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Bala na Cesta

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Em entrevista profunda, técnico Dedé Barbosa fala sobre mudanças

Fábio Balassiano

14/11/2019 13h00

Dedé Barbosa é um dos personagens mais inteligentes do basquete brasileiro. Inconformado, crítico e hiperativo, ele foi técnico do ano por Limeira em 2015 no NBB, mas depois disso sua carreira deu uma sacudida com o fim de projetos em que ele estava – Limeira mesmo e Rio Claro – e logo depois o Vasco, clube que ele dirigiu até 2018 antes de ser demitido.

Comandando o estreante Pato Basquete, de Pato Branco, Paraná, neste NBB ele está no Rio de Janeiro para as duas partidas do time na cidade. Na terça-feira, derrota para o atual Flamengo por 76-59 jogando bem e liderando o jogo por boa parte do duelo. Na sexta-feira, 20h, o Botafogo em General Severiano. Ainda sem vencer na atual temporada após sete partidas, ele conversou com o blog e se abriu como eu nunca havia visto.

Dedé falou menos de basquete e mais de como, pessoalmente, ele tem tentado melhorar. Dono de personalidade forte, ele tem tentado entender o tempo, a controlá-lo melhor e a segurar as suas emoções. Nesta entrevista reveladora, uma das mais profundas da história do Bala na Cesta, ele fala sobre isso tudo.

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BALA NA CESTA: Dedé, queria que você começasse falando sobre o jogo desta terça-feira na Arena Carioca contra o Flamengo. Foi um time diferente do de semanas anteriores, não é? Você gostou do seu time?
DEDÉ BARBOSA: É, a gente fica realmente orgulhoso da virada que a gente deu nos últimos jogos. A partida contra Franca (derrota de 82-47 em casa) foi um divisor de águas do que a gente realmente queria. Passamos a entender o que a gente queria, qual o principal motivo da gente está lá, o que era o projeto, o que a gente almejava e principalmente pros jovens. De entender a oportunidade. Muitos deles nunca tinham chegado a jogar um NBB com regularidade. Alguns tinham passado por Liga de Desenvolvimento, outros por Liga Ouro, a divisão de acesso, e essa é uma oportunidade que eles precisam entender como a chance da vida deles. Sobre o jogo contra o Flamengo, é óbvio que a gente sai triste pela derrota porque somos competitivos e queremos vencer sempre, mas feliz pela mudança de atitude do time.

BNC: Como está esse começo de projeto em Pato Branco? Queria que você falasse sobre o engajamento da cidade, os diretores, essa parte mais fora da quadra do que dentro…
DEDÉ: Cara, é algo bem diferente. O que posso falar pra você e o que a gente está vivendo, e não estou falando de basquete mas sim do que estamos vivendo com as nossas famílias, é algo diferente, uma atmosfera diferente, uma maneira distinta das pessoas tratarem a gente em uma farmácia, em um restaurante, essas coisas. Um acolhimento muito grande. É uma cidade pequena, de 80, 85 mil habitantes, e estou super feliz. A gente aprender e começa a dar valor em outras coisas da vida, posso te falar isso. A gente vive nesse mundo e foca em muitas coisas materiais, muitas coisas, essas coisas e lá em Pato Branco você passa a viver um outro lado, a dar valor às pessoas que estão em volta de você. Por isso estou muito feliz em estar vivendo isso tudo na cidade.

BNC: E como está o Dedé? Você teve uma passagem pelo Vasco, ficou um ano parado e assume o Pato Basquete agora. Estou te sentindo bem mais tranquilo, bem mais na paz consigo mesmo. É por aí?
DEDÉ: Ah, cara, estou super tranquilo. Você matou, Bala. Estou feliz comigo mesmo. As atitudes que você fez no passado a gente tem que viver com elas, aprender, não dá pra apagar. Eu preciso saber o que eu errei pra conseguir ser uma pessoa melhor. Estou muito tranquilo em relação aos erros que cometi, como técnico, como jogador, como pessoa e comecei a entender que as coisas não são no meu tempo. As coisas acontecem no seu tempo. É importante não pular etapas, não quero mais e são coisas que a vida vai te mostrando. Com certeza estou bem mudado nesse aspecto.

BNC: E como foi esse ano parado? Onde você buscou mais evolução? Mais fora ou dentro de quadra?
DEDÉ: Fora da quadra. Totalmente. Principalmente nos dois, três primeiros meses eu entrei em uma paranoia pra entender onde a gente pecou para não conseguir fazer aquele time do Vasco engrenar, dar certo. Quais foram os fatores que não nos ajudaram? Extra quadra, dentro da quadra, a maneira de lidar com gestão de pessoas e aí você começa a buscar conteúdo. Coisas de USP, fora de basquete, coisas que têm a ver com liderança, com organizações, com pessoas.

BNC: Quem você leu e quem você buscou?
DEDÉ: Existe um site chamado Veduca, que você busca as coisas online e depois pode começar a ser assinante. Lá tem alguns professores da USP falando. Existe uma mulher mais jovem e um cara mais experiente que eu comecei olhando e depois fui me aprofundando nestes cursos da USP. Você começa com isso e depois segue. Logo depois, e eu nem sei se posso falar isso aí, passei um tempo em Uberlândia com pessoas mais idosas, pessoas mais velhas do que eu, naquele meio de Maçonaria, e isso me deu um despertar, uma maneira de você enxergar a vida. Como não sair do eixo, como você tratar, essas coisas. Isso te agrega muito mais do que dentro das quatro linhas, essa é a verdade. Porque você quer ir pra Europa fazer clínica você vai. Eu fui lá, voltei, fui de novo, mas a questão não muda tanto. Existem as variáveis do jogo, algumas você tem controle, a maioria você não tem. Então eu fui buscar esse controle do que pode ser controlado.

BNC: Você comentou que foi buscar muita gente fora da quadra. Quem foram essas pessoas e qual foi este conhecimento? Quais lições você trouxe?
DEDÉ: O que mais foquei, o que mais procurei ir tirando, foi com essas pessoas mais idosas e com elas eu aprendi essa questão do tempo. Existem alguns livros que foram divisores de água pra mim, sabia? O livro do Guardiola foi um…

BNC: Eu que te indiquei esse livro, cara… (risos)
DEDÉ: É verdade. O Guardiola, Confidencial. Este foi um. A maneira como ele deixou o Barcelona, o dia a dia dele, a forma como ele pensa, isso impressiona. Ele foi procurar o Gary Kasparov, um cara do xadrez, para entender modelos mentais. Até chef de cozinha ele buscou. Ele vai muito além. O próprio livro do Alex Ferguson, ex-técnico do Manchester United, fala muito sobre liderança. Então este ano foi muito importante para eu analisar. Eu vi o NBB inteiro, o crescimento de todo mundo e de fora você consegue entender melhor as coisas. O trabalho que a Liga Nacional me deu, por exemplo, de ser orientador dos jovens na parte técnica da Liga de Desenvolvimento por três, quatro meses, eu aprendi demais. Eles acham que eu que ensinei, mas eu aprendi foi muito com aquela garota. Vendo a qualidade dos técnicos, vendo de onde sai a molecada, motivações, medos, essas coisas. Era pra eu dar (conhecimento) e recebi. Quando a gente está trabalhando às vezes a gente não consegue ver isso tudo e de fora eu consegui. Foi muito bom.

BNC: Você conseguiu fazer uma análise de você? Onde você falhou nos últimos anos? Onde é o ponto que o Dedé precisa mais trabalhar?
DEDÉ: Eu sou um cara muito hiperativo. Queria as coisas muito no meu tempo.

BNC: Você é um insaciável, né?
DEDÉ: É, cara. Mas não só isso. Antes eu queria ser o melhor técnico do mundo. Eu estudava, me matava, encontrava com esse, com aquele, com Željko Obradović, mas não é só isso. Eu vou me testando, eu vou crescendo, mas hoje eu digo que quero ser não só o melhor técnico, mas a melhor pessoa que eu posso ser. E tudo no seu tempo. Não posso acelerar uma coisa que não está no meu controle. Não posso. Eu era perfeccionista além da conta, de exigir coisas que não estavam prontas. Às vezes eu buscava um sonho de algo que não estava pronto.

BNC: Duas perguntas em cima disso. A primeira é: como você conjuga esse autoconhecimento, essa questão do tempo, para que isso não se torne acomodação? Te cito o meu caso. Me cobro muito, me identifico com o seu jeito de lidar, você é um insatisfeito, eu também sou. A gente vê as coisas e nunca está bom. Tudo pode ser melhorado, aperfeiçoado. Como você se coloca nesse, digamos, paradoxo de ter que melhorar em tudo, tempo e não acomodação?
DEDÉ: Então, essa busca, esse equilíbrio, é que é a coisa mais difícil. Você tem que entender, ter a paciência e não confundir essa paciência com acomodação. É o que mais estou vivendo neste meu momento. Preciso extrair o melhor dos meus atletas, de mim, da cidade, do projeto, e ter esse discernimento para entender que esse é o processo. É o que mais estou batalhando. Falei antes do jogo com você. Eu não gostaria de estar em outro lugar que não em Pato Branco. Está sendo o melhor lugar pra mim tanto dentro quanto fora da quadra.

BNC: Essa era parte da segunda pergunta. Como você conjuga também esse seu inconformismo com um projeto que ainda está no começo e que demanda tempo de maturação? Não é que o projeto seja dependente, mas imagino que sugue muita informação tanto no aspecto de quadra quanto fora dela, não?
DEDÉ: A gente está aprendendo. Um com o outro. Muitas vezes a gente pensa que é "só" técnico, mas não é. Lá não é. Estou aprendendo tudo e muito. Começar um projeto do zero. Isso é um aprendizado. Coisas que o Alberto Bial já fez, o Guerrinha já fez, outras pessoas, e isso é muito gratificante…

BNC: Chegou a falar com algum deles?
DEDÉ: Falei um pouco com o Bial, ele foi super atencioso comigo, com o Guerrinha ainda não encontrei. O Bial foi muito atencioso, carinhoso e me abriu tudo. Não esperava nada diferente dele. É um grande cara. Está montando, agora, seu quarto projeto diferente, então entende bem essas questões de engajamento com a cidade, comunidade, categoria de base, aspecto social. Isso está me movendo de uma tal maneira. Pra te falar a verdade, quando você vai para um palco desses, do NBB, tem muitas vezes que você esquece e fica em uma bolha. Você não consegue…

BNC: Olhar pra fora?
DEDÉ: É isso. Olhar pra fora. Isso é um defeito muito grave, muito grave. Você só percebe quando toma, quando cai. Esse ano foi um ano de muita reflexão, muito aprendizado, então essa ida para Pato Branco está sendo excelente em todos os aspectos. Tem um presidente, mas um Conselho por trás. Não é apenas um cara. Tem muitas empresas, cabeça boa, cabeça aberta. Eles entendem que faz parte do processo, do aprendizado. Estamos aprendendo um com o outro como se cria uma estrutura de excelência. E isso leva tempo.

BNC: Última pergunta, prometo. Qual foi o papel da sua esposa e da sua família? Você tem filhos, né?
DEDÉ: Luca tem 6 e a Maite tem 13. São muito novos e tudo é um teste. Eu não poderia pedir uma família melhor. Quando você não está trabalhando, sua mulher vai lá, se esforça, trabalha, deu aula de pilates, cuidou dos meninos. Tenho uma mulher, a Renata, perfeita, filhos perfeitos e foi um ano de reflexão demais. Eles entenderam, mas tem dias que são fogo. O Luca vira e pergunta: "Pô, papai, em qual time você está agora?". E eu não estava, né? Foi tudo um aprendizado pra todo mundo e essa cidade de Pato abraçou a gente. Por isso estou muito feliz, muito feliz mesmo.

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