Bala na Cesta

Sampaio Corrêa, Iziane, Lisdeivi e a força do basquete no Nordeste

Fábio Balassiano

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sampaio1Talvez devesse fazer uma análise tática / técnica do jogo 4 da final da LBF de ontem à noite. Mas não é necessário quando você olha o placar de 78-50 a favor do Sampaio Corrêa contra o Corinthians / Americana, né? Com o triunfo, o time de São Luis fechou o confronto em 3-1, sagrou-se campeão pela primeira vez da LBF e levou à loucura as 7 mil pessoas que lotaram o ginásio Castelinho (que festa linda!).

Antes de seguir, alguns detalhes:

sampaio2a) Americana só teve chance quando o Sampaio Correa jogou mal. Quando o Sampaio Corrêa subiu o nível, Americana não alcançou. No ataque, o Sampaio envolveu TODAS as atletas e mesmo com as ótimas Iziane e Wheeler mostrou jogo coletivo, ficando difícil para as rivais marcarem. Na defesa, sufocou as adversárias desde o princípio da série, tornando as ações ofensivas muito complicadas para o time de Antonio Carlos Vendramini, treinador que não fez nenhum ajuste durante a série inteira (não consegui compreender o motivo).

lbf5b) Saldo nas vitórias do Sampaio: Jogo 1 -> +23; Jogo 2 -> +17; Jogo 4 -> +28. Média -> +23

c) Americana: 4 jogos nas finais, 16 quartos de 10 minutos jogados e apenas DOIS períodos com o time fazendo 17+ pontos. MUITO pouco, né?

d) Feitos alcançados pelo Sampaio com o caneco: Lisdeivi tornou-se a primeira técnica estrangeira campeã nacional no feminino, foi o primeiro Título Nacional pro Estado do Maranhão e foi o primeiro título de Iziane como protagonista (havia ganho em 2008, foi até cestinha daquele Nacional da CBB, mas nas finais não foi tão decisiva devido à lesão que tinha na clavícula).

Agora, bem, dá pra falar um pouco de alguns personagens desta campanha:

izi21) Iziane, claro. É preciso falar da ala de 33 anos que enfim conseguiu dar a sua cidade-natal o tão sonhado título nacional. Iziane, desde sempre, joga muita bola. Desde sempre também foi atrevida – e seu atrevimento nem sempre encontrou ''eco'' entre os que a dirigiram. Com personalidade forte, ela amadureceu e encontrou na técnica Lisdeivi alguém com estofo e coragem necessárias não para bater de frente com ela, mas sim para ensiná-la uma nova forma de jogar basquete. Não fazendo menos ponto, mas sim sendo mais líder e participativa em quadra. Sua capacidade técnica é indiscutível, invejável e capaz de colocá-la entre as melhores do país. Quando ela une sua técnica, sua explosão (como ela está bem fisicamente, hein!) e sua força mental para o bem de sua equipe (e não para o seu único bem), o resultado é que seu time inteiro fica muito perigoso. Muito bom que ela amadureceu nesta temporada – e uma temporada de Olimpíada.

lis102) Conheço a treinadora cubana Lisdeivi há quase uma década. Craque como jogadora, ela tem trilhado um caminho interessante como técnica. Começou em Ourinhos, depois passou pelo Maranhão e agora está no Sampaio Corrêa. Sempre fez trabalhos consistentes, corretos, bem razoáveis. Nunca havia tido um time com calibre para ser campeão. Teve agora. E levou a equipe ao título. Venceu dois rivais fortíssimos (o América-PE indiscutivelmente o elenco mais forte da LBF), deu uma verdadeira aula de ajustes táticos na decisão (evitando os pontos do rival perto da cesta), conseguiu construir um senso cubanamente coletivo na equipe em um time cuja líder técnica era taxada como individualista. E isso não é pouco. Lis montou uma comissão técnica de primeiro nível (Virgil, seu assistente, e Vita, preparador físico, são fantásticos) e colhe os frutos em sua primeira conquista.

sampaio203) O que dizer da torcida do Sampaio? O que dizer de uma região que viu dois dos últimos quatro campeões nacionais femininos? O que dizer de um povo (o do Nordeste) que AMA o basquete feminino como se a modalidade ainda fosse a última joia da coroa (algo que não é faz tempo)? Se a Confederação Brasileira de Basketball fosse minimamente interessada em desenvolver a modalidade, começaria por lá uma urgente e necessária massificação do basquete feminino. Como não está, vamos ficar sonhando com isso. Ou, na realidade, torcendo para que a Liga Nacional ou a Liga de Basquete Feminino encontre mais e mais polos na mesma região (quem sabe Fortaleza, Rio Grande do Norte, Salvador, entre outros, também se animem) para integrar as próximas edições da LBF.

sampaio3Parabéns ao Corinthians / Americana, que chegou à final com inteira justiça. E muitos, mas muitos parabéns mesmo ao Sampaio Corrêa, às atletas e a sua fanática torcida.

O basquete feminino brasileiro precisa fazer com que o que aconteceu nesta terça-feira em São Luís (ginásio lotado, atmosfera incrível, bom jogo) seja mais regra do que exceção (como tem acontecido nos últimos anos). O pulso ainda pulsa. Não se sabe até quando e nem como. Mas ainda pulsa.