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Bala na Cesta

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Damiris mira medalha em sua provável estreia olímpica e descarta lado tiete em Londres

Fábio Balassiano

02/05/2012 00h02

A mais jovem das convocadas por Luiz Cláudio Tarallo para a seleção feminina que iniciou ontem a sua preparação para as Olimpíadas de Londres também é uma das esperanças do país para mudar o panorama de uma modalidade que chegou na penúltima colocação nos Jogos de Pequim em 2008. Aos 19 anos, Damiris Dantas do Amaral tem uma trajetória meteórica no basquete brasileiro. Cortada da seleção Sub-15 há cinco anos, ela decidiu treinar sem parar e sua evolução chama a atenção.

Campeã sul-americana em 2009, vice-campeão da Copa América em 2010, MVP do Mundial Sub-19 em 2011, titular da seleção adulta em 2011, titular de seu time em sua primeira temporada na Europa e escolhida no Draft da WNBA há um mês pelo Minnesota Lynx (o atual campeão da liga). Isso tudo, repito, em apenas 19 anos de vida, cinco de carreira. É nela que o basquete brasileiro deposita boa parte de suas fichas para as Olimpíadas. A entrevista da ala-pivô de 1,94m foi feita quando ela visitou a sede da Nike, empresa que a patrocina há uma temporada. Damiris demonstrou maturidade ao não cravar seu nome no grupo final que vai a Londres (embora ela só não esteja na lista caso aconteça uma catástrofe), falou sobre a sua tara por treinar e descartou virar tiete na Vila Olímpica: "Vou lá pra jogar", disse.

BALA NA CESTA: Acompanhou o sorteio das chaves das Olimpíadas? O que achou?
DAMIRIS: Ainda não dá pra falar muito, porque há seleções que virão do Pré-Olímpico para entrar nos Jogos, mas não dava pra esperar moleza, né. Nunca joguei, mas em Olimpíada não dá nem pra escolher adversário e nem pra torcer por caminho tranquilo. Temos que estar bem preparadas, só isso.

BNC: Qual a sua expectativa para os Jogos?
DAMIRIS: Na verdade, primeiro em preciso ficar entre as 12. Procuro não pensar muito na competição ainda porque a fase de preparação será dura e eu sei que há muitas meninas excelentes aqui. Mas se eu for, espero fazer uma ótima Olimpíada e terminar no pódio. É só isso que penso agora. O Brasil tem um bom time, teremos um período de treinamento muito bom e tenho certeza que iremos jogar bem em Londres. O time está muito focado, muito determinado e vamos conseguir nossos objetivos.

BNC: Muita gente fala sobre o encantamento que há quando se pisa pela primeira vez na Vila Olímpica. Você espera encontrar com algum atleta em especial por lá? Vai tirar fotos?
DAMIRIS: Cara, não. Estou indo para as Olimpíadas com o único objetivo de jogar basquete, representar o meu país e ganhar jogos. É óbvio que verei muitos atletas bacanas na Vila e nas partidas, mas esse não é meu foco, não. Caso vá, quero me sentir nas Olimpíadas, me sentir como parte importante do time e deixar tudo o que possa me atrapalhar de fora. Não vai ser fácil, há muitas seleções boas, mas temos um objetivo e sonhamos com a medalha.

BNC: Você tem uma relação muito boa com a Érika, que também joga na Espanha (Damiris atua pelo Celta, de Vigo, onde teve as médias de 13,1 pontos e sete rebotes em sua temporada de estreia em um campeonato profissional adulto), e com quem provavelmente formará o garrafão titular da seleção. Vocês têm se falado? Quais os conselhos que ela te dá?
DAMIRIS: Ah, minha tia (Nota do Editor: Damiris chama Érika de tia – com carinho) é o máximo e me ajuda muito. Quando tinha alguma dificuldade na Espanha eu ligava pra ela. Chegamos a passar alguns finais de semana juntas, e sempre que pode ela me dá algumas dicas, passa algum ensinamento. O que ela mais insiste comigo é na parte da confiança e na paciência. Lembro muito bem de um lance no Mundial de 2010 em que tinha 17 anos e estreava na seleção adulta. Errei um arremesso e fiquei com a cabeça baixa, triste. Ela me puxou e disse: "Vamos lá, levanta a cabeça e pensa na próxima. Estou aqui pra te ajudar e vamos jogar juntas". Naquele momento percebi que tinha uma amiga e uma companheira dentro e fora da quadra. Amo minha tia Érika!

BNC: Você começou a jogar aos 13 anos, e em menos de oito já está na WNBA, na Europa e na seleção adulta. Esperava que isso tudo fosse acontecer tão rápido? Sobre a WNBA, alguma definição sobre quando você irá?
DAMIRIS: Ainda não defini quando irei para a WNBA. Meu pensamento está na preparação da seleção feminina, e só depois vou pensar nisso. Foi uma honra ter sido escolhida, fiquei muito feliz, mas tenho tempo para pensar nisso depois. Agora é treinar para se garantir entre as 12 de Londres. Sobre a evolução, não esperava mesmo que tudo isso fosse acontecer tão rápido comigo. Comecei aos 13, aos 14 eu fui cortada de uma seleção sub-15 que iria ao Sul-Americano e desde então eu passei a me dedicar muito, a treinar como uma louca. É meio insano o tempo que passo dentro de uma quadra de basquete. Tudo aconteceu muito rápido comigo, mas foi natural e com muito suor, muito treinamento, muitas horas arremessando sozinha na quadra. Tem dado certo!

BNC: Sua tia (a de sangue, não a Érika) que guarda recortes de jornal deve estar empolgadíssima com você, não? Como tem sido o assédio, e o que mudou pra você com essa fama repentina?
DAMIRIS: Cara, no dia do Draft da WNBA eu abri o Facebook e tinham mais de 30 mensagens de parabéns das minhas amigas. Era tanta gente ligando, mandando SMS e me chamando que eu fiquei meio maluca e acabei desligando tudo. Minha tia é que acha graça! Está na terceira pasta de recortes e curte bastante. A única que parece não ter se empolgado muito com o Draft foi a minha irmã caçula. Passei uma temporada na Espanha, e ela não gosta muito que eu fique longe dela. Quando soube da WNBA ela só disse: "Agora você vai ficar ainda mias tempo fora de casa". Basquete é a minha vida, é o que eu amo fazer, mas não é fácil, não.

BNC: Sobre a sua temporada na Espanha, poderia falar sobre como é seu relacionamento com o Carlos Colinas, seu técnico lá no Celta e o primeiro treinador a te convocar para a seleção feminina adulta?
DAMIRIS: Nosso relacionamento é excelente, dos melhores mesmo. Ele me dá muita liberdade para jogar, e tem tentado me colocar para atuar em outras posições (na ala, como 3, também). Além dos treinamentos, ele foi muito importante nos dias em que tínhamos folga. Eu ligava pra ele e dizia: "Carlos, preciso treinar. Tenho que melhorar". E ele, muito paciente, me apanhava em casa, abria o ginásio e ficávamos lá, só nós dois, treinando por horas e horas. A minha rotina tem sido essa há quase cinco anos: treinar muito, treinar nos fins de semana de folga e ficar horas depois do treino chutando. Evoluí no meu arremesso de meia distância, no rebote, nos chutes de três e a única coisa que eu sei, de verdade, é que eu preciso melhorar muito, mas muito mesmo.

BNC: Você tem acompanhado a seleção masculina também? Consegue imaginar como será a convivência com eles em Londres caso, claro, você vá?
DAMIRIS: Caso eu vá, será bem legal mesmo, e quero aproveitar o espaço para dar os parabéns a um amigo que foi convocado para a seleção que vai ao Sul-Americano, o Lucas Bebê (pivô do Estudiantes, da Espanha). Desejo toda a sorte pra ele especialmente, e para os meninos de um modo geral.

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