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Bala na Cesta

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Petrovic, análises, NBB, cuidado e carinho

Fábio Balassiano

24/11/2018 05h00

"Os jogadores precisam saber que não vão jogar na seleção como jogam no NBB. Não se trata só de chutar de três pontos. Desse jeito não vai jogar. Aviso todos os jogadores.Quero que o Brasil tenha mais de 20 assistências por partida. Não quero chutes de três (pontos). Quero mudar o ritmo de jogo"

Esta declaração, reproduzida no Olhar Olímpico aqui do UOL, foi dada pelo técnico Aleksander Petrovic nesta semana quando da convocação da seleção brasileira para os jogos das eliminatórias contra Canadá e República Dominicana (mais aqui).

Em primeiro lugar, é fundamental dizer o seguinte: o croata, treinador da seleção brasileira, entende de basquete 400 milhões de vezes mais do que eu. Em segundo lugar: qualquer pessoa tem o direito de emitir a sua opinião, o básico da democracia. Depois: como técnico da seleção, é muito bom mesmo que ele esteja acompanhando os jogos do NBB, a principal liga do país e de onde saem quase que todos os jogadores de suas convocações neste modelo ruim de eliminatórias da FIBA.

De todo modo, confesso que não gostei muito da abordagem de Petrovic, a quem respeito pra caramba e com quem nunca conversei na vida (mais falha minha por não ter tempo de ir às coletivas que qualquer outra coisa). Insisto: ele pode e deve emitir opinião sobre o que ele quiser – de basquete ou não. O problema, ao meu ver, é a necessidade para tal. Qual o ganho, do ponto de vista prático, que ele tem ao proferir uma análise desta maneira a respeito do NBB? Não falo aqui como advogado de nada e nem de ninguém, mas não custa lembrar que:

1) Seus assistentes, César Guidetti e Bruno Savignani, são técnicos de times do NBB (Pinheiros e Corinthians);

2) Foram declarações deste tipo proferidas por Rubén Magnano que fizeram uma animosidade desnecessária entre ele e técnicos brasileiros surgir e aumentar dia após dia. E não custa lembrar que na quadra a teoria que Magnano tanto falava não era refletida (por culpa única e exclusivamente dele). Seus times eram muito mais a sua cara (antiquada, retrógrada e conservadora) do que as críticas que ele proferia. E aí os treinadores daqui se revoltavam com toda razão;

3) Um dos motivos do torneio organizado pela Liga Nacional ter um nível técnico não tão bom (de acordo com a análise dele) foi a falta de investimentos na base por parte da Confederação da qual ele agora é funcionário. Pra sorte dele seus patrões de agora não são Grego e Carlos Nunes, que dizimaram as divisões de base por 16 longos anos.

Não estou dizendo, volto a repetir, que ele não deva emitir opiniões e nem criticar o que ele acha que deva ser criticado. Mas ele é técnico de uma seleção brasileira, os treinadores daqui convivem com uma dificuldade estrutural absurda, são os jogadores destes comandantes que Petrovic treinará e, no final do dia, não custa ser delicado com quem tenta fazer o seu melhor no dia a dia de uma modalidade que estava na lama dez anos atrás e que tem sido reconstruída sobretudo pelos esforços de uma década de trabalho da Liga Nacional de Basquete.

Tem algo ainda mais importante. Ao invés de abrir um canal de diálogo com os técnicos brasileiros, de modo a obter informações mais precisas dos atletas selecionáveis e também entender algumas de suas escolhas táticas, as críticas de Petrovic certamente trarão mais dificuldade neste sentido. O croata é uma pessoa legal, vem de uma família lendária no basquete, certamente todos daqui gostariam de sentar, trocar uma ideia, expor as dificuldades e aprender com o cara. Palavras mal colocadas em uma coletiva de imprensa que deveriam falar apenas do jogo do final do mês podem distanciar muito mais do que aproximar os técnicos daqui dele.

Por fim, vamos ao básico. O nível do NBB não é o ideal? Não é o ideal. Pode melhorar? Pode melhorar e muito. É o técnico da seleção brasileira que deve ter a voz mais alta em relação a isso? Não, ao meu ver, não. Deixe que a crítica especializada fale disso, que os torcedores reclamem nas redes sociais, que os próprios atletas tenham ciência do fato.

Petrovic não precisa disso, de verdade. Seu trabalho, com bons resultados mas até então impossível de analisar de forma mais profunda devido ao formato das eliminatórias (não é culpa dele, obviamente), é simplesmente acompanhar os jogos dos brasileiros (no NBB ou não), vir, treinar e liderar a seleção brasileira ao Mundial de 2019 e, depois, nas Olimpíadas de 2020. Seus resultados, a performance de seu time, a maneira como a equipe nacional irá atuar, falarão muito melhor dele e da forma como nossos times atuam (antagônicas, de acordo com sua análise) do que qualquer outra coisa.

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