Bala na Cesta

Sem time na NBA após cirurgia no quadril, Tiago Splitter vive incerteza pela 1ª vez na carreira

Fábio Balassiano

25/09/2017 06h20

Aos 32 anos, Tiago Splitter está vivendo uma situação inédita em sua carreira. A menos de 20 dias para o começo da temporada 2017/2018 o primeiro brasileiro campeão da NBA (2014, com o San Antonio Spurs) encontra-se sem time. Trocado do Spurs para o Atlanta Hawks em 2015, o pivô jogou      o último campeonato pelo Philadelphia 76ers, onde terminou a sua recuperação da cirurgia no quadril (realizada em 2016).

Tiago conversou com o blog na última semana e, com a sinceridade de sempre, admitiu que ainda não encontra no melhor de sua forma. Já pensando no pós-carreira de atleta, o pivô está acompanhando os treinos de Golden State Warriors, San Antonio Spurs e Atlanta Hawks para se preparar para, quem sabe um dia, torna-se técnico. Splitter falou, também, de seleção brasileira, da situação política dos Estados Unidos e, no momento, descartou retornar à Europa.

BALA NA CESTA: Faltando menos de um mês para a temporada da NBA começar você está sem time. Qual a sua real situação? Houve propostas, contatos ou está aguardando ainda?
TIAGO SPLITTER: A verdade é que não tenho nada oficial. Recebi algumas sondagens, convites para participar dos treinamentos da pré-temporada, mas nada garantido em relação a contrato com as franquias da NBA. Continuo treinando sozinho em Los Angeles na esperança de, em breve, receber um convite. Não me ofereceram nenhum contrato e vou ficar esperando. Tudo pode acontecer no meio de uma temporada da NBA. São 82 jogos e ficarei no aguardo. Não consigo projetar nada ainda para os próximos dias, semanas, meses. É meio incógnita, Bala. Posso te dizer que, enquanto as propostas como atleta não chegam, estou acompanhando os treinos do Golden State Warriors, San Antonio Spurs e Atlanta Hawks no início desta temporada. É uma opção de continuar minha carreira na NBA como técnico no futuro, então estou fazendo isso enquanto não tenho nenhuma equipe pra jogar.

BNC: Como está a situação do seu quadril? Acha que a parte física influencia para que os times não lhe ofereçam uma chance?
SPLITTER: É meio complicado de falar, mas vamos lá. Tem influencia, sim, claro, mas posso te dizer com sinceridade. O quadril está beleza, zero bala, com o perdão da expressão (risos). Mas aos 32 anos eu estou em uma situação que todo jogador de fim de carreira acaba tendo. É triste falar essa expressão, né? Fim de carreira, mas é real. Você acaba tendo dor no corpo inteiro. Você acorda com a dor, treina e dorme com a dor. E a idade também acaba te apresentando algo novo – limitações físicas, que, por sua vez, limitam seu jogo. Voltei a jogar pelo Sixers na temporada passada, fiz oito jogos e me senti outro jogador. Sei que não é só comigo, isso acontece com todos os atletas do planeta, mas não me sinto o mesmo e você precisa ser realista. Precisa se adaptar. Minha mobilidade mudou absurdamente, mas sei que não é exclusividade minha. Pra falar de um jogador que conhecemos bem. Você vê o Luis Scola. Hoje ele tem quase 40 anos e praticamente só dá aquele arremesso conhecido dele. Não joga mais poste baixo, por exemplo. Tim Duncan também, aconteceu o mesmo. Isso muda pra todos. O atleta começa a se adaptar. Os chutes de 3, por exemplo, eu tive que adicionar ao meu repertório. O técnico do Sixers é que me liberou pra testar nos jogos. O primeiro que eu arremessei, acertei. Mas hoje, pra ser sincero, ainda não estou 100% e me readaptando ao meu corpo. Essa é a verdade.

BNC: Sobre essa questão do corpo, como fica a parte psicológica de um atleta em relação a isso? Não estou falando com um atleta mediano, e você sabe disso, mas sim com um cara que brilhou na Europa e foi campeão de NBA.
SPLITTER: Pra te falar a verdade o mais difícil não é agora. Foi no começo da lesão no quadril e durante a recuperação. Isso é o mais difícil. Depois, quando voltei a jogar, lá no Sixers, passa o baque. Agora estou bem. Não estou 100% fisicamente, e até por isso os times têm dúvida pra me contratar. Creio que é isso. Se não tivesse tido tanto problema físico certamente não estaria nessa situação. Só que você me conhece e não vou ficar lamuriando, chorando pelos cantos. O problema se apresenta e vou pegar o touro pelo chifre e pronto.

BNC: Recentemente outro brasileiro que estava na NBA, o seu amigo Marcelinho Huertas, voltou pra Europa, assinando com um time que você conhece bem, o Baskonia (Tiago jogou lá por dez anos). Você cogita voltar à Europa?
SPLITTER: No momento, não. Isso ainda não passa pela minha cabeça. Meu foco é a NBA e vejo meu futuro aqui nos Estados Unidos. Quero estar aqui ainda. Não fecho as portas para nada, até porque essa próxima temporada vai me dizer muito sobre os próximos passos da minha carreira. O mais importante agora é me manter focado, treinando duro e com a cabeça no lugar. Sei que essa situação de ser veterano e não ter contrato não acontece só comigo. Conversei com alguns atletas, na mesma situação que eu, e eles falaram pra manter a cabeça tranquilo. Essa coisa da dinastia do Golden State Warriors, por exemplo, acaba impactando muita coisa no mercado da NBA. Pode parecer bobeira, mas acontece. Os outros times não têm interesse em formar o presente com atletas mais experientes, mas sim em pensar no futuro pra 2, 3, 4, 5 anos pra ganhar título. Agora a maioria das equipes sabe que fica impossível e meio que desistem. Experiência não querem. Mas se tiver um jovem para ficar pronto em dois, três anos, querem rapidamente.

BNC: Há uma corrente aqui no Brasil, com a qual eu concordo zero, em nada mesmo, que diz que o San Antonio Spurs limitou um pouco seu jogo na NBA, ou seja, que não explorou o Tiago como deveria ser explorado. Você concorda com essa tese ou é bobeira?
SPLITTER: É difícil falar disso, cara. Seria até egoísta da minha parte falar isso. Primeiro porque não acho que é verdade. O San Antonio é um time vitorioso, a história dos últimos 20 anos tem mostrado isso. É um esquema vencedor, de ganhar títulos, de ser campeão, de chegar em playoff todo ano. Se eu falasse que teria que desbancar o Duncan, é outra coisa. Só que nunca fui melhor que ele e não é problema algum falar isso, já que ele é um dos melhores jogadores de todos os tempos. Muita gente no Brasil tem a ilusão de me ver como um grande pivô que fui no Baskonia e tentar transferir isso pra NBA. Só que você sabe bem que Europa é uma coisa e NBA, outra completamente diferente. Outro estilo, outro jogo, outra dinâmica, outra exigência, outras regras. É um mundo novo. Se eu tivesse ido com 21, 22 anos para a NBA essa tese poderia ser real. Mas ir com 25 e entrando em time campeão é muito difícil você querer ser o rei da situação. E sou muito tranquilo quanto a isso.

BNC: Pensando nessa sua resposta acima. Olhando agora, bate um arrependimento de não ter ido antes à NBA?
SPLITTER: Poderia ter ido antes, sim. Só que falar agora é bem fácil. Eu assinei com o Baskonia, meu time na Espanha, com 15 anos. E com um contrato de 10 anos. Se você olhar com 15 anos e ter na mão um contrato de 10 anos ninguém recusa. Eu não era ninguém. Eles fizeram essa aposta não no jogador Tiago Splitter, mas sim em um menino. Me deram toda estrutura, confiança, apoio, me bancaram muito e sou muito grato por tudo o que fizeram por mim. Com 19, 20 eu muito provavelmente não teria assinado um contrato de 5, 6 anos. Mas eles me formaram, me ensinaram, apostaram em mim. Mas respondendo a sua pergunta, se eu pudesse escolher, teria ido com 21, 22 anos para a NBA.

BNC: Antes de chegar ao Brasil, como está sendo viver nos Estados Unidos neste momento? Furacão no Texas, na Flórida, o novo presidente Donald Trump. É uma situação de ebulição aí, não?
SPLITTER: Tá meio efervescente mesmo. O dia a dia é normal, posso te dizer. Não é uma grande questão. Os furacões afetaram, mas o que mais me impressiona é como os americanos se ajudam. Todos se mobilizam. As pessoas pedem férias pra ajudar quem está precisando. O Tim Duncan, sempre na dele, foi pras Ilhas Virgens, onde ele nasceu, para prestar sua ajuda. Mandei mensagem pra ele parabenizando. Eu mesmo doei. Mas a parte política é diferente. O jeito do presidente é diferente e o mundo todo está vendo. Só que tem uma coisa: ninguém fala mal de fora. É igual a nossa família. Quem está dentro, quem é americano, pode criticar, trocar ideia, divergir, brigar para que a situação melhore. Eles não gostam muito quando alguém de fora vem e se mete falando muita coisa. O Brasil deveria ter um pouco mais disso. De gente defender o nosso. Deveríamos brigar muito mais dentro do país pelo nosso. Falta um pouco mais de amor próprio também. Muita gente pode estar lendo isso e falando: “Pô, é mole. Tiago mora nos EUA, viveu fora a vida toda”. Isso é bobeira. Eu não moro no Brasil, mas sou brasileiro, amo meu país, minha família toda vive aí e quanto melhor for a situação do país melhor pra todo mundo.

BNC: Essa parte social que você cita. Há um Instituto Tiago Splitter saindo do papel, não?
SPLITTER: Sim, sim. Será em Blumenau e por enquanto vai começar tudo lá. Estamos terminando a parte de papéis, documentos, essas coisas. Já fizemos um evento de 3×3 em Blumenau. Foi muito bem visto no Sul pelos atletas, patrocinadores, tudo mais. Já recebemos convites para fazermos a mesma coisa em festivais de música, outros de esporte. Só que agora precisamos caminhar com a parte burocrática e isso leva tempo. A gente está em contato com o Gustavo Kuerten, o Guga, direto. Ele tem Instituto dele que é uma referência. O Gabriel Medina a mesma coisa. Neymar, idem. Meu irmão, Marcelo, que está tocando lá. Amigos meus de infância também. O Ricardo Probst, que jogou por muito tempo, é muito amigo nosso, parceiro da família e está conosco também. Mas estamos engatinhando ainda.

BNC: Tiago, voltando pro basquete do Brasil. Como você vê a situação do basquete daqui? Houve as duas Copa Américas, não foram bons os resultados (Masculino fora do Pan e Feminino fora do Mundial) e financeiramente você sabe que a CBB está no buraco devido a gestão anterior.
SPLITTER: Eu acho o seguinte. O resultado da Copa América obviamente não foi bom. Claro. Acho que algumas coisas tinham que ter sido diferentes. Tínhamos que ter ido com nossa força máxima em questão de jogadores e de comissão técnica. Não estamos no nível de não levarmos os melhores jogadores. Mas isso passou, falar agora é fácil e não estou criticando. Este é apenas o meu pensamento. Agora é tomar decisões. Nunca fiz parte da gestão, mas torço muito para que o Guy Peixoto, o presidente, acerte nos próximos passos.

BNC: Vou ser chato. Você diz que não faz parte da gestão, mas durante a campanha presidencial da CBB recebeu em Atlanta o Guy Peixoto, gravou um vídeo de apoio a ele e sei que mantém contato com o presidente…
SPLITTER: Troquei ideia com ele, sempre falei. Eu não me sinto arrependido de ter apoiado o Guy. Eu fiz a coisa certa. Converso com as pessoas que estão no meio dele. Ele não me pede opinião, não é assim que funciona, mas a gente conversa, troca ideia. Eu só quero o bem do basquete, Bala. Quando eu vejo o Brasil não classificando em uma fase, dói. Quando eu vejo o Brasil fora do Pan, dói. Quando vejo a feminina ausente em um Mundial, dói. Eu acho o Guy o melhor pro futuro do basquete. Ele não quer nada que os outros queriam. Ele tem dinheiro, situação, tudo. Melhor do que ninguém você sabe que na Confederação Brasileira tem muito rolo. Ele pegou uma CBB quebrada, com um monte de dívidas, cheia de problemas das gestões passadas. Aquilo ali é um rolo danado. Sem dinheiro nenhum, ele meteu a mão no bolso dele e contratou técnico, pagou seguro e muito mais. Botou dinheiro dele pra ter o Brasil na Copa América. Sobre os métodos técnicos dele, poderia ter feito algo diferente. Ele pode até ficar chateado quando ler isso, mas eu acho isso. Só que quero deixar claro: ele é a pessoa certa, tenho certeza.

BNC: Difícil não te perguntar. Como você viu a situação do Bruno Caboclo, que se recusou a entrar em um jogo e foi cortado da seleção?
SPLITTER: Vi com tristeza. A única coisa que posso dizer é: imaturidade. Ele é novo, não tem maturidade. Temos o mesmo agente e falei com o nosso empresário que estou à disposição pra falar, trocar ideia, mas até agora não chegamos a conversar. Defender a seleção é um orgulho, uma honra e ele é o futuro da seleção. Bruno tem uma responsabilidade nas costas dele – mesmo sem ter noção. Espero que ele aprenda. É muito jovem e com potencial

BNC: Por fim. O presidente Guy Peixoto declarou em algumas entrevistas que optou por meio que “zerar” o passado em relação a comissão técnica masculina, ou seja, não manter ninguém que fez parte da gestão passada com o Rubén Magnano. Nenhum dos assistentes, preparadores físicos, médicos, Coordenadores, nada. Principalmente em relação aos assistentes, você não acha que eles poderiam fazer parte da comissão técnica, já que ficaram quase dez anos aprendendo muito do jogo internacional, do modus operandi das competições FIBA e também em como lidar com os atletas?
SPLITTER: Acho. Essa é a minha resposta. Acho. Só isso. Não posso falar muito. Mas acho.

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