Bala na Cesta

Jogando à Curry, armador de Oklahoma revoluciona basquete universitário americano

Fábio Balassiano

10/01/2018 06h00

Não há nome mais falado no basquete universitário americano nesta temporada que o de Trae Young. Nascido e criado em Oklahoma, ele tem 19 anos, 1,88m, é magrinho e joga pela faculdade de sua cidade-natal. Com passagens por todas as seleções de base dos Estados Unidos, Trae seguia uma carreira até certo ponto assustadora no circuito colegial, fechando seu último ano com 42 pontos de média. Na NCAA, muita gente duvidava que o sucesso seria repetido já que o nível seria bem mais alto. Mas o que já era bom ficou ainda melhor. E Steph Curry tem muito a ver com isso.

“Quando comecei a ver o Steph jogar com mais atenção notei que ele estava mudando o basquete, mudando a forma de atuar na NBA. E a maneira como eu jogo se encaixa perfeitamente no que ele faz. Arremessar tanto de três, vamos combinar, não é uma coisa tão ruim assim. Eu gravava todos os jogos dele, assistia antes de ir pra cama dormir ou no dia seguinte. Via como ele jogava, como os Warriors se movimentam sem a bola, como Steph envolveu todos e ainda criou um método para que ele mesmo pudesse chutar também. Adorei assistir ao jogo de Steph e me fez crescer como profissional”, afirmou Young recentemente ao Wall Street Journal.

Estimulado também pelo seu técnico Lon Kruger, Young ganhou carta branca para armar o jogo e arremessar muito ao mesmo tempo. Uma combinação que vemos bem com Curry no Golden State Warriors, mas que até o momento era rara de se ver na NCAA, onde as partidas eram mais travadas (posse de bola de 30 segundos), com os treinadores controlando tudo até a alma e um senso altruísta bem mais apurado que na NBA, onde as estrelas aparecem o tempo todo.

O resultado é uma espantosa média de 29,4 pontos, 9,9 bolas de três tentadas por jogo (algo raríssimo!) e 10,2 assistências na temporada por uma faculdade de Oklahoma que tem até o momento 12 vitórias em 14 partidas. Para se ter uma ideia do impacto de Tray no dia a dia faculdade, que tal dizer que em 2016/2017 os Sooners tiveram 11 triunfos em partidas? Com Young em quadra em seu primeiro campeonato, a Universidade já ultrapassou a campanha em 2017/2018 no começo do ano. Nos confrontos da temporada, em 5 a faculdade atingiu 100+ pontos. A média, na NCAA, é de 93 por jogo, a maior do país e feito raro pra um basquete que tem 30 segundos por posse de bola e menos oito minutos que os jogos da NBA (40, e não 48).

Mais do que isso. Em uma era recheada de informação, todos os passos de Young são monitorados desde muito cedo. Dentro da nuvem do Krossover, sistema que grava todas as jogadas dele, é possível ver que Trae arremessou 43% de suas bolas de três pontos com no mínimo um pé atrás da linha do perímetro, algo muito comum também em Steph. E seu aproveitamento nas bolas longas é de 38,8%, exatamente igual ao que Curry teve em seu último ano em Davidson em 2009 e motivo pelo qual 55% de seus chutes saem de longe, de três pontos mesmo e com o mesmo estilo do magriça do Warriors (sem o marcador esperar, de forma bem rápida e quase sempre pós-drible).

Entre as partidas de Young, três chamaram a atenção. Contra Oregon, foram 43 pontos. Diante de Northwestern, 8 bolas de três convertidas e 31 pontos (além de 12 assistências). Contra Northwestern, incríveis 22 assistências em 29 minutos (recorde histórico no universitário dos EUA). Se a NCAA não estava acostumada a ver números animais, dinamitados por bolas de três pontos em profusão, Trae Young traz os conceitos da nova NBA para o circuito universitário norte-americano.

O camisa 11 joga leve, solto, com quadra aberta e licença pra arremessar quando realmente desejar. Se em vários momentos parece precipitar o chute, não é raro vê-lo procurando Brady Manek e Chrstian James, únicos jogadores do time que ultrapassam com ele a barreira dos 10 pontos por jogo. A mesma cara que a gente faz quando vê Steph Curry jogar na NBA, a de encantamento e surpresa, é a que fazemos quando Young entra em quadra pra alucinar rivais em uma NCAA que quase sempre foi prolixa e conservadora quando o assunto é dar a chave do carro pros armadores jovens que conduzem a equipe (o guia é quase sempre o técnico). Steph, aliás, elogiou o seu “pupilo” recentemente:

“A confiança com que ele joga é incrível. Ele sempre tem uma postura muito boa e sabe o que está tentando fazer toda vez que ele tem a bola em suas mãos. Trae arremessa muitas bolas de três de longe e tem uma criatividade para o jogo que é bem fluída para quem assiste”, afirmou dias atrás em em uma coletiva de imprensa.

Não dá pra dizer, ainda, como será o futuro do armador na NBA. Ao que tudo indica, ao contrário do que fez Steph Curry, que permaneceu em Davidson por três temporadas, Young embarcará no Draft já em 2018 e sem medo de ser feliz em uma liga que joga exatamente como ele gosta de atuar – rápida, chutando muito e com quadra aberta.

Se o nome internacional mais comentado do momento no mundo do Draft é o do esloveno Luka Donvic, nos EUA ninguém aparece mais, e melhor, que o espevitado Trae Young.

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