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Bala na Cesta

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Ele tinha o sonho de jogar na NBA. Agora quer ser o 1º preparador brasileiro a ser campeão da liga

Fábio Balassiano

18/10/2019 06h01

Arquivo pessoal

"Só um minutinho, Fábio. Estou indo entregar o programa de treinamento e também a alimentação do (Nikola) Jokic".

Foi assim que começou a conversa com Felipe Eichenberger, brasileiro que hoje é chefe do departamento de preparação física do Denver Nuggets, uma das 30 franquias da NBA. Nos EUA desde 2010, o ribeirão-pretano de 34 anos tinha o sonho de chegar à liga. Só não esperava que fosse fora das quadras.

"Nasci em Ribeirão Preto, comecei a jogar basquete porque era um dos caras mais altos da minha turma na escola e assim segui. Gostei do esporte quando criança, joguei na Recreativa, de Ribeirão, Santo André, São José e tinha o sonho de chegar à NBA como jogador. Me achava muito bom, e quando fui estudar em Northwestern Oklahoma State, no Universitário, achei que estava no caminho certo. A real é que pouco tempo depois, nos EUA, percebi que não tinha talento suficiente. Tive propostas do Brasil, Argentina e Ásia, mas como queria chegar à NBA de qualquer jeito se fosse pra fora do país ficaria mais distante do meu sonho. Era minha obsessão. E aí entrou a preparação física, que virou um grande amor. Como malhava muito, acabei indo para essa área e tudo aconteceu", conta Felipe em conversa com o blog.

De jogador universitário até preparador físico do Denver Nuggets foi uma longa caminhada. E beneficiada pela greve geral dos atletas em 2011 (o famoso locaute) que fez com que o campeonato fosse paralisado e iniciado apenas no Natal daquele ano.

"Depois que estudei em Oklahoma fui para Las Vegas trabalhar em uma academia como preparador físico e acabei conhecendo muitos jogadores do Nuggets. Trabalhei por muito tempo com o agora ex-armador Chauncey Billups. Fiquei amigo dele, que falou bem de mim para o preparador físico do Denver. Eu liguei pro cara duas vezes por dia durante três meses. Quando houve a greve, os profissionais das franquias não podiam trabalhar diretamente com os jogadores e aí meu nome foi lembrado. O JR Smith ainda jogava aqui, o Nenê (brasileiro) também. Até hoje sou muito amigo do Nenê e é um orgulho ter trabalhado com ele aqui no Colorado. Assim que começou a minha história na NBA", relembra.

Quando acabou a greve, no final de 2011, o assistente da preparação física do Denver saiu de sua posição e seu chefe lembrou de Felipe, que ficou como auxiliar por cinco anos até assumir a chefia do departamento de preparação física na temporada passada. Adaptado, ele conheceu sua esposa norte-americana no país, tem três filhos e consegue apontar alguns caminhos para ter alcançado seu objetivo.

"Acho que não há uma única palavra, mas sim a mistura de perseverança, trabalho duro, estudar muito e saber o inglês. Eu tenho mestrado, o doutorado por vezes é importante. Amar o que você faz é essencial também. É o mais importante eu diria. A gente viaja demais, está sempre na estrada e com filhos isso é difícil. Só que era meu sonho de criança, então a gente acaba relevando tudo isso. Meu sonho era ver um jogo de NBA ao vivo. Hoje trabalho com isso e é um sonho saber que já são sete, oito temporadas acompanhando todas as partidas. São quase mil jogos entre temporada, pré-temporada e playoffs", analisa Felipe.

Com currículo já consolidado na liga, Felipe agora almeja se tornar o primeiro brasileiro a ser campeão da NBA fora das quadras. Se Tiago Splitter, Leandrinho e Anderson Varejão possuem anéis de campeão como atletas, nenhum profissional do país atingiu esse patamar trabalhando do lado de fora das quadras:

"Tenho, como objetivo de carreira, abrir uma academia mundial de preparação física não só de basquete, mas de todos os esportes. Gostaria de retribuir ao Brasil o que o país me ajudou. O que penso, porém, no momento é em ganhar um título na NBA. Eu me tornaria o primeiro preparador físico brasileiro a ganhar título. É um sonho e algo importante pro nosso país", pondera o profissional de 34 anos, que emenda ao falar das possibilidades do Nuggets na temporada: "Continuidade é a nossa palavra. Acreditamos muito em nosso elenco e por isso não fizemos muitos movimentos. Fizemos questão apenas de renovar com a galera. Não fomos aos playoffs em 2018, chegamos a segunda rodada em 2019 e agora estamos intrigados com o que iremos fazer. Todos sabem as funções e o que podemos desempenhar por aqui. Entrosamento no esporte é importantíssimo. São 8, 9 jogadores que jogam juntos há tempos e isso é fundamental. A grande questão que está em nossas mãos agora envolve o Michael Porter Jr., selecionado no Draft de 2018 e que só agora irá estrear conosco. Teve problemas físicos, mas é impressionante, muito talentoso. Tem muito o que aprender, mas por talento ele vai se encaixar perfeitamente. Ganhou quase 10kg de massa muscular, está mais forte, mais estável. O céu é o limite pra ele".

Como profissional do Nuggets, Felipe, torcedor do São Paulo no futebol, teve a oportunidade de trabalhar com duas figuras muito conhecidas. O brasileiro Nenê Hilário e o pivô Nikola Jokic, líder do Denver nas últimas temporadas e pivô cujo físico por vezes desperta algumas dúvidas em quem não o conhece de forma mais profunda.

"Do Nenê eu fiquei muito amigo. É como se fosse um irmão que não tive (Felipe tem duas irmãs). Ele é uma pessoa de coração gigante, de amizade, de parceria. Uma das melhores pessoas, seres humanos, que já encontrei. Tudo o que ele passou, está aí brilhando até hoje. Várias coisas que ele fez por mim, minha família, tenho muito o que agradecer a ele. Quando cheguei não tinha carro e ele me deu um automóvel pra ir ao aeroporto, por exemplo. É genuíno, de coração. É muito injusto o que fizeram com ele no Brasil. Não falo isso porque ele é brasileiro, mas sim porque conheço a história real do que aconteceu. Ele sempre fala: "A vida tem tudo planejado". Profissionalmente um dos melhores que já treinei até hoje. A longevidade dele na NBA é incrível. O Jokic, por sua vez, é o cara mias impressionante que já vi na liga em termos técnicos. Ninguém vê as coisas que passam com ele. Virei muito amigo dele também. Vamos juntos pro aeroporto, treinamos juntos no verão, essas coisas. Alguns comentários que vêm não são justos. Quando falam que ele está gordo eu sempre digo: "Ponham a pressão em mim". Eu sou o preparador físico e estou aqui para deixá-lo o mais tranquilo. Ele vai pra academia todos os dias, e se você entende de corpo humano, preparação física, há muitos fatores que influenciam. Gordura, sal, sono, stress, essas coisas. Na minha cabeça, ele não está fora de forma. No jogo que ele joga, com o corpo que ele tem, ele atuou em mais de 100 partidas e quase como MVP. Como ele está mal? Quando a gente sabe que está fazendo o trabalho certo deixa o pessoal falar. O Jokic é único e sabemos disso", finaliza.

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