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Bala na Cesta

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Entrevista do assinante: Marcel de Souza

Fábio Balassiano

12/10/2019 05h01

Um dos maiores jogadores da história do basquete brasileiro é o entrevistado do assinante no mês de outubro de 2019. Marcel de Souza, campeão do Pan-Americano de 1987, medalha de bronze em 1978 no Mundial das Filipinas e outras inúmeras conquistas respondeu a perguntas dos assinantes do Bala na Cesta com toda sua sinceridade. Papo maneiríssimo.

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Alessandro Silva -> O que você acha do nível do basquete jogado por aqui hoje no NBB e o que acha dessa geração que está saindo e da nova que está vindo por aí?
MARCEL DE SOUZA: Sem dúvida alguma o NBB é muito bem organizado e administrado. Foi criado pelos clubes porque o basquete estava passando por uma crise admnistrativa muito grande. Hoje temos uma estrutura sólida, que pode ser comparada às grandes ligas mundiais. Eu questiono o nível do basquete praticado como um todo, não só no NBB, mas no basquete brasileiro: sua formação de jogadores, treinadores, árbitros e dirigentes. Os jogadores são ensinados, desde as categorias de base, a ganhar o jogo e não a jogar o jogo. O sucesso dos treinadores da base não é mensurado por como ele ensinou o jogo e sim por quantos títulos ele conquistou e pela capacidade política que tem para gerenciar pais, dirigentes e os dilemas diários que enfrenta (três ou quatro empregos, atualização etc.). Os técnicos têm que demonstrar muito mais capacidade em se relacionar com jogadores (e seus agentes), seus auxiliares técnicos, dirigentes, árbitros, mídia e outros assuntos do que com o progresso técnico de sua equipe, sua preparação para jogos e o planejamento técnico de sua equipe.

Os dirigentes pressionam seus treinadores e técnicos por resultados porque acreditam que não é a formação de jogadores que faz o sucesso de sua equipe, mas sim as vitórias do seu time que os farão conquistar seus objetivos pessoais diante de dirigentes de outros clubes (poderia me alongar nesse assunto, mas esse não é o foco da sua pergunta). Os árbitros passam por uma pressão e realidade semelhantes, mas que fogem ao escopo da pergunta. O nível do basquete jogado no NBB é produto de tudo isso e reflete o que acontece no basquete como um todo, inclusive na formação dessa nova geração, o que basicamente orienta a utilizar o NBB como uma plataforma para voos mais altos.

Foto: Arquivo Pessoal

Gustavo Teixeira -> O que acha de ter técnicos estrangeiros dirigindo a seleção? Isso pode influenciar no estilo de jogo brasileiro? Existe um jeito nosso de jogar ou precisamos nos adaptar ao jogo dos demais países?
MARCEL DE SOUZA: Gostaria de vê-los dirigindo primeiro uma equipe brasileira, como fizeram Flor Melendez e Mike Frink. Embora o mundo do basquete esteja cada vez mais falando a mesma língua, existem peculiaridades regionais e nacionais que só a convivência prolongada podem ser observadas. O estilo brasileiro de jogar tem sido esquecido por todos os envolvidos no jogo e isso é muito ruim, pois não transformamos para o nosso estilo os conceitos atuais do basquete mundial, mas simplesmente os copiamos. Nossos resultados nas grandes competições internacionais indicam que os técnicos estrangeiros não obtiveram aqui os mesmos resultados que os qualificaram para dirigir nossas seleções.

Luciano Lessa Filho -> Você ainda tem desejo de presidir a CBB?
MARCEL DE SOUZA: Nunca foi meu desejo presidir a CBB. Em primeiro lugar porque o cargo não é remunerado e eu ainda tenho que trabalhar para o meu sustento. Em segundo lugar é um cargo politicamente não compatível com minhas habilidades. Presidir a CBB nunca passou pelos meus planos.

Fernando Domingos Bernardes -> Eu já ouvi muita gente dizer que preferia você naquela geração (não vivi a época). Na história, Oscar atingiu um patamar maior. Isso afeta, ou afetava, você? Ou sempre houve aquela certeza que as conquistas do grupo estavam sempre à frente de qualquer avaliação individual?
MARCEL DE SOUZA: Embora tenhamos vivido na mesma geração, a minha orientação inicial foi a de estudar e jogar enquanto a do Oscar foi a de jogar e estudar (ele cursou duas faculdades). Quando chegou a hora de escolher entre assumir o basquete como uma profissão, o Oscar se dedicou inteiramente a isso, enquanto eu ingressei na faculdade de medicina. Isso nunca me afetou, muito pelo contrário, conquistamos muita coisa juntos no basquete e sou muito orgulhoso da trajetória esportiva e pessoal do Oscar, da qual participei ativamente.

Gabriel Tomé -> Marcel, como tu vê essa obsessão da molecada com a NBA? Parece que o simples fato de estar lá e nem necessariamente jogar os satisfazem. Até a seleção parece não empolgar mais como um objetivo pra os jovens…
MARCEL DE SOUZA: Sim, hoje o sonho de qualquer jovem que se inicia no basquete é jogar na NBA. É uma realidade a que o mundo do basquete tem que aceitar. Isso acontece em todos os lugares e não há como fugir disso. O que temos que fazer é mostrar que os nossos campeonatos também são fortes e que a nossa seleção também pode ser um caminho para alcançar o objetivo NBA, como fazem os grandes centros do basquete mundial. Atualmente nossos melhores talentos preferem se transferir para centros onde o basquete é mais forte porque isso aumenta as chances de sucesso na carreira. Não os culpo, mas o resultado dessa escolha é desastroso para o nosso basquete, pois um grande talento também é exemplo para os seus companheiros e os leva a serem melhores. Simplesmente impedi-los de se transferir não é uma solução. Seria necessário uma mudança radical na nossa maneira de ensinar o jogo para que esses jogadores acreditem que ficar no nosso basquete também possa ser um caminho para a NBA.

Pedro Rodrigues -> Por que o basquete nacional vive em uma eterna crise de gerações? É a geração dos bicampeões que tinha problemas com a geração de Marcel e Oscar, e esta acabou tendo rusgas com a nossa geração "NBA".
MARCEL DE SOUZA: Eu não tenho crise de geração com ninguém. A geração bicampeã sempre foi meu exemplo a ser seguido. A minha geração não podia jogar na NBA porque perderia o status de jogador amador, que hoje não existe mais. Gosto muito dos jogadores da nossa geração NBA.

Tiago Essado -> Por que você não conseguiu o mesmo desempenho como jogador na função de técnico? Por que tanta dificuldade pra passar calma e confiança pros jogadores, diferentemente da frieza que tinha pra jogar?
MARCEL DE SOUZA: Porque não soube passar para meus jogadores o modo como eu vejo o basquete e principalmente porque não soube lidar com a estrutura que envolve o nosso esporte. Porque não consegui fazer entender aos atletas que, embora ganhanssem muito bem fazendo o que já faziam, poderia ser melhores se praticassem mais intensamente e participassem mais ativamente do jogo.

Porque não consegui fazer com que jogadores que só faziam corta-luz ao armador também pudessem desenvolver outras habilidades como passe, arremesso e dribles. Porque não foi possível convencer a maioria dos armadores que a posse de bola não era privilégio dele e que ele poderia confiar que, ao soltar a bola antes de uma decisão de ataque, esta lhe voltaria às mãos numa situação muito melhor.

Porque não consegui mostrar aos jogadores periféricos que os arremessos precisavam ser treinados todos os dias e que ficar em quadra disputando com seus colegas jogos como 21 parado, "horse", reloginho e arremessos impossíveis, os quais posteriormente seriam divulgados em suas mídias pessoais, não traria benefício para eles nem para o time. Porque não convenci os jogadores a assumirem que, se tudo vai mal, a defesa do 1×1 é a única solução para se sair de situações difíceis. Porque não era da minha índole aceitar que indicações técnicas de dirigentes tivessem influência "mandatória" nas minhas escolhas dentro da quadra.

Enfim, eu poderia ser um técnico ao qual os jogadores suportassem por um período de tempo muito curto, como os que temos nos campeonatos mais importantes para basquete brasileiro, os quais não temos tido sucesso desde o século passado. Mas nunca fui levado em consideração porque o que vale para mim não é considerado como valor necessário para o sucesso. Paciência.

Arthur De Paula Bindi -> Vemos em entrevistas o quanto o Oscar valoriza o fato de não ter ido para a NBA em troca de defender a seleção. Gostaria de saber se essa era uma mentalidade da época e de todos vocês? Ou caso a mesma oportunidade tivesse acontecido para ti, o que você teria feito?
MARCEL DE SOUZA: Essa realidade não era possível no nosso início de carreira. Aliás, não tínhamos contato com ela. A NBA era fechada a quem não jogasse nos EUA. O mundo foi se transformando e a NBA abriu suas portas e mudou o basquete mundial. Crescemos não podendo jogar na NBA e vivíamos em uma época onde o jogador estrangeiro não era valorizado como deveria pela NBA. Se a realidade atual nos fosse apresentada naquela época, ou seja, pudéssemos jogar na NBA e na seleção, seguramente eu teria feito a mesma coisa que todo mundo faz hoje.

Sobre o blog

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