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Léo Figueiró, alma, Botafogo e a arte do impossível

Fábio Balassiano

14/12/2019 08h01


Era junho de 2017 quando o Botafogo vencia o Joinville em casa pra conquistar a Liga Ouro, garantindo o acesso ao NBB na temporada seguinte. Seria o recomeço de uma história que teve bastante sucesso no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.

O elo que colaria as duas pontas chegaria na temporada subsequente a subida à elite do basquete nacional. Ídolo do basquete alvinegro como jogador, Léo Figueiró chegou em 2018/2019 para dar um salto de qualidade na equipe mas nem ele acreditava, se lhe contassem no começo do campeonato, que com um time bem armado mas modesto ele chegaria na quarta posição.
Antes dessa temporada Léo disse em longa entrevista ao blog que a expectativa era de subir mais uma casinha e que algum título viria. O que era desejo se mostrou insano com as dificuldades que se apresentaram logo de cara. Atraso de salários, o principal ídolo (Jamaal) com uma situação de saúde do pai que atrasou a sua chegada, reforços que demoraram a se adaptar, derrotas em sequência no NBB, questões de documentação, pressão política interna e muito mais. Muita gente duvidava que o projeto seguiria em 2020/2021 inclusive.
Precisava ser um monge budista para segurar a onda e seguir em frente. A campanha do Botafogo no NBB mostra bem como um elenco bem montado pode ser abatido com tanta atribulação. São cinco vitórias em 12 jogos apenas. Todo mundo prévia evolução. O Botafogo mostrava que as situações internas impactavam no resultado da quadra. Qual seria a tábua de salvação? Haveria tábua de salvação?
Veio a primeira fase de Liga Sul-Americana. Sufoco danado, time jogando mal, tiraram vantagem, passaram. Chegou a segunda fase, time argentino no meio, de novo jogando atrás, passaram. Se tem coisas que só acontecem ao Botafogo, estava tudo improvável demais para estar acontecendo um conto de fadas tão impactante quanto lindo.
A final contra um invicto Corinthians chegou e aparentemente o lindo roteiro teria um corte com o vice-campeonato. Ninguém perde em casa levando uma surra como o time levou no primeiro jogo e vai pra casa do rival precisando vencer duas vezes em dois dias, né? O Corinthians estava invicto na Sul-Americana, dominou o jogo 1, tem elenco mais caro, estava tudo pronto. O que era improvável se desenhou impossível portanto.
Sabe-se lá como os jogadores e a comissão técnica decidiram acreditar. Se playoff é um duelo de ajustes táticos e técnicos, Léo Figueiró decidiu agir. Mexeu na escalação, na marcação, na cabeça dos atletas e fez seu time jogar na frente no jogo 2 e também no jogo 3 de ontem. Uma vacilada mental e técnica no final quase colocou tudo a perder mas é Botafogo, tem que ter sofrimento.
Saber sofrer é uma arte, e o Botafogo sofreu com força nesta sexta-feira diante de quase 5 mil pessoas no Wlamir Marques. Sofreu, perseverou, voltou a colocar a cabeça no lugar, venceu, se emocionou e deixou inúmeras lições pra quem acompanha a trajetória do time.
Time que escreveu a maior conquista do basquete do clube. De longe. Que coloca Léo Figueiró em um patamar diferente entre os ídolos do clube. Ele não tem só a cara do Botafogo. Léo tem a alma do alvinegro. Sente, sorri, chora e briga pelo Botafogo. E consegue fazer seus 12 jogadores e comissão técnica sentirem o mesmo. Ele está em seu segundo ano como técnico principal e o que se via dele como jogador, uma luta sem fim de dar orgulho a torcedores, ele consegue transmitir aos seus comandados mesmo com tantos problemas. Gestão de grupo perfeita, não há dúvida.
A torcida do Botafogo e também a sua diretoria têm a obrigação de abraçar um time que em 2 anos e meio saiu de uma divisão de acesso para ganhar o continente e se classificar para a Champions League da próxima temporada. Sem o maior orçamento, sem grandes estrelas, jogando contra o improvável o tempo quase inteiro, com problema pra caramba e encurralado em diversos momentos.
Quase ninguém acreditava. Léo acreditava. Os jogadores acreditavam. Foi o suficiente. O que era difícil ficou improvável. O que tornou-se improvável passou a impossível. E o impossível se transformou em troféu da Liga Sul-Americana. Quem explica isso? A arte chega onde a realidade não alcança, já diria aquela famosa frase (ou algo assim). O esporte também pode entrar assim quando um conto de fadas se transforma em uma história linda.
Mais Botafogo impossível.

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