Bala na Cesta

Com 5ª participação, Adrianinha se tornará recordista de Olimpíadas no basquete
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Fábio Balassiano

adri2A armadora Adrianinha entrará em um seleto grupo olímpico a partir do próximo sábado, quando o Brasil estreia no Rio-2016 às 17h30 contra a Austrália em Deodoro na Arena da Juventude.

A atleta de 37 anos jogará a sua quinta Olimpíada (2000, 2004, 2008, 2012 e 2016), igualando a marca do australiano Andrew Gaze (1984 a 2000), do brasileiro Oscar Schmidt (entre 1980 e 1996), do pivô Teófilo Cruz, de Porto Rico (1960 e 1976), e da norte-americana Teresa Edwards, até então a única mulher a jogar cinco vezes o maior evento esportivo do planeta (entre 1984 e 2000). Destes quatro recordistas mais longevos, apenas Teresa possui medalha (ela ganhou o ouro em todas as ocasiões, com exceção de 1992, quando foi bronze com a equipe dos EUA).

adriAdrianinha, portanto, se tornará a primeira jogadora brasileira de basquete a atingir tal quantidade de Jogos Olímpicos. Com quatro participações, Janeth Arcain detinha o recorde.

Janeth, aliás, tem a marca de 29 partidas olímpicas disputadas, a maior entre as brasileiras. Com 23, Adrianinha pode igualar caso jogue todas na primeira fase (cinco) e o Brasil avance às quartas-de-final. Se chegar às semifinais e atuar em todos os jogos, se tornará a atleta com o maior número de partidas olímpicas disputadas entre as mulheres brasileiras.

dri3Por uma dessas coincidências da vida, ela encerrará a sua carreira olímpica com a equipe nacional com o mesmo técnico que a convocou quando ainda era uma jovem promessa em 2000 (Antonio Carlos Barbosa).

Foi na Olimpíada de Sydney-2000, aliás, que Adrianinha obteve a melhor colocação de sua carreira com o Brasil, a medalha de bronze (vitória agônica contra a Coreia do Sul por 84-73 na disputa do terceiro lugar).

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Seleção mostra ótimo nível na vitória contra a Austrália em amistoso
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Fábio Balassiano

brasilFoi um primeiro teste (os contra a Romênia não contam, né…). E foi uma ótima primeira, digamos, vista. A seleção brasileira masculina de basquete jogou ontem em Mogi das Cruzes (ginásio NÃO lotou, algo inacreditável para uma cidade que ama basquete – e isso fala muito sobre a falta de gestão/noção das coisas por parte da Confederação) contra a Austrália, fez incontestáveis 96-67 diante de um rival que estará na Olimpíada (provavelmente passando de fase no outro grupo inclusive….) e mostrou inúmeras qualidades. Vamos lá:

brasil11) Nenê. Temos que começar por ele. O (agora) pivô do Houston Rockets teve 10 pontos, 6 rebotes e 2 assistências em 21 minutos. Impressionou mais pela ótima forma física do que pelos números, na verdade. Sofrendo a temporada da NBA inteira com a fascite plantar, tinha curiosidade em ver como ele estava em termos físicos e de mobilidade. Se o que vimos ontem é só um aperitivo, o prato principal nas Olimpíadas tende a ser bem interessante. Nenê engoliu os seus rivais no garrafão, passou muitíssimo bem a bola, protegeu bem o aro (deu dois tocos) e forçou dobras na marcação australiana que geraram trocas interessantes de passe do ataque brasileiro. Sem Anderson Varejão e Tiago Splitter, torna-se o principal nome brasileiro no garrafão olímpico e tem tudo para desempenhar ótimo papel no Rio-2016. Foi interessante, também, vê-lo sendo aplaudido depois de tudo o que ele passou por aqui nos últimos tempos (vaias, críticas e julgamentos…).

brasil22) Outro que foi muito bem individualmente foi Raulzinho. O armador do Utah Jazz, cada vez mais forte e veloz, saiu-se com 17 pontos (6/7 nos arremessos), foi o cestinha da partida e ainda deu três assistências. Isso em 18 minutos. Se esperávamos que ele estivesse bem mesmo para dividir minutos com Huertas (que também teve sólida atuação com 9 pontos e 7 assistências em 18 minutos), é isso mesmo que Rubén Magnano terá em mãos nas Olimpíadas – dois armadores de altíssimo nível para conduzir a equipe. Na posição 1, e com a opção ainda de Rafael Luz para mudar o ritmo, o país está muito bem servido.

brasil53) Falei individualmente de dois atletas, mas vale destacar o lado coletivo do Brasil. Foram 20 assistências em 33 arremessos convertidos, uma prova incrível de que a bola rodou como deve ser. Isso, aliás, é uma qualidade de Magnano como técnico (e ele, como treinador, ali na quadra, tem inúmeras mesmo): seus times invariavelmente passam e espaçam muito bem a quadra. É assim desde a Argentina de 2002, na primeira geração daquele timaço, e desde 2009, quando assumiu a seleção brasileira. Houve apenas um tiro de fora um pouco acelerado (Vitor Benite em contra-ataque), mas de resto os 27 chutes do perímetro não chocam tanto (nem mesmo porque foram “apenas'' 35 de dois pontos). O Brasil arremessou assim porque, desesperada com Nenê e Augusto Lima a Austrália fechou loucamente o seu garrafão. Em dois períodos (o segundo e o quarto), a margem foi de 55-25, com a seleção acertando 70% dos arremessos.

brasil34) Outro ponto interessante. A defesa mais uma vez foi intensa até dizer chega, fez ótimas rotações e forçou (15) erros da Austrália. Não só isso. Conseguiu converter os desperdícios australianos em pontos. Muitos pontos. Foram 29 através dos erros dos rivais. Ou seja, o recado ficou claro: se errar contra o Brasil pode ser “punido'' com muitos pontos. Matthew Dellavedova foi o que mais sofreu com isso ao soltar quatro bolas (7 pontos foram gerados assim…). Este é um ótimo recado, aliás. Controlar a bola é fundamental sempre em um jogo de basquete. Em nível internacional, mais ainda. Contra um adversário que consegue forçar erros e ainda matar pontos logo na sequência, fatal. O recado da seleção de Magnano neste sentido é bem interessante.

brasil7É óbvio que muitas coisas ainda precisam ser acertadas (o Brasil pode forçar ainda mais o jogo interno, por exemplo), mas o que se viu ontem no primeiro real teste da seleção brasileira (e nem falei tanto assim da intensidade ofensiva/defensiva e dos picks envolvendo Huertas e Augusto Lima que podem ser decisivos na Olimpíada) foi bem animador.

Neste fim de semana o Brasil joga o Super4 em Mogi contra a China às 14h15 de sábado (Sportv). Quem vencer pega o ganhador de Austrália e Lituânia, que se enfrentam antes (meio-dia). Vencedores medem forças no domingo pelo título e perdedores, pelo bronze. Serão bons testes para Rubén Magnano e seus atletas antes da Olimpíada. Na primeira análise, o que se viu ontem foi realmente muito bom. Que assim o time masculino continue.

Viu o jogo? Também gostou do que viu? Comente aí!

 


Personagens do Basquete Brasileiro: Maria Helena Cardoso (Parte II)
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Fábio Balassiano

A PARTE I VOCÊ VIU AQUI…

maria1BNC: Qual o erro que a senhora mais se lembra? Fazendo uma análise, olhando pra trás…
MARIA HELENA: Acho que no início da carreira… Eu tinha sido jogadora, você sabe. E essa passagem de quem foi jogadora para técnica é muito, muito difícil. Não é moleza não, Bala. Você pensa como jogadora, como atleta, e não como técnica. Você quer, de cara, que aquele seu novo atleta faça aquilo que você, enquanto atleta, levou anos para conquistar, para fazer. E aprendizagem não é isso. Ele não tem que fazer porque eu falei. Atleta precisa aprender o conceito, testar, errar e aí sim estar pronto. O começo eu acho que passei deste ponto. Eu exigia dos atletas a performance que eu havia alcançado ao longo da minha carreira. Mas o tempo vai fazendo você mudar. Você não pensa mais como jogador, entende? Nos últimos anos que eu trabalhei eu nem lembrava que havia sido jogadora. Minha cabeça já estava totalmente voltada pro lado de técnica mesmo.

paula3BNC: Como foi esse começo com a Paula. De cara você percebeu que era um gênio do esporte? A senhora sabia que era um diamante?
MARIA HELENA: Sabia, claro. Claro que sabia que era uma pedra preciosa do esporte. Eu ia buscar o quê? Diamante. Na época que vimos a Paula jogar a Eleninha se identificou demais. A Paula era mais ou menos como ela, Eleninha jogava. Então nesse começo quem auxiliou muito a Paula foi a Eleninha mesmo. Ela foi muito importante porque ouvia bastante a gente e passou a ser a cara do projeto. As meninas novas se espelhavam nela, e a Paula sempre teve, além de muito talento, um comportamento exemplar, fora da média mesmo. Posso dizer que ela aprendeu muito conosco, e todos que estiveram com ela também. É uma pessoa excepcional, tão excepcional como foi quanto atleta. Quem teve o prazer de trabalhar com ela só pode agradecer. E eu tive.

maria15BNC: Aí você ficou em Piracicaba até 1990, quando foi pra Ponte Preta, em Campinas, mas neste período de Piracicaba teve a seleção. Em 1986 você voltou à seleção, mas como treinadora. Como foi?
MARIA HELENA: É emocionante pra caramba. Foram anos de seleção como atleta. Aí você para de jogar, imagina que sua vida naquele local (de seleção) acabou, e depois a vida te dá uma nova oportunidade de representar o país, só que de outra forma. Sempre dizia às atletas que da escola que elas estavam frequentando eu já tinha passado. Então muitos problemas que aconteciam eu já sabia como resolver o problema. A questão toda não é ter o problema em si, mas como solucioná-lo da melhor maneira possível. Como alguns se repetiam, eu tinha mais tranquilidade para antevê-lo e resolvê-lo. Ter sido jogadora me ajudou muito. Tinha a experiência de grupo, mas não grupo de clube. Experiência de você juntar meninas de clubes diferentes e ter que fazer uma equipe dentro disso.

maria4BNC: A senhora chegou em 1986. Foram pro Mundial, ficaram em décimo-primeiro…
MARIA HELENA: Foi. Foi ruim, na verdade. Mas era um grupo muito novo, muito no começo ainda. Até 1988, quando fomos para a Malásia, no Pré-Olímpico que não tivemos sucesso, ainda era um grupo muito novo, muito no começo de sua vida profissional. Era um time verde mesmo. Em 1986 mesmo, fomos para o Goodwill Games em Moscou e todos me perguntavam de onde tinha saído aquela equipe. Ficaram encantados com as meninas do nosso time. Fizemos jogo duro no Mundial com todas as equipes, mas na hora de decidir faltava a experiência. Jogador novo, na hora que o bicho pega, ele titubeia por causa da responsabilidade. Elas eram muito novas, mas ali eu já sabia que aquela geração teria muito sucesso porque todas elas tinham as ferramentas necessárias para ir longe. Todas. Só faltava aumentar a altura mesmo. Quando assumi a seleção a média de altura era de 1,72m. Isso pra nível internacional é baixo, você sabe. A Hortência tinha 1,74m, e jogava contra mulheres de 1,90m marcando ela. A Hortência, aliás, é um fenômeno do basquete. O que ela jogava era um absurdo. Fazia de tudo na quadra. Fazia ponto de tudo que é jeito, marcava ponto com muita facilidade. Jogar com ela no time era fácil. Marcá-la, quase impossível. Que atleta fenomenal. Depois entraram Janeth, Marta, Alessandra, Leila, entre outras. Eu fui ao Pan-Americano em 1987. Nós jogamos contra os Estados Unidos. Fizemos um primeiro tempo ótimo, tudo igual. Intervalo veio, voltamos e perdemos de quase 20. Fomos para a conferência de imprensa, aí a técnica americana comentou o que ela fez para ganhar o jogo. Ela disse assim: “O Brasil está apoiado em duas pilastras. Paula e Hortência. Anulamos as duas e ganhamos o jogo”. Isso em 1987. Aquilo ficou na minha cabeça. Martelou, martelou e vi que precisávamos, como país, encontrar uma solução para aquele problema que se apresentava. A gente precisava de mais gente. Precisava aumentar a altura, ter mais opções de pontuação. Ser mais equipe mesmo. Porque no nível internacional se você não for um time muito coeso, muito homogêneo, não adianta. Não existe time de dois jogadores que ganhe algo no nível de Mundial e Olimpíada. Janeth chegou pra nós juvenil e a gente formou.

trio1BNC: Maria Helena, as grandes jogadoras todas foram formadas por você. Você sabe disso, não?
MARIA HELENA: É complicado eu dizer isso, mas quando a comunidade do basquete percebeu que ali em Piracicaba tinha um polo interessante não da modalidade, mas principalmente de desenvolvimento de pessoas, elas mesmo vinham nos procurar. Ou seja: um menino de Miracema (MG), indicava uma menina e íamos olhar. De Franca, a mesma coisa. A Janeth chegou pra gente juvenil. Ficou três anos conosco e explodiu. A gente trabalhava dois, três anos a menina, elas ficavam no ponto e vinha um time com mais dinheiro e contratava a menina. Então tínhamos sempre muita troca nas equipes. Era ruim, porque o time mudava muito, mas era bom também porque captávamos meninas diferentes o tempo inteiro. As únicas que ficaram mais tempo foram Paula e Vania. Algumas meninas saíram por causa de dinheiro mesmo, de outras propostas. A gente tinha várias “escadinhas” nos nossos times que faziam as meninas do infanto jogarem no juvenil, as juvenis jogarem no adulto. Ou seja: quando precisava repor as peças, todas já estavam preparadas. Era difícil, porque outras equipes tinham mais poder econômico na época, mas era gratificante ver que sempre nos finais dos anos tínhamos de novo equipes formadas, atletas formadas, disputando títulos e com fundamentos lapidados.

maria1BNC: Aí vocês não foram pra Olimpíada de 1988, no Mundial de 1990 também não foram bem (décima posição). Outra frustração…
MARIA HELENA: Em 1990 você quer saber o que houve? Puseram a gente pra fazer excursão na Europa com 21 jogos em 30 dias. E de lá ir direto pro Mundial porque não tínhamos dinheiro pra voltar ao país. E viajando de ônibus. Não tinha treino, Bala. Só jogávamos, jogávamos, jogávamos. Então chegamos ao Mundial de 1990 absolutamente acabadas. Realmente extenuadas mesmo. Foi um erro de planejamento descomunal na época. As meninas não andavam. Estavam cansadas mesmo. Nos olhos delas estava escrito isso. Chegamos em Moscou, depois de viajar o tempo inteiro, e tínhamos que ir para Minsk, onde era a nossa sede. Chegamos às quatro da tarde e teríamos o jogo da estreia contra a Bulgária no dia seguinte pela manhã. Veio o chefe da delegação e disse que teríamos que ir para Minsk de trem. Não tinha dinheiro pro voo. Aí eu disse: “Eu não vou. Volto daqui, mas não pode acontecer isso. Esse time não pode passar por isso”. Nenhum time do mundo merece passar pelo que nós passamos naquele Mundial. Conseguimos um avião, mas chegamos de madrugada. Todas mortas e no dia seguinte de manhã tinha uma partida com a Bulgária. As meninas faziam bandeja e pareciam que estavam travadas.

maria6BNC: Aí no ano seguinte vocês tiveram uma glória, que foi ter ganho o Pan-Americano de Havana, em Cuba. Ali o basquete feminino começava a ter sucesso em termos de títulos, né…
MARIA HELENA: Foi emocionante sabe por quê pessoalmente? Porque foi exatamente 20 anos depois de eu ter conquistado o título do Pan como atleta em 1971. Ou seja: duas décadas se passaram, o basquete não conseguiu mais vencer, e só retornou ao lugar mais alto do pódio em 1991. Por sorte estava nestes dois momentos – um como treinadora. Outro como jogadora. Como técnica, foram duas grandíssimas emoções – ter conseguido chegar a um título internacional que o Brasil não conquistava há muito tempo e deixar o Brasil em uma Olimpíada, algo que fizemos no ano seguinte em Barcelona. Meus sonhos eram estes, e eu realizei. Olha, Bala, eu não sou muito de ficar emocionada, ficar lembrando. Cabeça de técnico é meio maluca mesmo. A gente ganha, vibra, sorri um pouco e já começa a pensar no próximo, no que está por vir.

trio1BNC: Mas aquele Pan foi especial, não foi? Por tudo o que cercou. Fidel Castro, aquelas coisas…
MARIA HELENA: Foi, foi bem especial, mágico. E começamos mal aquela competição. Os primeiros jogos não foram bons, sabe. O time estava pronto, mas não deslanchava no começo daquela competição. A Hortência e a Paula estavam voando, a Janeth estava indo bem, mas não encaixava. Ali no final da primeira fase é que o time jogou como equipe, como equipe mesmo. Na final é que chegamos bem, mas teve aquele lance de pressão do Fidel antes do jogo que jamais me esqueci na vida. Pouca gente sabe, mas ele queria falar com as nossas atletas antes da partida. A Eleninha é que veio me contar que ele queria falar. E eu mandei avisar lá: “Antes, ele só fala comigo. Com as atletas, só depois”. E ele falou comigo, conversamos, batemos papo. Mas pelo menos não influenciou, não pressionou as atletas, entende? E aqui vou te dizer uma coisa: naquele Mundial de 1994 que elas foram lá e ganharam elas poderiam ir sem técnico que seriam campeãs. Não digo isso em crítica a ninguém, não, mas é porque elas estavam maduras, prontas, realmente bem treinadas, preparadas e tendo passado pelas experiências que a vida exige para formar um time campeão. O Miguel (Angelo da Luz) foi muito feliz de conduzir o trabalho com tranquilidade, com coerência. Mas a preparação, a construção toda, já havia sido feita mesmo.

BNC: Peraí, mas deixa eu voltar um pouco aqui pra não perder o fio da meada. Um dos primeiros jogos que me lembro de basquete feminino foi aquele Brasil x Austrália no Pré-Olímpico de Vigo, em 1992. Teve aquele jogo maluco com a Austrália, prorrogação, o Luciano do Valle não parava de gritar, mas ali o Brasil se classificou para a sua primeira Olimpíada no Feminino. Foi um momento de glória, e imagino que muito emocionante pra você também. A senhora lutou muito pra jogar uma Olimpíada, mas não aconteceu porque não tinha na época. Realizar seu sonho olímpico como treinadora deve ter sido gratificante, não?
hortencia1MARIA HELENA: E você não sei se lembra, mas chegamos no Pré-Olímpico e perdemos os três primeiros jogos. Aí falei: “De novo, caramba”. Mas conseguimos corrigir tudo. As meninas se juntaram, resolveram os problemas internos que havia na equipe e saímos mais fortes para terminar a competição. As coisas acontecem no momento que têm que acontecer, né? Houve um problema muito sério lá, sabe. Problema de gente ao redor atrapalhando o trabalho. Pessoas que queriam ajudar, mas que atrapalhavam. Perdemos um jogo da China, e não tínhamos nenhum vídeo da China para ver antes. Começa o jogo, e elas abrem 21-5. Negócio de louco. Aí entra o lado do técnico. Se você sabe que o jogo será decidido até o final, você precisa correr pra buscar a diferença, mas preservar as suas principais atletas. O que eu fiz? Precisava mudar a cara do jogo. Para marcar a gigante Haixia, eu precisava marcar pressão a quadra toda. Se boto Hortência e Paula pra correr, elas ficam cansadas no final do jogo. O que eu fiz? Tirei as duas e começamos a marcar lá na frente. Entraram Branca, Nádia, a menina. Conseguimos. Encostamos no jogo, comecei o segundo tempo com as duas, China abriu de novo. Coloquei as garotas novas de novo, e aí recebi até bilhete no banco de reservas, você acredita?

paulahortBNC: Que bilhete?
MARIA HELENA: “Põe a Paula e a Hortência”. Era o presidente da Confederação na época e que já tinha sido técnico. Situação chata, né. Mas eu sabia o que estava fazendo. Coloquei Paula e Hortência no fim do jogo, mas mesmo assim perdemos o jogo. Buscamos, encostamos, mas não deu. Cheguei ao hotel, e recebi críticas porque não tinha colocado Paula e Hortência. Aí é fogo, porque todo mundo fica buzinando na cabeça de atleta nestes momentos. E menina vai ouvindo, o grupo vai escapando, as coisas vão indo para um lado não muito legal. Aí entra a mão de D’s também. Estava sem sono uma noite, encontrei uma menina meia noite no corredor do hotel e chamei pra conversar.

maria8BNC: Quem era essa menina?
MARIA HELENA: Prefiro não falar. O que importa é que fiquei com ela até 2h da manhã conversando, explicando, trocando ideia. E ali depois o time se acertou, se consolidou e conquistou a vaga. Aquele jogo contra a Austrália foi espetacular. E vou te contar uma coisa. Pena que ele não está vivo para confirmar. Uma noite o Luciano do Valle me chama lá em Vigo e me diz: “Maria Helena, sai disso. Não é pra você isso aí, não”. E ele tinha razão. Eu não estava aguentando mais. Ele falou como meu amigo, algo que ele era, e como pessoa que gostava de mim, que me via sofrendo coisas que não deveria sofrer. Estavam me sacaneando, puxando meu tapete. Mas eu merecia ir a uma Olimpíada, sabe. Houve um monte de coisas lá na Espanha que você não tem ideia…

maria5BNC: Tipo o quê?
MARIA HELENA: Tipo Dirigente chamando jogadora pra dar instrução. Dirigente que me exigia fazer reunião de trabalho todo dia pra entender minha metodologia de trabalho e pedir uma série de mudanças. E eu fazia a reunião. Não só por hierarquia, não, mas porque ele também tinha sido meu técnico. E nenhuma vez ele me disse que eu estava errada, mas depois as jogadoras achavam que quem estava organizando tudo era ele, e não eu. Assim as jogadoras passaram a perder um pouco de confiança em mim, entende? E eu não percebia isso claramente. Só depois que entendi. Quando saímos de Vigo e fomos pro primeiro treino para a Olimpíada na cidade de Caxambu, fiz aquela reunião de avaliação do Pré-Olímpico e fiquei sabendo de tudo. Coisas do arco da velha. E aí disse: “Eu não vou mais”. A comissão técnica principalmente me chamou um dia e me disse: “Você não vai fazer isso. Lutou tanto pra disputar uma Olimpíada, e agora vai deixar aí de lado? Faz 20 anos que você está trabalhando por isso”. E aí pensei: “Eu tenho o direito e a honra de dirigir o Brasil em uma Olimpíada”. Mas aí quando cheguei em Barcelona entreguei ao Chefe da Missão Brasileira a minha carta de demissão da seleção brasileira. Com o resultado que fosse eu sairia da seleção. Na carta expliquei tudo o que tinha acontecido, o que eu sentia, o que pensava. Ele leu tudo em voz alta e devolveu a carta. Disse o seguinte: “Não vou entregar essa carta. Caso o faça você está morta pro basquete. Não faça isso”. Fiz outra. Elogiando ao máximo agradecendo, mas dizendo que não tinha mais condição. Entreguei, e ele encaminhou ao Brito. Algumas coisas eu não tolerava mais, sabe, Bala.

BNC: Tipo o quê?
MARIA HELENA: Olha. Fomos fazer um torneio amistoso em Santos. Depois do torneio eu dei uma folga de uma semana de folga. Uma atleta não se apresentou depois de uma semana de folga. Pedi pra ligar pra atleta, estava preocupada. E aí a jogadora disse ao responsável pela delegação: “Ah, não, foi pouca a folga que ela deu. Vou ficar mais”. E não era estrela, hein. Imagina só. Faltando pouco pra Olimpíada e eu tendo que ouvir isso. Falei pro chefe da delegação que se a atleta ficasse mais um dia longe estaria fora. Uma semana depois a atleta chega com o Dirigente, que me fez engolir aquilo ali. E eu engoli. Ele era o presidente. Ele chamou a imprensa ainda e disse: “Eu trouxe a atleta de volta”. Este foi um caso. Houve outros mais.

maria11BNC: Isso impactou no rendimento da equipe na Olimpíada certamente, não? Porque era um time já maduro, vindo de um título importante, mas que ficou em sétimo lugar.
MARIA HELENA: Mais ou menos. Houve coisas até piores, sabe. As meninas perderam o foco, se deslumbraram com a Olimpíada. A Vila Olímpica é uma coisa de louco para quem está não muito focado, você me entende? Tem muito atrativo, muito oba-oba, muita gente bonita. Algumas meninas se perderam um pouco. E lá na Olimpíada quem manda é o Chefe da Missão que manda. Eu falei com o cara, alertei, e tive que ouvir: “Na quadra você manda. Aqui fora, mando eu”. Duro, né, Bala. Fiquei de mãos atadas. Eu não tinha mais estômago pra seguir. Aí quando terminou a Olimpíada o presidente da CBB disse que iria trocar os dois técnicos. Que fora uma decepção, que precisava renovar, aquelas coisas que você sabe. Aí liguei pro Chefe da Missão, lá de Minas, e falei pra ele: “Lembra daquela carta que você disse pra eu não entregar? Se o presidente (nota do editor: Renato Brito Cunha) não parar de falar eu vou publicar a carta”. A minha demissão eu que pedi. Não foi ele que iria me demitir. Em Barcelona, a equipe estava pronta tecnicamente. O problema é que o fator externo atrapalhou demais.

BASQUETE - PAULABNC: Nessa época você saiu da seleção, e veio viver em Campinas uma das fases mais gloriosas da sua brilhante carreira. Foi campeã de tudo com a Ponte Preta, inclusive duas vezes campeã mundial em 1993 e 1994. É diferente ganhar para um time, digamos, de futebol?
MARIA HELENA: Bala, foi espetacular. Espetacular. A torcida da Ponte era espetacular. Acompanhava e levava a equipe nas costas mesmo. A equipe era muito forte, mas o apoio deles era fundamental. Éramos nós contra o time da Hortência. Aí depois conseguimos unir, no clube, Paula e Hortência. Aí perdeu a graça, né… O time era muito forte. Pra jogar aqui, o Campeonato Brasileiro, era disputa pra ver quem era o vice-campeão. Era apenas administrar. Digamos que 80% psicológico, 20% tático. O time era fantástico. Tinha Paula, Hortência, uma russa, a Elena, a pivô Karina. O time entrava pra ganhar e ganhar. É muito diferente o time que entrar pra não perder do que entra só pra ganhar. Além de tudo, nosso trabalho de base era muito bom. Em 1994, depois de três anos e meio de trabalho, a gente foi campeão de TODAS as categorias da federação. Éramos eu, Eleninha, Paulo Bassul e a Mila Rondon, além do Hermes Balbino, preparador físico. Sentávamos toda semana e preparávamos o planejamento da semana do mirim ao adulto. Todos juntos. Então a menina que começava conosco ela estava sendo preparada. A filosofia de jogo era a mesma em todas as categorias. Então eu pegava meninas da base, colocava no adulto e não tinha problemas. Helen, Silvinha, várias, todas foram dessa leva aí. Eram sempre sete adultas e cinco da base. Perdíamos muitas meninas por conta de propostas de fora. O que fizemos não foi um trabalho pessoal, mas o trabalho bem feito de uma equipe técnica, algo que é difícil de ver hoje.

maria6BNC: A gente estava conversando antes de gravar a entrevista sobre sua paixão pelo jogo, sua paixão por vencer, sua paixão por treinamento. Falta muito disso hoje quando você vê o basquete feminino hoje?
MARIA HELENA: Vou dizer uma coisa. Você falou na palavra paixão. Não. Eu tinha e tenho amor pelo basquete. Paixão é uma coisa que vem, dá e passa. Amor é diferente. Não passa. É eterno, contínuo, 24 horas mesmo. Tinha e tendo ainda. E me faz mal ver a situação que está. Eu tenho pena de ver a situação que está chegando, ou a que chegou. Agora, com essa chegada do pessoal do NBB, talvez seja uma luz no fim do túnel, uma última chance do basquete feminino sair do buraco. Se isso der certo podemos melhorar muito. Agora, acho também que as pessoas vão passando. O basquete é que não passa. O que não pode acontecer são as pessoas saírem de cena e não ter continuidade. Será que nada do que fizemos prestava? Há um monte de meninas que trabalhavam com a gente que ainda seguem trabalhando. Macau, a Anne de Freitas estão aí. Mas tem muitas que estão sem trabalhar. Fala-se muito do trabalho do técnico, mas técnico é aquele que tira o melhor do sue jogador. Não tem muito jeito. Não tem omelete sem ovo. E talento você extrai quando tem muita quantidade, algo que não vemos por aqui atualmente.

maria10BNC: Por fim: daqui a 50, 60 anos, como você quer ser lembrada?
MARIA HELENA: Como educadora. Como uma boa educadora. Eu acho que fui uma boa técnica, mas uma pessoa que ajudou muito a vida das pessoas. Os ensinamentos ficam, ficaram, ficarão. A filosofia de vida delas é baseada nas coisas que nós ensinamos. Gostaria de ser lembrada como alguém que ajudou a pessoa a crescer. Não como alguém que auxiliou a pessoa a fazer cesta, porque fazer cesta até uma máquina faz. Mas o que sempre falamos era como você viverá depois de fazer cesta. Eu tive a felicidade de ter um período longo, porque fui jogadora e técnica, mas normalmente a carreira é curta e sempre fiz questão de mostrar isso, de mostrar que é preciso estar preparado pro próximo passo sempre. Ser lembrada pelo que eu deixei além da quadra.


O triste corte de Anderson Varejão e a animadora vinda de Cristiano Felício
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Fábio Balassiano

andy1Estava escrito, né? Ontem à tarde a assessoria de Anderson Varejão enviou nota informando que o pivô do Golden State Warriors estava fora da Olimpíada de 2016 devido a uma hérnia de disco. O capixaba foi submetido a exames de imagem nos Estados Unidos e avaliado pelo médico Robert Watkins, em Marina Del Rey, na Califórnia. A declaração de Varejão no texto é de cortar coração, pulsos e tudo mais:

“É frustrante. Triste. Ainda não quero acreditar. Disputar as Olimpíadas no meu país, com a minha família, meus amigos, o público brasileiro… Isso nunca mais vai acontecer. Parece um pesadelo… Faltam menos de dez dias para os Jogos e sonhei muito com esse momento, ansiedade era grande, o frio na barriga. Estava feliz. Desde que anunciaram que as Olimpíadas seriam no Brasil, não conseguia pensar em outra coisa, mesmo durante a temporada, era impossível não imaginar, não lembrar. Infelizmente, por causa de uma lesão, vou ficar fora. É difícil demais aceitar isso'', disse.

varejao4Antes de entrar em Cristiano Felício, convocado para a seleção, alguns pontos importantes:

1) Na semana passada a Confederação divulgou que Anderson estava com LOMBALGIA. O exame nos EUA constatou HÉRNIA DE DISCO. Por que a entidade máxima demorou tanto a fazer o exame para constatar algo? Exame, aliás, que acabou nem sendo feito no Brasil, tamanha a demora da Confederação. Acho que há uma diferença grande nos diagnósticos, não? Só acho…

2) A falta de respeito com Anderson Varejão beirou o absurdo por parte da CBB neste período. Primeiro de deixar alguém com (supostamente) lombalgia sentado nos amistosos por três horas na Hebraica. Depois por SEQUER acompanhar o cara na viagem para São Francisco. Caso se importasse não só com o jogador, mas também com a pessoa, a entidade teria enviado alguém com Anderson para a Califórnia. O cara passou por um ano terrível (trocado pelo Cavs, não conquista do título com o Warriors e agora a saída da Olimpíada) e a turma da Confederação faz isso com um cidadão que está há mais de 10 anos na seleção? Que falta de sensibilidade absurda…

cris1Pouco depois do corte de Anderson a CBB confirmou ao UOL a convocação de Cristiano Felício, ala-pivô do Chicago Bulls, da NBA. Alguns pontos:

1) Menos de dois meses atrás o técnico da seleção brasileira criticou Felício publicamente por, segundo ele, não atender a uma convocação. Cheguei a escrever, aqui, que o atleta tinha todo direito de fazer o que fez, pois, principalmente, seu contrato com o Chicago é não-garantido. O tempo passou, e quem chega agora para a seleção? Cristiano Felício. Como será o primeiro diálogo entre treinador e atleta? Pagaria pra ver…

felicio2) Em termos técnicos, não poderia ser uma substituição à altura na equipe nacional. Anderson Varejão é um líder carismático e respeitado pelo grupo. Felício, por sua vez, traz o potencial físico de um jovem, o ritmo de jogo de alguém que está treinando, uma grande presença perto da cesta (no ataque e também na defesa…) e jogando pelo Bulls nos EUA e a motivação de fazer bonito jogando uma Olimpíada em casa.

3) Ao mesmo tempo, se o garrafão era motivo de esperança antes da convocação, preocupação até ontem, não é a chegada de Felício que coloca novamente as coisas no patamar de tranquilidade. Cristiano é um jovem que chega para tentar ajudar, e não para ser o salvador das ausências de Tiago Splitter, Vitor Faverani e Anderson Varejão e da falta de ritmo de Nenê e Augusto Lima, que jogaram pouco por Wizards e Real Madrid, respectivamente, na última temporada. Devagar com o andor. É recomendável.

felicio3Por fim, continuo com esperança de que a seleção brasileira faça uma boa campanha na Olimpíada do Rio de Janeiro. Quão boa, quão longe irá chegar, é que não tenho a menor das ideias.

É óbvio que Felício terá um impacto muito grande na rotação do técnico Rubén Magnano (talvez até de titular, começando as partidas ao lado de Nenê…), mas é, ainda e sem ver os amistosos contra Austrália e Lituânia neste fim de semana em Mogi, é impossível falar com mais profundidade. Convém esperar um pouco e tentar compreender como será este encaixe da nova peça ao grupo brasileiro.


Personagens do Basquete Brasileiro: Maria Helena Cardoso (Parte I)
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Fábio Balassiano

maria1A história do basquete feminino brasileiro se confunde com a de Maria Helena Cardoso. Maria Helena Cardoso é, na verdade, na essência, de fato e de direito, o basquete feminino brasileiro. Nascida em Descalvado há 76 anos, fez parte da primeira geração que brilhou internacionalmente, conquistando o bronze no Mundial de 1971 em São Paulo (4,5 pontos de média) e o primeiro ouro da história da modalidade no Pan-Americano de 1971 em Cali, Colômbia.

Como técnica, formou um punhado de atletas (Paula entre elas), deu a geração de Paula, Hortência e Janeth a chance de ganhar o primeiro título (o Pan-Americano de 1991) e levou o grupo a primeira Olimpíada (em Barcelona, 1992). Por clubes, abocanhou três mundiais interclubes (dois pela Ponte Preta em 1993 e 1994 e outro pelo BCN em 1998). Maria Helena Cardoso é uma personagem do basquete brasileiro sem dúvida alguma.

maria3BALA NA CESTA: Queria que a senhora começasse a falar da sua vida primeiro. A senhora nasceu em uma cidade chamada Descalvado, do interior de São Paulo. Era uma família de dez irmãos, nove mulheres e um homem, e havia algumas que jogavam. É isso?
MARIA HELENA CARDOSO: Sim, é isso. Uma das minhas irmãs que jogava é a Maria Aparecida Cardoso, a Cida , mãe do Cadum, que jogou na seleção brasileira. Na minha casa era assim. Quando minhas irmãs iam jogar, todos íamos juntos. Nos intervalos do treino, eu brincava com a bola, arremessava, fazia exercícios com a bola de basquete. Assim que comecei. Foi engraçado que, depois quando já jogava, havia outras quatro irmãs atuando e queríamos montar um time da família. Uma ficou noiva, parou e não deu pra montar o time das irmãs. Meu pai, Osvaldo Cardoso, apelido Calá, foi jogador de futebol, minha mãe, Ana Cardoso, jogou basquete na escola, então a família inteira sempre gostou muito de esporte. Tem um vídeo da história da minha vida que o Museu de Descalvado fez em minha homenagem que fala um pouco dessa minha história.

maria8BNC: E como começa a sua história no basquete efetivamente?
MARIA HELENA: A cidade disputava Jogos Abertos, ali na década de 50. Comecei a jogar em 1954. No ano seguinte fui fazer um torneio em Piracicaba, jogando pelo time de São Carlos. Tiveram informações minhas, me buscaram em Descalvado e fui jogar por eles. Em 1956 a minha irmã Cida jogava no Pinheiros, capital de São Paulo. Ela queria me levar pra jogar lá para me desenvolver. Tinha 16 anos, muito jovem, meu pai não deixava eu sair de casa pra jogar basquete. Eram outros tempos, né. Como não podia ir morar na capital, ia treinar só nos fins de semana. Viajava seis horas de trem, treinava sábado, domingo e voltava pra casa no final da noite de domingo. Isso em 1956. Mas treinava muito, muito mesmo. Treinava e jogava pelo Pinheiros. Neste mesmo ano fui convocada para a seleção Paulista. Logo depois pela seleção brasileira. Em 1958, Piracicaba queria montar uma equipe para disputar os Jogos Abertos e montou uma equipe. Fomos cinco direto – eu, Eleninha, Delci e Genesia, de Sorocaba, e Zilá. Isso em 1958, hein. Aí fiquei em Piracicaba direto. Já havia me formado para ser professora, comecei a dar aula e jogava. Fui da primeira turma de Educação Física que houve na cidade inclusive.

maria11BNC: Na seleção, então, a primeira vez com 16 anos…
MARIA HELENA: Exatamente. E com uma coisa engraçada: quando cheguei na seleção, foi a minha primeira vez na equipe e a última da minha irmã. Fomos ao Sul-Americano do Equador em 1956. Logo depois, Mundial no Rio de Janeiro em 1957. Eu fui, mas ela não foi. Foram 16 anos na seleção brasileira, 156 partidas.

BNC: Você pegou literalmente o começo do basquete feminino brasileiro. Como era essa época?
MARIA HELENA: Quando entrei, em 1956, eram oito novatas e quatro das que tinham ganho o Sul-Americano de 1954. Então tinha muita coisa de novidade pelo basquete, e muita coisa diferente por ser um grupo totalmente novo, de idade e de entrosamento mesmo. A gente, por isso tudo, demorou a começar a ganhar. Fomos sentir um gostinho do que era vencer, disputar medalhas, a partir do Mundial de 1971 em São Paulo, quando fomos terceiro, perdendo a medalha de prata no saldo de pontos mesmo. Foram quatro Mundiais com a camisa da seleção brasileira.

basketBNC: A geração da Paula e da Hortência é a que mais teve resultados internacionais, claro, mas a sua teve resultados internacionais interessantes e quase ninguém sabe…
MARIA HELENA: Sim, teve mesmo. Apesar das dificuldades da época, de um estilo de se fazer basquete totalmente diferente do que é feito hoje, fomos um time que teve um sucesso danado. E numa época que o basquete feminino não fazia parte do programa dos Jogos Olímpicos. Teve até uma história engraçada. Fizemos um jogo exibição com a seleção brasileira em Madri contra a Thecoslováquia. Era para o pessoal do Comitê Olímpico Internacional olhar e aprovar a nossa entrada. O problema foi que o México, que seria a sede em 1968, não quis. Depois os outros países não quiseram e o basquete feminino só entrou mesmo em 1976. A minha geração só jogava Sul-Americano, Pan-Americano e Mundial.

baske2BNC: Foi neste ano de 1971 que você teve uma das grandes glórias da sua vida esportiva, a conquista do Pan-Americano de Cali, na Colômbia…
MARIA HELENA: Foi o primeiro grande título do basquete feminino brasileiro. Ah, foi lindo, lindo, né, Bala. A gente tinha acabado de sair do Mundial de São Paulo, então a equipe estava muito bem treinava. Você vê, o tempo passa, né. Foi neste ano a primeira vez que o Antonio Carlos Barbosa foi de assistente técnico do Waldyr Pagan. Neste ano de 1971 ganhamos não só o feminino, mas também o masculino naquele Pan. E aí surgiu uma figura importante demais pro basquete, que foi o Luciano do Valle. Ele nos ajudou muito com entrada na televisão. Foi um momento de afirmação pro basquete, de desenvolvimento e popularização mesmo. Ele era repórter na época e se entusiasmou com o nosso esporte.

maria8BNC: Não sei onde foi que eu li, ou quem me contou, mas a primeira viagem para a Europa da senhora como atleta foi depois de 10 anos de seleção. Como não havia intercâmbio algum, e as competições naquela época eram na sua maioria nas Américas, você foi cruzar o oceano mesmo apenas depois de dez anos de seleção. É isso mesmo?
MARIA HELENA: (Risos) Como é que você sabe disso? É isso, é isso sim. Foi em 1965. Já estava com 25 anos. Esse intercâmbio fazia muita falta. Eram outros tempos, mas fazia falta, sim. Quando a gente ia jogar contra o pessoal da Europa era um desespero, era a cega mesmo. Quando eu era técnica mesmo era complicado. Fomos jogar com a China no Pré-Olímpico de 1992, o de Vigo, Espanha, e fazia cinco anos que a gente não sabia nada da China. Não tínhamos informação, vídeo, nada. Hoje é fácil, está tudo aí na internet. Pra estudar a mesma coisa. Eu, como treinadora, cansei de pagar viagem do meu bolso para ir a Itália, Espanha, Estados Unidos aprender. Para ir a Olimpíada a mesma coisa. E era engraçado, porque eu começava a pagar dois anos antes dos Jogos acontecerem e terminava de pagar dois anos depois. Comprava o pacote, ia para a Olimpíada, continuava pagando mais 24 meses. Quando estes 24 meses acabavam, entrava mais uma Olimpíada. Foram várias assim, viu. Ia pra aprender, para adquirir conhecimento. Pagava do meu bolso porque queria aprender e não me arrependo. Vi cada treino do Bob Knight, lendário treinador universitário americana, que me lembro até hoje. Adorava ele, adorava mesmo. Tinha um técnico da Colômbia que era assistente dele e que eu conhecia. O cara me mandava cartas com jogadas, método de treinamento, vídeos de treinamentos. Aprendi muito com isso.

maria4BNC: Eu vi um pouco da carreira da senhora já como técnica. Como era a Maria Helena jogando?
MARIA HELENA: Eu era uma jogadora tapa-buraco. Jogava em todas as posições, menos de armadora. Era polivalente, e era bom porque assim sempre tinha um lugar pra mim nas equipes, né. Levei uns seis, sete anos para ser titular da seleção. Era muito nova, estava chegando. Demorei um pouco para ser titular mesmo, mas no treinamento eu sempre entrava, tinha espaço. Sempre fui uma jogadora de equipe. Não gostava de aparecer, de destaque. Defendia muito, jogava mesmo pra equipe.

BNC: Imagino que nessa época de fim de carreira a senhora também treinava times em Piracicaba enquanto jogava, certo?
MARIA HELENA: Sim. Eu dava aula em uma escola. Eleninha em outra. E uma outra professora, considerada a bicho-papão de títulos de Piracicaba, em outra. Ali começou-se a criar um movimento interessante de basquete na cidade. Eram três colégios com boa estrutura e que tinham bons times. Em 1973 eu parei de jogar e comecei a minha carreira de técnico mesmo. Comecei como técnica da base, de divisões inferiores mesmo. A Eleninha é que era técnica do adulto da UNIMEP quando fomos convidadas para montar a equipe e todas as suas equipes da cidade. Todos de Piracicaba se acostumaram, e gostavam, da nossa equipe. Não só porque a gente ganhava título quase direto, mas sim porque tínhamos equipes em todas as categorias. Eram muitas meninas jogando e treinando conosco, algo que me orgulho demais.

maria2BNC: Foi nessa época que você conheceu a Paula?
MARIA HELENA: Sim. Estávamos com o time já em Piracicaba e eu fui ao Pan-Americano de Porto Rico de 1979. Foi o Pan que o Brasil perdeu das Ilhas Virgens no masculino. Aquele que o Bob Knight meteu o dedo na cara do Isiah Thomas em um treino. E eu vendo aquilo. Chamei uma vez a Paula e a Vania para ver se elas tinham interesse em vir jogar conosco. Quem nos ajudou muito nessa época foi a Marina Jurado, que jogou na seleção brasileira e que me conhecia bastante. Trouxemos a Paula ainda como juvenil. Ela era de Jundiaí, mas vimos nela um potencial grande para aumentar o nível da nossa equipe. Não sou muito saudosista, sabe, Bala. Não sei se porque vivi muito, vi muitas coisas, mas essa época foi muito maravilhosa. Passaram mais de 500 meninas pelas nossas mãos desde essa época. Todas com histórias de vida diferentes, todas que pudemos ajudar de alguma maneira. Hoje em dia com o Facebook eu recebo várias mensagens de meninas que foram treinadas pela gente e que mesmo longe do esporte me avisam que estão utilizando, em suas carreiras, a nossa metodologia de trabalho, de motivação, de capacitação. Isso é gratificante, sabe. Dá mais prazer do que ganhar. A gente não tinha o objetivo de ganhar, só. Eu sempre dizia a elas: “Eu não quero uma máquina de fazer cesta, um robô pra jogar basquete. Eu quero que vocês sejam as melhores pessoas que puderem ser”. Ninguém chega ao topo se não tiver essa parte do valor humano muito apurada. Nosso primeiro trabalho, portanto, era de formação, de conhecimento da pessoa. Depois entrávamos com a metodologia esportiva, com o basquete em si. Somos professoras, né, educadoras. Ainda mais que estávamos dentro de uma universidade, a UNIMEP, então o nosso lado de professora convergia com o ambiente que estávamos. Foi um momento muito legal da minha vida e da Eleninha também.

lena2BNC: Foi fácil o seu começo como técnica, ou nada disso? Digo, na parte de ensinar, passar conceitos, metodologia…
MARIA HELENA: Fácil? Nada fácil. Foi bem difícil, Bala. No começo a gente teve muita jogadora que brigamos muito, demais mesmo. Passava o tempo e elas vinham dizer que estávamos certas, que o que fazíamos era para o bem delas. Elas pensavam que a gente era brava, que gostava…

BNC: Você sabe que eu te admiro bastante, mas que a senhora era brava, era brava…
MARIA HELENA: (Risos) Não é que era brava. É que eu queria disciplina. Sem disciplina você não chega a lugar algum, Bala. Para o atleta jovem, isso em alguns momentos gera uma interpretação ruim, equivocada. O jovem quer liberdade, né? Mas se você perguntar para essas jovens aí, que treinavam conosco, se elas gostavam, vai ver lá o que elas vão te responder. Todas vão dizer que hoje compreendem o que fazíamos. Elas se reúnem e ficam contando aquelas histórias lá. Eu, por exemplo, só me lembro do professor que mais me deu bronca, que mais exigiu de mim. O professor bonzinho eu não lembro. Você lembra?

maria5BNC: Não lembro mesmo…
MARIA HELENA: O exigente marca. Eu tive uma passagem neste sentido no Pan-Americano de 1991 em Havana, Cuba. Nesta época eu trabalhava muito para ter a Marta, grande jogadora, mais integrada ao grupo. No início tive uma dificuldade de fazer a Marta entender a filosofia, essas coisas todas. Teve uma vez que ela me disse: “Ah, mas você não larga do meu pé. Você só briga comigo”. E eu disse a ela: “Parei com você então”. Fiquei três dias sem falar com ela. Parei mesmo. Passou esse tempo, e ela veio me procurar dizendo: “Eu te fiz alguma coisa, Maria Helena? Você não fala mais comigo…”. E aí eu disse: “Não foi você que pediu?”. Jogador acha ruim, mas gosta que você exija dele. O grande técnico, o grande líder, não é aquele que exige todos da mesma maneira. É aquele que consegue descobrir a forma singular de falar com pessoas completamente diferentes. Cada pessoa tem uma porta de entrada que você, como líder, deve descobrir. Tem jogador que se você gritar com ele, ele não joga. Tem outros que precisam desse fogo. Aí é o segredo. Sempre pedi a D’s para me dar a palavra certa, na hora certa. Para que eu pudesse falar e ter a resposta certa da pessoa. Isso sempre norteou muito a minha vida. Sempre fui honesta, e sabia que tinha Alguém olhando. Bala, sou uma pessoa de fé. Vou lhe dizer uma coisa. Sabe aquela bola de fim de jogo que cai? E aquela bola que não cai? Pode ter certeza que a bola que cai é daquela pessoa que treinou muito, mas muito mesmo. É a bola do mérito, é a bola do merecimento, é a bola da pessoa que lutou muito para fazer aquilo ali acontecer. Se você treina muito, se teu grupo é coeso, a bola vai cair. É a bola do merecimento que eu sempre falo. Não é detalhe. Acredito muito nisso em toda vida. Se você é honesto, trabalha direito, faz as coisas de forma correta, não tem como dar errado. Meu trabalho sempre foi norteado nisso. Eu errei? Sim, errei muito. Mas sempre tentando fazer as coisas corretamente.

CONTINUA…


Campeão da NBA, venezuelano Carl Herrera diz: ‘Jogar Olimpíada foi minha maior glória’
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Fábio Balassiano

herrera31Falar com Carl Herrera é falar com a história do basquete da América. Primeiro latino-americano a conquistar título da NBA, o venezuelano que completa 50 anos em dezembro ganhou o anel de campeão com o Houston Rockets em 1994 e em 1995 em uma época onde não havia tantos jogadores internacionais assim na principal liga de basquete do mundo (ainda atuou por Spurs, Grizzlies e Nuggets).

Com carreira de sucesso também na Europa (jogou no Real Madrid) e empolgado com a seleção venezuelana que virá ao Rio de Janeiro para a segunda participação olímpica da história do basquete do país, Carl, ala de 2,06m e dono de uma defesa espetacular tanto no perímetro quanto perto da cesta, relembra os principais momentos de sua carreira nessa entrevista. Os títulos da NBA, sua infância difícil, o duelo contra Magic Johnson, seu ídolo, e a emoção de ter levado a sua nação pela primeira vez aos Jogos Olímpicos em Barcelona, 1992. Confira porque o papo ficou legal.

carl4BALA NA CESTA: A Venezuela conseguiu a vaga para a Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro de maneira até certo ponto surpreendente, sendo esta a segunda participação olímpica do país. Ganhou o Sul-Americano em 2014 e anos passado ganhou do Canadá em uma das semifinais no Pré-Olímpico disputado no México. Neste ano também conquistou o título do Sul-Americano. O que esperar deste time venezuelano? Você virá ao Rio para acompanhar o time?
CARL HERRERA: Não dá pra prever muita coisa porque o nosso grupo é duríssimo, com EUA, França, Austrália, China e Sérvia. São adversários fenomenais. Mas temos uma seleção que tem muito potencial. Em pouco tempo este time aprendeu como se joga o verdadeiro basquete, o basquete que se joga em conjunto. Nosso grupo mantém as características, mas conseguiu mesclar com um jogo mais, digamos, europeu. Diferente do que fazíamos até pouco tempo atrás. Não temos muita altura, mas temos muita velocidade e no momento confiança também, o que é importante. É difícil passar de fase? É! Mas nada é impossível. A bola é redonda, né? Chegamos com muita confiança e jogamos como deve ser. Uma coisa que tenho dito é que obrigatoriamente temos que subir a intensidade. Em uma Olimpíada são os 12 melhores times do mundo, e não os melhores do continente. Esta questão de ser intenso os 40 minutos do jogo é muito fundamental para a nossa equipe fazer um bom papel. Devo ir ao Rio de Janeiro como convidado da delegação.

nestorBNC: E o que dizer de Nestor Che Garcia, técnico que não só conquista títulos com a seleção, mas também com o Guaros de Lara, clube que dirige e que venceu a Liga das Américas nessa temporada?
HERRERA: Che é um fenômeno. E não há muito mais o que possa dizer sobre ele (risos). Todos temos muito respeito pelo que ele tem feito por aqui. Os resultados falam por si só, mas não é nem isso. Ele é um ser humano respeitoso, que entende as dificuldades da Venezuela e faz de tudo para melhorar o basquete. Dá treino até altas horas da noite, é incansável para corrigir os seus atletas e mostra a todos como se joga o verdadeiro basquete. Já é considerado um Venezuelano. É um cara que tem um coração imenso. Amamos ele, e os jogadores amam ele também. Soube entender a filosofia nossa e adaptar ao que ele acredita.

oscarBNC: Você fez parte da geração venezuelana que disputou a primeira Olimpíada pelo país em 1992. Imagino que do começo ao fim de sua carreira na seleção enfrentou muito a seleção brasileira. O que lembra daqueles duelos?
HERRERA: O que eu lembro? Que apanhávamos muito. E muito é muito mesmo (risos). Era uma geração maravilhosa a do seu país com Oscar, Marcel, Pipoka e o técnico Ary Vidal, maravilhoso com seu jeito explosivo. Nossa, nem gosto de lembrar, Fábio. Nos matavam muito. Nos ganhavam com muita diferença de pontos. Lembro perfeitamente que começávamos bem, jogávamos bem, mas quando perdíamos a concentração por dois ou três minutos choviam arremessos nas nossas cestas e aí a partida ia pro ralo.

herrera12Mas usamos o Brasil como espelho para evoluir e diminuir essa margem. Foi assim que ganhamos o Sul-Americano de 1991, o primeiro título da história da Venezuela no basquete masculino. Foi em Valencia, nossa casa, uma festa maravilhosa. E a quem vencemos na decisão? O Brasil, por 122-121, uma partida memorável e decidida no último segundo. Fomos perdendo pro vestiário de 60-47, mas fizemos um segundo tempo estupendo, viramos aquele jogo por 75-61 na segunda metade e conseguimos sair com o título.

magic2BNC: Há duas histórias que quero conversar com você sobre o Pré-Olímpico de 1992. A primeira é que foi a primeira vez que o Dream-Team americano jogou junto. Vocês os enfrentaram na final. Como foi jogar contra aquele time histórico americano em Portland?
HERRERA: Não há palavras para descrever o que foi jogar contra aquele time fenomenal. Foi a maior seleção que se juntou para jogar basquete – e que ainda se deu ao luxo de deixar um Isiah Thomas de fora devido a briga que ele tinha com o Michael Jordan. Lembro que entramos um pouco relaxados na final porque já tínhamos nos classificado para a Olimpíada, a primeira da história do nosso país, mas mesmo que estivéssemos concentrados o resultado final não iria mudar muito, não (risos). Perdemos por quase 50 pontos (127-80).

magic1BNC: E como foi enfrentar aqueles caras todos? Tem algum momento especial que você se lembre?
HERRERA: Tem um episódio engraçado. Meu ídolo quando jogava na Venezuela era o Magic Johnson. Queria jogar como ele. Era meu modelo de atleta. Aí em 1991 fui para o Houston e só pensava em enfrentá-lo. Lembro que entramos em avião para jogar contra o Lakers em Los Angeles. Quando chego ao aeroporto, todos com cara fúnebre, triste, de fim de mundo. Perguntei para um companheiro, e ele me informou que havia acabado a coletiva em que o Magic anunciou que havia contraído o vírus da AIDS. Quando anunciaram que ele ia se aposentar, eu chorei. Não só por causa da aposentadoria, mas chorei porque não poderia jogar contra o meu maior ídolo. Depois ele voltou e aí sim nos enfrentamos no Pré-Olímpico de Portland. Tem um momento maravilhoso da final contra os EUA que dou um toco nele em uma bandeja. Como ele era meu ídolo, eu cheguei a ir para perto dele para pedir desculpas, mas recuei (risos). Uma vez, quando estava trabalhando em Los Angeles, psn, falei com ele sobre essa passagem e demos boas risadas.

BNC: Tem uma história outra bacana que é a seguinte. O Marcel de Souza me contou que nas semifinais estavam Brasil x Venezuela de um lado e EUA x Porto Rico do outro. E só se falava na reedição da final entre Brasil x EUA, já que o Brasil havia vencido os EUA no Pan-Americano de 1987. Só que vocês venceram o Brasil e jogaram a final contra os Estados Unidos. O que você lembra disso exatamente?
herrera10HERRERA: O que eu me lembro? De tudo. Vou lhe contar algumas coisas que não sei se você sabe. Em primeiro lugar, havíamos jogado contra o Canadá em um round eliminatório. O Canadá tinha três jogadores na NBA, um timaço, e vencemos por 76-72. Nem acreditávamos que vencemos os caras para nos classificar para a nossa primeira Olimpíada. Chegamos ao vestiário todos muito felizes e vi o Julio Toro, nosso técnico, coçando a cabeça. Perguntei a ele: “O que houve?”. E ele me disse: “Hoje vencemos, mas amanhã temos o Brasil. Não vou voltar pra casa com outra derrota como a que tivemos na primeira fase”. Na fase de grupos perdemos do Brasil de 128-81 e não vimos a bola. Lembro que quando voltamos ao hotel só víamos chamada no canal NBC falando da final que aconteceria no dia 5 de julho entre EUA e Brasil. EUA obviamente favoritos contra Porto Rico, e o Brasil achando que seria uma moleza contra nós de novo. Olha, o que fizeram de chamada na televisão com imagens brasileiras e norte-americanas, da decisão, do Dream-Team, foi uma enormidade. Só que jogaríamos contra o Brasil, né? E vencemos por 100-91. Chegamos ao hotel na volta do ginásio e o que nos esperava? A equipe da NBC para regravar chamadas para o jogo final que faríamos contra os EUA. Lembro disso fortemente até hoje.

carl101BNC: E como foi a chegada a Venezuela? Imagino que a recepção deva ter sido maravilhosa…
HERRERA: Foi muito emocionante, Fábio. Muito emocionante mesmo. Lembro que quando conquistamos a vaga olímpica eu saltava, chorava, gritava, não sabia direito o que fazia. Quando voltamos ao nosso país, havia mais de 30 mil pessoas nos esperando no aeroporto. O basquete sempre foi popular na Venezuela, e aquela conquista era uma conquista de todos. Tivemos que sair escoltados do aeroporto para nos encontrar com o presidente venezuelano, que queria conversar e nos dar os parabéns. Nos sentimos os Beatles. Sabe o que é engraçado? Até hoje em dia me param na rua para dizer como foi maravilhoso dormir de madrugada naquele ano de 1992 para nos acompanhar no Pré-Olímpico de Portland. O fuso horário deixou os torcedores com sono, mas eles não deixaram de nos acompanhar.

carlhBNC: Em termos de emoção ter levado a Venezuela a uma Olimpíada só perca quando falamos dos dois anéis de campeão da NBA que você tem, né?
HERRERA: Não, não mesmo. Vou lhe dizer uma coisa: os títulos da NBA são a maior glória da minha carreira, mas se você pensar bem é mais fácil jogar na NBA do que levar uma seleção não muito tradicional a uma Olimpíada. Na NBA eu era um jogador de composição de elenco. Tinha participação, mas era uma peça apenas. Na seleção muitos dependiam de mim, do Ivan Olivares e do Gabriel Garcia. Éramos nós os líderes responsáveis por tentar fazer algo impossível (se classificar às Olimpíadas) acontecer. Pode parecer piegas, clichê, mas te digo com toda sinceridade do mundo: jogar uma olimpíada pela Venezuela com meus companheiros de toda vida pra mim foi mais grandioso que ganhar um anel da NBA com os Rockets. Ir a uma Olimpíada, levar a Venezuela pela primeira vez a uma Olimpíada, foi magnífico. Lembro de todos os dias, todos os momentos, tudo o que vivemos juntos naquele período em Barcelona.

carl11BNC: Você falando assim eu fico lembrando que você foi um grande desbravador. Fez parte da primeira grande geração da Venezuela, foi um dos primeiros latinos a brilhar no Real Madrid, depois ganhou na NBA. Você se sente um grande desbravador para os latinos no basquete internacional?
HERRERA: Eram outros tempos, mas de fato as coisas aconteceram para mim mesmo. Aprendi muito com a NBA e em todos os lugares que passei deixei uma mensagem importante que os jogadores do nosso continente também entendem e respeitam a modalidade. Tem uma coisa que acho engraçada. Muita gente fala do Manu Ginóbili ser o primeiro latino-americano a ganhar um título da NBA, mas se esquecem que na década de 90 eu já estava lá. E ajudei o Houston Rockets a ganhar duas vezes, em 1994 e 1995. É um orgulho muito grande para mim ter sido o primeiro. Sobre ser um desbravador, é o que muita gente me diz. Eu não posso te dizer isso, pois seria arrogante. Mas acho que abri portas importantes. Hoje você vê um monte de latinos na NBA. Antes era difícil. São outros tempos, com tudo muito mais aberto, o que é ótimo.

carl150BNC: Você deve ser um baita exemplo para as crianças na Venezuela, não?
HERRERA: Sempre tento ser positivo para as crianças. Falo para que sempre treinem muito e que estudem. Que nunca se rendam. Eu tive que passar por muitas coisas para chegar até o patamar que cheguei. Minha infância não teve nada de fácil, nada mesmo. Nasci em Trindad e Tobago, vim para a Venezuela muito cedo, meus pais trabalharam muito para educar a mim e a meus irmãos da maneira mais apropriada e tive que me agarrar às chances que apareciam. Estudar na Universidade de Houston, por exemplo, foi uma das tábuas de salvação que eu tive. As coisas foram muito difíceis, e sempre tive o apoio dos meus pais para que não desistisse. A oportunidade me foi dada, e eu tive a perseverança de seguir treinando, de não desistir.

carl1010BNC: São outros tempos, como você disse acima, para entrar na NBA e também na quadra. O que você acha sobre o jogo atual?
HERRERA: Olha, ao analisar o jogo de hoje é preciso entender o contexto todo do basquete. Não é algo tão simples de resumir mas vou tentar. A NBA, como você disse bem, mudou muito. Antes os caras que queriam entrar na liga tinham que ficar três, quatro anos treinando nas faculdades. E para os melhores técnicos. Você fala de Michael Jordan, Isiah Thomas, Charles Barkley, todos esses gênios ai ficaram no mínimo três anos na faculdade treinando como loucos, duas, três vezes por dia para treinadores muito exigentes e que demandavam não só na parte técnica mas também na comportamental. Assim, o atleta não chegava preparado apenas tecnicamente à NBA, mas sobretudo mentalmente. Chegava maduro, chega como um adulto.

carl3Agora chegamos em um momento em que os jogadores saem de um ano de faculdade, 15, 20 jogos, e vão para a NBA. Passam por um Draft que mistura não só recém-saídos de um período curto de faculdade mas também atletas internacionais que não estão aptos, ainda, ao estilo de jogo americano. É óbvio que vai gerar uma distorção, uma diferença, uma queda de qualidade. Não é saudosismo, mas são, digamos assim, ossos completamente diferentes em um mesmo corpo. Para jogar bem na NBA é preciso de um grau de maturidade muito alto. Os técnicos que me ensinaram, os que me mostraram como era o basquete, me mostraram que eu tinha que contribuir para o melhor da minha equipe. Hoje em dia o garoto só quer saber de fazer ponto, não de contribuir para a sua equipe. Lembro que algumas vezes eu tinha que pontuar. Em outros, defender. Em outros momentos, fazer coberturas. Aprendi que o mais importante era não eu jogar o que eu queria, mas dar opções para o que a equipe precisava. Hoje em dia jogadores fazem apenas uma função. Eu era mais polivalente.

rudy1BNC: Um desses treinadores históricos que você cita é o Rudy Tomjanovich, que o dirigiu no bicampeão Houston Rockets da década de 1990?
HERRERA: Sem dúvida alguma. Rudy é um ser humano fantástico. Vou te contar uma história sobre ele. Quando cheguei à NBA para a temporada 1991-1992, vinha de uma temporada ótima pelo Real Madrid. E aí você chega confiante. A diretoria me disse que seria importante, mas joguei muito pouco para o técnico Don Chaney (13 minutos por jogo). Aquilo me incomodou muito, sabe? Estava bem, sabia que tinha nível, mas não jogava, não conseguia desempenhar bem o meu papel. Era estranho. No campeonato seguinte chegou o Rudy. Lembro que na pré-temporada ele um dia me chamou, colocou um vídeo e me disse: “Carl, este jogador aí, o armador Kenny Smith, é o piloto da equipe. Está vendo aquele ali? É o Vernon Maxwell, e é o co-piloto. Robert Horry, calouro, tem que jogar, é o futuro da equipe. Temos também o Otis Thorpe, excelente perto da cesta. E o Hakeem Olajuwon, o líder do grupo e o motivo pelo qual os torcedores pagam para nos assistir. E sabe por que eu lhe chamei aqui? Porque jogar defesa como você ninguém pode fazer neste grupo. Só você. Não tem ninguém que faça isso como você no perímetro. Otis Thorpe é bom, mas não consegue marcar fora. Hakeem é um fenômeno, mas não pode sair de perto da cesta. Aí é você, de sexto homem, e podendo defender tanto no perímetro quanto perto da cesta. Seus minutos estarão aí, de 20 a 25 minutos, eu lhe prometo isso. Você topa ser meu sexto homem, o responsável pela defesa?”. E ali eu entendi o que ele queria de mim. Eu jogava, tinha minhas funções, o time vencia e eu gostava. Algumas vezes metia 15, 20 pontos e era espetacular. Outros, marcava a Karl Malone, a Charles Barkley, a Dan Majerle. E fazia 5 pontos. O time ganhava. Foi por isso que mesmo não sendo brilhante joguei por 8 anos na NBA. E numa NBA de nível altíssimo, digo.

carl222BNC: Falando agora apenas do lado de dentro da quadra: o jogo hoje lhe agrada? Ou mudou demais para o seu gosto?
HERRERA: O jogo mudou muito. Muito, mas sobretudo para isso que se chama de marketing. Mudou para se tornar atrativo, para se tornar atraente. Muitos não conhecem a história do basquete. Hoje em dia é a cultura de YouTube, de moda. Com todo respeito ao Warriors, já ganharam muita coisa, mas se você fala com bons jogadores de basquete do passado, este jogo de hoje em dia é chatíssimo. Parece um jogo das estrelas durante da temporada. Isso de 160-157. Como assim? Onde estão as defesas? Onde estão os jogos de interior? Onde estão as variações entre jogo interno e externo? O basquete precisa de um colorido diferente. Hoje em dia os pivôs não ficam mais perto da cesta. Realmente, para mim, hoje em dia não tenho muito interesse pelo que eles fazem. Eu gostava mais do que acontecia antes. Pode parecer saudosista, mas para mim é real: muito poucos de hoje seriam estrelas na época em que joguei. Aquele Detroit Pistons, por exemplo, era um time duro, forte, massacrante. Hoje em dia os 10 atletas do elenco seriam eliminados com seis faltas no primeiro tempo. Havia alguns times excelentes e que quase nunca chegavam. Fala-se muito do Chicago, do Lakers, do Boston, do Pistons, que venceram, mas se você pegar os elencos do Portland, do próprio Cleveland, eram muito bons, recheados de atletas de alto nível. O Atlanta tinha um craque de bola chamado Dominique Wilkins. Essa galera da antiga tinha talento de sobra e conhecia o basquete. Hoje em dia os atletas conhecem muito de pontuar, de fazer pontos, mas praticamente só isso. E o jogo não é só isso.


Na seleção masculina, a preocupação se chama Anderson Varejão
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Fábio Balassiano

anderson7A seleção brasileira masculina fez o primeiro amistoso na preparação para a Olimpíada no sábado em São Paulo. Aquela coisa que sabemos, né? Fechado, contra um rival fraquíssimo, só pra convidados, errando o hino da Romênia e com todos os problemas de organização da CBB que a gente conhece. Se o fora de quadra foi o desastre de sempre, na quadra da Hebraica residia a preocupação de Rubén Magnano. Conforme bem detalhada na matéria do UOL, o treinador descreveu como “muito preocupante'' a situação de Anderson Varejão, pivô do Golden State Warriors que está sofrendo com uma lombalgia há cerca de uma semana (não treina há sete dias portanto).

ATUALIZAÇÃO ÀS 10:26 – Anderson Varejão viajando para os EUA. Warriors quer avaliar a situação do seu atleta. Cbb informada e liberou (dúvida é se alguém da entidade seguiu com Anderson pra Oakland).

varejao5Nesta segunda-feira a seleção volta a enfrentar a Romênia às 20h (também na Hebraica, também para convidados, também sem transmissão por TV ou Web – uma beleza só…) e as atenções estarão novamente voltadas para Varejão. Pelo que o blog apurou na manhã de hoje ele realizará um exame detalhado, dando a comissão médica da seleção a real situação física dele. Até o momento, pelo que soube internamente, não está descartado o seu corte, mas Magnano e seus assistentes preferem queimar todas as alternativas possíveis antes de substituir o pivô do Warriors.

varejao4E preferem queimar as alternativas também por um motivo muito simples. Noves fora a importância de Varejão (técnica, tática e de liderança), Magnano pode trocar Anderson pelos nomes de suplentes enviados à FIBA (nomes não divulgados) em março. Dentre estes consta o de Cristiano Felício, que brilhou no Chicago Bulls na Liga de Verão e que está treinando pesado com a franquia nos EUA.

Também pelo que apurei, o prazo limite dado não pelo Comitê Olímpico Internacional (trocas são permitidas no máximo até o dia anterior da entrada na Vila Olímpica – 2 de agosto, no caso), mas pela comissão técnica é o dia 30 de julho, data do primeiro jogo do torneio em Mogi contra a Austrália. Se Varejão conseguir jogar até lá, muito bem. Se não atuar, Magnano tomará a sua difícil decisão.

varejao3Do meu canto, sinceramente falando e conversando até com um grande conhecedor do jogo neste fim de semana, creio que o melhor seja manter Anderson Varejão. Se há mesmo a opção de Cristiano Felício, não haveria discussão (em ritmo e treinando em alto nível). Ao mesmo tempo, eu tentaria recuperá-lo nem que fosse para jogar os últimos jogos da da fase inicial da Olimpíada e eventualmente o das quartas-de-final (o jogo que leva às medalhas, né…). A preocupação com a condição dos atletas que chegarão ao Rio-2016, relatada aqui por mim na semana passada, agora é mais forte do que nunca – e isso pode pesar para a obtenção, ou não, de bons resultados nos Jogos Olímpicos.

O que vocês acham? Concordam comigo? Se Varejão for cortado, quem deveria ser chamado?


As 12 de Barbosa e a preocupante preparação olímpica da seleção feminina
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Fábio Balassiano

barbosa1O técnico Antonio Carlos Barbosa, que nesta semana carregou a tocha em Americana, divulgou as 12 atletas que representarão o país no Rio-2016 (Patricia e Karina foram as últimas cortadas). Vamos à lista:

Armadoras: Adrianinha e Tainá
Alas: Tati, Iziane, Palmira, Ramona e Joice
Pivôs: Érika, Clarissa, Damiris, Nádia e Kelly

dupla1Antes de falar do elenco, quero dizer apenas o seguinte: teve MUITA gente sabendo MUITO antes das atletas cortadas a lista final. É um desrespeito muito grande, muito grande mesmo com as jogadoras.

Sobre o elenco final de Barbosa, há duas constatações: 1) Não há motivo algum para sermos otimistas com a seleção feminina, pois o grupo não inspira a menor confiança; 2) Se está ruim hoje, ficará pior amanhã. E explico: a média de idade de quase 30 anos evidencia um basquete feminino envelhecido. Seria ruim se fosse “só'' isso, mas a verdade é que além da data de nascimento avançada este é, com uma ou outra opção, o melhor que o treinador poderia chamar. Sem divisões de base fortes, sem clubes formadores desenvolvendo atletas, sem times da LBF abrindo espaço para as mais jovens, era o que realmente tinha na mesa para o veterano técnico escolher. Ou seja do ou seja: após 2016 será um sufoco maior do que o que estamos vivendo atualmente (se é que isso é possível).

isa1Se um elenco não muito forte e envelhecido não fossem pra lá de preocupantes por si só, o que dizer da preparação feminina visando a Olimpíada do Rio de Janeiro? Até agora foram 654 amistosos contra times masculinos de divisões de base (achei que este tipo de expediente tivesse se encerrado na década de 80…), três jogos (e derrotas acachapantes) na França (sem Érika e Clarissa, que se apresentaram no começo desta semana….) e virão mais dois amistosos contra o Japão e um contra Sérvia e China.

rio2016Na boa, vamos ser sinceros: alguém acha isso suficiente? Talvez alguém lá da CBB creia que está tudo muito bem. Desculpem, não está. Barbosa assumiu a seleção antes do evento-teste. Pegou um grupo esfacelado devido a briga entre clubes da LBF e Confederação. Agora, quando poderia colocar as meninas em ritmo, terá apenas três amistosos válidos (os contra a França em que não teve o elenco completo).

O time não inspira confiança, a torcida não encherá os ginásios (ainda há ingressos disponíveis para todos os jogos da seleção feminina) e a preparação está longe da ideal. Dá pra confiar que a seleção feminina fará um bom papel no Rio-2016? Torço pra estar redondamente enganado, mas até o momento a resposta é um sonoro não…


Capitã sérvia diz: ‘Odeio ouvir as pessoas falando do Brasil apenas sobre Zika ou Favelas’
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Fábio Balassiano

milica1Por trás dos olhos azuis de Milica Dabovic há uma linda história esportiva que será escrita nos jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Nascida e criada em uma família que respira basquete desde sempre (seu pai e irmãos jogaram, e sua irmã virá com ela ao Brasil na seleção), a sérvia de 34 anos viveu anos de dificuldade com a sua equipe.

Sempre considerada uma das mais talentosas da Europa, a Sérvia nunca conseguia avançar nos EuroBaskets para jogar Mundiais ou Olimpíadas. Bateu na trave por dez anos (entre 2003 e 2013), até que antes do Mundial de 2014, na República Tcheca, ela viu o sol nascer mais bonito para o seu país. A classificação veio, e no ano seguinte o título do EuroBasket da Hungria fez com que ela, a capitã de sua seleção, chegasse às Olimpíadas pela primeira vez. A estreia será no dia 7 de agosto contra a Espanha, às 14h15 (de Brasília).

A armadora conversou com o blog por telefone sobre a tradição do basquete no seu país, a expectativa para jogar a primeira Olimpíada aos 34 anos, o que espera encontrar no Brasil e, claro, o que ela pensa ao ser tratada como símbolo sexual.

milica2BALA NA CESTA: Aqui no Brasil será a primeira experiência olímpica do basquete feminino do seu país. O que vocês esperam enfrentar nestes Jogos Olímpicos? A Sérvia está em um grupo muito difícil. Dá pra pensar em medalha?
MILICA DABOVIC: Você tem razão quando fala sobre a primeira vez do nosso país no basquete feminino olímpico. Mas estamos nos preparando bastante para os Jogos. Não temos a experiência olímpica, mas sabemos lidar com a exigência das grandes competições. Foi assim que ganhamos o EuroBasket de 2015 e nos classificamos para o Rio-2016. Sobre medalhas, não dá pra pensar ou falar nisso ainda. Vamos aos Jogos tentando alcançar o máximo possível. Eu te diria sinceramente que ninguém além de nós acreditava que poderíamos ter vencido o EuroBasket em 2015. E vencemos. No Rio não teremos a experiência, mas como equipe temos qualidade, união e coração, que será a nossa principal arma no torneio. Nosso objetivo inicial é obter o máximo de vitórias possível.

milica4BNC: Sérvia tem uma boa equipe, mas tem jogado grandes torneios apenas de dois anos pra cá (Campeonato Mundial em 2014 e agora os Jogos Olímpicos). Quão difícil para você foi jogar sempre no continente, mas nunca em âmbito mundial? Você estreou em um Mundial aos 32 anos e agora fará sua estreia olímpica aos 34 anos.
MILICA DABOVIC: Devo dizer que não foi realmente fácil ficar todos esses anos lutando, mas quando se consegue chegar ao que conseguimos desde 2014 o gosto é realmente muito saboroso. É algo que, como time, nós construímos todas juntas e que poderemos ter mais um momento especial no Rio de Janeiro. Para mim é sempre divertido jogar com as meninas do meu país. Esta equipe, e a experiência que tivemos nas temporadas passadas são algo que eu vou levar para o resto da minha vida.

milikasBNC: Você estará fazendo a sua estreia olímpica jogando ao lado da sua irmã, Ana. É mais especial realizar um sonho em família, não ?E falando em família, eu li que o basquete está no seu sangue. Pai, irmãs e irmão estão ligados ao esporte, não?
MILICA DABOVIC: Sim, é isso mesmo. Meu pai foi jogador e técnico, meu irmão jogou e minha irmã atua profissionalmente e muito bem na Europa e WNBA há anos. Certamente foi um empurrão muito grande para começar a jogar e a amar a modalidade. Jogar uma Olimpíada com ela é maravilhoso. Não só por ser uma Olimpíada, mas porque não temos muita chance de jogar juntas em competições de clubes durante o ano. Vestir a camisa da Sérvia e conseguir disputar uma Olimpíada ao lado dela é algo especial e do qual nos orgulharemos eternamente.

milica3BNC: Será a sua primeira vez no Brasil? Do que você está ouvindo sobre o nosso país, o que espera encontrar? Sobre as pessoas, o clima, cidade, comida…
MILICA DABOVIC: Sabe, Fábio, vou lhe dizer. É a minha primeira vez no Brasil e não sei o que irei conhecer da sua cidade e do seu país. Estamos indo para jogar, disputar as Olimpíadas, e não sei se teremos tempo livre. De todo modo, vou ser muito sincera com você. Odeio ouvir que as pessoas estão falando do Brasil apenas sobre Zika, violência ou Favelas. Meus primeiros pensamentos sobre o Brasil são Samba, praias, pessoas agradáveis, esporte, um povo alegre e hospitaleiro. Prefiro encarar as coisas assim, e é justamente essa parte feliz do Brasil que espero ver por aí para depois contar a todos na Sérvia. Nosso país tem as melhores referências sobre o Brasil e espero encontrar tudo de bom na sua cidade.

milica6BNC: O Basquete é um esporte muito popular na Sérvia. Muitos jogadores são muito famosos (Vlade Divac, por exemplo), conhecidos internacionalmente. Para um brasileiro que não conhece a Sérvia, como eu, você pode descrever quão grande o basquete é por aí?
MILICA DABOVIC: Acho que essa é uma pergunta fácil de te responder começando pelo aeroporto. Quem desembarca na Sérvia é recebido com a seguinte placa: “Bem-vindo à Terra de basquete”. É o esporte número um do país e esta placa descreve bem o que as pessoas na Sérvia pensam sobre basquete. Temos muitos clubes formadores nos bairros, três divisões profissionais entre os homens e duas entre as mulheres. Aos poucos vamos nos recuperando dos problemas financeiros que tivemos em nosso país para termos ligas melhores e mais atletas surgindo. Como nação, somos muito orgulhosos dos nossos sucessos do passado, do que as nossas equipes nacionais, do que os nossos clubes e do que os nossos atletas fizeram e ainda estão fazendo. Sou muito orgulhosa de ser jogadora profissional de basquete em um país cujas pessoas sabem tudo sobre este esporte.

milica10BNC: Por fim, uma pergunta inevitável: Você é um atleta e não são poucas as vezes que é tratada como símbolo sexual. Muita gente irá tratá-la como Musa dos Jogos Olímpicos, algo que pessoalmente não gosto pois você é uma jogadora de basquete antes de qualquer coisa. Isso incomoda, de alguma forma? Ou seja, ser tão ou mais conhecida como uma mulher bonita do que como jogadora de basquete que tem uma história incrível no esporte?
MILICA DABOVIC: Pergunta difícil. Entendo o que você quer dizer e aprecio a forma que você coloca a questão. De fato muita gente vem me entrevistar e quase não fala sobre esporte. Mas eu costumo dizer que a beleza nas pessoas vêm de dentro. Isso é o que eu penso sobre mim e como gostaria que as pessoas me vissem. Sou, antes de qualquer coisa, uma atleta profissional de um dos esportes mais populares do planeta e que irá representar o seu país em um evento impressionante como é a Olimpíada. É bastante coisa, não? Tento ser a melhor pessoa possível, e consequentemente a jogadora e capitã da equipe para dar o exemplo.


Podcast BNC: Analisando as Olimpíadas do Rio de Janeiro
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Fábio Balassiano

rio2016Recebemos o jornalista Luis Araujo, do Triple-Double, para falar sobre a Olimpíada do Rio de Janeiro, tanto no masculino quanto no feminino. Trazemos, pela primeira vez, um ouvinte internacional do Podcast. Felipe Zana pra mostrar como um brasileiro vivendo no exterior está enxergando a modalidade atualmente.

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