Bala na Cesta

Arquivo : Iziane

Seleção feminina joga muito mal, leva surra do Japão e se complica no Rio-2016
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Fábio Balassiano

japa2Uma tragédia. Uma grande tragédia. Dá pra definir assim a segunda partida da seleção feminina na Olimpíada do Rio de Janeiro nesta segunda-feira. O time de Antonio Carlos Barbosa até que começou bem, abriu 20-19 no primeiro período, mas depois fez absolutamente TUDO errado, somou apenas 46 pontos nos três quartos seguintes e viu as japonesas reagirem para vencer com imensa tranqulidade. No placar final, os 82-66 dão exatamente a medida do domínio nipônico na tarde de hoje. Amanhã, menos de 24h depois desse vexame, as brasileiras medem forças com a Bielorrússia, que também tem 0-2 no torneio, às 15h30 em Deodoro. Derrota praticamente elimina a equipe.

japa4O jogo começou e o Brasil dominava as ações. Colocava Érika, Damiris e Clarissa em condições de pontuar perto da cesta, negava as infiltrações japonesas e parecia que controlaria totalmente a partida. Abriu vantagem de cinco pontos logo de cara, mas aos poucos as asiáticas foram entrando no jogo, ganhando confiança e fecharam a parcial perdendo de apenas um ponto (20-19).

A partir daí o domínio japonês começou. O segundo período foi um massacre de 28-13. O ataque brasileiro se precipitava (2/15 de três pontos, um terror!), a defesa não conseguia parar as rivais nem por decreto e o descontrole emocional fez com que os desperdícios de bola se acumulassem (ao todo foram 20 erros). No intervalo, sonoros 47-33 para as japonesas.

japa1O que era ruim ficou ainda pior na volta do vestiário. Barbosa não conseguiu fazer nada de diferente do que o apresentado na primeira etapa, e a repetição de erros e problemas fez com que a diferença das japonesas chegasse a quase 30 pontos. Iziane ainda tentava colocar o Brasil na partida, mas era muito pouco. No final do terceiro período, 73-52. Nos dez minutos finais o Brasil tentou, lutou, batalhou, mas a diferença não baixava da casa dos 15 pontos de modo algum. As japonesas, brilhantes em termos táticos e de disciplina tática, mantiveram a compostura, segurando a onda nos momentos mais complicados e fechando todas as portas de reação brasileira. No final, 82-66 e segunda vitória seguida no Rio-2016 para as asiáticas, que não venciam um jogo olímpico desde 2004.

japa3Amanhã o Brasil enfrenta a Bielorrússia às 15h30. Se perder, estará praticamente eliminado. Se vencer, terá ainda que bater Turquia e França para passar de fase. O otimismo depois da boa exibição contra a Austrália na estreia dá lugar, agora, ao pânico pela chance cada vez mais real de uma eliminação precoce na primeira fase. Como referência: nos últimos 14 jogos de Olimpíada o Brasil PERDEU 12 (1-4 em 2008 e 2012, derrotas em semifinal e jogo do bronze em 2004 e agora 0-2), algo absurdo.

Viu o jogo? Está chocado com a qualidade ruim da exibição brasileira?


Após boa estreia, seleção feminina tem primeira ‘decisão’ contra o Japão
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Fábio Balassiano

izi2No sábado a seleção brasileira feminina estreou no Rio-2016 contra a forte equipe da Austrália. Se não venceu (e no esporte não existem vitórias morais, sabemos bem), ao menos fez uma ótima exibição no primeiro tempo, quando chegou a vencer por mais de 10 pontos jogando um basquete solto, agressivo na defesa e recheado de contra-ataques provenientes da boa marcação imposta nas australianas. No final, as pernas cansaram, a intensidade caiu na segunda etapa e a derrota veio por 84-66 (último período desastroso de 13-27) apesar de magnífica atuação de Iziane, que fez 25 pontos (estava realmente em outra dimensão a ala!).

erika1Dá pra tirar, pelo lado positivo da coisa, o fato de o time de Antonio Carlos Barbosa ter jogado de igual pra igual contra a potente Austrália, algo que pouca gente acreditava tendo em vista os últimos resultados internacionais e a fase de preparação, mas aconteceu e dá confiança para as meninas que hoje enfrentam o Japão às 17h30 na Arena da Juventude, em Deodoro, na primeira decisão da Olimpíada do Rio de Janeiro.

Como as asiáticas venceram a Bielorrússia na estreia (primeira vitória japonesa em Olimpíada desde 2004), ao Brasil só resta realmente passar pelas nipônicas se quiserem avançar de fase. Neste grupo em que França e Austrália deverão disputar a primeira colocação e ninguém pode se dar ao luxo de ficar no quarto lugar (EUA do outro lado da chave), lutar pela terceira posição para sonhar com medalhas é praticamente imperativo.

damiris1E brigam por isso o Brasil, o Japão, a Turquia, que no sábado conseguiu ter dois períodos de menos de cinco pontos contra a França em sua estreia olímpica (três no segundo e quatro no último, algo bizarro), e a própria Bielorrússia.

A boa notícia para o Brasil é que as japonesas que estarão pela frente logo mais foram derrotadas duas vezes seguidas há menos de duas semanas em amistosos em Campinas (SP). A má é que nas duas últimas Olimpíadas (2008 e 2012) a seleção feminina perdeu seus dois primeiros jogos – e nos dois torneios foi eliminada na primeira fase.

izi3Para sonhar em passar para o mata-mata é imperativo que o time de Antonio Carlos Barbosa mantenha, por 40 minutos, a intensidade que apresentou contra a Austrália por três períodos e que conte com melhores atuações de jogadoras fundamentais, como é o caso de Érika, que fez apenas 3 pontos em 27 minutos (ela mesma admitiu que não foi bem). Se conseguir isso, se colocará muito perto de vencer o Japão, vencendo o primeiro jogo na competição.

Será que as meninas conseguem? Comentem!


Personagens do Basquete Brasileiro: Iziane – Parte II
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Fábio Balassiano

Na parte I da entrevista com Iziane você leu isso aqui .

izianeBNC: No meio disso tudo teve o Mundial de 2006 em São Paulo. Jogaram em casa, Ibirapuera cheio, mas no final duas frustrações – perder da Austrália na semifinal e o bronze contra os Estados Unidos.
IZIANE: E como. Mas aquele Mundial foi uma experiência bacana pra caramba, sabia? Quantos atletas podem dizer que disputaram um Mundial e uma Olimpíada em casa? Eu tive esse privilégio. Acho que esse Mundial de 2006 foi bem legal pra mim porque já estava firme na seleção, amadurecida e ainda havia o suporte das meninas mais experientes. Era uma oportunidade ótima, um time excelente e que se aproveitou do apoio da torcida para crescer. Podíamos até ter sido campeãs do mundo em 2006…

iziane1BNC: EUA perderam pra Rússia na semifinal e vocês poderiam ter ganho o título há dez anos, né?
IZIANE: Sim, sim. Apesar desse final, desses problemas, fomos muito bem. Sabe o que mais machuca, Bala? Aquela geração, aquela galera, merecia um coroamento final com medalha. Janeth, Helen, Alessandra, Cintia. Todas elas mereciam fechar suas trajetórias com a seleção com uma medalha no peito e isso é o que mais doeu na gente. Porque chegamos perto, construímos bem o campeonato, tivemos vitórias muito boas, mas no final escapou das nossas mãos.

iziBNC: Alguma coisa te marcou daquele Mundial?
IZIANE: Lembro de várias coisas dali também. Lembro de uma lesão importante da Érika, que ficou toda a fase de classificação fora devido a isso. Lembro que estávamos muito desacreditadas antes do jogo das quartas-de-final contra a República Tcheca e eu tinha plena confiança de que ganharíamos. Como ganhamos e ganhamos bem (75-51). Estava engasgada com elas, sabia? E sabe por quê? Tinha acabado de sair da República Tcheca, e lá o técnico quase não me colocava pra jogar. Quem era o técnico da seleção delas?

iziane1BNC: O mesmo cara que não te colocava pra jogar no clube…
IZIANE: Ele mesmo. Estava entalada. Queria muito enfrentá-lo. Naquele jogo lembro que fiz quase 20 pontos no primeiro tempo (foram 23 no total) e não demos chance alguma pra elas. Fazia as cestas e ficava olhando pra ele. Foi engraçado. Lembro muito dessa chance de jogar a final sem ser contra os EUA também. Deixamos escapar.

BNC: Aquela semifinal com a Austrália foi de cortar o coração, Iziane…
IZIANE: Lembro bem também. Construímos bem o jogo, tínhamos uma boa frente e elas viraram no último período (31-12) sem nos dar muita chance. Recuperaram, viraram, passaram, ganharam o jogo. Quando fomos ver estávamos apertando as mãos delas depois do apito final. É duro, mas realmente foram dez minutos que nos tiraram uma chance enorme de título. Tanto que a Rússia, que eliminou os Estados Unidos, perdeu a final da Austrália. Estávamos bem naquele jogo e perdemos.

izi1030BNC: Como é entrar no vestiário depois daquele momento?
IZIANE: Pra mim, estes jogos é onde você, enquanto atleta, mais aprende, sabia? Até hoje uso muito este jogo como referência. Falo isso até hoje para minhas companheiras. Não dá pra dar chance, Bala. Tem aquela metáfora do leão. Você dá uma pancada nele. Ele está bambo. Ou você mata ele de vez ou ele vai levantar e vai te comer. No basquete é igual. Se você abriu uma janela pra vencer, vai lá e finaliza isso. Do contrário, o outro time pode perceber a oportunidade e vir em cima de você. É frustrante não você perder, mas sabe o quê? É frustrante perder daquele jeito porque você, como atleta, sabe quão difícil é chegar naquele momento, naquela situação. E estávamos perto. Você está controlando ali, sabe. E do nada sai das suas mãos.

izi1040BNC: Queria explorar uma coisa. Está claro que pra todo mundo que te acompanha que você tem uma personalidade bem forte. Sempre foi assim?
IZIANE: Sempre, sempre. Desde criança mesmo. Tem algumas fotos minhas de quando era criança que já dá pra ver. Pra mim é preto no branco, Bala. Sou muito direta e muito emotiva. Por isso sempre chorei muito também.

BNC: Quando entrevistei a Tamika Catchings ela uma me disse que não admitia que jogadoras menos capazes que ela treinassem menos que ela. Como é pra você esse tipo de coisa? Você, hoje, precisa se controlar um pouco mais, mas é essa questão de exigência que você se impõe e que nem sempre as outras acompanham?
IZIANE: Em relação a isso sempre fui muito tranquila. Sempre respeitei a individualidade de cada uma, o limite de cada uma. Entendo o que a Tamika diz, eu tenho um grau de tolerância muito baixo, mas sempre respeitei a limitação. O que me irrita, o que me irrita mesmo, não é não conseguir. Isso faz parte. É não conseguir porque não se tentou, porque não se quis. Aí não admito. Sobre falar, eu falo mesmo. Obviamente a forma eu tenho aprendido a falar melhor. É aquela coisa, Bala. Eu entendo tudo de todas as meninas. Mas veja um exemplo. Se eu dei um passe à frente e você não chegou lá porque não foi veloz o suficiente porque isso é seu, tudo bem. Erro meu e acontece. Agora, se eu vejo que você se poupou, não deu 100% do que poderia, aí sim, cara, eu fico irritada pra caramba. E isso é diferente. Ser incapaz de fazer por questões atléticas, ok. Faltar vontade não é admissível. Eu dou o meu máximo e espero que cada um dê também.

iziane10BNC: Você acha que tem muito do brasileiro essa não compreensão do seu jeito mais franco, mais direto, de ser? E te explico: na Europa, onde você morou muito tempo, nos Estados Unidos, o que você às vezes disse na sua carreira sempre é tratado como algo normal. Eu mesmo enxergo quase tudo o que você fez com naturalidade, mas aqui no Brasil existe um melindre absurdo. Sou muito objetivo, racional e compreendo que pra você isso aqui é trabalho, negócio, e não brincadeira…
IZIANE: Acho que tem muito da cultura brasileira nisso, sim. O americano é bem direto e crítico. O americano diz: “Sua bola não caiu porque você não fez o movimento certo, sua preparação foi ruim, seu físico estava mal cuidado”. Aqui falam em pressão. Nada disso. É cultural, né, de querer ficar justificando as coisas de alguma maneira que não a mais sincera.

izi1BNC: Bom, agora vou começar a te apertar aqui. Depois que as meninas mais experientes saíram da seleção você começou a ser a líder do grupo. Em 2007 teve um Pré-Olímpico das Américas, você errou uma bandeja, o Brasil perdeu de Cuba e teve que disputar o Pré-Olímpico Mundial de Madri. Ali houve aquele case de sucesso imenso, né…
IZIANE: (risos) Também lembro de tudo daquele Pré-Olímpico. Estávamos bem preparadas e focadas para conseguir a vaga. Lembro daquele jogo específico contra a Bielorrússia que já poderia dar a classificação direta. Por isso a minha frustração e a minha reação.

izi5000BNC: Izi, o que se passa na cabeça do atleta quando ele diz pro técnico assim ‘Eu não vou entrar’?
IZIANE: Olha, pra mim ali foi simples: sou titular, você conta comigo, você (o técnico) tira todo mundo para tentar igualar o placar. Aí ok, beleza. Só que volta todo mundo menos eu. Aí quando faltam dois minutos, com o jogo perdido, eu tenho que entrar para recuperar o jogo? Neste momento não conte mais comigo. Agora, dentro de vários jogos, isso acontece muito, mas muito mesmo.

BNC: Mas em vários jogos da sua vida já aconteceu isso e você vai lá e entra. Você pode ter entrado fula da vida, mas entrou. É que naquele jogo você verbalizou. E aí explodiu. Ou estou errado?
IZIANE: Não, não está. Pode ser, pode ser isso. Mas já verbalizei em outros, só que em situações diferentes. Exemplo com a equipe do Sampaio Correa, com a própria Lisdeivi, como eu tenho com o Barbosa, já aconteceu de eu verbalizar algumas coisas desse nível também. É que ali foi um acúmulo todo também. Havia saído da WNBA pra jogar com a seleção, e em um jogo desses o técnico não conta comigo?

izi50001BNC: Mas, Izi, não sou defensor de ninguém. Você não entende que técnicos podem tomar decisões ruins? Aquela atitude não foi imatura?
IZIANE: Foi uma explosão, foi uma frustração exposta. Recentemente em um jogo do Sampaio Correa eu não entrei no segundo tempo de um jogo contra Americana. No final do jogo a Lisdeivi chegou pra mim e me disse: “Me desculpe, eu esqueci de você no banco”. Achei aquilo ali tão legal, sabe. Não por ser comigo, mas pela sinceridade de um técnico que conversa com seu atleta com toda humildade.

BNC: Você hoje, olhando pra trás, consegue admitir que errou?
IZIANE: Lógico, lógico que sim. Eu admito que errei, que me arrependo. Mandei mal, mandei mal, sim. Acontece na vida de todo mundo, né? Ali foi uma decisão errada que não deveria ter tomado. As pessoas às vezes me dizem que eu brigo com técnico. Eu não briguei com o Paulo Bassul. Só disse que não entrava e pronto. Nunca desrespeitei, nunca fiz nada. Falei com as meninas inclusive, pedindo desculpa ao grupo. Até o Jogo das Estrelas da Liga ano passado (em 2015) em Franca eu nunca tinha cruzado mais com ele. Cruzei, falei, conversei na boa. Os dois conversaram sobre como ambos amadureceram.

izi6000BNC: É que atleta é fogo, difícil de pedir desculpas, mas se você estivesse numa sala só você e ele, falaria que tinha se equivocado?
IZIANE: Claro, claro que sim. Estou falando com você, falaria com ele também normalmente. Aconteceu. Não me arrependo de nada da minha vida. Mandei mal e pronto.

BNC: Como foi ver aquela Olimpíada de casa? O Brasil foi muito mal…
IZIANE: Foi triste, foi bem triste ver de longe. Fiquei triste porque sei que poderia ter ajudado. E foi naquela Olimpíada que o Brasil efetivamente deixa de ser uma potência mundial. Ficou em penúltimo, foi um primeiro momento de queda. Até agora não conseguimos nos reestruturar.

izi50BNC: Aí você não foi pra Pequim-2008, o Bassul saiu, houve muitas trocas de técnicos, mas em 2012, em Londres, você estava quase lá…
IZIANE: (risos) Fui até lá, até a beira da Olimpíada, e me mandaram de volta pra casa (Risos). Lembro de tudo daquele momento também.

BNC: O que aconteceu?
IZIANE: A gente estava em Lille, na França, disputando um torneio…

izi5000.88jpgBNC: Aí você levou quem não podia levar pro quarto, é isso?
IZIANE: Não, não. Meu namorado estava hospedado no hotel. Fiquei três meses treinando com a seleção brasileira no Brasil sem ver meu namorado, que era americano. Aí ele foi me encontrar nos EUA para os amistosos e depois seguiria para me ver nas Olimpíadas.

BNC: Ué, então por que você foi cortada?
IZIANE: Porque eu dormi com ele.

BNC: E não podia. Você não pensou nas consequências?
IZIANE: Sim, mas não achava que aquela ação tivesse uma consequência tão grande. Em 2008, no Pré-Olímpico que você citou, foi uma coisa de jogo, uma coisa durante uma partida. Ali, ok. Mas em 2012, foi algo de fora de quadra. Achei um pouco demais.

hort1BNC: Quando a Hortência te chamou para anunciar o corte, como foi o sentimento de tristeza por não ir a mais uma Olimpíada?
IZIANE: De tristeza, não. Eu estava perplexa. Ela me chamou e estava toda a comissão no quarto. Eu entrei no quarto, estavam todos lá e eu pensei: ‘Caramba, o que aconteceu?’. Daí Hortência começou a falar que eu estava sendo cortada e deu os motivos. Aí falei: ‘Vocês estão me cortando por isso?’. E peguei minhas coisas pra ir embora. Liguei pra algumas pessoas, contei o que tinha acontecido e fui embora. Se não era para argumentar, eu não iria argumentar…

BNC: A Hortência era sua ídolo de infância. Foi ela uma das grandes responsáveis pela sua volta à seleção. Como foi decepcioná-la naquele momento? Como é decepcionar um ídolo deste tamanho?
IZIANE: Você tem que perguntar a ela…

hortenciaBNC: Não, não. Você que decepcionou a ela, e não ela a você, Izi…
IZIANE: Mas ela é que se sentia decepcionada. Porque na minha cabeça não tinha necessidade. Eu agi errado porque era uma norma, mas não mudaria em absolutamente nada na vida das pessoas ali.

BNC: Também viu a Olimpíada de lá. Voltou direto pra Washington, na WNBA. Também frustrante?
IZIANE: Pô. Essa aí eu fiquei puta de não ter jogado. Não fui antes pra WNBA pra ficar treinando com a seleção. Abri mão do maior salário da minha vida. Tinha acabado de sair de uma final com o Atlanta, valorizada, fui pro Washington e fiquei na seleção. Treinei, me dediquei e não rolou. Olha, Bala, pra mim nessa idade é muito desgastante, sabe. Nessa idade, concentração, treinamentos. Me dediquei, ajudei e não deu certo. Estava injuriada mesmo.

izi1000BNC: Achou que depois daquele momento nunca mais iria voltar pra seleção?
IZIANE: Olha, foi diferente. Eu queria não mais voltar à seleção. Tudo bem que era uma regra, que tirassem meu salário, mas me cortar por causa daquilo e levar 11 para a Olimpíada? Achei demais, sabe.

BNC: Aí você volta pro Brasil, monta o time lá com o Betinho, o Maranhão Basquete, e lembro que nos encontramos uma vez no aeroporto logo depois do Jogo das Estrelas em Franca, 2015. E te disse: ‘Izi, reflita. Tem uma Olimpíada pela frente e você ainda é capaz de ajudar’.
IZIANE: E eu te disse: ‘Se me chamarem, eu volto. Se precisarem, eu volto’. Depois que passam esses momentos você reflete. Eu estou aqui, treinando com a seleção brasileira e vou dar o meu melhor para ajudar a seleção brasileira.

barbosa8BNC: Quando o Barbosa voltou você sentiu que tinha uma chance ali com ele, não? Porque eu converso com o Barbosa e ele me diz que te entende…
IZIANE: A gente sempre se deu muito bem. O Barbosa é muito bom técnico de seleção porque sabe lidar com diferentes egos. Seleção brasileira são as melhores de seus clubes que chegam pra jogar juntas. O Barbosa sabe disso. Fiquei muito feliz quando ele assumiu não por mim, mas porque sei que ele entende do basquete feminino e seria capaz de brigar pela gente.

izi2BNC: Pra fechar aqui a parte de basquete. Como foi ganhar o título nacional pelo Sampaio Correa? Pela sua cidade, diante do seu povo, ginásio lotado…
IZIANE: Fiquei muito feliz porque foi um prêmio para o projeto de quatro anos. Conseguimos premiar o povo maranhense, que abraçou o projeto com muito carinho. Enquanto tinha a LBF, transformamos a cidade na capital brasileira do basquete. Ia ficar muito frustrada se não tivesse conseguido dar o título para a cidade. Acho que aquela torcida merecia, sabe. O Maranhão é muito carente de alegrias e o basquete conseguiu dar isso. Quando acabou o último jogo todo mundo estava pulando, saltando e eu fiquei parada. Eu queria aproveitar aquele momento vendo a alegria dos outros. Queria guardar na minha cabeça a felicidade dos outros, entende? O jogo já estava meio ganho, estava quase 30 pontos e eu lembro que ficava olhando pra arquibancada, pros torcedores, pros amigos.

iziane1BNC: Sua relação com a imprensa, como é?
IZIANE: Olha, eu sempre tive uma convivência muito boa com a imprensa, apesar de eu achar que ainda se bate muito nessa parte ruim da minha carreira. Mas hoje eu entendo como as coisas funcionam e o que vende, o que dá audiência. Realmente acho que falta uma cobertura maior. As finais da LBF, por exemplo, foram pouco divulgadas, sabe. Precisamos de uma maior abertura na imprensa, principalmente na televisão, que é o que traz público. A internet fez com que o basquete feminino não morresse em termos de cobertura, mas para vender o basquete feminino mesmo a gente precisa de mais televisão.

izi1BNC: Você guardou dinheiro?
IZIANE: Guardei, mas dentro daquilo que o basquete feminino permite. Os salários não são imensos, bizarramente altos. Mas consegui guardar alguma coisa, sim. Não descarto trabalhar com o Sampaio, mas como dirigente, por exemplo.

BNC: Você pensa em continuar o esporte, mas em outras funções, né?
IZIANE: Sim, não penso em abandonar essa parte esportiva.

BNC: Fora de quadra, como a Iziane passa o tempo?
IZIANE: Hoje em dia é 90% do tempo com meu Instituto. Se não estou jogando ou treinando estou cuidando das coisas do Instituto. Hoje em dia são 120 crianças que a gente atende lá em São Luís há dois anos. Temos pedagogia, assistência social, tudo isso lá. E tenho que cuidar de tudo isso. Um pouco de lazer que consigo é ir para a praia aos domingos. Ali na Praia do Meio. Temos um grupo de amigos que sempre frequenta ali há muito tempo. E cinema. Gosto muito de filme, de todos os tipos de filme. Vejo de tudo. Eu sou muito ativa. A vida precisa ser vivida. A gente descansa quando for morrer. É mais fácil.

izi2BNC: Ser mãe, você não quer?
IZIANE: Nunca quis, sabia. Nunca nem sonhei com o príncipe encantado, essas coisas. Sempre me dediquei muito a minha carreira e talvez isso tenha tirado um pouco esse lado mais pessoal. É o ônus da carreira de atleta. Ser mãe, pra mim, é uma dedicação pra mim que eu não quero pra minha vida. Quero ter um companheiro, mas sou muito crítica em relação ao mundo e não sei se quero colocar alguém no mundo do jeito que ele está hoje, não. As pessoas hoje não são tão humanadas como eram antigamente. As pessoas deixaram os valores humanos meio de lado. Eu tenho um sobrinho que joga, tem 14 anos e a gente conseguiu colocar os nossos valores nele. Mas é complicado, porque o mundo vai corrompendo as pessoas. Não sei se quero passar por essa luta.

izi3BNC: Quando você olha a situação do Brasil hoje, te preocupa?
IZIANE: Sim, e muito. Me preocupa muito. Estávamos até em Americana disputando a LBF quando votaram o impeachment da Dilma e me preocupava muito com o rumo das coisas. E eu pensava: ‘Caceta, vou é me mandar daqui. Vou aproveitar meu sobrinho, que deve estudar nos EUA em breve, e fico lá de vez’. Mas a verdade é fico muito triste, sabe. Isso é algo que me visualizo fazendo para tentar melhorar a vida das pessoas. Me filiei ao PSL (Partido Social Liberal) e quem sabe concorra ao cargo de vereadora no Maranhão. Eu acredito muito na política enquanto teoria, mas as pessoas aqui no Brasil querem entrar na política não para melhorar a vida do próximo, mas sim para se beneficiar pessoalmente. São coisas bem diferentes. As pessoas esquecem que ali estão os sonhos do país inteiro para ter uma vida mais digna. Em São Luís eu moro em um bairro onde as pessoas não têm o que comer, não tem água. Bala, não tem água. As pessoas às vezes criticam o Bolsa Família, mas se não for isso aquela pessoa ali vai comer o quê? O nosso Brasil me decepciona um pouco nisso, sabe. Quando chegam, estes políticos, ao poder e não olham para o povo isso me decepciona demais.

izii1BNC: Dos políticos, quem você admira?
IZIANE: Está difícil, né? No Maranhão, é impossível negar o poder da família Sarney. Chegou a presidência da República, isso é importante. Mas hoje em dia os valores que eu acredito como básicos para a população estão muito longe dos políticos que deveriam representar o povo. Não consigo ver um político se dedicando ao cargo como deveria, sabe. Eu sinto sempre que meu direito democrático está sendo violado pelos políticos.

BNC: Isso tudo acaba voltando para o que você falava de não querer ter filho, não?
IZIANE: Como vou botar um filho nesse país assim, Bala? Eu fico abismada com as pessoas. Minha amiga estava grávida do terceiro filho e eu só olhava pensando no absurdo. Mas isso sou eu, claro, eu que penso assim. Eu não me vejo em condições de colocar uma criança no mundo. A vida não é um mar de rosas o tempo todo, mas hoje em dia está complicado pensar em ter alguém que dependa 100% de mim.

iziiiiBNC: Quantas atletas têm esse nível de entendimento político? Por quê atleta se mete tão pouco em questões políticas relativas ao esporte?
IZIANE: São muito poucas as que se metem. Quando houve aquele boicote à seleção no começo do ano eu trouxe este tema. Quem estava lutando pelos atletas? Naquele momento, era uma luta das jogadoras ou de terceiros? Entende o que quero dizer? Falava pra elas sobre como as coisas funcionavam, como elas deveriam entender, tudo isso. Falo inclusive em relação às coisas da CBB. Se tem convênio, o que é convênio, o que é Lei de Incentivo, o que é patrocínio. Todos deveríamos saber disso. É o básico. Falo isso com as atletas, falo muito. Eu mesmo pergunto tudo, mas o atleta em geral não se mete muito. Só foca na quadra e deixa o resto com o cartola. É uma pena, mas os atletas não gostam muito. É cultural, é reflexo do país também. Deveria ter aulas de política nas escolas desde muito cedo. O esporte é reflexo do país, nada mais que isso.

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Personagens do Basquete Brasileiro: Iziane – Parte I
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Fábio Balassiano

izi1005Aos 34 anos, Iziane Castro Marques começa amanhã contra a Austrália (17h30) a disputar a sua segunda Olimpíada. Presente em 2004 e cortada em 2008 e 2012 por motivos disciplinares, a maranhense de São Luís tenta recolocar o basquete feminino em posição de destaque depois de desempenhos ruins em Pequim-2008 e Londres-2012.

Dona da personalidade forte, a jogadora, campeã recentemente pelo Sampaio Correa na LBF, admite que depois do Rio-2016 parará de jogar profissionalmente. Iziane é uma Personagem do Basquete Brasileiro.

izi104BNC: Você jogou uma Olimpíada em 2004, foi cortada duas vezes por problemas de disciplina em 2008 e em 2012, passaram mais de 10 anos e vai jogar a sua segunda e última 12 anos depois. Nem se você escrevesse esse roteiro daria certo, né? Sua última, né?
IZIANE: Ah, com certeza que não conseguiria escrever esse roteiro. Eu falo pra todo mundo que jamais imaginei jogar uma Olimpíada. Agora serão duas e essa em casa. Que atleta que jogou uma Olimpíada em casa? É um sonho, sonho. Sobre ser minha última, tem muita gente que fala que estou bem, que ainda posso seguir mais um pouco, mas o corpo está sentindo. E penso: ‘Por que não fechar bem?’. Fechar com uma Olimpíada, com um título brasileiro pela minha cidade, sendo MVP das finais. Se tiver uma medalha olímpica nesse final seria excepcional. Meu desejo é terminar bem.

izi1001BNC: Você fez 34 anos. O que pensa pro fim da carreira? Quando você deseja parar?
IZIANE: A medalha olímpica é uma fixação e quero muito terminar a minha carreira com ela no peito. Em termos de carreira eu acho que fui muito além do que todos esperavam. Minha história diz isso. Jogar Mundial, Olimpíada em casa. Jogar 11 anos na Europa e WNBA, títulos. A carreira foi além do que esperava. Nunca imaginei o mundo esportivo que existia ao redor. Só queria saber de seleção brasileira. Não espero mais nada. O que vier hoje é lucro.

izi2BNC: Vai jogar até os 40 anos então, é isso?
IZIANE: Não, nada disso. Pretendo terminar bem. Consegui o título com o Sampaio, quem sabe agora a medalha olímpica pra fechar bem…

BNC: Peraí. Então se você ganhar uma medalha você encerra a sua carreira? É isso?
IZIANE: Na seleção termina agora. Em clube já disse que encerrei. O pessoal é que não acredita. Depois do Rio-2016 o pessoal não vai mais me ver em quadra. Essa é a ideia. Já falei antes e sigo falando isso.

izi1BNC: Eu não acredito nisso. Se o Sampaio tiver um time lá na LBF, próxima temporada, você não mais jogar?
IZIANE: Não, não. Não quero mais. Estou bem, satisfeita, realizada com o que propus para a minha carreira. De repente, se precisar da Iziane para conseguir um patrocínio, pro basquete não acabar lá, aí quem sabe eu fico mais um ano. Mas minha ideia é parar mesmo e ficar em cima do que construí. Quero seguir com meu Instituto Iziane Castro.

izi1004BNC: Antes de falar mais de basquete, conta pra gente quem é a Iziane Castro Marques. Infância, formação, família, essas coisas…
IZIANE: Sou de São Luís do Maranhão, nascida na Santa Casa de Misericórdia, no Centro de São Luís, no dia 13 de março de 1982 às 06h20 da manhã. Foi uma sexta-feira, 13. Estou brincando. Foi sábado (risos). Tenho uma irmã dois anos mais velha, a Isis, que me chama de Neném até hoje inclusive. A gente sempre morou com a nossa avó, porque meu avó era cego. Então minha mãe ajudava a minha avó a cuidar do meu avô e todos morávamos juntos. Crescemos nesse vínculo familiar muito forte. Todos sempre agarrados, né. Estudei no Colégio Batista, onde comecei a jogar basquete. Quando era criança, antes do basquete eu fiz balé e também natação. Em São Luís todo mundo faz natação por causa da praia, né. Quando criança eu sempre fui muito de rua. Brincava de tudo. Desde empinar pipa até jogar futebol, boneca, elástico, pular corda, essas coisas. Eram tempos antigos de brincar na rua e estudar.

betinho1BNC: Como o basquete surgiu então?
IZIANE: Foi na escola mesmo. Nas minhas aulas de educação física a gente fazia todas as modalidades. Meu colégio era muito tradicional, de gente rica mesmo, e como eu era uma menina de rua, de brincar de tudo, eu nunca tive frescura de nada. Nas aulas, o professor, vendo meu biótipo, pediu para eu tentar jogar basquete. Eu não queria, mas ele insistiu tanto, mas tanto que teve uma vez depois de quase um ano que eu falei pra ele: “OK, vou lá jogar só pra você parar de me encher o saco”. Foi assim que eu comecei. Quando esse professor me viu jogar, logo me encaminhou ao Betinho (Nota do Editor: primeiro técnico da Iziane) e foi assim que comecei. Tinha 11 para 12 anos, e me apaixonei. Logo o Betinho viu que tinha facilidade para aprender, para evoluir e fui participar dos campeonatos escolares e estaduais.

izi10030BNC: Uma coisa que me chamou atenção: você falou que era de um colégio de galera rica. Mas você veio de uma família de classe média, não?
IZIANE: Sim, de classe média. Meu pai era técnico de edificação, ganhava bem na época e sempre enfatizou muito essa parte de educação. Minha mãe é professora, e tudo o que eles tinham eles investiam na parte educacional minha e de minha irmã. Minha mãe, Marinei, passou fome. Meu pai, Aldeir, sempre enfatizou essa questão do estudo.

BNC: Você sofreu algum tipo de preconceito por estudar em um colégio com uma galera mais rica que você?
IZIANE: Não, não mesmo. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito. Inclusive ainda levava a galera para o meu bairro, que é a Liberdade, bairro de pobre mesmo. E levava porque era muito estudiosa, boa aluna, e quando tinha trabalho em grupo todo mundo queria fazer comigo. Aí chegava lá, um monte de carrão na porta do bairro e eles vinham estudar comigo. Minha avó continua morando neste bairro. Quando meu avô faleceu, meus pais se mudaram. Eu, como nunca gostei de morar em apartamento, sempre mantive meu quarto na casa da minha avó, até porque passei 11 anos jogando fora do país, né. Depois que eu votei pro Maranhão eu comprei uma casa, mas quase não ficava lá. Dormia quase direto na casa da minha avó. Mudei, mudei mesmo, ano passado, quando minha avó teve um AVC muito sério e minha mãe teve que voltar pra casa da minha avó. Fico hoje em dia todo na casa da família e só retorno ao bairro da minha casa, São Francisco, pra dormir.

izi1000BNC: Aí você começou a se destacar jogando basquete na Escolinha do Betinho…
IZIANE: Comecei, comecei indo bem. Peguei seleção colegial, seleção maranhense e fui indo. Teve um ano que o Maranhão jogou a Copa Brasil, que hoje é a LBF mesmo. Havia o time da Paula, o BCN, e o nosso time foi lá. Eu tinha 14 anos, e já jogava de titular. Disputando essa Copa Brasil de 1998 eu lembro bem que o primeiro jogo foi contra o BCN e eu fui cestinha, sabia? Lembro que tinha Claudinha, Tuiu, galera toda de seleção e eu lá jogando. Foi engraçado que recebi o convite da Maria Helena Cardoso e da Eleninha para jogar no BCN, mas o Betinho não me disse nada, acredita? Passou o ano todinho, ele deixou acabar o campeonato e pediu para que elas duas contatassem a minha família para explicar o que elas queriam fazer comigo. Ainda era infantil, né.

izi1000000BNC: Aí você foi pro BCN no final de 1999. Já era em Campinas?
IZIANE: Estava saindo de Piracicaba para Campinas. Era engraçado que eu treinava com o time de base em Piracicaba e com o adulto em Campinas. Fazia esse trajeto algumas vezes na semana. Esse convite surgiu e no começo minha família não queria deixar, claro. Era muito nova, mas falei pra minha mãe que eu queria tentar, queria seguir na carreira de jogadora profissional de basquete. Ela foi, viu tudo, mas não assinou, acredita? Meu pai é que teve que convencer minha mãe.

BNC: Você ainda era estudante do segundo grau, seus pais sempre falaram muito de estudo e você passaria a praticamente a viver de esporte. Eles Não ficaram preocupados com o fato de você se dispersar um pouco do caminho do estudo?
IZIANE: Imagina! Disseram que se eu não estudasse, se não tivesse boas notas que eu voltaria correndo. Tanto foi assim que eu estudava em escola particular. Era das únicas do time que estudavam em escola particular. A maioria fazia escola pública de manhã. Eu, escola particular à noite, depois de treinar em dois períodos. Era pauleira, e em um colégio tradicional, o Anglo-Americano. Me formei no segundo grau e ainda passei na faculdade, acredita?

izi20.BNC: Sério? Faculdade? Essa eu não sabia…
IZIANE: Em Medicina na UNIP…

BNC: Pô, mas essa eu não sabia mesmo. Iziane, então quando as pessoas te chamarem daqueles nomes feios você precisa falar essas coisas todas…
IZIANE: Minha mãe sempre disse que eu seria médica, é mole? E aí eu passei pra medicina, só que preferi continuar como jogadora mesmo.

maria2BNC: Como foi esse começo com Maria Helena e Eleninha, duas técnicas muito vencedoras. Você veio de um time humildade, quase amador, direto para uma potência do esporte, com treinadoras de ponta e estrelas no time adulto. Esse início assustou um pouco?
IZIANE: Foi duro, Bala. Eu tive dois anos seguidos anemia, sabia disso? Por causa da adaptação à comida. Até hoje eu acho ruim a comida de longe de casa, mas atualmente já consigo comer melhor. Mas naquela época foi difícil. Passei fome, cara. Não sabia a quem consultar, com quem falar. O BCN era muito organizado, tinha refeitório, nutricionista, tudo direitinho, mas eu que achava todas as comidas ruins, mesmo. Minha mãe teve que vir do Maranhão para fazer a minha comida, meus lanches. Sentia falta da farofa, do açaí, do tempero do Maranhão. Além disso tinha o clima, o frio. Lembro que cheguei a São Paulo de sandália, saia, blusa sem manga. Mas logo vi que o sol não esquentava. Chuva, frio, chuva, comida e ainda tinha o boicote da galera, né. Você chega, nova, do Maranhão, as meninas pensam que você vai tomar o espaço delas e começam a te boicotar. Não foi fácil não, cara.

paula3BNC: E quando foi que você começou a perceber que daria pra ser jogadora profissional? Quem estava lá naquele time adulto da época?
IZIANE: Ah, estava a Paula, Karina, Adrianinha, Kelly.

BNC: Verdade, tinha a Paula. Como era treinar com a Paula?
IZIANE: Rapaz, você tinha que me ver treinando contra a Paula. Como eu era infanto, só podia treinar na categoria. Jogar, não. Mas aí treinava contra elas. A Maria Helena e a Eleninha adoravam ver, adoravam me ver treinando contra a Paula. Eu tinha vergonha de falar com a Paula. Tremia, sabe, tremia mesmo. Até hoje quando a vejo fico meio assim, meio tímida. Um ídolo, uma referencia pra mim. Acha que é fácil? Eu tentava fazer o meu melhor, não errar, fazer tudo direitinho.

paula5BNC: Ela te dava algum conselho?
IZIANE: Nossa, bastante. Lembro que a gente jogou um Jogos Abertos com a gente porque estava em recuperação e entrou pra atuar pra ganhar ritmo de jogo, essas coisas. Aí ela vinha me levando às vezes pro treino, conversava, explicava coisas de basquete e da vida. Tentava absorver tudo o que ela falava.

BNC: Aí chegou a primeira convocação para a seleção adulta, é isso?
IZIANE: Sim, foi em 2001 na Copa América lá em São Luís. Mas ali eu já tinha uma perspectiva. Já estava encaminhada, sabe? Tinha pego seleções de base, jogava em um time adulto forte, tinha ótimas técnicas e uma bagagem. Fiquei muito feliz de poder estrear pela seleção brasileira jogando na minha casa. Eu era reserva da Janeth, quase não jogava, mas pra mim aquilo ali tudo era o máximo. O Castelinho ficava lotado e ainda no final conseguimos o título em cima de Cuba.

izi100BNC: Qual foi a sensação da sua família e a sua naquele momento específico? Você saiu do Maranhão, foi jogar em São Paulo e volta para atuar no Maranhão com a seleção brasileira adulta. Foi uma vitória ali, não?
IZIANE: Lembro que pensava assim: ‘Caramba, estou conseguindo realizar tudo aquilo que eu tinha planejado quando saí daqui (do Maranhão)’. Era esse filme que passava pra minha cabeça. Quando saí de lá, lembro que falei pra minha família: ‘Vou sair daqui, vou jogar bem em São Paulo, vou chegar à seleção brasileira e vou jogar uma Olimpíada’. Minha mãe titubeava e eu dizia que venceria. Aí quando eu volto me sinto realizada por estar dando andamento ao meu sonho e também ao da minha família. Estava vendo que todo aquele sofrimento, tudo o que passava, estava valendo a pena. E eles são muito colados comigo até hoje. Nos jogos do Sampaio Correa na LBF, por exemplo, estão todos lá sempre ao meu lado me apoiando. Acho que eles têm muito orgulho, muita felicidade da minha trajetória. Creio que eles também se realizem através das minhas realizações.

izi1008BNC: Lembro que um dos primeiros jogos que vi seus foi pela TV Bandeirantes. Acho que era um sábado ou um domingo pela manhã, foi um jogo do BCN, você apareceu, começou de titular esse jogo, acho que você não tinha nem 20 anos e entrevistaram a Maria Helena para falar a seu respeito. Lembro dela falando que você seria o futuro do basquete brasileiro, te tecendo elogios absurdos e tal. Você sempre foi tratada assim, né? Como potencial, como pedra preciosa. Isso atrapalhou alguma coisa?
IZIANE: Creio que não. Me acostumei com isso porque desde sempre as coisas fluíram neste sentido. Não acredito que tenha atrapalhado em nada, não. Sempre soube lidar com isso. As pessoas também me blindaram muito. As pessoas me incentivavam, e não me expunham neste sentido.

maria1BNC: Como era com Maria Helena e Eleninha? Ambas são muito exigentes…
IZIANE: Foi tranquilo, bem tranquilo. Elas me acolheram como uma pupila, como uma filha. Elas queriam desenvolver o meu potencial. A Macau, que era a minha técnica no infanto, tinha que brigar com elas pra eu parar de treinar (risos). Elas se envolveram muito comigo tipo nessa época aí que fiquei doente, sabe? Me chamavam direto para almoçar com elas. Todas ficaram muito preocupadas comigo. Cansei de ir na casa delas almoçar. Algumas vezes com minha mãe inclusive. Me trataram como uma pessoa da família mesmo.

izi10010BNC: Nessa época você já tinha jogado um Mundial Sub-19 em 2001. Naquele Sub-19, ali com o Paulo Bassul, você e a Érika meio que surgiram para o mundo. As pessoas olhavam pra vocês e viam que tinha algo diferente. O que você lembra desse torneio, desse começo de trajetória com a seleção brasileira de base?
IZIANE: A gente teve uma geração muito boa, né. Sempre entre as quatro primeiras do mundo, sempre com destaque internacional. Foi essa geração que foi vice-campeã do mundo Sub-21 em 2003. Eu não fui neste torneio porque estava na WNBA, mas era uma galera bem talentosa e que tinha o respeito de todo mundo. Lembro que fazíamos jogos duros inclusive contra a galera da mesma idade dos Estados Unidos. E eram Diana Taurasi, Seimone Augustus, Lindsay Whalen, só fera. A gente sempre conseguiu manter o equilíbrio contra essa galera. Você cresce com essas meninas, joga contra essas meninas e quando chega no adulto não tenha aquela estranheza, aquela coisa de bicho-papão. Elas nos conheciam, e a gente conhecia a elas também. Existia um certo respeito, e isso ajudou muito na minha carreira e também na da Érika na WNBA.

izianeBNC: Aí logo em 2004 você foi para a sua primeira Olimpíada. Tinha 20, 21 anos e teve a média de 15 pontos por jogo. Ali realmente foi a primeira vez que te vi jogar e fiquei um pouco assustado. Era um time que tinha a Janeth como líder, como craque, e você foi a segunda cestinha em um elenco que tinha Alessandra, Helen, Cintia, Kelly… Como foi aquela primeira Olimpíada da sua carreira?
IZIANE: Ah, tem uma história interessante dessa Olimpíada. Um dia antes do primeiro jogo a Karla (Costa) me deu uma joelhada sem querer no treino e eu tive uma hiperextensão. Não conseguia nem andar. A Vila Olímpica era enorme e para eu andar até o quarto era um sofrimento. Preocupada pra caramba, os médicos me fizeram uma bandagem lá e eu disse a eles: “Nem que eu quebre o joelho eu vou jogar. É minha primeira Olimpíada. Não perco isso por nada”. O primeiro jogo foi bem fácil contra o Japão (128-62), joguei 20 minutinhos e depois fui poupada porque sentia muitas dores.

izi1002BNC: Como foi fora das quadras? Vila Olímpica, os ídolos, a cerimônia de abertura…
IZIANE: Cerimônia de abertura? Queria saber também, porque nós não fomos (risos). Não deixaram a gente ir porque tinha jogo logo da manhã do dia seguinte à cerimônia. Mas eu aproveitei muito aqueles Jogos ali na Vila. Fiz vídeos, fotos, caramba. Muita gente, muito personagem legal, sabe. A gente é jogador, mas ao mesmo tempo é torcedor, gosta de esporte e dos esportistas. O Mauricio (Lima), levantador do vôlei, está em quase todas as minhas fotos. Lembro da seleção americana de basquete, Serena Williams, o próprio Manu Ginóbili. Nessa Olimpíada o time masculino não ficou na Vila, ficou em um navio, mas foram para a Vila antes da cerimônia de abertura e aí aproveitei. Não só eu. Teve menina que chorou e tudo. A Adrianinha se emocionou quanto tirou foto com o Allen Iverson, sabia? Eu sempre fui muito focada, muito concentrada, mas ali na Vila Olímpica era possível também ser um pouco fã do esporte. Sempre que podia assistia aos jogos do Brasil também. Não tenho muitas memórias das coisas, mas dessa Olimpíada eu lembro de tudo. Da alimentação, dos ginásios, dos treinamentos, dos trajetos. Tudo. E sabe o que é o pior, Bala? O primeiro jogo ganhamos de quase 70 pontos. E eu dizia assim: “Foi por isso aí que nós não fomos na cerimônia de abertura?”.

izi1BNC: Você disse isso alto, né? Consigo imaginar…
IZIANE: Disse, disse (risos)…

BNC: Pena que o final foi um pouco frustrante, não? Derrotas para Austrália na semifinal e para a Rússia no jogo do bronze. Lembro que xingava muito a vocês na disputa do bronze. Estavam com o jogo encaminhado e perderam o último período meio feio (24-16)…
IZIANE: Aquela Olimpíada, na quadra, foi meio esquisita. Perdemos duas vezes na fase de classificação para Austrália e Rússia, mas tivemos um jogo para ir adiante contra a Espanha nas quartas-de-final. Lembro que a Janeth jogou muito aquela partida (27 pontos) e guiou o time para a disputa das medalhas. Infelizmente depois alguns momentos do jogo, detalhes, nos impediram de chegar à medalha. Tínhamos um time bom, focado, mas acabou não dando certo. Apesar de não termos conseguido medalha acho que foi uma boa experiência pra mim, sabe. Era muito nova e a comissão técnica do Antonio Carlos Barbosa me dava uma força danada. Me passavam uma confiança, Bala, que você não tem ideia. Isso foi muito importante pra mim, sabe. Tinha menina ali que eram minhas ídolos, sabe. Janeth, Alessandra, Cintia, Helen. Era fácil jogar com essa geração. Só tinha craque.

iziane1BNC: Você saiu dessa Olimpíada e saiu muito valorizada pra caramba, retornou pra WNBA ainda mais por cima…
IZIANE: Verdade. Já tinha jogado na WNBA, mas saí da WNBA para treinar com a seleção pros Jogos Olímpicos de 2004. Nesse ano eu perdi meu título da WNBA, porque o Seattle Storm acabou sendo campeão. A técnica Anne Donovan ficou doida comigo, me queria muito lá, mas eu estava me preparando com a seleção. Eu era titular daquele time que tinha Sue Bird, Lauren Jackson, Betty Lennox.

BNC: E tinha a Europa no meio disso tudo também, né? Você rodou um bocado…
IZIANE: Sim, era metade do ano na Europa e a outra na WNBA. Eu sempre coloquei pros meus agentes assim: “Tem proposta boa, pode me colocar sem problema algum que eu vou”. Nunca tive medo de absolutamente nada. Comecei com 19 anos na Espanha em 2001. Foi muito inteligente por parte dos meus agentes me colocar em Lugo, Espanha. Era frio lá, viu. Fui bem lá. Era uma equipe que precisava de uma estrangeira, ficamos na primeira divisão, conseguimos o objetivo. Depois fui pra França e logo de cara fomos campeãs europeias com o Aix-En Provence, mas só tinha sete jogadoras, sabia? Éramos eu, uma australiana, uma francesa, uma alemã, outra americana e duas reservas que mal entravam. O técnico matava a gente (risos). Nessa época tinham mais seis brasileiras na França. Adriana Santos, Claudinha, Mamá, Kelly, então a gente se encontrava muito. Nos primeiros anos fora do Brasil havia sempre muita brasileira jogando e a gente sempre se via.

iziBNC: Depois você foi parar no Ekaterinburg, na Rússia…
IZIANE: A Rússia foi tenso, sabe. Não de basquete, mas de adaptação ao país, cultura, clima, e eu não topei, não. E na época ganhava-se muito bem lá, você não tem ideia. Não consegui. Foram sete meses trancada em casa. E você me conhece, eu sou muito ativa. Nem dormir de tarde eu durmo. Mas tinha que fica trancada em casa porque não dava pra sair devido ao frio. Era papo de 30 graus negativo. Aviões antigos, bem antigos, sabe. Toda vez que entrava no avião eu ligava pra minha mãe me despedindo, dando tchau (risos). Ficava o dia inteiro em casa. Sabe o que eu fazia? Via série. Lembra aquela série “24 horas”? Acho que vi todas as temporadas possíveis em uma semana. Naquele time tinha muita fera – Teresa Edwards, Yolanda Griffith e uma sérvia. A base éramos nós quatro mesmo. Fomos campeãs da Copa da Rússia em casa. No campeonato perdemos do CSKA. Voltei pra Espanha, no Perfumerias Avenida, em Salamanca, depois fui para a República Tcheca, França um pouco.

Continua…

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Brasil segue vencendo no Sul-Americano feminino da Venezuela
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Fábio Balassiano

iziane2Quase ninguém está acompanhando (uma pena!), mas a seleção brasileira está em Barquisimeto, na Venezuela, disputando o Sul-Americano Feminino adulto (a ESPN está exibindo). Venceu o Uruguai na 6a feira (115-42), o Chile no sábado (104-54) e agora há pouco bateu a Colômbia por 76-55 com 22 pontos de Iziane (17 na segunda etapa) em uma exibição bastante irregular (alternou momentos muito bons, como o do terceiro período, com lapsos, como o do primeiro quarto).

nadia1A verdade é que o Sul-Americano serve apenas para o técnico Antonio Carlos Barbosa dar ritmo de jogo às atletas. Mais do que isso, não. Os adversários são todos bem fraquíssimos (Argentina e Venezuela, os melhores, nunca ofereceram resistência). Tanto é assim que o nível de concentração das atletas brasileiras fica bem abaixo do que é aceitável em alguns momentos. É natural, é do ser humano isso.

izi3O Brasil tem, portanto, usado o torneio para testar ações, formações e evoluir em termos técnicos e físicos. Algumas atletas têm aproveitado para ganhar a confiança da comissão técnica, como Nádia (foto acima – 15 pontos e 11 rebotes hoje) e Kelly (14 pontos e 8 rebotes neste domingo).

O Brasil enfrenta o Paraguai na terça-feira (20h) para fechar a fase de classificação. Logo depois jogará a semifinal e provavelmente a final. Vamos tentar ver a melhora do elenco de Antonio Carlos Barbosa, mas não dá para traçar uma análise mais forte em relação a que posto este time irá postular na Olimpíada de 2016 quando os adversários deste Sul-Americano são tão fracos assim. Aguardemos os amistosos preparatórios de ótimo nível (se é que virão) ou o próprio torneio olímpico do Rio de Janeiro.


Sampaio Corrêa, Iziane, Lisdeivi e a força do basquete no Nordeste
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Fábio Balassiano

sampaio3

sampaio1Talvez devesse fazer uma análise tática / técnica do jogo 4 da final da LBF de ontem à noite. Mas não é necessário quando você olha o placar de 78-50 a favor do Sampaio Corrêa contra o Corinthians / Americana, né? Com o triunfo, o time de São Luis fechou o confronto em 3-1, sagrou-se campeão pela primeira vez da LBF e levou à loucura as 7 mil pessoas que lotaram o ginásio Castelinho (que festa linda!).

Antes de seguir, alguns detalhes:

sampaio2a) Americana só teve chance quando o Sampaio Correa jogou mal. Quando o Sampaio Corrêa subiu o nível, Americana não alcançou. No ataque, o Sampaio envolveu TODAS as atletas e mesmo com as ótimas Iziane e Wheeler mostrou jogo coletivo, ficando difícil para as rivais marcarem. Na defesa, sufocou as adversárias desde o princípio da série, tornando as ações ofensivas muito complicadas para o time de Antonio Carlos Vendramini, treinador que não fez nenhum ajuste durante a série inteira (não consegui compreender o motivo).

lbf5b) Saldo nas vitórias do Sampaio: Jogo 1 -> +23; Jogo 2 -> +17; Jogo 4 -> +28. Média -> +23

c) Americana: 4 jogos nas finais, 16 quartos de 10 minutos jogados e apenas DOIS períodos com o time fazendo 17+ pontos. MUITO pouco, né?

d) Feitos alcançados pelo Sampaio com o caneco: Lisdeivi tornou-se a primeira técnica estrangeira campeã nacional no feminino, foi o primeiro Título Nacional pro Estado do Maranhão e foi o primeiro título de Iziane como protagonista (havia ganho em 2008, foi até cestinha daquele Nacional da CBB, mas nas finais não foi tão decisiva devido à lesão que tinha na clavícula).

Agora, bem, dá pra falar um pouco de alguns personagens desta campanha:

izi21) Iziane, claro. É preciso falar da ala de 33 anos que enfim conseguiu dar a sua cidade-natal o tão sonhado título nacional. Iziane, desde sempre, joga muita bola. Desde sempre também foi atrevida – e seu atrevimento nem sempre encontrou “eco” entre os que a dirigiram. Com personalidade forte, ela amadureceu e encontrou na técnica Lisdeivi alguém com estofo e coragem necessárias não para bater de frente com ela, mas sim para ensiná-la uma nova forma de jogar basquete. Não fazendo menos ponto, mas sim sendo mais líder e participativa em quadra. Sua capacidade técnica é indiscutível, invejável e capaz de colocá-la entre as melhores do país. Quando ela une sua técnica, sua explosão (como ela está bem fisicamente, hein!) e sua força mental para o bem de sua equipe (e não para o seu único bem), o resultado é que seu time inteiro fica muito perigoso. Muito bom que ela amadureceu nesta temporada – e uma temporada de Olimpíada.

lis102) Conheço a treinadora cubana Lisdeivi há quase uma década. Craque como jogadora, ela tem trilhado um caminho interessante como técnica. Começou em Ourinhos, depois passou pelo Maranhão e agora está no Sampaio Corrêa. Sempre fez trabalhos consistentes, corretos, bem razoáveis. Nunca havia tido um time com calibre para ser campeão. Teve agora. E levou a equipe ao título. Venceu dois rivais fortíssimos (o América-PE indiscutivelmente o elenco mais forte da LBF), deu uma verdadeira aula de ajustes táticos na decisão (evitando os pontos do rival perto da cesta), conseguiu construir um senso cubanamente coletivo na equipe em um time cuja líder técnica era taxada como individualista. E isso não é pouco. Lis montou uma comissão técnica de primeiro nível (Virgil, seu assistente, e Vita, preparador físico, são fantásticos) e colhe os frutos em sua primeira conquista.

sampaio203) O que dizer da torcida do Sampaio? O que dizer de uma região que viu dois dos últimos quatro campeões nacionais femininos? O que dizer de um povo (o do Nordeste) que AMA o basquete feminino como se a modalidade ainda fosse a última joia da coroa (algo que não é faz tempo)? Se a Confederação Brasileira de Basketball fosse minimamente interessada em desenvolver a modalidade, começaria por lá uma urgente e necessária massificação do basquete feminino. Como não está, vamos ficar sonhando com isso. Ou, na realidade, torcendo para que a Liga Nacional ou a Liga de Basquete Feminino encontre mais e mais polos na mesma região (quem sabe Fortaleza, Rio Grande do Norte, Salvador, entre outros, também se animem) para integrar as próximas edições da LBF.

sampaio3Parabéns ao Corinthians / Americana, que chegou à final com inteira justiça. E muitos, mas muitos parabéns mesmo ao Sampaio Corrêa, às atletas e a sua fanática torcida.

O basquete feminino brasileiro precisa fazer com que o que aconteceu nesta terça-feira em São Luís (ginásio lotado, atmosfera incrível, bom jogo) seja mais regra do que exceção (como tem acontecido nos últimos anos). O pulso ainda pulsa. Não se sabe até quando e nem como. Mas ainda pulsa.


Sampaio Correa pode se tornar hoje 2º time do Nordeste campeão nacional
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Fábio Balassiano

sampaio111Este domingo, 24 de abril, pode se tornar uma data histórica para o basquete do país. A partir das 14h30 se enfrentam, no ginásio Castelinho, em São Luis (Maranhão), Sampaio Correa e Corinthians / Americana (Sportv exibe).

Com 2-0 na série, o Sampaio precisa de apenas mais uma vitória para se tornar o segundo time do Nordeste a conquistar um título adulto em âmbito nacional no basquete brasileiro. Até o momento, apenas o Sport-PE, na temporada 2012/2013 da LBF, conseguiu o feito. No ano passado o Basquete Cearense conseguiu o feito, mas foi na Liga de Desenvolvimento (Sub-22).

sampaio1.1jpgAlém disso há dois fatos interessantes: o primeiro, já dito pelo blogueiro, vem do fato de Lisdeivi poder se tornar a primeira técnica estrangeira a obter um título em âmbito nacional. No feminino nunca houve. No masculino, Flor Melendez, com o Corinhtians em 1996, é até então o único gringo a levantar um caneco por aqui. A cubana Lis, aliás, merece elogios seguidos por conseguir fazer seu time jogar de maneira coletiva, com uma defesa fortíssima e conseguindo colocar os nervos da experiente Iziane no lugar.

izi1Outro ponto interessante é que Iziane pode, enfim, trazer para a sua cidade natal o tão sonhado título nacional que prometeu desde que voltou ao Brasil. A ala, aliás, só tem um Nacional em seu currículo (2007/2008 por Ourinhos), e naquela final atuou muito pouco contra Catanduva (no jogo 5, inclusive, esteve em quadra por menos de 12 minutos). Talentosa, ela, que passou quase uma década jogando na Europa antes de regressar ao Brasil em 2012, poderá conquistar o primeiro título nacional de sua carreira como grande protagonista.

sampaio3Até o momento o domínio na final é totalmente do Sampaio Correa, que não tem dado a menor chance ao Corinthians / Americana. Para o time de Lisdeivi, é continuar anulando o jogo forte de garrafão do rival e, no ataque, seguir explorando as infiltrações da norte-americana Wheeler e de Iziane. Para a equipe de Americana, só há uma chance: concentrar esforços nas duas atletas citadas (Wheeler e Iziane), dobrar a marcação nelas (nem que isso implique em ter alguma jogadora do Sampaio livre em alguns momentos) e diminuir o ritmo, evitando desperdícios de bola e pontos do rival em contra-ataque.

Pelo que se viu na série até agora, o Sampaio tem todas as chances do mundo de conquistar o primeiro título de uma equipe do Nordeste diante do seu torcedor.


Não tentar, o erro de Americana, que perde do Sampaio por 2-0 na final
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Fábio Balassiano

sampaio4Ontem cedo escrevi aqui que Corinthians / Americana deveria mudar a marcação em Wheeler, armadora do Sampaio Corrêa, pra ter alguma chance no jogo 2 da final da LBF. Vocês lembram, né? Falei inclusive de uma tentativa de colocar Gilmara (alta, atlética e razoavelmente rápida para uma atleta de sua posição – pivô) em cima da armadora Wheeler (foto à direita), que é quem começava, pensava, armava, comandava, dava todas as direções da equipe muito bem treinada pela cubana Lisdeivi. Foi uma ideia de fazer algo diferente, algo que não constava no arsenal estudado por Lisdeivi, técnica maranhense.

sampaio111Aí o que vimos na terça-feira no Centro Cívico? Americana repetiu o expediente do jogo 1. Exatamente igual. Tudo, tudo mesmo. Marcação muito ruim, Wheeler bailando solta, Iziane imarcável (32 pontos em 12/20 nos arremessos, 7 rebotes e 3 assistências), nenhuma dobra ou troca para coibir suas investidas. E vocês sabem como é: quando a marcação não funciona, o ataque acelera tentando compensar e invariavelmente faz besteira. O Sampaio não se conteve apenas em atacar com inteligência. Sobrando no setor ofensivo, ainda triturou as rivais “exigindo” que elas chutassem de longe (afastadas do jogo de garrafão que sempre fez muito bem a Gilmara, por exemplo). Os 14 desperdícios de bola e os 31% nas bolas de dois pontos de Americana falam por si.

sampaio3Resultado do jogo: 83-66 pro Sampaio, 2-0 na série final da LBF e o time do Maranhão a uma vitória do título inédito com dois jogos em casa por fazer. A vantagem passou dos 30 pontos, só sendo reduzida ali nos 4 últimos do período derradeiro graças a uma Damiris inspirada (28 pontos e 11 rebotes).

Sobre Iziane, aqui cabe uma palavra carinhosa de novo a ela (vou repetir o mantra do jornalismo: quando precisa, elogia-se; quando se deve criticar, critica-se), que acabou com o jogo atuando com uma intensidade absurda (como é bom vê-la jogar desta maneira, hein!), mas elogios sobretudo devem ir na direção sobretudo da sua técnica, Lisdeivi, que comanda a comissão do Sampaio (de longe consegui ver Vita, preparador físico, e Virgil Lopez – os dois que eram de Americana inclusive). Lis consegue fazer Iziane marcar, passar a bola e jogar coletivamente. Sempre insisti: problema de Iziane nunca foi “só” ela (embora a própria atleta saiba que precisava amadurecer, tornar-se uma líder mais efetiva), mas sim ter técnico que conseguisse passar os conceitos e que ela “comprasse” o barulho. A maturidade ajuda, claro, mas Lisdeivi conseguiu isso.

vendra1Então ficamos assim. Americana não tentou absolutamente nada de diferente para conter Wheeler ou Iziane. Isso pra mim é muito inadmissível. Pior do que perder foi ter perdido sem tentar nada de diferente.

Em playoff se vence com: 1- Defesa; 2- Ajustes táticos; e 3- Disciplina pra seguir 2 e 3. Sampaio pratica os 3. Americana, nenhum dos 3. Michael Jordan uma vez disse: “Eu não admito não tentar”. Pois é.


O muro das lamentações chamado basquete feminino brasileiro
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Fábio Balassiano

bra2Terminou ontem a Copa América de Edmonton. E terminou justamente da maneira que (infelizmente) imaginava. Com o Canadá campeão (e classificado para os Jogos Olímicos de 2016), com Argentina, Cuba e Venezuela indo para o Pré-Olímpico Mundial e com o Brasil na péssima quarta colocação do campeonato ao ganhar dos insossos times de Equador, Venezuela e Ilhas Virgens e perder para Cuba e Argentina (duas vezes em uma semana para uma equipe que não era derrotada há 60 anos), duas equipes minimamente organizadas (algo que a seleção feminina não é).

bra4Na quadra o que vimos foi literalmente mais do mesmo. E é mais do mesmo simplesmente porque seleção, em qualquer esporte, é reflexo do que a modalidade faz no dia a dia (ou vice-versa). Na Copa América a seleção feminina mostrou pobreza absurda de fundamentos, um técnico totalmente perdido (Zanon foi expulso na semifinal contra o Canadá justamente quando o Brasil estava “no jogo” ali no terceiro período), meninas sem saber o que fazer em quadra tanto no ataque quanto na defesa (apenas Iziane – na foto à esquerda – tentava algo diferente), adversários explorando muito bem as deficiências da seleção (o Canadá, sabendo que as bolas longas da equipe brasileira não estava caindo na competição, literalmente “pagou” pro chute – e o Brasil acertou 2/20 na semifinal, algo bem bizarro) e nenhuma variação tática que justifique os dois meses de treino que este grupo teve entre Pan-Americano e Copa América. Em resumo: foi um desastre de proporções jamais vistas e que tende a piorar quando o nível da competição subir na Olimpíada de 2016.

trio1Nada que surpreenda a quem acompanha este espaço ou que siga o basquete feminino de forma razoável (e não a cada dois, quatro anos). É verdade que para a Olimpíada de 2016 (o Brasil está classificado tanto com meninas quanto com meninos após a CBB pagar o que devia à FIBA) haverá as presenças de Clarissa, Érika e Damiris (que estão na WNBA – na foto ao lado), o que qualifica o garrafão, mas alguém em sã consciência consegue dormir mais tranquilo com a chegada do (bom) trio da liga norte-americana? Será que efetivamente isso será refletido em resultado dentro de quadra? Duvido muito. Com elas em quadra o Brasil foi nono nos Jogos Olímpicos de Londres. Com elas em quadra o Brasil foi décimo-primeiro no Mundial de 2014. Foram apenas duas vitórias em nove partidas oficiais nestes últimos dois últimos Torneios Classe A (algo tenebroso). Elas de fato são ótimas, mas o problema é MUITO maior do que trazer três, quatro novas peças para o tabuleiro. E insisto nisso há tempos.

bra1O basquete feminino brasileiro, jogado a própria sorte, é um muro da lamentação imenso, constante e sem possibilidade de melhora. Tudo joga contra. As atletas são absurdamente passivas e quase sempre pouco preocupadas com grandes conquistas internacionais (como elas conseguem sorrir tanto, alguém me explica?), Liga de Basquete Feminino sem poder financeiro e de ideias para grandes mudanças, Confederação Brasileira que simplesmente ignora o que pode fazer pelas meninas e clubes fechando as portas a cada dia (principalmente na base, onde o custo é imenso e o retorno de imagem, nem tão grande assim).

trio1A verdade é que os gênios (Paula, Hortência, Janeth, entre outras) sumiram, a fonte milagrosa do talento secou e aí o trabalho passou a ser testado. Testado e reprovado. Há como melhorar? Há, há sim. Como sempre digo, qualquer mínimo movimento certeiro no basquete feminino reflete-se em resultado no âmbito internacional em quatro, cinco anos (rápido, bem rápido). É só ver o que fazem Canadá, cujo elenco é bom mas sem nenhuma craque (joga de forma organizada, com apreço aos fundamentos básicos do jogo e tem 10 atletas em condição de fazer a rotação), e França, citada inúmeras vezes (mais aqui).

bra5O problema está em sair da inércia, em querer fazer algo diferente do que (não) vem sendo feito há 20 anos. Fazendo tudo igual, como alguém espera resultados práticos diferentes? Desculpe avisar (se é que precisa), mas não haverá evolução nunca se a “pedra fundamental” do basquete feminino não for redesenhada rapidamente.

Se a filosofia (de ensino, de ver as coisas, de não querer fazer diferente) continuar igual, a tendência não é nem ficar da mesma maneira, mas sim de piorar. Piorar porque há equipes do mundo evoluindo e os bons trabalhos do país vão fechando a porta dia após dia. É triste, mas esta é a verdade que alguém precisa dizer de vez em quando. Ficar passando a mão na cabeça (de atletas, técnicos e dirigentes) não resolve o problema. Sentar todos em volta de uma mesa (jogadoras, imprensa, treinadores, clubes e LBF) talvez faça com que o momento do basquete feminino brasileiro se modifique. Quem se habilita a dar o primeiro passo?


Brasil enfrenta Canadá na semifinal da Copa América feminina
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Fábio Balassiano

brasilNo dia 19 de julho deste ano Brasil e Canadá se enfrentaram em Toronto na semifinal do Pan-Americano. O placar disse muito: 91-63 a favor das donas da casa. Um mês se passou e as duas seleções voltam a se encontrar hoje às 21h (Sportv e ESPN exibem). Desta vez será em Edmonton, no mesmo Canadá, em duelo válido pela semifinal da Copa América Feminina. E não quase nada que nos faça acreditar que o resultado será diferente do confronto Pan, não.

argentinaJogando um basquete abaixo da crítica (em todos os sentidos do basquete – fundamentos, tática, técnica, mental, comportamental, tudo!), o time de Zanon conseguiu perder para a Argentina em uma competição oficial pela primeira vez desde 1956. Venceu os horríveis times de Equador, Venezuela e Ilhas Virgens, e caiu justamente para um que pratica a modalidade de forma razoável (nem boa equipe é, mas sim razoável). O que temos visto na Copa América é um arremedo de time que se baseia nas jogadas individuais de Iziane (de novo jogando sozinha, um filme que vemos há quase uma década na equipe nacional) e que não controla suas emoções e ações em momento algum da peleja. Circo dos horrores total.

canadaDo outro lado estará o Canadá, que venceu todos os seus jogos na primeira fase, que contará com uma torcida inteira a apoiá-lo e contra um adversário que mudou muito pouco do Pan-Americano para a Copa América em termos de atletas (entraram apenas Iziane e Nádia Colhado). E não custa lembrar que esse time aí do Canadá não consegue chegar entre os quatro primeiros de um Mundial Feminino ou de uma Olimpíada nem por decreto. Está claro, né? Não se trata de um esquadrão, mas sim de um time mediano. Time mediano que ganha do Brasil de quase 30 pontos.

brasil2Por isso este sábado pode ser histórico para o basquete feminino. E não falo pela (mínima) chance de vitória contra o Canadá, adversário facilmente batido pelo Brasil anos atrás (o que mostra a quantas anda está a modalidade das meninas há 15 anos…).

Tenho medo do Brasil levar uma daquelas surras inesquecíveis. Torço para estar enganado, mas pelo basquete que vem apresentando o medo é mais do que justificável, né?