Bala na Cesta

O legado de Coach K, o 1º técnico a chegar a mil vitórias no Universitário
Comentários Comente

Fábio Balassiano

coachk3“O momento mais importante da minha carreira em Duke aconteceu em 1983. Não foi após uma vitória, mas quando perdemos um jogo de 43 pontos. Ali vi que precisava mudar muita coisa em nosso programa para atingir o grau de excelência desejado''.

Foi com esta frase que Mike Krzyzewski começou a sua concorrida entrevista coletiva no domingo. Aos 67 anos ele se tornou o primeiro técnico a conquistar mil vitórias no circuito universitário ao ver a sua Duke (dirige desde 1980) vencer St John's por 77-68 em um Madison Square Garden apinhado de gente (Carmelo Anthony e Phil Jackson, do Knicks, estiveram lá para acompanhar o feito inclusive). Devido ao feito o treinador foi festejado por seus atletas e ex-comandados nas redes sociais (Kobe Bryant e LeBron James enviaram mensagens bem bacanas, por exemplo)

coach1Coach K, como é conhecido, não falou de suas vitórias (são 1000, com direito a quatro títulos da NCAA), não falou de suas conquistas. Para ele, o momento mais importante de sua brilhante carreira no circuito universitário norte-americano veio justamente após um duro revés.

Diz muito sobre sua maneira de pensar, de dirigir, mas principalmente sobre sua (dura) formação. Tendo estudado na Academia Militar dos Estados Unidos, ele foi treinado por ninguém menos que Bob Knight, que era mais general na quadra que muito general do próprio exército. Com a dureza de Knight o menino Mike estudou (muito) e jogou de 1966 a 1969 e depois dirigiu a equipe de 1975 a 1980, quando foi chamado para fazer o até então tímido programa de Duke rodar direitinho.

coachk4Entre 1980 e 2015 muita coisa se passou, obviamente. De jogadores talentosos que estiveram em suas mãos (Luol Deng, Kyrie Irving, Carlos Boozer, Jabari Parker são alguns dos que estão em atividade na NBA – aqui a lista completa) a títulos com a seleção norte-americana (dois ouros olímpicos – 2008 e 2012), passando por uma proposta não aceita do Lakers em 2004 (a pedido de Kobe Bryant, inclusive) e por inúmeros ex-comandados que viraram técnicos em outras faculdades (Johnny Dawkins, de Stanford, é um deles).

coachk1Em todos os momentos o que mais valeu para ele não foram as cestas, mas sim o comportamento, a forma que seus atletas pensavam e agiam. Isso, sim, valia para o professor (muitos treinadores temos por aí, mas professor são poucos, bem poucos). É clichê, eu sei, mas é assim que funciona na cabeça de Mike Krzyzewski desde sempre.

O legado de Coach K não tem fim, é realmente pra sempre. O técnico não entrará para a história “apenas'' pelas mil vitórias na NCAA (e isso já seria coisa pra caramba), mas principalmente por pensar em seus atletas mais fora do que dentro de quadra. Não sei se alguém que trabalha na função de ensinar/educar seus atletas poderia querer algo além disso. É o que ele conseguiu brilhantemente.


Podcast BNC: as trocas da NBA, o incrível Atlanta e a briga final do Oeste
Comentários Comente

Fábio Balassiano

Opa, opa! Podcast BNC no ar! No primeiro programa de 2015 Pedro Rodrigues e eu falamos sobre o começo do ano animadíssimo na NBA. O brilhante Atlanta Hawks, o ótimo Golden State Warriors, a troca de Rajon Rondo, o Detroit sem Josh Smith e a briga pelas últimas vagas do Oeste.

Se preferir, o link direto está aqui. Caso queira, o episódio também está disponível no iTunes! Críticas, sugestões ou qualquer tipo de mensagem é só enviar para podcastbalanacesta@gmail.com . Obrigado, aproveitem muito e bom programa!


No All-Star Game, a consolidação da troca de guarda na NBA
Comentários 10

Fábio Balassiano

kobeNa sexta-feira coloquei aqui os 10 titulares escolhidos pelo público para começar o próximo All-Star Game (15 de fevereiro no Madison Square Garden, em Nova Iorque). É uma lista que, de bamba, bamba mesmo, só tem Kobe Bryant (lesionado, ele não irá pro jogo), LeBron James e, vá lá, Pau Gasol (os únicos, aliás, que têm anéis de campeão no armário de casa).

gasolOs reservas serão anunciados nesta quinta-feira e não será surpresa alguma se um punhado de rostos com muita espinha na cara (Klay Thompson, Damian Lillard, Jeff Teague etc.) aparecer na lista.

Acho que está claro para todo mundo: estamos presenciando a famosa e natural troca de guarda na NBA.

Aconteceu com Magic Johnson e Larry Bird, que pegaram uma liga de Kareem Abdul-Jabbar e a entregaram para Michael Jordan, Karl Malone e Isiah Thomas. Jordan, por sua vez, passou o bastão para Shaquille O'Neal, que soube ganhar, fazer graça e entregar para Kobe Bryant, Tim Duncan, Dirk Nowitzki, Jason Kidd e a turma do Spurs. Depois vieram Wade, Bosh e LeBron, campeões pelo Miami.

mjNa NBA é assim há muito tempo e bastante natural. Grandes jogadores surgem, brilham e acabam passando o bastão para uma nova turma que está chegando. Nem sempre essa passagem é tão clara e nem sempre essa passagem acontece com muitos grandes jogadores de uma geração saindo para a entrada de outra geração talentosa (como sempre irá acontecer neste cada vez mais globalizado campeonato).

É o que estamos vendo agora. Gênios como Steve Nash, Jason Kidd, Dirk Nowitzki, Tim Duncan, Shaq mesmo, Kobe Bryant, Tim Duncan e Manu Ginóbili ou já saíram ou estão saindo de cena, abrindo espaço para outros tomarem as rédes da liga. São caras que marcaram uma época na NBA. São caras que jogaram, ganharam e ajudaram a pavimentar um caminho de internacionalização da marca. Alguns deles, como Shaq, tinham além do talento uma dose extra de carisma, o que fez com que seus nomes superassem inclusive a fronteira do basquete (algo que toda empresa esportiva busca para fazer ainda mais dinheiro…).

lillardNão dá para saber, ainda, que “peso'' terá esta fornada de James Harden, Damian Lillard (foto à direita), Stephen Curry, Paul George (lesionado), John Wall, Klay Thompson, Andrew Wiggins e outros, mas está claro que, no momento, o que devemos fazer é esperar pra ver, pagar para ver o que estes hoje meninos serão em uma década, quando suas carreiras, seus feitos e suas conquistas já estarão mais sedimentadas. Não é coincidência, tampouco, que times que até “semana passada'' faziam praticamente figuração (Warriors e Hawks) estejam liderando suas conferências com times que têm jovens e nenhuma estrela consolidada (em seus elencos não há jogadores com títulos de NBA, já repararam?).

klay2Meu irmão me disse no sábado que tinha muito “pereba'' indo para o All-Star Game deste ano. Não concordo com isso e obviamente lhe expus isso que acabei de escrever acima (e dobrá-lo não é fácil, saibam vocês). Respeito quem pensa o contrário (como é o caso dele), mas creio que isso seja uma grande bobeira, bobagem de quem, como é o caso dele, não assiste a boa parte dos jogos e que acaba comparando feitos de gênios de obras já prontas como Kobe Bryant, Dirk Nowitzki e Tim Duncan a “crianças'' como Stephen Curry, John Wall e Anthony Davis, que estão dando os seus primeiros rabiscos na NBA há pouquíssimo tempo.

davis2Damian Lillard não é AINDA melhor que Jason Kidd. Mas ninguém pode dizer que, com a bola que ele tem jogando, ele não será (o rapaz só tem 23 anos). Klay Thompson (foto à esquerda) AINDA não está no patamar de um Clyde Drexler, mas quem pode dizer que ele não chegará? Anthony Davis (foto à direita) tem menos de 23 anos, já deixa a todos de queixo caído e nenhum ser humano deste planeta consegue dizer com segurança em que patamar ele chegará ao final de sua carreira simplesmente porque ninguém tem a capacidade de prever 10, 15 anos adiante.

wall3Está claro, para mim, que a passagem de bastão na NBA está em trânsito e vale a pena admirar e perceber o que esta nova geração estará fazendo em pouquíssimo tempo. Essa molecada boa não tem culpa de estar chegando no momento em que grandes ídolos do basquete já penduraram os tênis e não devem ser comparada a alguns caras que já escreveram suas histórias. Falta apenas alguém que irá “dirigir'' esta turma (como foram Magic e Bird em uma época, Jordan em outra e Kobe, Duncan e Shaq nesta mais recente, por exemplo).

Concorda comigo? Está claro ou não está que estamos vendo uma grande passagem de bastão na NBA? Comente!


Klay Thompson explode, faz 37 no terceiro quarto e bate recorde da NBA
Comentários 3

Fábio Balassiano

klay“Tive a sorte de ter jogado com gênios do basquete como Michael Jordan, David Robinson e Tim Duncan. E eu nunca tinha visto o que o Klay fez nesta noite. É o tipo de coisa que você não explica e nem tem palavras para descrever''. A declaração é de Steve Kerr, técnico do Golden State Warriors, e foi dada após a vitória de seu time contra o Sacramento por 126-101.

Sobre o que “nunca tinha visto'', Kerr se refere a monstruosa performance de Klay Thompson (foto à direita) neste já histórico 23 de janeiro de 2015. O ala do Warriors, que só não será reserva do All-Star Game caso aconteça uma tragédia, fez (atenção) 37 pontos no terceiro período, batendo o recorde de pontos de Carmelo Anthony e George Gervin (33) em um único quarto.

klay2Se isso não bastasse, Klay anotou 9 bolas de três nestes 12 minutos, superando a marca de Michael Redd e Joe Johnson de 8 tiros longos convertidos em apenas um período. Nos 41-22 do terceiro período ele acertou todos os seus 13 arremessos e quase todos os pontos de seu time (fez ainda um par de lances-livres). É incrível ou não o que ele conseguiu?

No final das contas, 52 pontos (a maior pontuação de sua carreira) em 33 minutos (imagina se tivesse jogado 40, 45 quantos pontos seriam…) de uma atuação que deixou os mais de 19 mil torcedores que foram ao ginásio em Oakland de queixo caído e que manteve os Warriors como a melhor campanha da NBA (35-6).

“Acaba que tudo isso passa muito rápido. Gostaria de ter aproveitado mais o momento naquele terceiro período, mas quando vi eu parecia em outro mundo. Acho que só na escola primária eu dominei o jogo com essa pontuação assim'', disse, entre gargalhadas gerais, Klay após a partida.

Abaixo os vídeos com os pontos de Klay no terceiro período e também em toda partida. Divirta-se!


Estão definidos os titulares do All-Star Game da NBA – você concorda?
Comentários 8

Fábio Balassiano

lebronTerminou a eleição dos titulares do All-Star Game de 2015 da NBA (será disputado entre 13 e 15 de fevereiro em Nova Iorque). Em votação popular, os selecionados para começar a partida de domingo foram:

LESTE: Kyle Lowry (Toronto Raptors), John Wall (Washington Wizards), LeBron James (Cleveland Cavs – ele na foto à esquerda), Carmelo Anthony (New York Knicks) e Pau Gasol (Chicago Bulls). O técnico será Mike Budenholzer, do Atlanta (melhor campanha da Conferência)

curryOESTE: Stephen Curry (Golden State Warriors – ele, o mais votado, na foto à direita), Kobe Bryant (Los Angeles Lakers), Blake Griffin (Los Angeles Clippers), Anthony Davis (New Orleans Pelicans) e Marc Gasol (Memphis Grizzlies). O técnico será Steve Kerr, do Golden State (melhor campanha da Conferência)

Os meus titulares, adotando apenas o critério técnico pelo desempenho nesta temporada (e não se fama, nome ou popularidade) seriam:

butler1LESTE: John Wall, Jimmy Butler (Bulls – na foto à esquerda), LeBron James (Cavs), Al Horford (Hawks) e Pau Gasol.

OESTE: Curry, Damian Lillard (Blazers), James Harden (Rockets), Anthony Davis (quem me acompanha no Facebook nota que incluí o ala do Pelicans) e Marc gasol

Apenas como lembrete: na próxima semana, no dia 29/1, serão divulgados os reservas (são votados pelos técnicos da liga). Kobe Bryant, lesionado, deve mesmo ficar de fora pelo segundo ano consecutivo (e comenta-se que James Harden entrará de titular no lugar dele)

E para você, quem estaria nos times titulares?


Com defesas fortes, a evolução dos técnicos e do nível técnico neste NBB
Comentários 3

Fábio Balassiano

dede1O NBB chegou ao final do seu primeiro turno e com ele uma novidade bem bacana para quem acompanha o basquete brasileiro há algum tempo: a presença, na ponta do campeonato, de times e técnicos que privilegiam a defesa em seus sistemas. Equipes, aliás, comandadas por jovens treinadores com elencos não tão estelares.

Líder da competição, Limeira tem, para mim, o melhor sistema defensivo do campeonato. Nos jogos que vi foi um absurdo o que a intensidade limeirense na marcação gerou de pontos fáceis em contra-ataque ou transição e arremessos forçados dos rivais. O que Dedé (foto à esquerda) conseguiu fazer em tão pouco tempo (ele, que tem 37 anos, está em seu primeiro ano como técnico principal, é sempre bom lembrar) é realmente impressionante e merece registro. A campanha de 16-1, fantástica por si só, se baseia nos potenciais ofensivos de David Jackson e Nezinho sem dúvida alguma, mas não existiria sem os 74,4 pontos sofridos por noite, sem os 9,5 erros forçados dos adversários, sem os ótimos 49% de conversão do ataque rival em bolas de dois pontos (apenas três times conseguem o feito) e sem Bruno Fiorotto (no garrafão) e Ronald Ramon (no perímetro), especialistas em deter seus oponentes.

dema2Outro time que defende incrivelmente bem e que conta com um jovem técnico é o Minas. Bem treinado por Demétrius (ex-comandante de Limeira, diga-se), a turma de BH é a maior surpresa da competição até o momento com 11-5 (ano passado foram 10-22 no torneio INTEIRO) e tem os melhores números defensivos do NBB. São 72,2 pontos sofridos por jogo, incríveis 29,1% de conversão rival nos três pontos, 12,7 desperdícios forçados e 12,8 assistências concedidas (em todos os índices os mineiros estão nas duas primeiras posições dos rankings do NBB). Destacam-se na marcação no time do vibrante técnico de 41 anos os ótimos Alex (no perímetro) e o valente Shilton (no garrafão). São os dois mais experientes do time e responsáveis por capitanear as propostas de Demétrius na quadra.

APRESENTAÇÃO NOVO TÉCNICO DO BASQUETE DA S.E.PALMEIRAS, REGISPoderia citar apenas estes dois grandes trabalhos defensivos do NBB, mas seria injusto. O Palmeiras, do ótimo Régis Marrelli (foto à esquerda), leva apenas 76,6 pontos por jogo e seu sistema defensivo guia o elenco (bem modesto) ao bom oitavo lugar na tabela com a campanha de 8 vitórias em 16 jogos. Outro bom exemplo de esmero na marcação atende pelo time de Bauru. Fortíssimo no ataque e com elenco recheado de jogadores talentosos, o esquadrão de Guerrinha (14-2 e 11 vitórias seguidas – ele na foto à direita) consegue se esforçar bastante na defesa e levar módicos 75,5 pontos por noite.

guerra4Minas, Bauru e Limeira, aliás, são os únicos quatro times que ainda não levaram 90 pontos neste NBB (o Palmeiras era o outro, mas levou 98 na última rodada). Não deixa de ser relevante notar que este esforço leva os quatro a estarem entre os oito primeiros com técnicos que conseguiram implantar suas filosofias mesmo com elencos e estilos muito distintos. O “operário” Minas, o estelar Bauru e os ótimos Limeira e Palmeiras utilizam rotações frenéticas (9 ou mais atletas jogando 15 minutos/jogo), pressionam SEMPRE o rival que está com a bola (regra básica do basquete, diga-se) e quase sempre acertam nas rotações (evitando arremessos livres).

gustavo1Pode ser que seja apenas neste NBB, embora no último o Paulistano, do também jovem e excelente Gustavo de Conti (foto à esquerda), tenha chegado à decisão principalmente por ter alucinado seus rivais com uma marcação fortíssima. Pode ser, também, que esta seja o começo de uma tendência mais coletiva, mais defensiva, mais altruísta para os próximos anos. Canso de reclamar da falta de combatividade/intensidade nos jogos do NBB. As partidas acabam ficando frouxas, leves e baseadas sempre em arremessos – e não em confrontos físicos, uma das “ferramentas” que fazem do basquete este esporte maravilhoso. Não é a essência da modalidade, sabemos bem.

Aqui vale dizer o seguinte também. Esta “moleza” do jogo tem a ver, também, com a falta de preparo dos árbitros, que quase sempre apitam disputas normais como faltas, um erro gravíssimo. No final das contas o nível técnico interno ainda é baixo devido a esta ausência destes duelos, desta intensidade, e todos que querem ver o basquete brasileiro em melhores condições técnicas torcem por bastante evolução tática principalmente na defesa. O NBB7 pode ser marcado por ser um marco de mudança importante neste sentido para o esporte.

Dupla2Neste campeonato temos muitos times preocupados em defender a cesta com afinco, em segurar os rivais a pontuações até então inimagináveis por aqui. Não tem essa de ser feio ou bonito. É eficiente, intenso, físico e a graça do jogo está em conseguir não “dividir” o basquete nos dois extremos da quadra (defesa e ataque, no final das contas, são a mesma coisa e te levam ao mesmo resultado final – cestas evitas e produzidas e vitórias ou derrotas).

Principalmente Limeira e Minas têm conseguido fazer isso até o momento neste NBB. Merecem aplausos por isso. Que sejam espelho para os demais times agora e nos próximos anos.


Limeira vence outra, se mantém na liderança e dá nova prova de força no NBB
Comentários 1

Fábio Balassiano

deryk1Limeira tinha um jogo importante pelo NBB ontem à noite em São Paulo. Enfrentaria o Pinheiros, único time que derrotou no campeonato, não teria o lesionado Nezinho e novo revés diante dos comandados de Marcel colocaria a campanha em pé de igualdade com Bauru, que tem 14-2 e 11 vitórias seguidas.

Por isso os 73-61 de Limeira ontem são significativos. Não só pela vitória, mas como ela foi conquistada e pelo que ela representou (foi o primeiro jogo de uma série de seis, entre sete, fora de casa inclusive).

A defesa, para mim a mais impressionante deste NBB (e falei disso aqui há alguns dias), levou poucos pontos de novo e forçou o rival empacar na linha dos 3 pontos (4/23). Além disso, sem seu armador titular (Nezinho) o técnico Dedé colocou o jovem Deryk Ramos (foto à esquerda) para liderar o ataque. E o menino não decepcionou. Fez 15 pontos, deu 4 assistências e saiu-se muito bem diante da pressão na bola dos armadores pinheirenses. Outro que foi bem foi o excepcional David Jackson (15 pontos – na foto à direita).

david1Limeira, então, segue como melhor time do NBB (16-1), coloca-se cada vez mais entre os melhores times da competição e traz uma qualidade defensiva impressionante para os padrões brasileiros. Esta qualidade é que fará os comandados de Dedé brigarem não só para passar de fase pela primeira vez nos playoffs, mas quem sabe até pelo título.

Costumo dizer que um pouco de organização e outra dose de boa defesa trazem resultados acima do esperado e muito rápido aqui no Brasil (vide o Paulistano ano passado). E é por isso que os limeirenses lideram o NBB até o momento.

dede1Ter vencido o fortíssimo Flamengo há duas semanas relegando o ataque rival a 73 pontos foi uma prova de força. Ter batido o único rival que o derrotou (o Pinheiros) sem seu armador titular (e fora de casa), outra. A maior delas, porém, atende pelo número de 74,4. São os pontos sofridos por noite (segunda melhor marca do NBB nesta temporada).

Sustentando este ótimo número Limeira pode sonhar em ir longe neste NBB. Mais provas de força virão.


Personagens do Basquete Brasileiro: Alberto Bial
Comentários 12

Fábio Balassiano

bialAos 62 anos, Alberto Bial é casado com Leila, pai de Melina e Marcela, avô de Alice (5 anos) e dono de uma das mais ricas histórias do basquete brasileiro. Formado como atleta nas categorias de base do Fluminense, dirigiu Botafogo, Liga Angrense, Vasco, o próprio tricolor das Laranjeiras, seu time do coração, Goiânia, Joinville e está no Basquete Cearense, único representante do Nordeste no NBB, há três temporadas. Saiba mais da história e do que pensa Alberto Bial no papo abaixo.

BALA NA CESTA: Pouca gente sabe, mas você não é carioca…
ALBERTO BIAL: Verdade. Nasci em São Paulo. Nasci em uma coxia de teatro praticamente. Meu pai era contrarregra do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), da Cacilda Becker. Minha mãe fazia figurino, mas era um período complicado. Meu pai e minha mãe são imigrantes alemães que fugiram da Segunda Guerra Mundial e se encontraram no Brasil. Conheceram-se em São Paulo e foi lá que eu nasci. Meu pai não conseguia emprego e aí sim viemos para o Rio de Janeiro. Minha família não era do esporte, sabia? Eu fiz uma inclusão distinta, diferente e que acabou dando muito certo. Por ser muito magro eles me colocaram no Fluminense, perto de onde morávamos, para nadar. E aí a transformação aconteceu. Ele era um viciado em corrida de cavalos e quando comecei a nadar ele passou a me acompanhar no clube, viver o dia a dia do clube. Acho que a partir dali a família inteira passou a gostar de esporte – e também do Fluminense, claro.

pinheiroPor uma dessas sortes da vida um dos meus melhores amigos da natação era amigo do Pinheiro (foto à direita), do Jair Marinho, do Zezé Moreira, ícones do futebol do Fluminense na época. Eu virei o “Pirão”, meu apelido, e eles passaram e me levar para todos os lugares. O Pinheiro, já técnico no América anos depois, tentou me levar para fazer um teste lá mas eu fui um desastre. Ficava impedido toda hora, ficava com vergonha. Lembro de um dia na casa deste meu amigo e estavam Pinheiro, Zezé, o Castilho, lendário goleiro do Fluminense e meu maior ídolo, Telê Santana e muito mais. Eles me adotaram e meu pai começou a ir comigo a todos os jogos do Fluminense, do juvenil ao profissional com os aspirantes no meio disso. Ou seja, a gente passava o dia inteiro no clube e vendo as partidas com aquelas feras. Foi uma iniciação esportiva e tanto.

bial1BNC: E sua história no basquete, começou como?
BIAL: A primeira equipe adulta que eu dirigi foi em 1983. Minha vida no basquete começou 20 anos antes quando meu pai me levou para ver a final do Mundial masculino no Rio de Janeiro de 1963. Tinha 11 anos, cara. O Brasil venceu os Estados Unidos e eu fiquei maluco quando vi o Amaury Pasos jogar. Ele sempre foi uma grande referência técnica para mim. Foi a primeira vez que pisei no Maracanazinho, ele estava lotado e vi o Brasil ser campeão mundial. Já nadava pelo Fluminense, queria ver outras coisas, me levaram para uma quadra de basquete e ali começou tudo.

BialBNC: Você lembra como foi seu primeiro jogo de basquete?
BIAL: Claro que lembro. Foi um Fla-Flu infanto-juvenil. Foi um Fla-Flu, rapaz, veja só. Isso eu tinha 12 anos, era um brigador, insistiram comigo. Aos 13 comecei a jogar todas as categorias pelo Fluminense. E ganhava tudo. Não porque eu era bom, não, mas porque no nosso time estava simplesmente o Marquinhos. Marcos Abdalla Leite é um dos maiores jogadores do basquete brasileiro e jogava conosco. Dos 14 aos 24 anos eu ganhei todos os campeonatos que disputei pelo Fluminense. Foi uma coisa impressionante. Do infanto, passando pelo juvenil e chegando ao primeiro ano de adulto nós ganhamos tudo, você consegue imaginar isso? Aí o Marquinhos foi embora para São Paulo, chegaram outros caras (Sergio Macarrão, Peixotinho etc.) e continuamos com time bom. Tanto é assim que fomos pentacampeões cariocas direto (de 1970 a 1974), uma coisa incrível. Da base até aquele momento eu não sabia o que era perder. Era muito louco. Aí em 1974 o Francisco Horta, presidente do clube, acabou com o basquete do Fluminense e eu fui parar em que time? No Flamengo. E fui campeão logo de cara. Ganhamos o campeonato carioca em 1975. No ano seguinte perdi o campeonato para o Vasco e aí sim comecei a entender o que de fato era o esporte. A essência daquilo tudo, exaltar os vencedores, entender o lado da derrota. Foi há exatos 30 anos e um grande aprendizado para mim. Achei que era imbatível, predestinado, essas coisas.

bialBNC: E nessa época você já era técnico, certo?
BIAL: Sim. Entrei para a Faculdade de Educação Física em 1970 porque fiz uma redação bonita e era um cavalo de forte. Sempre fui um péssimo aluno, mas passei em primeiro lugar no vestibular. Ninguém queria cursar Educação Física, Bala. Tinha 18 anos e naquela época era coisa de malandro. Ainda estudando o Fluminense montou uma categoria de Mini-Basquete e acabei me sobressaindo. Logo em seguida houve um Mundialito de Mini-Basquete na Espanha em 1971, eu fui o técnico e em 1972 a mesma coisa. Era uma espécie de Festival de Basquete com uma turminha de garotos de 80, 90 países. Então eu treinava um cara do Congo, um Etíope, um Suíço, era uma mescla bacana e eu só não podia treinar brasileiro. Foi um aprendizado incrível. E eu tinha 18 anos, veja só. E sabe quem foi comigo? O Beegu, o Marcos Mendes, que jogou no Flamengo e hoje é um dos maiores especialistas em Sistema de Triângulos no Brasil. Ali não parei mais. Quando fui para o Flamengo em 1974 eu botei uma banca: “Só vou se me derem um time das categorias de base para treinar”. E toparam. Depois fui para o Municipal, melhor trabalho de base que fiz com certeza, Mackenzie e aí voltei para o Flamengo. Rapaz, aí teve uma história engraçada. Um Sheik árabe veio contratar um técnico de futebol no Flamengo e me viu na quadra de basquete. O Djalma Cavalcante, este técnico do futebol, falou para o Sheik: “Não quer levar o de basquete também?”. E aí o Sheik se interessou, me levou para montar um time de basquete. Ainda joguei um Flamengo x Botafogo, arrebentei e fui para os Emirados Árabes Unidos. Isso foi em 1983. Fiquei três anos de treinador lá, uma experiência sublime.

bial2BNC: Ali você de fato começou sua carreira de técnico então…
BIAL: Sim. E vou te contar a história toda. Terminou lá em 1986 e não arrumava mais mercado. As pessoas me perguntavam se eu queria jogar e tal, mas meu negócio já era ser técnico. Aí o Botafogo me chamou. Vesti a camisa do Botafogo na alma mesmo. Não tinha dinheiro, mas tinha uma molecada boa. Fiquei lá por cinco anos e em 1991 o Emil Pinheiro, presidente que tinha ajudado o Botafogo a ganhar o Estadual de futebol em 1989 depois de anos na fila, me chamou e perguntou: “O que precisamos fazer para ser campeões estaduais?”. E eu respondi: “Me traz dois americanos que a gente ganha isso”. Os outros times eram bons, o Flamengo era um timaço e eu recebi os americanos. Adivinha? Ganhamos a final do Flamengo de 2-0. Foi um período maravilhoso. Lembro até hoje do dia. Foi no dia 20 de dezembro de 1991 e o Maracanazinho estava lotado. Depois disso o Botafogo nunca mais ganhou no basquete, você acredita? Meu primeiro título carioca como técnico adulto foi justamente no palco que eu pisei pela primeira vez para ver uma partida. Aí fiquei uns três anos em Angra, fomos campeões em 1993, mas era tudo muito familiar, pouco profissional ainda.

albertoBNC: Aí eu me lembro bem pois foi quando comecei a acompanhar. Você voltou ao Fluminense…
BIAL: Exato. Foi em 1995, 1996 que me chamaram de novo para o Fluminense. Comecei o trabalho, estruturei tudo, montei o time. Fiquei um pouco lá e o Vasco, que tinha acabado de retomar suas atividades depois de quatro anos parado, me chamou para tocar o projeto. O diretor era o Fernando Lima. Achei sensacional um clube que eu nunca tinha representado me chamar para ser o técnico do adulto. E aí eu fui e logo em 1997 fomos campeões estaduais em cima do Flamengo em uma final que vencemos por 3-2. Fomos campeões Sul-Americanos naquele ano, chegamos na final contra o Flamengo, perdemos de 3-2 e fui mandado embora na véspera do Natal de 1998. Aquele momento me machucou, cara. Em um ano eu estava pintando como grande técnico, a gente viaja nessas coisas, e no ano seguinte eu estava sendo demitido depois de perder uma final. Foi meio duro, mas quem abriu as portas para mim de novo? O Fluminense. Em 1999 eu voltei ao clube.

espigaBNC: Foi nessa época que você montou um bom time lá, né?
BIAL: Pô, cara, eu lembro que você colocou no seu Facebook a escalação toda daquele time e eu fiquei todo arrepiado. Foi o time que eu mais gostei de dirigir, você sabia? Eu botava Espiga (foto à direita), hoje meu assistente-técnico, e Alberto na armação, Brent na ala, Mike Higgins e Gema perto da cesta. Foi um trabalho legal, né?

BNC: Foi com esse time aí que eu passei a ir no ginásio, Bial. Se quiser eu escalo os 12 aqui direto…
BIAL: (Risos) E, olha, eu adorava aquele time. Poderíamos ter sido campeões, poderíamos ter chegado mais longe. Perdemos um playoff de Estadual para o Botafogo na terceira prorrogação, uma loucura. Estava tudo lindo, trouxemos muita gente, o time estava pronto para ser campeão mas faltou dinheiro. Lembro bem de um jogo que ganhamos já com o Marcelinho Machado no nosso time. Foi a estreia do Nacional de 2002 contra o Uberlândia…

brentBNC: A estreia do Nacional daquele ano. A Band transmitiu. Era um domingo ao meio-dia, um calor dos infernos…
BIAL: (Risos) Você lembra disso como? Era isso mesmo. Uberlândia tinha um timaço, eu lembro que estavam lá Valtinho, Vargas, Márcio, Cambraia, só fera. O jogo foi transmitido pela Band, o narrador era o Sílvio Luiz, o hino nacional cantado pelo Alexandre Pires, um cenário insano mesmo. Fizemos um último período extraordinário (24-15) e vencemos os caras lá. Naquela época eu fumava muito e prometi que se ganhasse aquele jogo pararia de fumar. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida ter parado naquele momento, mas mesmo assim tive um enfarte anos depois – e lógico que ter fumado por tanto tempo “ajudou”. Tivemos bons momentos, poderíamos ter ganho, mas não aconteceu. Lembro que perdemos um jogo de playoff para o Vasco estando ganhando de 8 pontos faltando um minuto. Coisas de Hélio Rubens, de quem eu sou fã. Aí surgiu o Ajax, de Goiânia, com uma mega proposta e eu fui.

bial3BNC: Você falou do Hélio Rubens. Você é amigo de todos os técnicos?
BIAL: Amigo, não. Mas eu me relaciono com todos eles. Outro dia um jovem treinador veio me perguntar como eu fazia essas coisas de dialogar e tal e eu disse pra ele que é preciso ter união e humildade. Lembro que quando treinei nos Emirados tinha muito técnico eslavo, dessa escola fantástica. Eram pessoas simples, humildes. Aqui no Brasil técnico ganha dois, três jogos e já fica com nariz empinado, é uma coisa de louco. Se acham demais, se levam muito a sério, se acham acima do bem e do mal.

fluBNC: Há dois jogos dessa época sua de Fluminense que me marcaram muito. Eu era torcedor de arquibancada, ia aos ginásios e te xingava muito, mas de fato aquele era um time bacana de torcer. Lembro de um jogo domingo pela manhã no Municipal que o Fluminense perdeu da Uniara, do Tom Zé, uma partida muito ganha e que você ficou enfurecido. E outra em um estadual que o Pablo, hoje assistente-técnico de Macaé, roubou uma bola no meio-campo e o Espiga ganhou um jogo contra o Botafogo no Maracanazinho com uma bandeja…
BIAL: Lembro bem dos dois momentos. Contra o Uniara foi meu último ano. Ali já estava meio enrolado, com problema de salário atrasado, essas coisas. Do jogo do Pablo eu lembro que o José Trajano, da ESPN-Brasil, estava no ginásio e quando ganhamos eu saí correndo que nem um maluco para abraçar minha família e dei um abraço no Trajano. Ele até escreveu uma coluna no jornal no dia seguinte sobre isso.

bial4BNC: O que me chama a atenção em você é que apesar de ser muito identificado com o Rio de Janeiro você sempre pegou projetos em lugares sem muita tradição de basquete e colocou estas cidades, estes times, em evidência. Já parou para pensar que mais do que um técnico seus papéis ultimamente têm sido de fomentar a modalidade? E isso é um mérito incrível ao meu ver…
BIAL: Já pensei sim, Bala. Vejo e de certa forma foi bem consciente. Eu sempre fui um rebelde. Sempre fui um rebelde contra o sistema, contra tudo. Detesto essas coisas de fazer o modismo. No basquete o Waldir Boccardo ia para os Estados Unidos, trazia algumas coisas e todos copiavam. Achava aquilo terrível. Tínhamos que aprender, sim, mas nada de só ficar copiando. Precisávamos adaptar, trazer para a nossa realidade. Essa minha rebeldia, vamos lá. Essa corrupção que hoje estoura aí eu já tinha percebido há 20, 30 anos fazendo esporte e lidando no dia a dia com algumas situações bizarras. Os pais de alguns meninos que jogavam comigo eram lobistas, faziam coisas erradas, era terrível. Antes eu era rebelde sem causa. No começo dos anos 2000 eu percebi que dava para fazer um pouco da transformação que eu sempre sonhei através do esporte. E isso é o que me dá fôlego, me dá essa entusiasmo, me dá essa vontade de viver e de continuar fazendo. Eu acho que com o basquete eu posso trazer muitas oportunidades para crianças e jovens aqui no Brasil. O esporte é muito mal utilizado aqui no Brasil, essa é que é a verdade. Canso de ver em Santa Catarina, no Ceará, em Joinville o desperdício de talento. Adoro competir, odeio perder, amo fazer parte do NBB, mas o que me fascina mesmo é o social, a educação, os valores que o esporte transmite. E foi isso que coloquei na minha cabeça. Onde quer que eu fosse eu iria fazer dos meus projetos uma grande pirâmide de transformação social. É isso o que que tenho tentado fazer no Ceará. Estamos completando três anos de projeto e tenho certeza que deixarei coisas boas, um legado importante por lá. O Brasil tem que ser potência mundial no basquete. E eu não acho isso por achismo, não. Tenho certeza disso porque aqui as pessoas amam basquete, há material humano de sobra e há grandes técnicos também. Eu vejo às vezes discussões sobre a qualidade dos técnicos e isso me revolta um pouco. Temos ótimos treinadores por aqui. Olha um Hélio Rubens, um Ary Vidal, um Gustavo de Conti, um Régis Marrelli, um José Neto e olha a capacidade desses caras. Aqui não se valorizam os técnicos por nada. E outra: o cara que vem de fora é o máximo, é sempre uma unanimidade. Veja o exemplo do Rubén Magnano, técnico da seleção masculina adulta. Ele é excelente, campeão olímpico, mas, poxa, ele é humano e às vezes erra. É natural, você não acha?

rubenmBNC: Não só acho como eu devo ser o único que o critica quando ele erra…
BIAL: Mas é claro. Todos erram. Só o que me bate estranho é que quando ele erra os erros dele não são nunca questionados. Agora, um técnico daqui quando faz algo errado em um jogo de NBB, em uma seleção, é um inferno, o mundo acaba. A gente aplaude por ser um campeão olímpico, mas se fosse um brasileiro seria criticado absurdamente. Não tenho referência como técnico, mas se tivesse que encontrar alguém eu colocaria o Hélio Rubens como minha maior referência. E hoje ele está fora do NBB. Isso é impossível na minha cabeça.

BNC: Como é a sua relação com a imprensa?
BIAL: Olha, Bala, eu venho de uma família com um jornalista. Então eu entendo bem o trabalho de vocês. Não existem perguntas mal feitas. Existem respostas mal respondidas. Por isso eu tenho respeito. Sem o jornalista não tem esporte – principalmente o basquete, que tem tão pouco espaço. A única coisa que eu acho que poderia acontecer mais é valorizar mais são os esportes olímpicos que não o futebol. Não tem só o futebol por aqui. Há pessoas fazendo ótimos trabalhos em outras modalidades. A imprensa esportiva do Brasil melhorou demais, mas falta um maior aperfeiçoamento. Há pouquíssimos que cobrem basquete, por exemplo. Precisamos de mais opiniões. Você escreve bem, mas quanto mais diversidade, melhor. Precisamos de mais vozes. A grande riqueza do Brasil é a pluralidade.

felipaoBNC: Tem uma questão dos técnicos que me chama muito a atenção. Quando o Brasil perdeu de 7×1 de Alemanha eu vi um tratamento absurdo em relação ao Felipão. Ele errou muito, foi mal na Copa, mas muita gente disse que os 7×1 apagariam o título mundial dele de 2002. Falta um pouco de respeito aos técnicos do Brasil de um modo mais amplo?
BIAL: É muito ruim o tratamento, Bala. Quando minha filha foi para os Estados Unidos estudar eu fui por quatro anos para lá. O técnico da faculdade me recebia, ficávamos juntos, eu ia ver os jogos e treinos e percebi que o tratamento dispensado a ele era absurdamente diferente do o que vemos aqui. Os técnicos são tratados com respeito. Acho que a palavra é essa – ‘respeito’. Hoje eu entro em ginásios e sou xingado. Entro no ginásio do Flamengo e minha mãe de 90 anos me vê sendo xingado de “filho da…”. Isso é legal? Isso é educado? O respeito só é adquirido com educação. E isso a gente não deixa de ver só no esporte, não. Quantos pais de família você vê educando bem? A questão é maior do que apenas esportiva.

bial5BNC: E é muito difícil fazer basquete no Nordeste? Há preconceito, você percebe isso?
BIAL: Não é preconceito, mas sim uma distância, uma dificuldade diferente. É tudo mais difícil, mas a vontade de acertar que eu vejo por lá é incrível, dá muito gosto. O que nosso time Sub-22 está fazendo na Liga de Desenvolvimento (LDB) é belíssimo. Eles aceitaram nossas condições e foram com tudo em busca do objetivo deles.

BNC: Que condições?
BIAL: Fazer no amor, fazer na raça mesmo. Quando voltei para lá em julho, agosto, eu falei para essa molecada das condições e eles toparam, foram pra cima e hoje estão na ponta da LDB. Isso é emocionante, isso mexe com a gente.

BNC: Seu time fechou 2014 com salário atrasado, certo?
BIAL: Sim, estamos com salário atrasado. E eu faço questão que isso não afete. Vamos regularizar, tenho certeza disso. Sei que é difícil, tenho 62 anos e consigo assimilar, mas eu falo para a molecada que o objetivo está lá na frente e não no salário em si. Olha o caso do Davi. Ele não está preocupado com o que está acontecendo. Tem o que comer, tem os suplementos para tomar, tem a academia para ganhar físico e está fazendo um NBB brilhante. Colocou na cabeça que o foco é o basquete, o jogo, a quadra e está se saindo muito bem.

aaalbertoBNC: Mas, Bial, isso não é uma praga (de salários atrasados) no esporte brasileiro? Não terá fim isso?
BIAL: Sem dúvida, Bala. Isso é a cara do Brasil. O que se planejou no Brasil até hoje? Por aqui foi sempre tudo assim, sem nenhum planejamento, nada. Entra um governo, sai outro e muda-se tudo. O Brasil tem mais de 500 anos e eu nunca senti um pouco de planejamento no cotidiano. Não é o nosso caso lá no Ceará, que isso fique claro. Tivemos problemas burocráticos, mas estamos acertando. De todo modo você está certo. É algo que não pode mais ocorrer mesmo. A organização é sempre fundamental e temos que buscar isso fortemente.

bial9BNC: E onde você acha que dá pra chegar com o Basquete Cearense?
BIAL: Olha, Bala, eu sou um cara com muitas ambições, com muitos sonhos. Fico pensando se eu consigo colocar o Basquete Cearense, o Nordeste como campeão do NBB. Pode ser que pensem em mim para a seleção brasileira. Por que não? Se eu não pensar assim que pensará? Você já imaginou que coisa bacana que seria? E isso é possível. Precisamos de um pouco mais de grana, mas temos boa estrutura, uma torcida fanática. O sonho é meu combustível para viver mais e sempre melhor. É como o Michael Jordan dizia: a meta tem que ser sempre a mais alta possível. O que eu mais me apego, mesmo, é onde eu acho que tenho mais a acrescentar: nas relações humanas, na gestão de pessoas. E isso é hoje tão difícil, não é mesmo? Hoje em dia a gente vê tanto problema, tanta falta de verdade. É difícil apertar a mão e olhar nos olhos. A honestidade está no dia a dia mesmo. As pessoas estão admirando as pessoas erradas, Bala. Tem pessoas que eu gostaria de falar aqui e que não vou falar. Os ícones estão todos errados. As pessoas admiradas no esporte hoje estão todas corrompidas. E o esporte é justamente o inverso disso. Olha aí o exemplo do vôlei, Bala. Machuca quem foi criado dentro de uma quadra, pode ter certeza. O Shilton, hoje no Minas, é o exemplo mais claro disso. Lembro que quando o dirigi em Joinville nem ele acreditava nele e eu dizia: “Você é muito bom, cara. Você sabe fazer coisas que ninguém sabe. E você é líder por natureza”. E ele acreditou nele mesmo, passou a fazer coisas importantes para o nosso time e depois veio para o Flamengo ser campeão de NBB e peça importante na equipe.

fernandoBNC: Você falou muito sobre política e queria dividir as duas coisas, se é que é possível. A esportiva e a de Brasília, digamos assim. Como é para um técnico, um grande formador de pessoas, ver as pessoas que estão nos maiores escândalos hoje terem sido jogadores. O Ary Graça, e eu não estou fazendo julgamento aqui, está envolvido em uma série de problemas graves. E veio da quadra…
BIAL: Pô, Bala, isso é muito triste, triste mesmo. Você fala dessas coisas… machuca, cara. Vou te contar uma coisa. Um dos melhores atletas que eu tive na minha vida chama-se Fernando Cavendish. Você tem noção disso? (Nota do Editor: Fernando Cavendish foi presidente da Delta, empresa de Engenharia investigada por uma série de irregularidades – mais aqui). Ele foi meu jogador no Flamengo e era extraordinário. Eu fico pensando: como isso acontece, como ele é levado a essa condição? Eu não tenho a menor dúvida que foi muito educado, jogava basquete pra cacete e era amigo do time inteiro. Eu nem sabia exatamente no que ele estava trabalhando quando começaram a surgir os problemas. Quando olhei um dia no jornal a foto dele fiquei mal, aquilo me deu uma tristeza absurda. Vi a foto e entrei em choque.

guardanapoAquela foto com guardanapo na cabeça em Paris me deixou muito mal. Que fique claro. Eu não estou fazendo nenhum tipo de análise dele como pessoa, até porque fico sabendo das coisas por jornais, mas que dá uma tristeza, isso dá. Na nossa família tivemos muitos problemas na infância, o Pedro (Bial, irmão dele) é um sucesso que todos conhecem e jamais se envolveu em um problema ético desses. Se isso tivesse acontecido seria a morte para a nossa família…

BNC: Atleta se mete pouco em questões políticas do esporte?
BIAL: Sim. Atleta deveria se envolver mais, sim. Mas são poucos com visão, com essa capacidade de olhar o todo. Os jogadores pensam de forma muito curta, muito individual. É complicado isso. Hoje no meu time tenho o Davi, o Fischer, mas são poucos que é possível olhar e conversar sobre tudo. Muita gente só pensa no seu, em si, e política é ir além, é pensar no todo, no bem comum, no coletivo. Vou te contar uma coisa. Eu fui chamado por uma professora de uma escola estadual (Torres Cavalcante) de Mucuripe, perto de onde eu moro. Havia uma série de rebeliões, tráfico, violência e as crianças não conseguiam ir às aulas, professores não conseguiam dar aula. A professora me pediu uma ajuda. Eu fui lá com meu time. Fizemos um trabalho na comunidade, com as crianças, com tudo. Hoje as crianças vão às aulas e está tudo bem. Isso me dá um orgulho danado, Bala. Hoje estão tendo campeonatos de basquete. No recreio há partidas de basquete. Olha como essa gestão ajudou a transformar a região. O resultado vem rápido. Eu falei uma hora, o time se apresentou e no final fizemos um círculo, essas coisas. Olha aí, deu certo.

bial19BNC: No tema de uma política mais ampla. Você está morando no Nordeste, um dos grandes focos da eleição presidencial passada, com muita gente falando besteira. Como você vê o país de lá e o que está esperando para 2015 do Brasil?
BIAL: Eu morro de medo. De corrupção, de tudo. O mais importante pra mim é o sentimento da rua, o sentimento desse Brasil que quer passar por uma transformação. O Brasil precisa disso, precisa dessa transformação. As mudanças, pelo que eu entendo, precisam partir do povo, mas eu não vejo o povo pronto para exigir isso, pronto para partir para essa mudança. Eu estava lá no Ceará e vi muita gente falar nessa separação (do Brasil). Isso é uma idiotice. O Brasil tem muitas pessoas de bem, que podem mudar o país, mas isso passa por um processo político de mudança.

Alberto Bial teEle sofreu um acidente isquêmico transitórioBNC: Falamos muito sobre a palavra respeito e de longe eu acompanhei a sua saída de Joinville. Te machucou muito aquilo ali, não?
BIAL: Ah, Bala, aquilo ali foi horrível. Foi assim, cara. Lá eu fui buscando pessoas para fazer o projeto comigo e fiquei por lá 7 anos. Sozinho você não faz nada e eu tive pessoas que me ajudaram muito. Só que o projeto cresceu, algumas coisas aconteceram e certamente não terminou da maneira que eu acreditava. O olho cresceu, o ambiente ficou muito ruim lá. Abri mão de muito dinheiro, de prestígio. Fui ameaçado, fui caluniado, fizeram o diabo da minha pessoa lá em Joinville. Foi muito traumático pra mim. Eu perdoo tudo, mas isso eu demorei a perdoar, acredita? Só quando surgiu o Ceará que eu consegui apagar isso da minha cabeça. O Espiga até hoje não conseguiu (perdoar). Não quero falar de nomes, mas houve pessoas que eu confiei e que depois me apunhalaram pelas costas de uma maneira horrível.

kouros1BNC: Você viu a Liga Nacional sair do papel e sete anos depois já temos o NBB associado à NBA. Como você enxerga o NBB hoje?
BIAL: Traz entusiasmo, cara. Tudo o que vem deles (da NBA) é bem feito, dá certo. Eles sabem mexer, sabem fazer coisas. Aqui é o contrário. Quase tudo o que a gente faz dá merda, dá problema. Ninguém aqui sabe trabalhar o coletivo, sabe mexer realmente pensando no bem comum. Aqui apareceu o Kouros Monadjemi (foto à direita), primeiro presidente da Liga Nacional. Mas ele é um cara. Lá na NBA são todos. Comercialmente ela vai mostrar de que forma é que são trazidos parceiros e torcedores para dentro dos ginásios. Eles sabem fazer não só basquete, mas também a seleção de pessoas para os cargos importantes para o desenvolvimento do produto basquete. Nisso eles são craques e precisamos aprender. O sentimento que fica, depois desse tempo todo, é de orgulho. E lá atrás eu acreditava, posso te dizer isso. Estamos andando, mesmo que de forma lenta, mas estamos andando, estamos caminhando e a evolução é nítida. Olha essa Liga de Desenvolvimento, que coisa linda, que coisa espetacular. Precisamos explorar mais isso no Brasil, precisamos criar essa cultura do bem maior, do coletivismo no Brasil. O Kouros sabe que ele foi o grande responsável por isso, por juntar a todos na mesma página. Se não for dessa forma não vai pra frente. O basquete é a metáfora da vida, Bala.

pedroBNC: Quem é seu maior crítico?
BIAL: Ah, o Pedro. Ele me dizia que eu tratava jogador com muita benevolência, com muito carinho. Pedro me dizia que eu precisava tratá-los no máximo do profissionalismo, no máximo da razão. Uma vez ele citou uma frase do Armando Nogueira (jornalita, ex-chefe do departamento de jornalismo da Globo): “Não administre caráter. Administre talentos. Essa é a sua função como gestor de equipes”. Nunca quis mudar o caráter de ninguém e passei a administrar talentos com mais profissionalismo ainda.

finalBNC: Pra fechar. Como é o Bial em casa?
BIAL: Ah, Bala, nós, a Leila e eu, ficamos muito sozinhos no Ceará. O restante da família fica no Rio de Janeiro. Temos 41 anos de união e a Leila é uma mulher muito parceira. Quando estamos no Rio temos a casa da minha filha Melina, que é mãe da Alice, minha neta de 5 anos, da Marcela, minha outra filha, da minha mãe, Suzane, de 90 anos, e a do Pedro, meu irmão. Minha mãe é que é fogo, rapaz. Não perde um jogo do Fluminense. Outro dia teve um churrasco na casa do Pedro e ela só foi porque ele garantiu que teria uma televisão para ela ver a partida. Sinto falta deles, mas sentiria muito mais falta do basquete se estivesse no Rio de Janeiro sem poder treinar. Eu sem o basquete eu não consigo me relacionar com as pessoas. Adoro competir, cara, e hoje eu sei ganhar e perder. Por isso minha vida no Ceará acaba sendo 100% basquete. No repouso eu acabo vendo vídeo, falando com jogador, preparando o treino da semana. O basquete não me enjoa, cara, isso é o mais importante da vida.

BNC: Quando as pessoas forem lembrar do Alberto Bial daqui a 40 anos, como você gostaria de ser lembrado?
BIAL: Olha, gostaria de ser lembrado como um cara que formou pessoas. Como um professor mesmo. Quando ouço isso de algumas pessoas há um valor imenso. Queria ser visto como um cara solidário, que amou o que fez e que conseguiu melhorar as pessoas a sua volta.


Novidade no blog: Personagens do Basquete Brasileiro
Comentários 2

Fábio Balassiano

Começa amanhã a série 'Personagens do Basquete Brasileiro' aqui no Bala na Cesta. Nela alguns nomes importantes e com muita história para contar do basquete brasileiro serão entrevistados de forma longa, bem detalhadas. O objetivo é mostrar um pouco mais de pessoas que já estão por aqui fazendo o nosso querido basquete faz tempo.

Começaremos, amanhã, com Alberto Bial, técnico agora no Basquete Cearense, único representante do Nordeste no NBB, e com histórias ricas em Joinville, Goiânia, Fluminense e Vasco. Fiquem de olho. O papo ficou realmente muito bacana.

Depois dele outros personagens ricos em histórias passarão por aqui.


Com defesa frágil, Chicago está em péssima fase na NBA
Comentários 1

Fábio Balassiano

Tom ThibodeauDesde que assumiu o Chicago em 2010-2011 o técnico Tom Thibodeau tenta colocar a defesa em primeiro lugar. Foi assim que ele, o arquiteto da defesa campeã do Boston Celtics anos antes, conseguiu fazer dos Bulls o melhor sistema defensivo da NBA nos últimos campeonatos. Nem é necessário apelar aos números. Quem via as partidas se impressionava com a pressão na bola, com a quantidade de erros forçados nos adversários e na quantidade de “stops'' (contenções)  feitas em momentos decisivos.

Faltava talento para ir adiante. Faltava ataque mais eficiente para avançar mais na pós-temporada. Derrick Rose estava quase sempre machucado, Jimmy Butler ainda não tinha um chute confiável e no perímetro o Chicago era definitivamente uma draga (e até hoje eu me pergunto como os Bulls liberaram Kyle Korver, que nesta temporada arremessa para surreais 54% de fora, sem ao menos brigar para mantê-lo). Estava claro em que setor residia o problema da franquia.

NBA: Chicago Bulls at New York KnicksMas no começo desta temporada o jogo mudou. Jimmy Butler tornou-se um arremessador confiável e decisivo (sua pontuação saltou de 13,1 para 20,6), Derrick Rose voltou a jogar, Pau Gasol chegou e Nikola Mirotic e Aaron Brooks foram contratados para o Chicago ganhar força no perímetro. O resultado disso? Os 93 pontos de média em 2013/2014 saltaram, rápido, para 102,1 neste começo de temporada 2014/2015. Os Bulls têm o nono ataque mais positivo, o oitavo em percentual de conversão de bolas de fora e o segundo que mais arremessa lances-livres (prova que o time tem atacado a cesta com força e com Rose saudável).

Deveríamos, portanto, estar vendo um atropelamento do Chicago, certo? A defesa continuaria por lá, o ataque foi solucionado, o elenco está completo. Certo? Não, a verdade é que não. Ontem o Chicago, sem Joakim Noah, é verdade, levou uma surra com gosto do (ainda) pálido Cleveland Cavs por 108-94, caiu para quarto no Leste com 27-16 e amargou sua quarta derrota em cinco jogos.

CT Bulls06593.JPGPerder, de fato, não é problema – mas sim COMO este time está perdendo. Como disse acima, os números ofensivos continuam bem. No lado defensivo é que para mim está a questão central do Bulls. Os 91 pontos por jogo da temporada passada saltaram para 99,7 neste campeonato (com duas posses de bola a mais por jogo apenas) e anotar cestas contra o Chicago tem sido fácil demais (demais mesmo!). São 36% dos tiros de três convertidos pelos adversários (oitavo pior índice da liga), 38,5 arremessos convertidos por jogo (pior número desde que Thibs chegou lá e quinto pior no ranking da NBA), apenas 12,5 erros forçados nos rivais (terceira pior marca) e 12,7 pontos em contra-ataque sofridos por jogo (prova que a até então decantada transição defensiva tem falhado muito).

As tais stops, então, nem é possível falar delas. Não se vê há tempos em Illinois e não tem sido possível apelar para elas nos finais das partidas simplesmente porque elas quase não existem nesta temporada. Para se ter uma ideia, dos 11 jogos de 2015 em nove a franquia levou mais de 100 pontos.

tom3Não consigo, ainda, diagnosticar exatamente qual é o problema, embora Pau Gasol atenda por boa parte deles (o espanhol, que nunca foi um primor defensivo, está pior ainda na marcação nesta temporada), mas está claro que o lado defensivo do Chicago precisa de ajustes para o time voltar a ser o que já foi antes.

Se no ataque já não há mais problemas, é na defesa que esta equipe se provará forte para brigar pelo título do Leste. Marcando o que está marcando hoje o Bulls é um time pra lá de frágil e fácil de ser batido.