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Bala na Cesta

Bala na Cesta

Não é só na quadra que precisamos melhorar - fora, comportamento também deve evoluir

Fábio Balassiano

29/06/2019 06h01

Final do NBB, jogo 2. O argentino Franco Balbi vai bater um fundo bola no Pedrocão. É xingado de tudo que é nome, tudo, tudo mesmo. Vozes grossas, todos os xingamentos do mundo. Até que Balbi se vira pra trás. Não para xingar de volta, mas havia algo estranho. Era um menino de, se tanto, 9, 10 anos vociferando palavras de baixo calão em uma quadra esportiva. Seu pai, ao lado, todo "orgulhoso", o levantou pelos braços e ambos passaram a xingar o armador do Flamengo em família.

Final do NBB, jogo 3. No Maracanãzinho cheio, a torcida do Flamengo gritava animadamente para os jogadores de Franca que se o campeonato terminasse ali (estava 2-1 para os francanos) eles não sairiam vivos do local. "O troféu pode até ir pra Franca, mas vocês vão ficar por aqui, viu".

Semifinal do NBB, jogo 4. Em General Severiano, a torcida do Botafogo descobriu (ainda era segredo) que Olivinha havia sido pai na noite anterior. Entre um copo de cerveja, um de refrigerante e um de água atirado na quadra, torcedores alvinegros gritavam coisas como "Ei, Olivinha, a filha que nasceu não é sua, não. Seu corno" ou "Vai ver só, a menina vai nascer com a cara do xxxx (sei lá quem eles falavam)".

Este texto não contém foto para não causar qualquer desconforto ou ligação entre imagem e conteúdo. Os exemplos citados acima foram de situações que presenciei por questão geográfica (moro no RJ) ou de trabalho (participei da decisão do NBB tanto no Rio de Janeiro quanto em Franca). São casos que obviamente não acontecem apenas no Pedrocão, no Maracanãzinho ou em General Severiano. Acontecem em absolutamente TODOS os locais esportivos do país. TODOS. TODOS.

Meu ponto com este texto é abrir um pouco de luz sobre o comportamento do torcedor brasileiro em ginásios de basquete (e só posso falar do nosso esporte porque é nele que trato aqui há anos), algo que tem me chocado absurdamente de anos pra cá.

Acho que podemos, e devemos, melhorar por aqui. Não só dentro da quadra, com jogos, times e técnicos melhores, mas principalmente no tratamento dispensado a atletas, treinadores e também a árbitros, estes xingados do minuto 1 ao 40 das partidas com uma veemência assustadora. É óbvio que, vivendo a vida toda em um Maracanã torcendo pelo meu Fluminense, não me referia ao adversário com palavras carinhosas. Só creio que nunca devo ter extrapolado tanto quanto tenho visto ultimamente por aqui. E creio, também, que a situação esteja passando do limite. Em 2019 algumas coisinhas já poderia ser mais controladas, evitadas.

Sinceramente não entendo o prazer de uma pessoa sair de casa, cedo ou tarde, para ir a um ginásio de basquete cujo objetivo básico deveria ser apoiar seu time e se divertir. Mas o que vemos? O cidadão ficando os 40 minutos xingando o adversário com palavras que às vezes eu nem sabia que existia de tão baixas que são. Cacetada, você se despenca do seu lar, gasta grana com condução (ou gasolina) e seu prazer é ficar gritando igual um maníaco para ser ignorado por jogadores, técnicos e árbitros? É sério que não há um prazer diferente em sua vida?

Poderia, mas nem acho que é possível, fazer uma comparação com os Estados Unidos, onde torcedores de times rivais sentam-se lado a lado em quaisquer ginásios, ex-jogadores são homenageados por equipes e fãs sem tantos problemas e todo ambiente compreende que acima das disputas esportivas há uma questão de civilidade. A gente olha algumas situações pela internet, se depara com isso às vezes quando vai a ginásios lá fora, e pensa que vivemos em civilizações diferentes tamanha a distância entre o que se vê lá e aqui. Nem me atrevo a chegar nesse nível porque acho que, como país, estamos longe dos caras quando o assunto é educação e respeito mesmo.

Mas há espaço para melhora. Há espaço para respeitar e entender que os que estão do outro lado são apenas rivais esportivos e não um exército adversário pronto para guerrear contra você. São apenas visitantes que estão ali, no final das contas, para o mesmo fim que o time da casa – entreter o público. Tratar um time rival com educação não significa que você ame menos o seu time. Vaiar é do jogo. Provocar, também. Xingar loucamente como se não houvesse amanhã me parece que é passar de uma linha não muito bacana.

Quando a população daqui entender que no final do dia isso é apenas esporte, um jogo, uma diversão, entretenimento enfim, talvez as coisas melhorem. Hoje, hoje em dia, entrar em um ginásio de basquete tem sido ótimo apenas para renovar o estoque de palavrões e xingamentos sórdidos. E isso não é legal, não.

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