Bala na Cesta

Arquivo : Hakeem Olajuwon

Em entrevista exclusiva, Abi Olajuwon, agora em Ourinhos, dispara: ‘Foco é o time, não meu pai’
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Fábio Balassiano

O nome dela é Alon Abisola Arisicate Ajoke Olajuwon, mas se chamar assim nem ela atende. Contratada por Ourinhos para ser o maior reforço da equipe para a Liga de Basquete Feminino (LBF), Abi, filha do mítico Hakeem Olajuwon, chega ao Brasil disposta a reviver os melhores momentos de sua curta carreira. Estrela na Universidade de Oklahoma, ela não teve muito espaço no Chicago Sky e no Detroit Shock, da WNBA, e agora desembarca por aqui para mostrar seu talento e ajudar a equipe com mais títulos nacionais (cinco canecos) a voltar a reinar.

Reticente para dar entrevistas antes de entrar em quadra, ela aceitou conversar com o Bala na Cesta na noite da última terça-feira pelo telefone (ela atendeu dizendo ‘boa noite’) e terminou a sua primeira entrevista dada no Brasil de maneira bastante sincera: “Não quero que o foco seja a vida do meu pai. O foco aqui é o time, Ourinhos, os títulos que queremos. Simples”.

BALA NA CESTA: Com uma semana no Brasil, o que você já conseguiu sentir do país, da cidade e da equipe de Ourinhos?
ABI OLAJUWON: A cidade é bem, bem legal mesmo. O tempo é um pouco estranho – chove, pára, abre sol, volta a chover -, mas é bem divertido. Estou gostando muito. Sobre o time, já deu pra perceber que o Edson Ferreto (técnico) é um cara bem duro e cujo estilo de velocidade me agrada muito. É animador saber que poderemos usar as nossas habilidades, nosso potencial atlético e nossa agressividade com a liberdade que ele nos dá. Quanto mais versatilidade, mais possibilidades, melhor. Em quadra a adaptação está sendo fantástica.

BNC: E sobre a Abi em quadra? Como é seu estilo de jogo?
AO: Sou uma jogadora que, embora não muito alta para a função de pivô, sou forte. Isso me ajuda nos duelos em que preciso de mais contato para levar vantagem. Gosto, também, de receber a bola e partir para a infiltração. Mas, no final das contas, e isso aprendi desde muito cedo, estou aqui para fazer o que o time precisar de mim. Vim aqui para ajudar, somar e aprender tudo o que puder no Brasil. Jogarei contra a Érika (ela chama de De Souza), Iziane, Adrianinha, jogadoras conhecidas internacionalmente, e certamente crescerei muito atuando no Brasil.

BNC: Você formará o garrafão da equipe com a Damiris, pivô jovem como você e com estilo que pode ser complementar ao seu. Já deu pra sentir como será a dupla dentro de quadra?
AO: Sim, um pouco. Damiris é alta, longilínea, atlética, versátil e com ótimo drible. O melhor, no entanto, é que ela é jovem e tem muito espaço para desenvolver seu basquete. Ela tem um futuro brilhante, animador mesmo, e será ótimo atuar ao seu lado.

BNC: Fora de quadra, como tem sido a adaptação?
AO: Tranquila, ótima. As meninas do time são bem legais, e já pediram até para eu cozinhar pra elas. Prometi fazer um almoço tipicamente americano logo, logo. Sou muito família, gosto de ficar em casa, e certamente não perderei o contato com meus parentes e fãs dos Estados Unidos. Vai ser divertido, tenho certeza. Além do ganho técnico, certamente terei um ganho cultural absurdo aqui no Brasil. Sinto que serei feliz e será uma experiência sensacional, de verdade.

BNC: É quase inevitável, mas preciso perguntar sobre seu pai. Quando você conversou com ele que viria ao Brasil, o que ele disse?
AO: Olha, de verdade este é um assunto que não faz muito sentido. Não quero que o foco seja a vida ou a carreira do meu pai. O foco aqui é o time, Ourinhos, os títulos que queremos. Simples. Temos muita coisa a conquistar, um título que não vem para a cidade há alguns anos, e sabemos que precisamos trabalhar muito para atingir os objetivos. Ninguém aqui veio pra tirar foto, ficar brincando. Quero jogar, treinar e ganhar – com ou sem ele por perto. Se meu pai vier ao Brasil, posso garantir que vocês não saberão por mim. Seu da importância dele como ex-jogador, fui criada vendo e ouvindo seus feitos, mas preciso estar concentrada no que posso fazer para Ourinhos ser campeão.


Na contagem regressiva, Hakeem Olajuwon e seu coração de campeão com o Houston
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Fábio Balassiano

Chegou a vez de falar sobre um dos melhores pivôs da história da NBA por aqui, pessoal. Mas não sou eu quem vai escrever sobre Hakeem Olajuwon, mas sim Vitor Sergio Rodrigues, comentarista do Esporte Interativo e fanático por NBA. Conta aí, Vitor!

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Contagem Regressiva: não menospreze o coração de um campeão. E de um garoto viciado em NBA
Por Vitor Sergio Rodrigues

Quando meu amigo Fábio Balassiano me chamou para escrever no “Contagem Regressiva” (convite que me deixou muito honrado, diga-se!) de imediato pensei em dividir com vocês algo que não pudesse ser obtido em uma simplória viagem ao oráculo da humanidade nos dias de hoje (logicamente me refiro ao Google). E depois de pensar alguns dias (estourando inclusive o deadline que o Bala me deu…) me veio o estalo: por que não contar como era viver a NBA quando eu comecei a acompanhar o melhor basquete do mundo.

Hoje qualquer um tem a disposição o NBA League Pass, um entorpecente para quem ama a NBA. Todos os jogos ao toque de um clique, em alta definição, com direito a VT, melhores momentos e tudo mais. Recomendo até que você use com moderação, pois o risco de perder mulher, filho, emprego e a forma física são grandes. Mas imagine como era para aquele garoto de 15 anos acompanhar sua paixão iniciada com o Showtime do Lakers no fim dos Anos 80 e turbinada pelo primeiro tricampeonato do Bulls na década de 90.

Talvez você não acredite nisso, já que hoje é impossível viver sem, mas houve um grande período de tempo em que não existia a internet! É verdade! Assim, eu acompanhava a NBA comprando a Folha de São Paulo toda terça-feira, dia da coluna sobre NBA do grande jornalista Melchiades Filho. Embaixo da coluna havia um espaço para algumas estatísticas que me deixavam mais feliz do que criança quando ganha presente: a classificação dos times e a lista dos dez jogadores com mais pontos, rebotes, assistências e tocos na temporada.

Comprar a Folha de terça (que não era vendida em qualquer banca do Rio de Janeiro há 15 anos, apenas nas do centro da cidade) era a alternativa mais barata (ou menos cara). A outra era filar as revistas americanas, que chegavam ao Brasil com um mês de defasagem. Comprar era algo fora de cogitação. Caríssimo. Coisa de ficar a semana toda sem lanche no colégio. As que eu consegui comprar, Hoop, Slam e alguns guias da temporada, eram guardadas como troféus.

Eletronicamente, a alternativa era uma só: a transmissão da TV Bandeirantes. Ah, você não vai acreditar em mim, mas no início da década de 90 também não havia TV a cabo no Brasil. E nem lembro se quando a ESPN chegou aqui mostrava a NBA. A alternativa era mesmo a TV Bandeirantes (hoje Band!), com seu pioneirismo em trazer os mágicos do basquete americano para o Brasil. Assim vi momentos históricos como o Lakers sendo campeão pela última vez com Magic Johnson e o primeiro título de Michael Jordan. Em narrações monstruosas de Luciano do Valle (essa é outra coisa que você vai ter dificuldade em acreditar que acontecia…).

Esse foi o cenário do maior jogo de basquete que eu vi na vida, com um agravante: à época a recepção da Bandeirantes no Rio de Janeiro era uma tristeza. A antena VHF lá da casa em que morava em não pegava nem a pau o Canal 7. Mas a nossa TV de camping, de cinco polegadas, em preto e branco, essa da foto ao lado, sintonizava perfeitamente o canal. Não tive dúvida: fui à garagem, peguei a tv e liguei na sala para ver o primeiro jogo da final de 1995, entre Orlando Magic e Houston Rockets, em Orlando.

Nunca tive time na NBA. Torci para alguns times em determinados períodos, influenciado por jogadores que gostava. Um dos que gostava muito era Hakeem Olajuwon, o melhor pivô da NBA que vi. Por isso torcia para aquele Rockets. Que era o atual campeão, mas que fazia uma péssima temporada e por isso deu uma sacudida no time dando seu ala-de-força Otis Thorpe (que era bom jogador lá dentro com Olajuwon) pelo sensacional Clyde Drexler. O time precisou ser improvisado e por isso ficou em sexto lugar no Oeste. Ninguém acreditava no bi, mas o técnico Rudy Tomjanovich falou a célebre frase: “Nunca menospreze o coração de um campeão”.

A chegada de Drexler deu um gás ao time, mas mexeu em toda a estrutura. O (então) garoto Robert Horry foi jogar de ala-de-força (era da posição 3) sem ter corpo para isso. Em seu lugar entrou Mario Elie, um jogador mediano e baixo sem muito destaque. Kenny Smith e Drexler na armcação e Hakeem “The Dream” Olajuwon de pivô. Nos playoffs a coisa encaixou.

Horry virou um gigante e detonou na sequência Karl Malone, Charles Barkley e Dennins Rodman no mano-a-mano. E começou a derrubar bola de três adoidado… Drexler estava imparável nas infiltrações. Kenny Smith virou um general na armação. Elie meteu bolas decisivas uma atrás da outra (inclusive o “Beijo da morte” dentro de Phoenix). E Olajuwon dominou o garrafão como poucas vezes foi visto na história da NBA. O baile que deu no MVP David Robinson na final do Oeste é de envergonhar até hoje!

Com isso estavam na final da NBA contra o fantástico time do Orlando Magic dos garotos Shaquille O’Neal e Anfernee Hardaway. O favoritismo era todo do Magic. E parecia ser mesmo quando o time abriu 25 pontos no segundo quarto. Olajuwon chamou a responsa no terceiro (vencido por 37 a 19), o Rockets foi tirando ponto por ponto e a cinco minutos do fim o placar era 100 a 100. A partida seguida equilibrada até que perto do fim, quando o improvável aconteceu.

Orlando vencia por 110 a 107. Nick Anderson recebeu a falta de Horry parando o relógio. Faltavam 10.5 segundos. Anderson era um bom arremessador de lance livre. Precisava fazer um dos dois para ganhar o jogo. Errou os dois! Em um lance de sorte, desequilibrado, ficou com o rebote. E vibrou no chão. Cedo demais. Bateu o terceiro e errou. Bateu o quarto e errou! O rebote caiu na mão de Kenny Smith, que após o tempo pedido, mandou uma bomba “from downtown” (como dizem os americanos) enviando o jogo para a prorrogação.

O tempo extra foi equilibrado e nervoso. Faltando 1min30s Olajuwon soltou um gancho sobre Shaq e o Rockets liderava por 118 a 115. Na saída após o tempo, a defesa do Houston deu mole e o gatilho Dennis Scott saiu livre na linha de três e empatou. Faltavam 5.5 segundos no relógio. Drexler se desmarcou, cortou para a direita, passadas largadas, infiltrou e jogou na bandeja. A bola bateu no aro e subiu. Como uma flecha, Olajuwon apareceu tocando de ponta de dedo para a cesta. Até hoje lembro a narração americana: “tip-in by Hakeem, tip-in by Hakeem”. 120 a 118, 1 a 0 para o Rockets. Ninguém em Orlando acreditava.

Confio de verdade que no esporte algo improvável que acontece tem o poder de mudar a sequência natural dos fatos. Essa vitória no jogo 1 tem esse DNA. Improvável e absurda, com quatro lances livres errados seguidos, tirando 25 pontos… Mudou a série, que terminou com um 4 a 0 inapelável do Rockets. Do soberbo Olajuwon. Do aguardado título de Drexler. Do coração de campeão que apareceu. E da paixão de um jovem de 18 anos que viu tudo isso em uma TV de cinco polegadas em preto e branco…

VÍDEOS

Cinco minutos finais do tempo normal

Jogada decisiva da prorrogação

 

Olajuwon detonando David Robinson


Coluna ExtraTime: Hakeem Olajuwon, o grande irmão de LeBron James
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Fábio Balassiano

Antes do jogo 5 das finais de 2011, Dwyane Wade e LeBron James (relembre aqui) chegaram ao ginásio e brincaram com a gripe de Dirk Nowitzki. Simularam uma tosse, e sacanearam o alemão, que jogou fora de suas condições ideais no duelo anterior. Foi uma atitude deselegante, pouco educada, infantil e idiota. E quem diz isso não sou eu, mas o próprio Dirk Nowitzki, que calou a boca, com ou sem tosse, da dupla do Miami com o título do Dallas.

Um ano se passou e muita coisa mudou. Pat Riley gastou horas de sua gomalina e saliva convencendo LeBron James a deixar de tentar ser Michael Jordan nas férias. Indignado, telefonou para Magic Johnson, seu comandado em Los Angeles, e pediu para o melhor armador de todos os tempos falar com LeBron para dar umas dicas. Mas James tinha outros planos. Queria falar com uma figura tão enigmática quanto ele.

Então LeBron ligou para Hakeem Olajuwon e marcaram de se encontrar. Hakeem, que já havia treinado com Kobe Bryant no ano anterior, foi para a quadra “armado” de bola, short, camisa e, conta ele, alguns energéticos para aguentar a força física do ala do Miami. Mas não era só no jogo de post-up (costas para a cesta) que James estava interessado, não.

Morando atualmente na Jordânia com seus sete filhos, LeBron James perguntou a Olajuwon como um muçulmano se adaptou a um país tão diferente em termos de costume e tradições, e quis saber se ele, Hakeem, não se sentira sempre um estranho no ninho, uma pessoa vista e tratada de forma diferente. Bingo!

LeBron não é mulçumano (nem sei qual é a religião dele), mas se a parte técnica dele evoluiu horrores (o que ele fez no jogo de costas para a cesta contra James Harden foi sensacional nas finais), estava claro que era a parte psicológica dele é que precisava mudar, evoluir. Se ele se via como um diferente, que tratasse de se transformar, de chegar perto do que ele realmente acreditasse ser o correto.

E LeBron entendeu tudo direitinho. Depois de ganhar o seu primeiro anel de campeão, puxou o telefone e ouviu de Olajuwon que se ele jogou isso tudo no primeiro ano de aulas, no segundo ele estaria ainda melhor. James agradeceu, marcou novo período de treinamento com o inesquecível pivô do Houston Rockets e agradeceu.

Chorou como um menino, joga como gente grande, poderá se tornar um mito do basquete.

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Coluna originalmente publicada em 26.06.2012 no ExtraTime, site hospedado no UOL.