Bala na Cesta

Por vaga no Pan e no elenco do Mundial, Brasil estreia no Sul-Americano
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Fábio Balassiano

neto1Começa hoje às 19h contra o Paraguai o Sul-Americano de basquete masculino na Venezuela (site oficial do torneio aqui). Pelo que se pode ver no site do canal, o Sportv irá transmitir a competição (mais aqui), mas é impossível saber mais que isso, visto que até ontem à tarde o site da Confederação Brasileira não informava os horários dos jogos do Brasil com precisão (mais aqui).

De todo modo, a competição pode não parecer grande, mas vale muita coisa para o time de José Neto (foto à direita), cuja convocação inicial foi assim analisada por mim aqui.

O Brasil, cujo elenco final está aqui, fica no Grupo A e enfrenta na primeira fase Paraguai (24/7), o Equador (25) e a Argentina (26). No B estão Chile, Peru, Uruguai e Venezuela. Os dois melhores de cada chave avançam às semifinais, e os três primeiros colocados do Sul-Americano se classificam para os Jogos Pan-Americanos de Toronto em 2015, enquanto os quatro primeiros garantem a vaga no Torneio Pré-Olímpico das Américas do próximo ano.

time2Para a seleção brasileira vale, portanto, algumas coisas. Vale uma das três vagas para os Jogos Pan-Americanos de 2015 (véspera de Olimpíada, portanto). Vale, também, vaga no Pré-Olímpico do próximo ano. Eu sinceramente não creio que o país-sede fique fora dos Jogos Olímpicos, mas sabe-se lá que critério da FIBA usará depois das críticas a gestão Carlos Nunes que houve no começo deste ano (mais aqui).

Além das duas vagas, o país, que pagou um mico danado na Copa América de 2013 e por isso teve que PAGAR por um convite ao Mundial da Espanha deste ano, sabe que não pode derrapar novamente em uma competição cujo nível técnico está longe de ser alto. Para o COB, Ministério do Esporte e para quem ainda acompanha basquete seria péssimo um resultado pouco favorável na Ilha de Margarita, onde será jogado o certame sul-americano. E certamente foi nisso que pensou Neto ao convocar uma equipe “cascuda'', recheada de jogadores experientes. Não é, de fato, momento para fazer muitos testes e nem creio, ainda, que as derrotas recentes em torneios preparatórios preocupem tanto assim (veja mais aqui).

hetts1Para os atletas, vale, além da chance de vestir a camisa da seleção, o sonho de jogar o Mundial da Espanha no time que já está treinando com Rubén Magnano em São Paulo (mais aqui). Com 10 jogadores no elenco, o técnico da seleção precisará convocar no mínimo mais dois atletas para chegar ao elenco (final) de 12 que jogarão o torneio. Pode ser, ainda, que Magnano chame mais de dois atletas e faça os cortes mais para frente, que isso fique claro.

Um bom exemplo é Rafael Hettsheimeir (foto à direita), pivô recentemente contratado por Bauru, uma das peças fundamentais no Pré-Olímpico de 2011 e um dos que mais devem se beneficiar do Sul-Americano para mostrar que, depois de uma temporada hesitante no Málaga, tem condição, sim, de estar nos 12 de Magnano para o Mundial.

Por isso tudo vale a pena ficar ligado no Sul-Americano. Pela vaga no Pan e no Pré-Olímpico, e principalmente para saber quais serão os outros chamados por Magnano para integrar o time que já está treinando em São Paulo visando o Mundial da Espanha.

Vai acompanhar os jogos da seleção de José Neto? O que está esperando? Algum atleta em especial te chama a atenção? Comente!


Desvendando a permanência de Carmelo Anthony no Knicks
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Fábio Balassiano

melo1Falei um pouco sobre a permanência de Carmelo Anthony no New York Knicks no Podcast desta semana (ouça aqui), mas acho que vale voltar ao tema. A pergunta básica é: por que alguém prefere ficar neste Knicks (ainda) remendado ao invés de buscar um título (algo plausível) com o Chicago Bulls?

A resposta, que nem foi minha, mas de Carmelo mesmo, atende por um só nome: Phil Jackson (o grande ganhador dessa história toda, diga-se). Anthony disse em entrevista recente que o motivo pelo qual ele decidiu permanecer com a franquia que defende há quatro temporadas foi justamente acreditar nas tacadas que o novo Presidente de Operações dará a partir de agora. Se eu fosse ele provavelmente teria me mudado para Illinois, me juntado a Derrick Rose, Pau Gasol e Joakim Noah, mas ninguém pode culpar Melo por tentar vencer no time do seu coração – e como peça-chave para isso.

pj1Todos os seres humanos que gostam de basquete neste planeta sabem que a primeira associação que se faz o nome de Phil Jackson (foto à direita) é com um anel de campeão. E não poderia ser muito diferente. São 11 títulos como técnico, dois como jogador (no próprio Knicks) e um conhecimento imenso do esporte. É nisso que confia Carmelo (e não dá pra dizer que ele está errado, obviamente). Só que Melo, PJ e Derek Fisher (o novo técnico novo – os dois de terno na foto abaixo) sabem que disputar títulos não será algo que virá da noite para o dia.

Ao que tudo indica, esta será uma temporada “perdida'' (e todos ali parecem saber disso). O campeonato de 2014/2015 ainda reserva aos Knicks uma das maiores folhas salariais da NBA (mais de US$ 84 milhões, US$20mi acima do teto da liga), um elenco completamente desbalanceado e jogadores que estão longe de ter o perfil que Phil Jackson gosta (os exemplos mais claros são os de JR Smith e Andrea Bargnani). A grande vantagem para os nova-iorquinos é que dois dos três maiores salários são expirantes (de Amare Stoudemire e do próprio Bargnani), ou seja, terminam ao final deste certame. Além disso, a franquia conseguiu o armador Jose Calderón na troca de Tyson Chandler. O espanhol é muito bom jogador, e nem ganha muita grana assim (US$ 21mi pelos próximos três anos). Ou seja: para 2015, com menos de US$ 40 milhões comprometidos até agora, a chance de ir com força no mercado de agentes-livres é imensa. E é nisso que confiam tanto Carmelo Anthony quanto Phil Jackson.

dupla1Será necessário ter muito boa lábia e alguém do outro lado da linha a topar, mas Jackson pode tentar, ainda, despachar Stoudemire, Bargnani, JR Smith (este principalmente, pois ele pode renovar para 2015/2016 caso queira) por picks de Draft nos próximos anos, mas isso ainda é improvável e, como disse, não depende apenas do Mestre Zen. No momento, vale mesmo é desenvolver os calouros Thanasis Antetokounmpo (irmão do ótimo ala do Bucks) e Cleanthony Early, recrutados em 2014, e Tim Hardaway Jr. (muito bom jogador, com potencial físico imenso e com bom jogo de pés para a marcação).

Por isso a temporada 2014/2015 da NBA será de aprendizado para todos no Madison Square Garden (principalmente para as três peças mais importantes deste tabuleiro). Para Carmelo, ver um novo sistema de jogo em que ele não precisará ficar tanto tempo com a bola. Para Derek Fisher, em seu primeiro campeonato como técnico, sentir o tamanho da diferença entre jogar e dirigir. Para PJ, para ver se ele realmente se adapta a uma função diferente da que esteve acostumado durante 25, 30 anos.

Milwaukee Bucks v New York KnicksSerá necessário ter paciência neste começo, mas a tendência é que as arestas se aparem e que todos por ali se entendam (como em quase todos os elencos montados por Phil Jackson). Se os Knicks não são talentosos no primeiro ano da gestão Jackson, o futuro (com liberdade na folha salarial, um animado mercado de 2015 e todos os picks em suas mãos) me parece bem mais animador do que aquele que se apresentava dias atrás. E o melhor de tudo para os nova-iorquinos: com Carmelo Anthony no elenco.


Após amistosos, Seleção Feminina fica um mês sem treinar – é sério
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Fábio Balassiano

zanon1Dá uma preguiça danada escrever sobre este (recorrente) assunto, mas vamos lá. No dia 27 de maio a Confederação Brasileira de Basketball anunciou no site oficial a lista da seleção feminina adulta que viajaria para três amistosos no Canadá. Seria o começo da preparação para o Mundial da Turquia que acontecerá entre 27 de setembro e 5 de outubro.

O time se apresentou ao técnico Luiz Augusto Zanon em 19 de junho, treinou menos de uma semana, viajou  e  jogou contra as canadenses (e perdeu as três, como disse aqui) entre 26 e 28 do mês.

lauren1Em qualquer lugar do mundo (normal, claro) o time teria uma mísera folga e voltaria a se apresentar visando o Mundial da Turquia. A Austrália, por exemplo, treina sem interrupção desde o COMEÇO DE MAIO. Duas de suas principais estrelas, Liz Cambage e Lauren Jackson (esta recuperando-se de uma lesão no joelho – na foto à direita), optaram, inclusive, por não jogar a WNBA para treinar com a equipe nacional (e aqui não vai nenhuma crítica a Érika, Damiris e Nádia, por favor – só quis citar as australianas para mostrar a seriedade da Confederação local). A Espanha, por sua vez, fará três séries de treinos antes da apresentação geral do grupo, que terá uma pancada de amistosos a partir de agosto (veja mais aqui).

E sabem o que a seleção brasileira feminina está fazendo no momento? Nada. Sim, é isso mesmo que você leu. Nada. Depois dos três amistosos em solo canadense ainda não saiu sequer a convocação para a próxima fase de treino. Há um Sul-Americano antes do Mundial (começa em 14 de agosto no Equador) e até o momento nem lista há. De acordo com Zanon, com quem conversei ontem rapidamente, a perspectiva é que as convocadas sejam anunciadas e passem a treinar em 3 de agosto. Ou seja: de 28 de junho (data do último amistoso no Canadá) até a (prevista) apresentação das atletas terá se passado no mínimo um mês. O que estarão fazendo essas meninas neste período? Treinando em seus clubes? Alguém está monitorando? Ninguém da CBB saberá dizer.

zanon1Beira o amadorismo este tipo de coisa, vocês vão me desculpar (e disse isso a ele). Elogiei Zanon pela coerência na convocação de um grupo jovem, mantive o (ingênuo) otimismo de que as derrotas fariam parte de uma preparação mais ampla (aqui) e pensei que logo no começo de junho o time já estaria enfurnado em um ginásio treinando duas vezes por dia. Time, este, que é, repetindo, muito novo (ainda longe de estar pronto para os grandes duelos em âmbito mundial), que precisa de experiência em amistosos internacionais de bom nível e repetição em suas práticas diárias com o treinador. Algo que não irá acontecer dessa vez.

Tatiane Pacheco, Débora, Izabela e Leila (para citar apenas quatro exemplos) atuaram muito pouco na temporada de clubes que terminou há mais de três meses com o título de Americana na LBF, e precisariam estar alucinadamente sendo exigidas por Zanon para que mostrassem a evolução que demonstraram na temporada passada, quando o (bom) treinador teve tempo, amistosos e estrutura a disposição para que elas pudessem dar um mínimo salto de qualidade visando a Copa América que viria. Tempo, como se vê, existia. Se fosse no mínimo planejada e organizada, a Confederação teria previsto treinos desde o começo de maio até o torneio na Turquia. Mas a realidade é diferente, vemos agora.

vanderleie2O Brasil vai para um Mundial adulto repetindo os erros de preparação das seleções de base (mais aqui) e mostrando que na atual gestão da CBB, comandada por Carlos Nunes e Vanderlei (foto à direita), esse negócio de “treinamento'' é supérfluo, bobagem, um ingrediente menor dentro do desenvolvimento de qualquer equipe.

Zanon e as meninas não têm a menor culpa em relação a isso, que isso fique claro. As duas partes (comissão técnica e atletas) são vítimas de uma Confederação Brasileira com visão arcaica, retrógrada e que dará menos de dois meses (completos) de preparação a eles para um Mundial adulto. Depois não adianta sonhar com resultado. Ainda não existe fórmula mágica para ter sucesso sem trabalho. Acho que só a Confederação Brasileira não sabe disso…


A volta do Podcast Bala na Cesta: o agitado mercado da NBA
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Fábio Balassiano

Opa, opa, o Podcast Bala na Cesta voltou. Depois de longo, amargo e tenebroso inverno estamos de volta. No programa de hoje, Pedro Rodrigues e eu sobre o mercado de agentes-livres da NBA. LeBron James, o novo Chicago Bulls, o repaginado Miami, Knicks (e onde eu disse o ano de 2016, leia-se, obviamente, 2015), o pobre Lakers e muito mais! Ouçam e comentem também!

Se preferir, o link direto está aqui. Caso queira, o episódio também está disponível no iTunes! Críticas, sugestões ou qualquer tipo de mensagem é só enviar para podcastbalanacesta@gmail.com . Obrigado, aproveitem muito e bom programa! Prometemos não ficar afastados por tanto tempo…


O começo de Lucas Bebê e Bruno Caboclo no Toronto
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Fábio Balassiano

caboclo6Em primeiro lugar, vale dizer o seguinte: a Liga de Verão (Summer League) da NBA não vale absolutamente NADA. Se você está esperando duelos táticos, exibições espetaculares ou arranjos coletivos sublimes, esqueça. A maioria dos atletas que vão a Las Vegas todos os anos busca apenas uma coisinha bem básica: contratos com as franquias para a temporada seguinte. Nada mais do que isso. O “grosso'' dos jogadores que vai pro torneio é para isso mesmo. A minoria, por incrível que pareça, pertence a jogadores escolhidos (ou trocados) duas, três semanas antes no Draft e que precisam ser testados/vistos pelos seus times.

E é justamente neste segundo grupo que se enquadram Lucas Bebê e Bruno Caboclo, que atuaram pelo Toronto na Liga de Verão de Las Vegas até esta sexta-feira, quando a equipe canadense se despediu da competição. Além da barreira da língua, tiveram que disputar espaço com nove, dez jogadores (inclusive o armador brasileiro Scott Machado, que não foi bem) em busca de algo que eles já têm – contratos garantidos com um time para a temporada 2014/2015. Houve momentos das cinco partidas (e eu vi todas) que Bebê e Caboclo eram solenemente ignorados por caras que, com a bola na mão, preferiam arremessar marcados ao invés de passá-los a bola.

bebe2E isso, por incrível que possa parecer, é natural e não pode ser condenado. Estavam, os que não têm contrato, brigando pela sobrevivência, pela chance de integrar a elite da elite do basquete mundial. Se há um arremessador sendo olhado pelos times da NBA, o que você espera, se fosse um olheiro, que este cara faça em uma partida que não tem valor (em termos de resultado) algum? Que arremesse… Mesmo assim é possível excluir este fator “contrato'' da equação e analisar Caboclo e Bebê neste começo de vida no Toronto.

Comecemos por Lucas Bebê. O pivô, que ainda não teve sua situação com o Estudiantes completamente resolvida (ao que parece o Toronto irá pagar a rescisão, mas não tem nada certo até o momento), foi muito bem na marcação (5,8 rebotes por jogo), mostrou-se rápido para jogar na posição cinco e até que não fez feio com a bola na mão. Embora tenha desperdiçado bolas demais (duas por jogo), terminou com cinco pontos de média (53% de aproveitamento nos chutes). Seu problema continua sendo (e já escrevi isso antes – aqui e aqui) seu repertório de jogadas ofensivas. Lucas ainda baseia demais seu jogo em enterradas e/ou pontos provenientes de rebotes ofensivos.

caboclo4Mesmo sendo mais jovem (18 anos) e com muito menos experiência internacional, Bruno Caboclo foi muitíssimo bem em sua primeira incursão no mundo da NBA (o adjetivo “intrigante'' da imprensa americana cabe aqui perfeitamente). A revolta dos torcedores do Raptors no dia do Draft deu lugar a uma grande esperança a partir do momento em que ele despejou 12 pontos em 24 minutos na sua estreia pelo time contra o Lakers na Liga de Verão.

A tal frase do analista da ESPN, de que o “ala estaria a dois anos de estar a dois anos de ser efetivo'', não pareceu muito apurada, embora seja cedo para negá-la ou confirmá-la, sejamos justos.

Caboclo terminou com 11,3 pontos (em todas teve entre 10 e 12 pontos), 3 rebotes e 1,2 roubo de bola nos 26 minutos de média em que esteve em quadra nos cinco jogos que fez. Ainda tímido devido ao problema da língua, não conseguiu construir muita coisa em termos coletivos, desperdiçou muita bola (3,6 erros/jogo), teve aproveitamento apenas razoável (39%), mas mesmo assim deixou os canadenses animados com o que está por vir. Seu potencial físico e técnico são gigantescos, e sua curva de crescimento é imensa. Ninguém, na real, sabe bem o que o “produto'' Caboclo pode vir a ser em dois, três, quatro anos. Nem o Raptors. Pode vir a ser um All-Star, pode vir a ser um jogador mediano. Pode vir a ser algo não tão bom assim.

bebe1O diagnóstico, para os dois, Lucas e Caboclo, é muito semelhante. Ambos precisam ser desenvolvidos à exaustão pelo Toronto para estarem prontos para um jogo (valendo) de NBA. E isso é muito natural, esperado e até óbvio. Lucas não tem 23 anos. Caboclo, nem 19. Os Raptors trocaram por um e escolheram o outro sabendo disso. A boa notícia é que a dupla é jovem, a temporada começa em quase quatro meses e há tempo suficiente para treiná-los individualmente (seja para este campeonato, de forma imediata, ou para o próximo), principalmente na parte física (ambos ainda são muito “magros'' pra enfrentar o jogo físico da liga).

Se eles estarão prontos para entrarem na rotação de Dwane Casey para a temporada 2014/2015 ainda é impossível dizer. No momento a resposta é “não'', mas, insisto, isso não quer dizer absolutamente nada. Nem de forma positiva e nem de forma negativa. Não quer, no presente, dizer nada, nada, nada mesmo.

O Toronto selecionou os dois sabendo e confiando justamente no desenvolvimento deles para o futuro (que a franquia espera que seja algo próximo, obviamente). Na Liga de Verão foi o primeiro gostinho deles jogando pelo time. E os dois, cada um a seu modo, cada um de acordo com uma expectativa diferente, foram muito bem.

caboclo3O caminho é longo, duríssimo e recheado de percalços que Lucas e Caboclo terão que passar (frio, língua, distância da família/amigos e, claro, um nível assustadoramente alto de basquete e de carga de treinamentos). Ainda está (o caminho) apenas no começo, mas para eles só resta uma coisa a fazer: trabalhar muito para demonstrar que a cartada do Toronto neles foi bem dada.


Atletas exigem mudanças na Confederação da Argentina – e no Brasil?
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Fábio Balassiano

leo1“Algumas coisas estavam mal, mas ninguém esperava que terminasse assim. Ninguém imaginou que faltasse tamanha quantidade de dinheiro. (Para tirar o presidente German Vaccaro) Os jogadores (Scola, Nocioni, Manu, Delfino e Prigioni) intervieram, claro, assim como o Secretário de Esportes e a Associação de Atletas''

“Tomara que o Daniel Zanni (novo presidente) seja uma pessoa idônea, mas não nos gostou a sua indicação porque ninguém o conhece. Buscávamos outra pessoa, outro caminho, outras ideias. Queríamos um gerente que conhecesse basquete, um administrador para cuidar das finanças, alguém para cuidar do produto basquete''

leo3“Nós chegamos à seleção há 15 anos e agora estamos igual ou pior do que estávamos naquela época. Sei que a CABB deve muito dinheiro aos atletas, mas não nos importa, não jogamos pela seleção por isso (dinheiro). Em 1999, para se ter uma ideia, Julio Lamas (técnico) e um outro jogador tiveram que pagar o sobrepeso das bagagens em uma viagem internacional''

“A suspeita de que há alguma coisa errada além da má gestão é grande, mas não temos prova de nada, então é melhor não acusar. Para isso existe a auditoria. Torço para que o que seja descoberto é que apenas a Confederação trabalhou mal, que não vendeu bem o produto que ela tem nas mãos''

leo5“Espero que a CABB convoque estes cinco jogadores, a nata do basquete argentino, para uma reunião e explique como serão os próximos passos da Confederação, qual o caminho a seguir. Não só para estes dias em que estaremos reunidos com a seleção, mas principalmente para o futuro. E se a CABB não vier com a verdade os jogadores devem colocá-la contra a parede e a CABB ficará pior do que já está em nível internacional''.

As declarações, todas fortíssimas, são do ótimo Leo Gutierrez, ala do Peñarol (Mar del Plata) e um dos remanescentes da geração que conquistou o ouro olímpico em Atenas, 2004. Ao Diário Olé, Leo, convocado por Julio Lamas para a Copa do Mundo da Espanha, critica asperamente o comando da CABB (a Confederação Argentina de Basquete), confirma que os jogadores estavam realmente por trás da saída de German Vaccaro (ex-presidente deposto) e pede mudanças urgentes nos rumos da modalidade no país. Só lembrando: a Argentina foi campeã olímpica há uma década, medalha de bronze em 2008, quarta colocada em 2012. E os atletas estão totalmente insatisfeitos com o que está rolando por lá.

gui1Aqui no Brasil, o que temos? A Associação de Atletas, presidida por Guilherme Giovannoni (foto à direita), aprovando as contas da CBB (aqui e aqui), sem pedir NENHUMA mudança na gestão e sem tentar mudar os rumos da modalidade por aqui. Fala muito sobre o senso crítico (ou a falta dele) de lá e de cá, da conivência que a maioria dos jogadores têm com quem está no poder e quão fácil é ser um dirigente ruim no Brasil.

Ah, e não sei se vocês notaram, mas há forte presença dos principais do basquete argentino (todos eles jogando fora, o que prova que mesmo aqueles não atual na Liga Nacional querem o desenvolvimento urgente do esporte platense) neste ato. Meus sinceros parabéns aos hermanos por mais uma prova de maturidade política, de senso crítico e por saber que atleta não é só mão de obra, mas principalmente agente de mudança de sistemas esportivos totalmente falidos, corroídos e dirigidos por quem pouco entende de gestão.

Já no Brasil… Fica a pergunta: se ninguém cobra, se ninguém exige as mudanças tão necessárias para a modalidade, por que diabos Carlos Nunes e sua trupe irão mudar a forma como administram o basquete deste país?


Reforçado no garrafão, Chicago se anima para temporada da NBA
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Fábio Balassiano

gasol1Não dá pra dizer que a ida do Chicago ao mercado de agentes-livres da NBA foi um sucesso absoluto. Não foi bem assim. O time concentrou muitos esforços em ter Carmelo Anthony, mas o ala decidiu confiar em Phil Jackson (falarei disso mais pra frente) e permaneceu no Knicks. Os Bulls, no entanto, não saíram de mão abanando, não.

Para começar, anunciou a vinda de Nikola Mirotic, escolhido no Draft de 2011 e que agora, depois de ótimas temporadas pelo Real Madrid, vai enfim vestir a camisa do Chicago. Logo depois fechou com Pau Gasol (foto à direita), ala que vem do Los Angeles Lakers trazendo experiência e um pouco de requinte pra perto da cesta. Com o espanhol, Mirotic, Taj Gibson e Joakim Noah, os Bulls trazem para 2014/2015 um dos melhores garrafões de toda NBA. Para conseguir isso tudo, John Paxson teve que anistiar Carlos Boozer, que se tornará um dos agentes-livres mais cortejados na próxima semana.

butler1O problema do Bulls, um dos mais bem treinados times da NBA (mérito do excepcional Tom Thibodeau, é sempre bom destacar), continua sendo as alas (2 e 3), problema crônico do time desde a saída de Luol Deng. Aqui, aliás, cabe uma reflexão: não sei até que ponto a diretoria se arrepende de não ter renovado com ele na temporada passada. Mesmo que o valor tivesse sido alto, Deng colocaria, hoje, o Chicago no patamar de grande favorito ao título do Leste, pensem nisso.

Mas, bem, voltando ao que os Bulls de fato têm em suas fileiras. Jimmy Butler é ótimo marcador, mas não conseguiu evoluir tanto nos arremessos (28% em bolas de três pontos). Tony Snell vai para seu segundo ano, e não inspirou muita confiança no primeiro. O novato Doug McDermott, de Creighton, foi muito cortejado no Draft e o Chicago fez muita força para tê-lo, mas acho improvável que ele traga um grande impacto ao time logo em sua temporada de estreia.

rose1Se sobrar alguma grana na folha salarial e/ou jogador bom disponível para as duas posições é muito recomendável que a franquia faça uma força para contratar, mas pelos nomes que sobraram no mercado não é o que parece, não. Alguém, principalmente, que consiga matar bolas do perímetro com bom percentual de acerto (que falta faz um Kyle Korver, que já passou pelo Chicago, neste time, hein…). As bolas de três do perímetro, vimos pelo título recentes dos Spurs e Miami, são fatores críticos de sucesso para os times da NBA atual.

Por isso o time confia em Derrick Rose (foto à direita). 'Confia', na verdade, é 'torce' para que o retorno do estupendo armador venha, desta vez, sem lesões, sem contratempos. Se ele estiver em perfeitas condições físicas, o Chicago de fato surge como um dos favoritos ao título do Leste sem dúvida alguma. (Leste, que como disse nesta quarta-feira, está mais aberto do que nunca). Até Magic Johnson, que está em viagem pela Itália (com posts divertidos no Facebook/Twitter, inclusive), disse isso no Twitter, veja só.

magic1

Concorda com ele? O Chicago vem forte mesmo? Tem chance de ganhar a Conferência Leste, algo que não acontece desde 1998? Comente!

Tags : Bulls NBA


O mérito de Érika, All-Star da WNBA pela 3ª vez
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Fábio Balassiano

erika3Na terça-feira à noite a WNBA anunciou os reservas para o All-Star Game que acontecerá no sábado em Phoenix, Arizona. As titulares, em votação popular, foram divulgadas uma semana antes.

Na lista final, apareceu, sem surpresa alguma, o nome da brasileira Érika de Souza (pelo público ela foi a quarta entre alas e pivôs com quase 12 mil votos). Foi a terceira vez que a pivô do Atlanta Dream foi selecionada para representar o Leste (2009 e 2013 as outras), mas dessa vez tem um gosto todo especial.

Na temporada passada Érika foi para o All-Star em Connecticut substituindo a Elena Delle Donne, que se machucara uma semana antes. A brasileira, à época já a melhor pivô (5) em atividade no planeta, estava jogando bem (12,9 pontos, 9,9 rebotes e 1,8 toco), mas ela literalmente guardou o seu melhor para o campeonato de 2014.

Nesta temporada a jogadora de 32 anos é peça ainda mais fundamental no Atlanta Dream, líder do Leste com 15-5 (é o único time da conferência que tem campanha positiva, aliás…). Além da incrível presença defensiva (seu técnico, Michael Cooper, o motor da marcação do Lakers na década de 80, não para de elogiá-la por sua “fúria'' na defesa), a camisa 14 está jogando um basquete absurdo, acima de qualquer expectativa. Em seu oitavo ano na WNBA, ela tem 15,2 pontos (nona na liga), 9,7 rebotes (3ª), 1,8 toco (3ª), 57,5% de aproveitamento nos arremessos (4ª) e 21,4 de eficiência (4ª).

erika1Ninguém nos Estados Unidos tem dúvida que Érika é uma atleta de elite, do mais alto nível e essencial no sucesso de seu time (um time que chegou a três finais de WNBA desde que ela por lá desembarcou). Todo reconhecimento, portanto, é pouco nos EUA (e lá eles a valorizam muito).

Torço, apenas, para que ela seja mais valorizada/reconhecida no Brasil, onde certamente passam despercebidos seus feitos, conquistas e expressivos resultados. Passa muito por um machismo terrível que há no basquete (escrevi disso recentemente aqui). Passa também pelo péssimo momento da modalidade há anos. Passa, inclusive, pela comunicação tenebrosa que é feita pela CBB sobre seus principais ativos (os atletas).

Nada disso, no entanto, deve ofuscar o principal. Érika é a melhor pivô do planeta e está de novo entre as melhores da WNBA. Para ela, que tem todos os méritos por cada conquista, só devemos aplausos.


Conferência Leste da NBA começará temporada sem bicho-papão
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Fábio Balassiano

wadeComentarei aqui, nos próximos dias, as montagens de Bulls (com Pau Gasol + Nikola Mirotic) e New York Knicks (que renovou com Carmelo Anthony), mas ontem quando fui dar uma olhadinha em como os elencos já estão sendo construídos notei que o Leste está, no jargão popular, completamente aberto para a temporada 2014/2015 da NBA.

Atual tetracampeão do Leste, o Miami perdeu LeBron James, mas trouxe Luol Deng (craque de bola!), manteve Chris Bosh, Mario Chalmers (ele está LONGE de ser o pereba que aparentou ser nas finais passadas), Dwyane Wade (US$ 34 milhões por dois anos – foto à direita) e Chris Andersen e recrutou o ótimo calouro Shabazz Napier (armador). Se não é o grande favorito da conferência, ao menos se mantém entre os candidatos ao título, sim. O novo time de LeBron, o Cleveland, já se torna automaticamente um candidato ao título obviamente. Já contratou ontem Mike Miller e outros veteranos deverão seguir o mesmo caminho de Ohio.

Derrick RoseO Chicago, por sua vez, reza para que o estado físico de Derrick Rose (foto à esquerda) fique em perfeitas condições. Com o armador, os Bulls passam de candidatos a playoff para uma das forças da liga mesmo sem ter conseguido contratar Carmelo Anthony. Com ele, Joakim Noah e (agora) Pau Gasol é possível, sim, sonhar com algo maior que uma simples presença no mata-mata da NBA. As posições 2 e 3 (as alas) certamente precisam de reforços/ajustes (não sei quão preparado para jogar fora do garrafão Nikola Mirotic está neste momento, embora ele tenha muito talento…), mas (como sempre digo) não há time perfeito e a turma de Illinois é uma das mais bem treinadas da liga.

O Indiana ainda não terá Lance Stephenson (acertou com o Hornets por 3 anos, US$ 27mi), não fez força para ficar com Evan Turner, mas mantém Paul George, David West e Roy Hibbert. Parece-me um time menos forte que o da temporada passada (ainda), mas certamente ainda é consistente o suficiente para brigar neste Leste do jeito que está.

hollinsO mesmo pode-se dizer do Brooklyn Nets. Se perdeu Paul Pierce, manteve o restante do elenco (Deron Williams, Joe Johnson, Brook Lopez e Kevin Garnett) e não perdeu Andrei Kirilenko. Não dá pra dizer que é um time franco, principalmente agora que terá um ótimo técnico a comandá-lo (o experiente Lionel Hollins (foto à direita), ex-Memphis, substitui a Jason Kidd). O Toronto fez uma ótima temporada passada, ficando até com o mando de quadra no playoff, renovou com Kyle Lowry, mas não contratou mais ninguém e aparentemente mantém o seu patamar. Seria pachequismo demais acreditar, desde já, que Bruno Caboclo e Lucas Bebê trazem impacto ao desempenho da franquia já em 2014/2015.

pierceQuem eu acho que fica bem na fita é o Washington Wizards. O time da capital dos Estados Unidos corria o risco de perder o pivô Marcin Gortat e Trevor Ariza. Renovou com o polonês, perdeu o ala para o Houston, mas repôs rápido com Paul Pierce (foto à esquerda). É óbvio que Ariza marca muito bem, é mais jovem, mas o valor pago por ele pelo Rockets (US$ 8mi/ano) talvez fosse excessivo para quem pensa em renovar com Bradley Beal (muito bom) por um longo período muito em breve (seu contrato de calouro termina em 2016). Os Wizards, de Nenê, conseguiram um ala decisivo, experiente em playoff e que pode ajudar a dupla da armação (Wall e Beal) a crescer em momentos decisivos. O banco segue ruim (apenas Andre Miller e Martell Webster de relevantes), mas o quinteto titular ficou forte e bem explosivo.

cavs1Se na temporada passada a gente olhava para a conferência mais fraca da NBA (algo que deve se repetir no próximo campeonato, diga-se de passagem) e via o Miami Heat um passo (ou dois) acima dos demais, com o Chicago Bulls (pré-lesão de Derrick Rose), o Indiana Pacers e o Brooklyn Nets um degrau abaixo), para o certame de 2014/2015 ficou literalmente tudo embolado, tudo misturado, bem impossível de fazer qualquer prognóstico com alguma certeza.

Concorda comigo? Quem, pra você, surge como o maior candidato a ganhar o Leste na próxima temporada da NBA? Comente!

Tags : NBA


No Pinheiros, Marcel de Souza fala sobre sua volta ao basquete
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Fábio Balassiano

marcel1Marcel de Souza é uma das principais atrações do próximo NBB. Contratado pelo Pinheiros para ser o técnico do time na temporada 2014/2015, o ex-jogador, um dos melhores de todos os tempos do basquete brasileiro, renasce para a modalidade depois de quase uma década afastado (seus últimos trabalhos foram em São Bernardo e Barueri) disposto a colocar em prática as idéias que sempre expôs em seus ótimos editoriais no Databasket  , seu site, (aqui seus editoriais) e redes sociais (aqui seu Twitter).

Conversei com ele sobre tudo isso e muito mais nesta entrevista exclusiva e bastante aberta e sincera da parte dele. Marcel, inclusive, faz um mea-culpa sobre um assunto polêmico de seu passado, o Funk do Basketeiro (melodia criativa feita por ele para criticar o estilo de jogo da seleção brasileira à época)

BALA NA CESTA: Você estava afastado do basquete há quase uma década e recebeu o convite do Esporte Club Pinheiros. Como foi ter ficado este período afastado e o que está esperando neste seu regresso à beira das quadras?
MARCEL DE SOUZA: Há dez anos, a minha vida tomou um rumo muito complicado e eu tive que passar por um processo pessoal de análise e reconstrução de valores que para mim eram importantes – mas que na verdade não tinham significado prático algum. Isso levou tempo e me foi muito dolorido e custoso. Nesse aspecto a medicina (nota do Editor: Marcel é formado em Medicina e exerce a função há anos), no sentido de cuidar de problemas de quem realmente precisa ser cuidado, me ajudou muito. Hoje, já mais abalizado e centrado, vejo que posso retomar meus sonhos e objetivos na vida. O basquete, sem dúvida, é um deles.

marcel1BNC: Poderia nos contar um pouco sobre como você recebeu o convite e os detalhes até clube e você fecharem a negociação? Como foi o primeiro contato, o que lhe foi pedido, expectativas etc.
MARCEL: Quando o diretor (João Fernando) Rossi assumiu o basquete do Esporte Clube Pinheiros (ECP) há alguns anos o clube estava arrendado a uma agremiação do ABC paulista. Rossi, com ajuda de Cláudio Mortari, reconstruiu e renovou o basquete e o esporte do clube. Na época, era eu a primeira opção para técnico, mas não pude aceitar o convite pelos motivos expostos na primeira pergunta. Eu estava em “reconstrução” pessoal e financeira, pagando dívidas nesses dois aspectos e trabalhando mais de 12 horas por dia com plantões noturnos 6 dias na semana. Infelizmente não pude participar do projeto naquela ocasião. Com o tempo e o sucesso do ECP percebi que poderia ter lugar ali e fiz algumas gestões no sentido de tomar parte no processo. Convém frisar que não vi outro lugar que pudesse retomar minhas atividades, pois tanto o Rossi como o Mortari (agora Coordenador Técnico) são excelentes no que fazem e tiveram que romper grandes e dificultosas barreiras para me acomodar na equipe. No final, tudo se ajeitou e pude exercer a minha parte de ser apenas o treinador da equipe, o que para mim é excelente.

marcel2BNC: Tendo começado a trabalhar com o clube na semana passada, quais são as suas primeiras impressões? O tempo afastado faz com que você ainda se sinta um pouco “preso”? Ou isso não existe?
MARCEL: A estrutura que me foi oferecida no ECP é de primeiro mundo, fruto de uma gestão antenada e ativa da política esportiva do clube, que é um dos grandes centros formadores em 17 esportes olímpicos no Brasil. Tenho a oportunidade de desenvolver meu trabalho em quadra sem me preocupar com aspectos divergentes, o que já é uma grande vantagem. Não me sinto preso e sim livre para ousar e experimentar coisas novas.

BNC: Você sempre foi um dos grandes críticos da maneira como nossos times, e seleção também, atuam. Já parou pra pensar que esta é a chance que muitos críticos agora têm para dizer, caso você não tenha sucesso, que a sua teoria, na prática, foi outra?
MARCEL: Eu não tenho teoria alguma, apenas tenho a opinião de que deveríamos nos espelhar no basquete internacional, principalmente o praticado nas grandes ligas. Tudo é uma questão de resultados. Se não os conseguir não é porque o que rezo é necessariamente errado.

Marcel1BNC: Você sempre falou em “treinamento apropriado” como uma das formas de fazer com que atleta e time evoluam. Imagino que você esteja à procura disso com este time do Pinheiros. No que, de fato, consiste o tal “treinamento apropriado”?
MARCEL: Como já dizia aquela música , o treinamento apropriado “é fácil de entender e difícil de explicar”. Estudo o basquete de maneira intensa e regular, e a cada dia vejo que a busca pela excelência é resultado direto do esforço individual do jogador. Saber motivá-lo com orientações técnicas precisas e adaptadas ao seu melhor desempenho é o segredo. Não tenho fórmula mágica, nem lhes ensino coisas diferentes do que eles já conheçam. A minha interpretação sobre essas é que fazem funcionar um mecanismo interno no atleta em treinamento. Posso lhe assegurar que não é fácil derrubar crenças e construir novos conceitos, principalmente em jogadores que obtiveram sucesso em suas carreiras, mas isso só me serve de estímulo.

marcel4BNC: Do basquete que você “saiu” anos atrás, em São Bernardo e Barueri, para o de agora, o que melhorou (dentro de quadra) nos times brasileiros? Concorda comigo que há times, como Flamengo, Mogi e Paulistano, por exemplo, que apresentam um nível bem satisfatório de intensidade, defesa e senso coletivo, itens que você sempre colocou como fundamentais em seus (bons) artigos no Databasket?
MARCEL: A Liga Nacional de Basquete tem muito a ver com oprogresso do nosso basquete. Hoje podemos dizer que dominamos o cenário continental de clubes, contratamos os melhores estrangeiros e crescemos a cada ano como esporte. Falta-nos um sucesso de respeito e renome internacional e espero que isso aconteça no próximo Mundial da Espanha. O basquete brasileiro já deixou o “buraco” em que se encontrava e a LNB tem grande parcela de mérito nisso.

BNC: Em que pese essa melhora recente, o basquete brasileiro de um modo mais amplo ainda, em minha opinião, baseia demais o seu jogo em bolas de três e possui pouca força na marcação. Concorda com isso? Como fazer com que este panorama não aconteça no Pinheiros sob seu comando?
MARCEL: O grande problema é que a pouca intensidade na marcação gera muitos arremessos do perímetro, algo que você cita. Esse cenário não ocorre nas grandes competições internacionais e pagamos o preço de nossas idiossincrasias. A mentalidade defensiva tem que ser implementada não só no basquete, mas em todos os esportes. Temos vários exemplos disso escancarados nesses últimos dias.

marcel5BNC: Em seus dois últimos trabalhos, em São Bernardo e Barueri (mais naquele do que neste), você sempre esteve muito focado em questões que não as de quadra propriamente ditas (financeira, montagem de elenco, estrutura etc.). Quão importante será a estrutura do Pinheiros para que você desempenhe seu papel “apenas” dando treinamento e comandando a equipe?
MARCEL: Um dos motivos que desejei e persegui o objetivo de ser treinador do ECP foi a estrutura técnico-administrativa do clube. Tenho muito orgulho de falar que já limpei a quadra antes dos treinos, lavei os uniformes após os jogos, exerci o papel de dirigente, médico, roupeiro, enfim fiz tudo o possível pelo que acreditava ser o bom basquete. No ECP sou apenas o técnico da equipe. Chego lá e ministro o treino. Todas as outras tarefas têm o apoio de uma organização impecável, feita por pessoas eficientes e capazes em todos os níveis.

BNC: Recentemente o Pinheiros “perdeu” o Bruno Caboclo para a NBA, e há alguns jovens (como Humberto e Lucas Dias) que são muito elogiados pelo potencial que têm. Ao mesmo tempo, você e o clube precisarão de resultados, pois o investimento existe e o elenco possui jogadores que certamente precisarão de minutos em quadra. Como fazer para conviver com estas duas vertentes – jovens, que normalmente cometem erros, e profissionais experientes, ambos em busca de espaço?
MARCEL: O meu compromisso com os jogadores é fazer com que melhorem sempre e que atinjam o máximo de suas capacidades físicas, técnicas e emocionais. Se conseguir convencê-los que para atingir esses dois princípios é necessário o treinamento apropriado, não terei problema algum e todos terão o seu espaço.

marcelBNC: A que você atribui o seu tempo de afastamento do basquete? Considera que ter sido muito crítico pode ter feito com que times tenham pensado em não contratá-lo?
MARCEL: Na verdade eu não estava preparado para fazer críticas “sem matar”, muito menos para receber o troco dessas críticas “sem morrer”. É preciso saber que mesmo errando a pessoa não faz isso com intenção de errar e que todos têm o seu valor. Estar certo ou errado é sempre uma questão temporal e o que devemos fazer é ajudar os outros com as nossas críticas. Definitivamente isso não era o meu caso, mas felizmente eu não sou mais assim e embora acredite em valores diferentes da maioria não vejo isso como uma afronta, mas sim como uma oportunidade em melhorar os envolvidos. Prefiro acreditar que meus problemas pessoais me afastaram do jogo que amo.

BNC: Uma das grandes críticas que se faz a você, o que eu acho uma bobagem, aliás, é o Funk do Basqueteiro. Se arrepende de algo neste período “sabático” em que esteve longe do basquete?
MARCEL: Errei e peço desculpas. O Funk do Basketero, embora pertinente, foi uma reação exagerada e até certo ponto inconsequente sobre um fato que incomodou muita gente. Eu me arrependo daquilo que não fiz, mas o Funk realmente não ajudou em nada a modificar aquela situação e me colocou numa posição muito desconfortável. Hoje não reagiria assim, mas não posso modificar o passado. Temos que seguir adiante.

marcel6BNC: Por fim: quando será o seu primeiro treino em silêncio com o Pinheiros? Você andou escrevendo que é possível dar um treino com todos os jogadores e a comissão técnica em silêncio…
MARCEL: Apenas 7% da nossa comunicação é verbal. Por isso realizo um tipo de exercício onde passamos o treino todo sem utilizarmos sons orais de espécie alguma. Normalmente ele acontece quando a equipe já dominou todos os aspectos do treinamento apropriado. Acredito que até o final desse mês esse tipo de treinamento deverá acontecer.