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Bala na Cesta

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Aos 82 anos, se vai Waldir Boccardo, mente brilhante do basquete brasileiro

Fábio Balassiano

18/11/2018 20h50

Era 2004. No ano em que o Flamengo foi vice-campeão brasileiro. O time do Emmanuel Bomfim. Na época eu não tinha meu próprio blog, mas já escrevia e acompanhava. Não sei se pro Diário do Basquete ou pro Databasket, mas ia a todos os jogos no Rio de Janeiro e reportava, escrevia, entrevistava. Se não me engano naquele Nacional apenas o time da Gávea representava o Rio de Janeiro. Era meio insano porque eu tinha 21 anos, mas trocava sem o menor pudor a praia por um ginásio calorento pra ver jogos de um time sem grandes estrelas mas que jogava de uma maneira que me agradava (bem coletivo, e o Olivinha que hoje está no Flamengo fazia parte daquele time para atestar). Vai entender.

Pois bem. Chamava-me atenção o fato de, antes e depois dos jogos, Emmanuel, uma das minhas grandes referências como treinador e um dos caras intelectualmente mais exigentes que já conheci no esporte, sempre conversar com um senhor de voz rouca, alto, forte, barba branca, cabelo liso grisalho e óculos escuros preso à camisa. Um dia Bomfim me puxou e disse: "Quer aprender sobre basquete? Para de me entrevistar e vai conversar com o Waldir. Pra você, Seu Waldir. E eu não estou brincando. Seu Waldir". Eu assenti com a cabeça e a primeira coisa que fiz foi entrevistar Waldir Boccardo. Seu Waldir.

Nenhum jornalista que cobre basquete (deveria) ignora(r) os feitos do cara. Eu sabia de quem se tratava mas nunca tinha ousado entrevistá-lo. Eu era um fedelho de 20, 21 anos. Ele, um campeão Mundial em 1959, medalha de bronze olímpica em Roma-1960 e um dos mitos do basquete brasileiro também fora das quadras. Foi precursor no fato de ir para os Estados Unidos estudar, trazer informações e disseminar por aqui. No momento em que quase tudo era empírico, emocional, Boccardo trouxe a ciência, a metodologia, o rigor, os livros. Trsite era vê-lo passar nos ginásios sem ninguém reconhecê-lo. Diz muito sobre a nossa (falta de) cultura esportiva, né?

Técnico desde a adolescência para categorias de base, foi sendo puxado por Ary Vidal, outro mito do basquete brasileiro, para quase todos os trabalhos. Era o assistente, a voz por trás de Ary nos treinamentos, o lado racional de um treinador emocional. O balanço perfeito para qualquer comissão técnica. Quando Ary urrava, Waldir orientava. Quando Ary procurava uma bússola, Waldir vinha com a solução. Foi assim na seleção brasileira de 1978 que conquistou o bronze no Mundial das Filipinas (última medalha em torneios Classe A do basquete masculino) e, nos clubes, esteve ao lado de Vidal na conquista épica do Nacional do Corinthians de Santa Cruz do Sul em 1994.

Mas, bem, voltando. Em 2004 mesmo tomei coragem, entrevistei Waldir e no final do papo perguntei a ele se poderia assistir a uma partida ao seu lado. Antes do sim ele me disse: "Claro, mas antes leia isso". Boccardo me entregou assinado com uma emocionante dedicatória seu livro "Os dez mandamentos do basquete moderno". Quase quinze anos se passaram mas tudo o que lá estava escrito vale até hoje. Devorei a obra e passei a ter a honra de ouvi-lo durante as partidas.

Fiz isso por quase dois anos e meio na Gávea e no Tijuca. Não era uma aula de basquete. Era graduação, pós-graduação e mestrado (quando dava sorte ainda tinha do outro lado o Marcos Mendes, o Beegu, amigo do Phil Jackson e uma das maiores referências em sistema de triângulos do país). Eu ia com meu bloquinho (na época não existiam grandes smartphones na praça, lembrem-se) e saía com mais coisas anotadas de Waldir durante o jogo do que nas entrevistas depois das partidas tamanha era o conteúdo que o cara me apresentava. E Waldir gostava de falar. Instigado, ele ficava os 40 minutos do jogo falando, explicando e sobretudo criticando, algo que ele nunca teve medo de fazer. Sem brincadeira, foi uma das mentes mais brilhantes que eu conheci no basquete brasileiro.

"Tá vendo aquele armador ali, Fábio? Quantas vezes você viu John Stockton batendo a bola por entre as pernas? Isso que o garoto ali está fazendo se chama over use of the dribble (uso excessivo do drible). Se fosse o Bob Knight (treinador americano), matava o cara. Aqui acham graça". "Quantas vezes a rotação daquele time ali falha? Repara que sempre o armador faz o corta-luz e não tem quem o acompanhe depois do primeiro corte. Isso é inadmissível para qualquer equipe. Ou dá bandeja pra ele ou enterrada pro pivô pós-roll do pick". "No basquete moderno a pior jogada é a de um-contra-um. Aqui (no Brasil) se joga muito assim mas estatisticamente isso é uma loucura. No mundo ganha quem roda mais a bola. A única exceção é a NBA porque lá o talento é abundante. Deveríamos trocar mais passes". "Não consigo conceber o fato de times brasileiros seguirem jogando com 7, 8 atletas por 35 minutos. O mundo todo já valoriza mais intensidade do que apenas a qualidade técnica. Precisamos rever este conceito também". Meu queixo só não caía porque eu não queria parecer um bobo, mas era quase isso.

Minha sorte aumentava depois dos jogos também. Quase sempre depois do pós-jogo dele com Emmanuel (eu esperava pra entrevistar o Bomfim) perguntava a Boccardo se ele queria carona. Como ele morava no Leme, bairro que sempre foi a sua paixão, e eu (à época) em Ipanema, fazia questão de deixá-lo em casa no meu Palio Verde que o deixava mais apertado que sardinha em lata. Era engraçado e a única coisa que ele pedia era pra ir devagar e ligar o ar no máximo.

No caminho, Boccardo sempre fazia muita piada, algumas bem ácidas, brincava com a vida, falava de seu filho (Vitor) e do orgulho que tinha por ter aberto as portas para treinadores do Brasil no exterior. O auge de uma dessas caronas foi quando o próprio Ary Vidal se juntou a Waldir no carro. Eu torcia para o sinal ficar vermelho, ter um trânsito do nada e a viagem nunca acabar. Perguntei, matreiramente, a Ary se ele teria ganho alguma coisa na vida sem o Boccardo a seu lado. Antes de Vidal responder a voz rouca se fez estridente no carro: "Ele sabe que não ganharia nada sem mim". Todos riram.

Foi disso que me lembrei neste domingo quando soube da morte de Waldir aos 82 anos. Com saúde debilitada, ele se foi mas deixa um legado de muita sabedoria, senso crítico, títulos na quadra e sobriedade fora dela.

Quem gosta de basquete deve reverência a Waldir Geraldo Boccardo. E eu devo um muito obrigado pela paciência e ensinamentos. Aquele garoto de 20, 21 anos encontrou em Boccardo um mestre pra vida toda.

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