Bala na Cesta

Warriors? Cavs? Saiba como 'velocista' coloca o Wizards como o melhor da NBA em 2017

Fábio Balassiano

13/03/2017 06h01

A temporada da NBA está polarizada em Golden State Warriors e Cleveland Cavs, times que fizeram as duas últimas finais e que surgem como grandíssimos favoritos para repetir a dose na decisão deste ano. O que pouca gente nota é que em 2017 a melhor campanha da liga não é nem do time de Steph Curry e nem do de LeBron James. O Washington Wizards, do velocista John Wall, armador considerado um dos jogadores de basquete mais rápidos do mundo, possui 25 vitórias em 33 jogos e lidera não só em número de triunfos, mas também em aproveitamento (76%). Desde janeiro o Cavs é apenas o nono (18-14) e o Warriors, o terceiro (23-9). O San Antonio Spurs é o segundo melhor com 24-8.

EVENTO BALA NA CESTA EM SÃO PAULO – 27/03

No total o Washington, que hoje enfrenta fora de casa o Minnesota, tem 41 vitórias em 65 jogos e em grande fase ganhou 7 dos últimos 10 duelos, 11 dos 14 mais recentes e está em segundo lugar na conferência Leste, atrás apenas do Cleveland, que tem 43-21. Para quem começou a temporada perdendo os três primeiros duelos, ainda com o gosto de não ter se classificado ao playoff em 2015/2016 em um campeonato pra lá de frustrante e com um técnico que em 2015 havia sido demitido de Oklahoma (Scott Brooks) no comando, dá pra dizer que atingir este patamar é, sim, uma agradável surpresa. E o sucesso da franquia da capital norte-americana passa totalmente por Wall, que consegue cruzar a quadra inteira em menos de cinco segundos.

Um dos mais prestigiados armadores da atualidade, o camisa 2 tem as médias de 23,1 pontos, 45% nos arremessos e 10,8 assistências (todas as melhores de uma carreira de sete anos na NBA). Se seu arremesso de três pontos continua errático (31,7% em 2016/2017, índice idêntico ao de sua trajetória profissional), Wall melhorou em liderança, em capacidade de envolver seus companheiros. A segunda melhor média de assistências fala um pouco sobre isso, mas não tudo. A forma como ele passou também a defender estimula seus companheiros a pressionar a bola e a levar o Washington adiante. Mas não foi assim fácil que a transformação chegou.

Após a primeira partida da temporada (derrota fora de casa contra o Atlanta Hawks por 114-99), Brooks não poupou a sua maior estrela e disse que nunca havia visto uma marcação tão ruim quanto a que tinha visto de John Wall. A velocidade que Wall usava para correr para o ataque com a bola era inversamente proporcional a que ele voltava para marcar na defesa. Crítico, o camisa 2 não bateu boca com seu novo treinador, mas sim procurou-o para analisar os problemas. Brooks o recebeu com um vídeo de 10 minutos contendo suas maiores deficiências defensivas. Não era uma questão grave, mas basicamente de retorno rápido à marcação e impedir que seu rival cortasse facilmente rumo a cesta. O jogador decidiu implementar o que o novo chefe indicou. Deu certo. A transição ataque-defesa melhorou muito, Wall se tornou um atleta mais completo, o Wizards passou a não levar mais tantos pontos em contra-ataque e os resultados apareceram.

Se foi duro com Wall no começo, Brooks, adepto ao jogo fluído e leve da NBA atual, também soube elogiar o seu comandado quando ele foi escolhido para o All-Star Game de Nova Orleans: “Ele não é só um jogador muito rápido. Acho incrível quando ele vai de um extremo ao outro da quadra em menos de cinco segundos, mas John tem sido fundamental também no vestiário, estimulando e elevando o nível de seus companheiros. Treinei jogadores excepcionais em Oklahoma, joguei com outros tantos em Houston, e o que ele tem feito por aqui é realmente acima da média. Excepcional mesmo”, afirmou o treinador que comandou Russell Westbrook, um dos melhores armadores da liga, no Thunder, e que, quando atleta, foi campeão com o Houston Rockets de Hakeem Olajuwon.

É óbvio que John Wall é o nome que mais chama atenção neste Washington, mas o que deixa uma pulga em todas as orelhas é tentar entender como um time que não se classificou ao playoff em 2016 se candidata, em 2017 e basicamente com o mesmo núcleo, a ir longe no mata-mata da conferência Leste. É uma questão que ainda não encontra uma resposta nos números, mas sim nos fatos. Se a base tática e técnica é praticamente a mesma de quando o técnico Randy Wittman estava por lá, se ataque e defesa estão hoje entre os dez primeiros da liga, mas não entre os cinco (ou seja, são bons mas não excelentes), aparentemente a química do vestiário mudou com a chegada do técnico Scott Brooks, considerado um “player’s coach“, o que, em uma tradução livre, seria como um treinador que fala a língua dos atletas. Um punhado de jovens talentosos (o mais velho do elenco tem 33 anos) que jogava de forma praticamente individualizada até a temporada passada se tornou um time coeso e talentoso. Uma grande história, não há dúvida.

É óbvio que as recentes aquisições de Bojan Bogdanovic (o ala croata trazido do Nets adiciona 16 pontos de média) e do armador Brandon Jennings aumentam a profundidade do banco de reservas e que o crescimento de Bradley Beal (23,2 pontos), Otto Porter Jr. (14,2) e Markieff Morris (14,3) contam muito, mas o sucesso do Washington, que também tem o polonês Marcin Gortat (11,5 pontos) como peça importante da rotação curta de Brooks, passa mesmo pelo crescimento em ataque e defesa de Wall, um dos melhores jogadores da NBA na atualidade.

O Wizards, eliminado em 2016 ainda na fase regular, se permite sonhar com voos maiores graças a John Wall.

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