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Bala na Cesta

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Após drama familiar, técnico está transformando o Suns de saco de pancada em sensação da NBA

Fábio Balassiano

13/11/2019 04h26

CHRISTIAN PETERSEN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Uma das poucas franquias da NBA sem título, o Phoenix Suns viveu um verdadeiro inferno astral nos últimos quatro anos. Em 328 partidas, medíocres 87 vitórias, um aproveitamento de menos de 30% e que mostra bem a selva, literalmente, em que se encontrava a equipe.

A bagunça era tão grande que para "motivar" seu antigo gerente-geral, o jovem Ryan McDonough, o dono do time, o loucaço Robert Sarver, um dia colocou um bode, sim, um bode dentro da sala de Ryan para dar a entender que a turma do Arizona precisava do melhor jogador da história no elenco para voltar a vencer. A palavra Goat, cuja tradução em português é bode mesmo, em inglês e em uma tradução livre, quer dizer "melhor de todos os tempos" com as letrar G, O, A e T representando as iniciais de Greatest Of All Time.

Era uma franquia fadada ao fracasso e enrolada em picks de Draft, havia uma estrela de primeira grandeza no elenco – o jovem Devin Booker (23 anos), que até aceitou renovar por longo período com o Suns, mas sem nenhuma garantia de crédito à diretoria. Tudo mudou quando Sarver baixou a guarda, manteve James Jones, que embora inexperiente para a função é querido pelos jogadores, como gerente-geral, assinou o projeto para a construção de um moderno Centro de Treinamento e decidiu apostar no presente e não mais no futuro. Sua principal medida, além da manutenção de Jones, foi abrir a carteira e contratar o melhor técnico disponível no mercado por cinco anos.

Monty Williams foi o comandante em New Orleans, assistente em Oklahoma e depois em Philadelphia, vice-presidente de operações em San Antonio e só não estava trabalhando como treinador principal porque em 10 de fevereiro de 2016 um drama familiar mexeu com sua vida. Ingrid, sua esposa, se envolveu em um acidente de carro e faleceu imediatamente. O casal tem cinco filhos e a vida de Monty virou, obviamente, de pernas para o ar. Desde então ele recusou inúmeras propostas para ser treinador principal porque dizia não ter tempo, e nem cabeça, para assumir um compromisso desse tamanho, mas no final do último campeonato Williams mandou avisar que estava pronto.

O Phoenix foi mais rápido, venceu a concorrência do Los Angeles Lakers, que também queria Monty para ser seu treinador, e os resultados estão aparecendo bem mais rápido do que se imaginava. O recado de Williams para Sarver, na entrevista de emprego, foi muito claro: "Ou ganhamos agora ou ninguém mais terá paciência de vir ao ginásio". E o técnico tinha razão. Nos últimos cinco anos o Phoenix amargou a lanterna ou a vice-lanterna entre os times com menor taxa de ocupação da liga na sua Talking Stick Resort Arena, um mico que impacta os cofres dos donos da franquia, obviamente.

O recado foi entendido e a saída foi cercar Devin Booker, um pontuador nato (média de 25,8 pontos nessa temporada e cestinha do time em sete das nove partidas), de talento e de bons chutadores. Kelly Oubre Jr. já tinha chegado na temporada passada e mantém o ritmo com 17,4 de média e quase 40% de conversão nas bolas de fora. Os outros três titulares, sobretudo com a suspensão por doping do pivô titular DeAndre Ayton, chegaram recentemente e estão produzindo absurdamente bem.

O caso de Dario Saric é muito representativo. O Phoenix trocou uma escolha no Top-10 do Draft, o armador Jarrett Culver, para ter o croata, um ótimo jogador e já experiente na liga, no elenco logo de cara. Saric ainda está tímido, contribuindo com 9,2 pontos e 5,9 rebotes por jogo, mas tem enorme talento, joga de ala-pivô e espaça muito bem a quadra. Outra grata surpresa é o pivô australiano Aron Baynes, trocado pelo Boston para o Arizona e de quem pouca gente esperava grandes novidades. Mas elas vieram. Baynes tornou-se titular com a saída de Ayton e tem 15,8 pontos, 5,8 rebotes e uma das melhores proteções de aro (defesa perto da cesta) da NBA atual.

Por fim, ao invés de apostar em armadores sem rodagem, a franquia foi em uma bola de segurança que estava "livre" no mercado de agentes-livres. O espanhol Ricky Rubio, campeão mundial recentemente na China, onde se tornou o mais valioso jogador da competição, foi contratado e está jogando uma enormidade. Recém-saído de Utah, Rubio tem 13,6 pontos e 8,6 assistências, melhores números de sua carreira.

Outro dado que chama atenção são os desperdícios de bola, 2,3, índice baixo para quem fica 32 minutos em quadra e quase sempre com a bola na mão. Além das estatísticas, sua leitura de jogo impressiona e sua liderança, também. Como disse Monty Williams, "com Rubio em quadra somos mais inteligentes e cientes do que deve ser feito". Se na defesa ele sempre foi muito bom, no ataque ele parece estar mais confiante para atacar a cesta e também para, quando necessário, arremessar de fora – seus 38% do perímetro falam muito bem sobre isso.

CHRISTIAN PETERSEN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

No banco estão o também recém-chegado Frank Kaminsky (9,1 pontos), Tyler Johnson (8,3) e o novato Cameron Johnson (6,9) e é assim que o Phoenix, o melhor em conversão de arremessos da NBA até agora com 47,3% de conversão e o que mais assistências por noite dá (28,1/jogo), se transformou em saco de pancadas recente a uma das sensações da temporada com 6 vitórias em 10 partidas.

Se na defesa ainda há espaço para melhora, sobretudo nas coberturas para evitar arremessos do perímetro (a equipe é apenas a décima neste quesito, permitindo aos adversários 34% de acerto de fora), alguns triunfos, como o contra o Golden State Warriors ainda com Steph Curry e Draymond Green, Sixers, Brooklyn e Clippers mostram bem como a equipe literalmente virou a chave.

Se está cedo para pensar em playoff, porque a temporada é longa e no Oeste as coisas são difíceis mesmo (ontem à noite o time perdeu do Lakers, no Arizona, por 123-115), ao menos a expectativa é de encher o ginásio (16 mil pessoas por partida e 90% de taxa de ocupação até agora), jogar com mais intensidade e não pensar no futuro. A palavra de ordem para Monty Williams e seu Phoenix Suns é agora.

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