Bala na Cesta

Pan-1987: Lutar contra o impossível, vencer o invencível, por Marcel de Souza

Fábio Balassiano

19/08/2017 08h05

No dia 23 de agosto de 1987 o Brasil teve uma das vitórias mais emblemáticas de sua história esportiva. No Pan-Americano de Indianápolis o time do técnico Ary Vidal tirou uma diferença de 22 pontos para vencer os Estados Unidos por 120-115, fazendo com que os norte-americanos perdessem pela primeira vez em casa.

Começo a série de homenagens com um texto espetacular escrito anos atrás por Marcel de Souza, um dos grandes responsáveis pela medalha de ouro de 30 anos atrás. Vamos lá.

* Por Marcel de Souza

O dia amanheceu claro e o céu nunca esteve tão límpido como naquela manhã de domingo no quartel general das forças armadas norte-americanas, modificado para abrigar os atletas que competiam nos X Jogos Pan-Americanos.

Como sempre fazíamos, descemos ao rancho para o café da manhã. Definitivamente aquele não era um alegre despertar. Corn-flakes, panquecas, donuts, leite, café, tudo de primeira como a última refeição dos condenados.

Ave Caesar! I morituri te salutant“. Os que vão morrer te saúdam!

Gladiadores de um novo tempo, procuramos sentar um pouco separados uns dos outros, já que nossos destinos, sem que tivéssemos uma clara idéia do que iria acontecer no futuro, estariam, a partir dali, selados e unidos para sempre. Encontrei um canto mais apartado onde pude relembrar toda a nossa trajetória até aquele instante.

Com a carreira já tendo virado o Cabo da Boa Esperança, outrora conhecido como Cabo das Tormentas (nome mais apropriado para a ocasião), tomei consciência de que ali estava o momento que tanto esperava. O processo começou na quarta-feira quando nos colocamos frente a frente para a disputa do cetro. A memória me leva para debaixo de uma arquibancada, semi-oculto, espionando o treino de pivôs dos homens e atordoado com tanto poderio técnico.

Como é que a gente enfrenta isso? O breakfast transcorria lento, mas o momento da verdade estava cada vez mais perto.

No sábado, havia recebido a visita de Joe Stowell, meu técnico na Bradley e mestre de uma vida inteira. O velho Joe parecia mais ligado do que eu para o desafio. Mostrou-me, como sempre o fez, que eu havia recebido um presente o qual muitos sequer sonharam em ter na vida. Lutar contra o impossível. Vencer o invencível. A emoção de vê-lo e o momento de decisão não me deixaram pensar imediatamente em seus ensinamentos.

Não percebi a chegada de uma tenista brasileira. Ela também finalista. Ela também campeã em Indianápolis. Perguntou-me como eu estava. Talvez quisesse ser apenas gentil. Respondi-lhe com uma sinceridade inacreditável: “Tenho medo. Estou com muito medo”. Ela não continuou a conversa. Ficou sentada ali, sem me dirigir a palavra, como se entendesse a minha solidão pré-catastrófica.

Terminada a última ceia, voltei ao alojamento. A memória me vem em flashes… Uma tentativa de jogar paciência, o som de Beto Guedes bem distante me lembrava que “só devia ser primavera”.

Tento dormir, mas é em vão. A ansiedade está me matando. Ouço alguém dizer que vão passar um filme. Top Gun. O ás indomável Tom Cruise lasca um beijo na mocinha e uma jogadora de vôlei que também o assistia suspira ironizando: “Ai! Que saudades do meu pai!”.

De repente tudo se torna claro. Entra na sala o Major Padilha, na época presidente do COB e nos faz um dos melhores discursos inspiradores que jamais presenciei. Segundo ele, sua gestão, como nossa equipe, havia recebido muitas críticas, mas ele estava seguro que também estaria no podium para nos entregar a medalha de ouro. Sua convicção era tal, que provocou uma certa esperança de que tudo era um sonho e, no final, o mocinho iria ficar com a mocinha.

Mas a realidade estava logo ali na Arena da Rua do Mercado. A névoa volta a tomar conta das minhas recordações. Chega a hora da execução. Entro no ônibus como um zumbi. Vou com a boiada e me sento lá no fundão.

O vestiário é um camarim. Todo acarpetado (azul turquesa) e bem iluminado. Procuramos não conversar sobre o massacre enquanto nos preparamos. Todos, porém, estão ligadíssimos. Ninguém precisa dizer mais nada, afinal já nos conhecemos apenas pela maneira de olhar um para o outro.

Chega Ary Vidal. Esperamos pela maior preleção de nossas vidas. Oh! Mestre! Daí-nos a luz!

Ary, antes de iniciar a sua dissertação sobre as qualidades do adversário e do orgulho que todos devem estar sentindo num momento como esse, onde a honra e glória não só de um povo, bem como dos indivíduos que ora o representam, está em jogo e que não descansará enquanto o último esforço hercúleo de luta representado pelo derradeiro suspiro do guerreiro na batalha for lançado, pergunta se todos já estão prontos.

Nós do nosso lado, sabedores da responsabilidade que nos será imposta por tão nobre tarefa e como que guardando todas as nossas forças para o embate final, acenamos afirmativamente com um pequeno gesto.

O mestre então derrama sobre nós a sua sabedoria: “Jueguen, no más!” Silêncio total. Como é que é? Tudo isso para ouvirmos apenas “joguem o jogo”? Somente ele mesmo!

A sua surpreendente frase provocou uma calma nunca antes sentida. Foi como se um peso muito grande saísse de nossas costas. Ficamos aliviados. Ah! Bom! Então é só jogar!? Xa comigo!

Aí Ary! Jueguen, no más! Matou a pau! Ainda escrevo essa no meu livro!

Vem o intervalo do jogo. Menos 14! Ai… As memórias me levam para os comentários da TV, assistidos muito tempo após o fato, que já nos davam como massacrados desossados e empacotados para a viagem mortuária dos derrotados.

Acontece. Muito raramente, mas acontece. Ô Azar!

Voltamos para a quadra, melhor seria dizer arena e nos deparamos com os adversários já fazendo festa pelo título. Todos nós vimos. Ninguém disse uma palavra a respeito. Só fotografamos e esperamos a nossa chance.

Creio que não disseram a eles que não se pode fazer isso com brasileiro. Quando o placar apontava menos 22, veio a ordem: “Agora a gente bate da medalhinha para cima”. Frase também conhecida como “Onde pegar, pegou”. Deu no que deu. Quando vimos já estávamos na frente! Lembro-me da carinha? deles.

Tive orgulho. Lutamos contra o impossível! Vencemos o invencível!

Os flashes retornam. Não haviam preparado o hino brasileiro. Comemoramos feito crianças. Voltamos ao vestiário e ficamos ali sozinhos como doze gladiadores que venceram, ao menos dessa vez, o leão dos nossos medos, a fera das nossas limitações. Uma calma impressionante apossou-se de nós. Era como estivéssemos ali para uma reunião familiar.

Naquela meia hora conversamos sobre tudo: lances do jogo, nossos sonhos, aonde iríamos, o que diríamos, enfim aproveitamos ao máximo nosso triunfo, como os guerreiros que voltam vitoriosos da batalha e contam seus troféus.

Esses momentos ficarão na minha memória mesmo depois que eu não mais existir.

Obrigado.

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