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Bala na Cesta

Bala na Cesta

E a base do basquete brasileiro, vai como? Vai muito mal e eu explico...

Fábio Balassiano

2025-06-20T19:05:53

25/06/2019 05h53

Foi um mês trágico para o basquete brasileiro na base. Em Belém, na primeira competição disputada no país em quase cinco anos, a equipe Sub-16 terminou na quinta colocação depois de perder de "forças" como República Dominicana e Uruguai jogando em um nível muito ruim e com fundamentos pouquíssimos lapidados.

Um dos pontos "altos" da campanha que culminou com a não classificação para o Mundial Sub-17 de 2020 foi esse aqui, do técnico Felipe Santana, o famoso e decantado Filé, tido por quase todos como um dos melhores do país na formação de jovens valores:

Sim, é isso mesmo que você ouviu aí. Filé mandou meninos de 15, 16 anos "se foder" depois de os rapazes não conseguirem cumprir, aparentemente, algo que ele solicitou. Não conheço o treinador, de verdade não tenho a menor intenção disso, mas se é assim que um cara da base, um educador no final das contas, trata seus alunos é porque está na hora de rever as coisas – todas as coisas.

Sinceramente falando eu não gostaria de ver meus filhos sendo comandados por um cara que, na função dele e treinando meninos desta idade, deveria estar menos preocupado com resultados (consequência) e mais com ensinar o que é o jogo (a causa de tudo). Educação deveria ser a prioridade dele – e pelo visto não é. Não deixa de ser irônico que depois de sua campanha vexatória e de seu show particular Filé tenha sido contratado por um time adulto que representará uma instituição de… ENSINO no próximo NBB, a Unifacisa. Tomara que ele tenha aprendido as lições para não repetir seus erros.

Na semana passada, o que era ruim ficou ainda pior. A seleção feminina Sub-16, que treinou menos de 10 dias para a sua Copa América, fez um fiasco ainda maior. Conseguiu a proeza de perder duas vezes do EQUADOR (vou repetir pra não ter erro: o Brasil perdeu do EQUADOR DUAS VEZES!), ficou em sexto na competição e também está fora do Mundial Sub-17 de 2020. O duo Adriana Santos (Coordenadora) e Virgil Lopez (técnico) certamente precisa entender o que aconteceu, colocar um diagnóstico bem claro e propor soluções, porque o que foi visto foi BEM grave, horrível mesmo.

Sobre as derrotas para o Equador, eu não vou entrar no aspecto de quadra de uma seleção que converteu apenas 12% de suas bolas de três, mas sim no fato de que é inconcebível termos um projeto de basquete que perca duas vezes em menos de cinco dias para um país que tem menos de 20 milhões de habitantes (10% da gente). Isso mostra cabalmente como estamos falhando miseravelmente quando falamos em formação, desenvolvimento, massificação, capacitação de técnicos e atletas, esforços contínuos de Federações, Clubes, Ligas e Confederação e todo resto que você queira pensar.

Em resumo: o que estava ruim, politicamente, ficou péssimo esportivamente. O Brasil não joga, neste ano, os Mundiais Sub-19 por conta da suspensão imposta pela FIBA à gestão Carlos Nunes lá de 2016. Isso todo mundo sabia e estava, digamos, no radar. Nunes defenestrou a Confederação e as consequências serão vistas por muitos e muitos anos. O tempo passou e, com o sangrento mês de junho de 2019, o Brasil não jogará os Mundiais Sub-17 de 2020 por conta de problemas na gestão Guy Peixoto. Um resvala, encosta, puxa, se entrelaça com o outro e acho que chegou a hora de repensarmos muita coisa no basquete nacional.

Entendo, respeito e admiro a coragem de Guy Peixoto de ter assumido uma CBB endividada, sem credibilidade e totalmente falida em termos financeiros, morais, técnicos e de todos os aspectos que vocês quiserem. Todos sabem do esforço que ele e seu time têm feito para colocar um mínimo de transparência e organização na Confederação, isso é um fato e respeito absurdamente, mas passados dois anos de sua gestão é preciso, do lado de cá e de lá, uma avaliação um pouco mais profunda da situação toda e do real rumo das coisas.

Falta grana, eu sei. Faltam certidões negativas (para patrocínios estatais), eu sei. Falta credibilidade, ainda, no mercado por tudo o que o duo Nunes e Grego fizeram por 16 anos sofridos no basquete nacional. Eu sei, eu sei, eu sei. Mas o que sinceramente gostaria de ver da CBB de Guy era um pouco mais de planejamento, ideias, conversas, alinhamentos. É esporte, claro, há que se pensar em resultado desde o minuto um, mas para isso é preciso ter mais clareza das coisas e uma organização um pouco mais metódica, mais arejada. Para onde estamos indo? O que estamos pensando? Como serão tratadas essas gerações, as duas antes do adulto, que não jogarão seus respectivos Mundiais? Elas ficarão sem jogar contra os melhores times do mundo?

Será que não chegou a hora de um grande simpósio, encontro, sei lá o nome que queiram dar, para discutir a modalidade? Ninguém é, ou quer ser, ou deveria ser, o dono da verdade e acho que a junção de ideias pode fazer o basquete brasileiro crescer. Que tal juntar todos em uma sala para sair com um planejamento de curto, médio e longo prazos? De novo: onde estamos, para onde vamos, como vamos e onde queremos chegar? Qual o motivo para NÃO ser feito um evento desses? Qual o problema? É político? As Federações não gostariam de discutir o esporte? Não me parece que seja por aí. Guy é um cara inteligente, vem do mundo empresarial, onde tem um sucesso incontestável, e poderia aplicar seus métodos de gestão também na Confederação. Os resultados não têm vindo, afinal.

É meio óbvio isso, mas não custa relembrar: o objetivo final é sempre uma medalha olímpica, mas meu sentimento, e se estiver errado me desculpo, é que queremos chegar ao final do percurso sem passar pelas fases mais importantes dele – diagnóstico, análise, planejamento, suposições, testes, correção de rotas, mais planejamento, mais teste, mais correção e só assim colocar o carro na rua com consistência.

É um absurdo total que em um esporte com tantas boas mentes nomes como Maria Helena Cardoso, Paulo Bassul, Magic Paula, Ricardo Molina, Sergio Domeneci, João Fernando Rossi, Kouros Monadjemi, Marcel de Souza, Janeth, Hortência, Alessandra, Amaury, Wlamir, entre outros, não coloque essa galera pra se falar, pra conversar, pra trocar ideias com frequência, regularidade e foco. O objetivo não é ter os grandes ídolos e ótimos dirigentes alinhados à gestão, nada disso, mas sim ouvir pessoas que fizeram tanto pela modalidade e que têm muito, ainda, a acrescentar. Qual o motivo de abrirmos mão de tanta gente inteligente? Qual o problema em sentar com o pessoal da Liga Nacional? Já passou da hora de picuinhas serem deixadas de lado em nome do bem maior, que deveria ser o basquete. O NBB é um excelente produto e tenho certeza que todos por ali estariam dispostos a conversar, trocas ideias, ajudar no que for preciso.

O Brasil, e talvez isso não seja exclusividade do basquete, mas sim do país, queima etapas, acredita que quatro, cinco pessoas em uma sala entendem do assunto (e devem entender mesmo!) e de lá saem as decisões. Em um mundo moderno, com instituições cada vez mais ouvindo seus clientes finais, não faz sentido algum se encastelar nas trincheiras e tomar as rédeas do esporte. Quanto mais ágeis, descentralizadas e atuais forem as diretrizes, mais rápido o basquete vai chegar do outro lado, vai atingir seus objetivos.

No momento, o muro continua sendo de lamentação. O poço, ainda não sabemos onde está porque o fundo me parece que ainda não foi encontrado (Carlos Nunes cavou beeeeeeeeeeem fundo). Se o presente é difícil, o futuro me parece nebuloso. A gestão Guy Peixoto, que tem tentado colar os cacos de Nunes e Grego, precisa dar um passo à frente para tirar de vez o basquete brasileiro do atoleiro. E não nos enganemos: isso só vai acontecer quando tivermos um processo, e não um projeto (projetos têm começo, meio e fim), de desenvolvimento e massificação na base envolvendo Federações, clubes, técnicos, atletas, árbitros, ligas, TODOS que precisam e querem ver a modalidade crescer.

Hoje ainda não temos isso. E veremos, cada vez mais, derrotas vexatórias para Equador, República Dominicana, Uruguai e afins. São países diminutos, pequenos em extensão territorial e em história na modalidade, que começam a incomodar não porque fazem um trabalho brilhante na base, mas simplesmente porque o Brasil parou no tempo.

Até quando?

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