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Bala na Cesta

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Entenda mais da Guerra agora declarada entre CBB e Liga Nacional - quem perde é o basquete brasileiro

Fábio Balassiano

2021-12-20T18:00:03

21/12/2018 00h03

No agora longínquo dia 22 de junho de 2017 eu escrevi aqui neste espaço: "As duas partes (Liga Nacional e Confederação Brasileira), que possuem boas pessoas e boas mentes que pensam sobre basquete, precisam de verdade sentar em uma mesa, algo que ainda não foi feito formalmente desde que Guy Peixoto assumiu a CBB, para aparar as arestas e para colocar o esporte em primeiro lugar. Brigar sem parar só vai ajudar em uma coisa – a derrubar a modalidade como aconteceu em anos anteriores".

Era óbvio, claro, ululante e só quem cai de muito paraquedas no basquete não percebia que a relação entre CBB e Liga Nacional de Basquete é desde a chegada do presidente Guy Peixoto ao cargo máximo da Confederação (primeiro trimestre do ano passado) PÉSSIMA. Em tom maiúsculo, superlativo, gritante mesmo. Se quiser escrever HORRÍVEL pode também que cabe.

Não estou aqui pra julgar quem está certo ou errado (primeiro vamos aos fatos), mas o fato é que as duas entidades falam línguas bem diferentes em TODOS os assuntos. T O D O S. Simples assim. Nesta quarta-feira alucinante que terminou faz poucos minutos eu vi, li e ouvi muita coisa. Conversei com representantes das duas entidades e também de esferas internacionais.

O Demétrio, aqui do lado, mostrou claramente que o caldo entornou. Totalmente. O que era uma Guerra Fria, não declarada, nos bastidores, sem nota oficial aberta ao público, sem nenhuma declaração "no ON", agora já era. Após receber um ofício da LNB, a CBB divulgou uma portaria (aqui o link) em que NÃO MUDA ABSOLUTAMENTE NADA na relação com a Liga Nacional, mas exprime de forma contundente o que ela, no seu modo de ver, entende como ser a ordem das coisas. O que era uma chancela tornou-se uma portaria. Mudança prática? Zero (até agora, zero).

Há alguns fatores que merecem ser levados em consideração, sobretudo no importante cenário em que o esporte brasileiro se encontra, ancorado (literalmente) nas Federações, que instigam de forma ao meu ver exagerada a Confederação a ter mais controle do basquete brasileiro. Guy Peixoto foi eleito por elas e certamente tem ouvido que precisa agir para colocar um pouco de ordem na modalidade. Talvez esta, porém, não seja a melhor maneira e vou falar nisso adiante.

Na prática, na realidade não muda nada, absolutamente nada, insisto neste ponto, e fazer alarde agora sem que haja na prática nenhuma mudança no horizonte é fazer tempestade em uma xícara de café. O NBB continua existindo, com as mesmíssimas demandas da CBB para com a Liga Nacional (a única que eu desconhecia é a do Art. 5: "A CBB indicará os Clubes que representarão o Brasil em Campeonatos, Torneios ou Copas Intercontinentais, observando sempre o critério da meritocracia das equipes baseada em suas colocações no NBB") e sendo o principal campeonato de basquete deste país. Como é há dez anos, não?

Em 2019 existirá a Liga Ouro (segunda divisão), também da Liga Nacional e chancelada pela CBB e o campeonato organizado pela Confederação. Em 2020, no acesso apenas o campeonato da entidade máxima, que servirá como segunda divisão. Tão simples quanto. De forma informacional, além de questões envolvendo o STJD (a LNB acredita que deveria voltar para a sua gestão e a Confederação deseja mantê-la com ela), é isso.

AGORA O QUE PENSO DISSO TUDO:

1) Existe impacto para o NBB? -> Agora, nenhum. Nenhum mesmo. O Campeonato continua sendo realizado brilhantemente pela Liga Nacional, que renasceu o torneio há uma década e o colocou em outro patamar de organização, governança, transparência e credibilidade. Nos últimos 10 anos, é o que de melhor há por aqui e isso merece ser dito, valorizado e repetido inúmeras vezes. Ponto final.

2) Já houve isso antes? -> Sim, já. Há uma década, quando houve o Campeonato Brasileiro da CBB e o Torneio realizado por Oscar Schmidt de forma coincidente. Desta cisão, aliás, nasceu o Novo Basquete Brasil com o propósito de unir as pontas, aparar as arestas e fazer um Campeonato Nacional mais organizado, profissional e voltado mais ao mercado que aos interesses amadores de quem não cuidava absolutamente nada bem da competição.

3) O NBB pode realizar um Campeonato Profissional Adulto? -> Não só pode como deve. Há uma chancela, assinada há uma década pelo então presidente Grego, da CBB, com VALIDADE DE CEM ANOS. Ou seja: na prática o NBB pode fazer por mais 90 anos seu campeonato que juridicamente está embasado, tranquilo, respaldado. Não há impedimento legal algum em relação a isso. A CBB, filiada e Federação Internacional, chancela isso há uma década e não creio que isso possa ser modificado.

5) As exigências da CBB são razoáveis? -> Entendo tudo o que passa na cabeça de Guy Peixoto e seus diretores, a quem respeito muito, mas acho que há um exagero grande em pressionar, psicologicamente até, a Liga Nacional neste momento. Se há uma coisa, uma só, que funciona no basquete brasileiro é o NBB. Qual o motivo de estressar a relação com os caras? Não seria melhor USAR o NBB para fazer com que a modalidade crescesse, se multiplicasse, ao invés de se dividir? Guy é inteligente, empresário de sucesso, sabe como resolver problemas de forma estratégica e correta. Na minha cabeça seria muito mais razoável sentar, bater um papo, mostrar onde o seu calo está apertando, ouvir o outro lado e alinhar papéis e responsabilidades. Não seria mais tranquilo se fosse assim?

6) Como os clubes vão responder a isso? -> Aí pra mim é o grande busílis da questão. A Liga Nacional é dos clubes e os clubes são a LNB. Eles, na minha opinião, precisam se posicionar e mostrar o que pensam neste momento de relação conturbada. Não pela Liga Nacional, mas por eles. De forma séria, independente e transparente. Não é abrir fogo contra A, B ou C, mas sim externar o que reputam ser o mais correto neste cenário. Só pra não ter nenhuma dúvida a respeito.

7) Afinal, qual é o Campeonato Nacional Brasileiro de Basquete? -> Vamos explicar ao invés de confundir. Denomine-se como quiser, a primeira divisão, a elite, o campeonato mais importante, o filé mignon do basquete brasileiro chama-se NBB. Não há NENHUMA hipótese de isso ser diferente na cabeça de ninguém. O que a CBB organizará, só ela, em 2020 é a divisão de acesso.. para o NBB. A segunda divisão. Ponto.

8) O que a CBB quer com isso tudo afinal? -> Me parece claro que além de conversar com as Federações que o elegeram Guy Peixoto está buscando suas linhas de receita para equilibrar um quadro de penúria orçamentária que encontrou devido a gestão Carlos Nunes, aquela que literalmente faliu a entidade máxima do basquete nacional. Eu só não sei, de novo, se esta é a melhor maneira, se o "inimigo" para o qual a arma está apontada é o mais recomendável. Guy é inteligente e poderia tentar o diálogo, e não a ruptura, com a Liga Nacional. Como acabou divulgando, embora sem nenhuma diferença prática em relação ao que havia, fica claro que a guerra está declarada – e a forma pra fazer o basquete crescer não é essa, não.

9) A FIBA vai agir? A Federação Internacional é mais política que a política. Não vai fazer nada, mas deveria conversar de forma definitiva com as duas entidades. Do jeito que as coisas andam, o barril de pólvora continuará acesa. Eu só não sei se a FIBA tem vontade e competência (técnica) para organizar a briga entre as partes.

No final das contas, queridos, só quem sai perdendo mesmo com isso é o querido e agora mais uma vez em guerra basquete brasileiro. Já vi esse filme e não é legal, não.

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