do cronômetro no fim do primeiro tempo. A bola caiu e eu gritei tanto que ficou tudo preto. Quase apaguei. O jogo seguiu dificílimo e só vencemos no fim. Durante a coletiva, fiz uma pergunta ao técnico espanhol. Nesse momento, a porta que dava acesso ao corredor dos vestiários foi aberta e eu ouvi as meninas cantando o samba. Comecei a sorrir e ele, que já estava irritado, parou de responder.

leila1Na vitória sensacional sobre os Estados Unidos, Hortência e Paula barbarizaram mas de quem eu mais lembro é da Leila (foto à esquerda), que parecia uma leoa em quadra. Contra a China, Rutão (Ruth) ocupou o garrafão, e Alessandra travou um duelo espetacular com a gigantesca Haixia. No ataque, Paula, Hortência e Janeth engoliram as chinesas. Enquanto elas se abraçavam em quadra, chorei vendo as meninas na área das reservas comemorando os pontos finais. Inesquecível.

Todos me fizeram sentir como membro da delegação. Eu fiz o que pude para ajudar e, principalmente, para não atrapalhar. Me sinto um pouco campeão do mundo também e vou ser eternamente grato por isso.

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Abaixo a letra do samba composto por Sergio Barros numa alusão ao da Mangueira de 1994 (aqui e aqui você pode ouvir para entender o ritmo:

Miguel da Luz e Sergio Maroneze
Vão cortando um dobrado,
Pra que o Brito não se enfeze

time1Me diga quem?
Raimundo Nonato
Levando essas feras para o campeonato

Marisia, Hermes,“Doutora Marli”,
Zé da Banheira e o grande professor Waldir (OBA)

Helen, Roseli (foto à direita abaixo), Leila (à esquerda no final)

Ruth, Simone (à esquerda ao lado), Adriana (foto à direita) e Dalila (Bis)

Lá vem Tuiú!

cintia1Alessandra e Cíntia, ô !
Os nossos coqueiros vão brilhar
Vai Janeth, disparando, pronta pra marcar

A rainha mais audaz, é sensação
Show de graça e precisão
Hortência explode coração !

Encanto e magia, chegou !
Faz a finta, arremessa, ponto!
Cada assistência um brilho de esplendor,
Seu nome é Paula (Aplausos)

Aplausos, ao time inteiro,
Tem canguru
Virando brasileiro

(Me leva) Me leva que eu vou, seleção
Tô indo pra Austrália quero voltar campeão (Bis)