Bala na Cesta

Kevin Durant foi a cereja do bolo, mas Warriors campeão é fruto de Draft e planejamento

Fábio Balassiano

16/06/2017 06h00

Em julho de 2010 Joe Lacob (foto) e seu grupo de investidores arremataram a franquia Warriors por US$ 450 milhões de Chris Cohan, que foi dono do time por 20 anos. Cohan fez uma bela gestão para a comunidade local, renovando muito da Bay Area, local do ginásio do time, mas trágica em termos de resultados esportivos. Foram apenas duas temporadas com mais vitórias que derrotas. Lacob tinha muito claro em sua cabeça: era preciso renovar a equipe que tinha como principal estrela o armador Monta Ellis.

No ano seguinte Lacob contratou Bob Myers para a função de assistente do gerente-geral de Larry Riley, o responsável por escolher Stephen Curry na sétima posição em 2009 e Klay Thompson com a décima-primeira em 2011. Logo de cara chegou Mark Jackson para ser técnico em 2011/2012. Ex-armador de renome, caberia a Jackson trazer um ar diferente para a franquia. Não deu muito certo no começo e a campanha de 23-43 (temporada  mais curta) deixou todos da nova direção de cabelo em pé. Mudanças precisavam ser feitas.

No verão (americano) de 2012 houve uma transição amigável e Myers, homem de confiança dos novos donos, passou a ser o manda-chuva no basquete do Golden State, com Riley sendo o responsável por todo serviço de scout (olheiros). A recomendação dos novos mandatários do Warriors era clara: renove tudo, dentro da quadra e fora dela. E renove rápido.

No primeiro ano de Bob Myers como gerente-geral (2011/2012), tacadas que mudariam os rumos da história do basquete. Em 13 de março de 2012 houve uma troca importante, mas que quase ninguém entendeu: Monta Ellis, ídolo do Warriors, foi despachado pro Bucks em troca de Andrew Bogut, pivô australiano com excepcionais atributos defensivos, mas com sequenciais lesões. A transação, hoje, é completamente explicável: Myers estava abrindo espaço para um garoto chamado Stephen Curry ser o nome da franquia. Os donos adoravam a dedicação de Steph, mas ficavam preocupados com seu tornozelo. Pelo sim ou pelo não de Curry, a conclusão óbvia é que com Ellis a equipe não iria longe. Era mais fácil procurar um médico para curar todas as dores do camisa 30 do que fazer um time campeão com aquele núcleo.

Mas não foi só. Naquele ano, do mesmo Draft saíram para a franquia de Oakland nomes como Harrison Barnes (sétimo), Festus Ezeli (30) e Draymond Green (35). Estava sendo moldado, ali, o time que seria campeão em 2015. Em uma das maiores transformações da NBA recente o time saltou de 23 em 2011/2012 para 47 vitórias em 2012/2013. Em 78 jogos daquele ano Steph Curry foi titular (médias de 22,3 pontos e 45% nas bolas de três) e seu tornozelo aparentemente estava curado. Klay Thompson também aparecia bem (16 pontos por jogo e 43% nos tiros do perímetro) em um time que ganhou a sua primeira série de playoff desde 2007 e que só parou contra o San Antonio Spurs (finalista em 2013) na semifinal do Oeste. A semente estava plantada, mas faltava algo.

Antes da temporada 2013/2014 Joe Lacob, grande homem de negócios, notou que havia algo estranho na comissão técnica dirigida por Mark Jackson. Convocou uma reunião de urgência com Bob Myers e o treinador e não dourou a pílula: “Mark, aqui você tem o cofre aberto. Organize seus assistentes técnicos como quiser. Você toma decisões sozinho e não gostamos disso. Seus auxiliares precisam ser tão bons ou melhores que você”. Jackson ouviu, mas não mudou nada. Ficaram lá os inexpressivos Pete Myers, Darren Erman, Brian Scalabrine e Jerry DeGregorio. Lacob coçou a cabeça.

No campeonato, mais do mesmo (e isso não é necessariamente bom). O Golden State, que não mediu esforços para trazer o ótimo Andre Iguodala, venceu mais jogos (51, quatro a mais que em 2013), mas caiu na primeira rodada para o Los Angeles Clippers sem apresentar nada de absurdamente novo. O destino de Mark Jackson estaria selado. O da franquia também. O técnico foi demitido e o processo de entrevistas começou a todo vapor.

Quando Steve Kerr entrou na sala, impressionou a Bob Myers e a Joe Lacob com um caderno de jogadas todo novo, revolucionário e que potencializaria os talentos de seus melhores arremessadores – Steph Curry e Klay Thompson. Kerr também notou algo interessante: nos momentos em que esteve em quadra um “gordito” melhorava absurdamente a defesa, “abria” o ataque porque possuía habilidade para arremessar de fora e fazia com que Curry e Thompson tivessem ainda mais liberdade para chutar do perímetro. Era Draymond Green, que jogava apenas 13 minutos por partida com Mark Jackson.

Além disso, o candidato ao cargo de treinador do Warriors observou ao dono e ao gerente-geral que a combinação de Harrison Barnes + Green + Andrew Bogut + Andre Iguodala poderia fazer da marcação do Warriors uma das melhores da liga. Lacob e Myers se olharam e acharam que o cara estava maluco, pois a média de pontos sofridos era de 102 a cada 100 posses de bola.

Antes de sair da sala, Kerr ganhou o emprego. Abriu o seu MacBook, clicou no iMovie e fez-se a mágica. Lá dentro ele continha todos os tipos de jogadas possíveis. Havia dois anos que ele tinha contratado os serviços de seu amigo Kelly Peters para editar vídeos. Enquanto via as partidas, mandava mensagens para Peter com a indicação “editar minuto x da partida Y”. Bingo.

Dentro do iMovie, programa de vídeos da Apple, um mundo se abria para o Golden State Warriors: jogadas depois de tempos técnicos, jogadas em finais de jogos, variações de marcação, pressão na quadra toda e tudo mais. Kerr fazia isso com Kelly há dois anos e seu arsenal de informações era maior que o da própria franquia Warriors. Ali ele ganhou Lacob, que no final fez a pergunta decisiva: “Como você formaria a sua comissão técnica?”. A lista já estava na cabeça de Kerr e possuía os nomes dos experientes Alvin Gentry para revolucionar o ataque, Ron Adams para melhorar a defesa, Luke Walton para ser o elo entre atletas e técnicos e Jarron Collins e Bruce Faser para o desenvolvimento de jogadores.

Lacob não teve dúvida e fechou contrato com Steve Kerr ali mesmo. Tinha medo de contratar um cara que nunca havia sido treinador na vida, mas seu lado empreendedor queria ver a tal revolução em curso. E assim foi feito. O novo técnico convenceu Andre Iguodala e David Lee, então estrelas da companhia, que eles do banco seriam ainda mais efetivos, trouxe Draymond Green como titular, dando a ele o poder de ser o líder emocional e defensivo da equipe, e arquitetou, para finais de jogos, a chamada formação da morte com Steph Curry, Klay Thompson, Harrison Barnes, Iguodala e Green. Esta formação possui os melhores números de eficiência defensiva da história da NBA e rendeu ao Warriors não apenas as 67 vitórias da temporada regular, mas a passagem para a final, algo que não acontecia desde 1976.

O sucesso do Golden State é tão grande que dois dos assistentes de Steve Kerr, ausente nos dois últimos campeonatos devido a dores nas costas, se tornaram técnicos principais em Lakers (Luke Walton) e Pelicans (Alvin Gentry). Sua comissão se renovou, e mesmo sem Kerr no banco em alguns momentos os resultados continuavam a aparecer. Era o sonho de Lacob. As pessoas são importantes, mas a estrutura é ainda mais fundamental. A engrenagem estava formada, azeitada e pronta para saltos ainda maiores.

O restante todo mundo já sabe, né? Veio o título em 2015, no ano seguinte o vice-campeonato apesar das 73 vitórias na temporada regular (recorde que superou as 72 do Chicago Bulls de 1996), Kevin Durant chegou no final de 2016 e novo troféu foi levantado em 2017. Isso tudo com a sétima folha salarial mais cara da NBA. Não era, obviamente, a força do dinheiro que fazia o time rodar certinho. Eram o planejamento de Bob Myers e a sabedoria de Steve Kerr aliadas aos talentos descomunais que o time tem na quadra.

Ficou fácil pro Warriors então, né? Mais ou menos. O verão americano reserva um desafio imenso para a franquia, que vê oito de seus jogadores efetivos da rotação como agentes-livres (podem ser cortejados por ofertas imensas de um mercado americano cada vez mais inflado). Entre eles estão Steph Curry, Kevin Durant, Andre Iguodala, Shaun Livingston e Zaza Pachulia.

Se está sendo divertido acompanhar o Warriors nos últimos três anos, dá pra dizer que essa pós-temporada continuará a ser pra lá de animada. Para se ter uma ideia, Curry pode receber uma oferta de mais de US$ 200 mi por cinco anos e se tornar o jogador mais bem pago da história da NBA. Do meu canto acho que é praticamente impossível que Steph, Durant e Iguodala saiam de lá. Eles sabem que, juntos, podem ganhar muitos outros títulos juntos. E isso não há dinheiro que pague.

Se nada de extraordinário acontecer o Golden State continuará a mandar na NBA por muitos e muitos anos.

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