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Como um tuíte abalou a relação comercial entre NBA e China

Fábio Balassiano

07/10/2019 04h00

Daryl Morey é um dos  melhores e mais bem pagos executivos da NBA, a principal liga de basquete do planeta. Ele é o arquiteto por trás do Houston Rockets do brasileiro Nenê Hilário, do MVP James Harden e, agora, Russell Westbrook, mas desde sábado também é conhecido como o pivô de uma grave crise diplomática e comercial envolvendo a NBA e a China, disparado o maior mercado fora dos EUA.

O motivo é explicado por um único tuíte (já apagado) de Morey no sábado: "Lute pela liberdade. Fique com Hong Kong". Como se sabe, a relação envolvendo China e Hong Kong é, desde muito tempo, polêmica e marcada por falta de entendimento de ambas as partes.

Ato contínuo, a Associação Chinesa de Basquete, atualmente presidida por Yao Ming, ex-atleta e um dos embaixadores do Houston na China, informou através do Weibo, a rede social chinesa que se assemelha ao Twitter, que irá suspender o trabalho realizado em parceria com o Rockets "após o tuíte do General Manager da franquia em que ele mostrava apoio aos manifestantes em Hong Kong". A Associação completou dizendo que Morey externou "comentários impróprios sobre Hong Kong, expressando forte oposição ao regime chinês".

Não foi só isso. O dono do Houston Rockets foi imediatamente ao Houston Rockets para se defender – e tentar colocar panos quentes na situação. Tilman Fertitta não se importou em praticamente enforcar seus funcionário e escreveu: "Ouçam. Daryl Morey não responde pela organização Houston Rockets. Nós estamos em Tóquio (onde a franquia faz pré-temporada neste momento) para promover a NBA internacionalmente e não somos uma entidade política".

Não deu muito certo. A Associação chinesa já informou que não irá transmitir as partidas do Houston Rockets na temporada e que não abre mão disso – além disso, nenhuma notícia sobre a franquia será reportada nos noticiários. O acordo entre NBA e a Tencent Holdings Limited, braço digital da liga na China para promoção do jogo, assinado recentemente para os próximos cinco anos, corre o risco de ser rasgado.

A relação da China com o Rockets é bem estreita porque Yao Ming jogou toda a sua carreira na NBA com o time. Yao foi nomeado presidente da associação em fevereiro de 2017, no que foi apresentado como um passo em direção à reforma de uma organização que no passado era liderada por profissionais do governo. Mas como o assunto ganhou contornos políticos, não houve Yao Ming que conseguisse segurar.

O tamanho do prejuízo? De acordo com dados da própria NBA, mais de 500 milhões de chineses assistiram à programação da Tencente com partidas na temporada passada. No jogo 6 da final envolvendo Toronto Raptors e Golden State Warriors, 21 milhões de fãs na China assistiram a peleja, marcando o jogo da NBA mais assistido de todos os tempos em uma plataforma digital na Ásia. Quer mais? Desde 2013 há um acordo comercial entre o Rockets e a gigante Chinesa ZTE, de telecomunicações. Por fim, a Adidas, patrocinadora de James Harden, tem a já tradicional "Harden Tour" na China com a estrela do Houston há mais de três anos.

A liga, por sua vez, emitiu um comunicado oficial: "Reconhecemos que as opiniões expressas pelo gerente geral do Houston Rockets, Daryl Morey, ofenderam profundamente muitos de nossos amigos e fãs na China, o que é lamentável. Embora Daryl tenha deixado claro que seu tuíte não representa o Rockets ou a NBA, os valores da liga apoiam os indivíduos a se educarem e compartilharem suas opiniões sobre assuntos importantes para nós. Temos grande respeito pela história e cultura da China e esperamos que o esporte e a NBA possam ser usados como uma força unificadora para superar as diferenças culturais e levar as pessoas juntos".

Morey sentiu o golpe e voltou ao Twitter ontem para pedir desculpas: "Eu não pretendia que meu tuíte causasse qualquer ofensa aos fãs e amigos meus do Rockets na China. Estava apenas expressando um pensamento, baseado em uma interpretação, de um evento complicado. Tive muitas oportunidades desde esse tuíte para ouvir e considerar outras perspectivas. Sempre apreciei o apoio significativo que nossos fãs e patrocinadores chineses deram e espero que aqueles que estão chateados saibam que ofendê-los ou entendê-los mal não era minha intenção. Meus tuítes são meus e de forma alguma representam os Rockets ou a NBA".

O estrago está feito. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Adam Silver, o comissário geral da NBA, terá um tremendo abacaxi pra descascar nos próximos dias.

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