Bala na Cesta

Arquivo : julho 2013

Caro ou barato? Uma análise sobre o preço dos ingressos do jogo da NBA no Brasil
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Fábio Balassiano

Como você deve saber, estive ontem na coletiva de imprensa que apontou preços dos ingressos e próximos passos para o primeiro jogo da NBA no Brasil (entre Washington Wizards e Chicago Bulls, no Rio de Janeiro, em 12 de outubro de 2013). Muita gente me perguntou se eu considerava o preço caro. Minha resposta é: sim, é caro. Muita gente me perguntou, também, se é um absurdo? Minha resposta foi: não, não é um absurdo. E vamos aos motivos.

Em primeiro lugar, é importante deixar uma coisinha bem clara. Ontem falei aqui sobre o escárnio que é o preço de um jogo da seleção brasileira em Anápolis, e muita gente pode pensar que, até pelos valores serem parecidos, o raciocínio se aplicar aqui também. Não, não tem absolutamente nada a ver. A Confederação deveria se preocupar em massificar o esporte, em desenvolver a modalidade. Essa é sua principal e primeira preocupação no país. A NBA, por sua vez, é uma entidade profissional que é gerenciada por clubes e que precisa arrecadar dinheiro, muito dinheiro. Não é porque ela quer ver a China jogando cada vez mais basquete que todo ano os times vão pra lá. É porque há um potencial de consumo incrível no gigante asiático e quanto daquela grana chinesa será destinada a produtos da liga norte-americana. Feito isso, vamos lá.

Sobre o valor em si, é óbvio que não é um preço barato (ninguém é maluco de dizer que o mais baratinho, de R$ 180, é um troco), mas há cinco coisas que pesam a favor dessa escolha da liga norte-americana  e da IMX, promotora do evento: 1) a questão alucinante da meia-entrada no Rio de Janeiro (não sei se é um caso no país inteiro, mas por aqui quase todo mundo tem meia-entrada, e os produtores de evento acabam aumentando a inteira justamente porque sabem que suas receitas serão praticamente rachadas ao meio); 2) É a primeira vez de um jogo da NBA no país e há um desejo reprimido imenso principalmente na galera de 18-34 anos que acompanha o melhor basquete do mundo desde o começo da década de 90; 3) Decididamente não se trata de um jogo de basquete, mas sim de um grande evento, todos sabemos disso; 4) A quantidade de espetáculos de bom nível (técnico, organizacional e estrutural) no país é escassa, e quando há um ótimo vindo de fora a população ainda paga; e 5) É a velha Lei da Oferta e da Procura – justa ou não, vai ter gente querendo bancar e é nisso que a NBA aposta para lotar os 14 mil lugares da HSBC Arena (e nem falei aqui sobre um dos primeiros jogos de Derrick Rose em sua volta às quadras e o custo para ter o evento por aqui, né).

Insisto nesse ponto: a NBA e a IMX não estão trazendo um jogo de pré-temporada para o Brasil para popularizar o esporte, algo que ela acaba até tangenciando em suas ações para ter um mercado maior (mas ela mesma sabe que esta não é a sua principal atribuição por aqui). É negócio, e como toda empresa deve primar primeiro pela satisfação de seu cliente final e pelo lucro (ou vocês ainda não pensaram que a Argentina possui Manu Ginóbili, tricampeão da liga, e sequer foi cogitada pra receber a partida porque passa por uma situação econômica lamentável). Não há ingresso baratinho, não é um post bonitinho, mas é a verdade e a realidade de um mercado absurdamente bem administrado (o mercado esportivo dos Estados Unidos).

E se o objetivo é estritamente profissional, a NBA e a IMX devem tentar lucrar horrores com o jogo e todo o entorno que cerca o evento – compra de ingressos, roupas, acessórios etc. . É uma aula não só de basquete, mas principalmente de gestão esportiva.


Renovada, seleção feminina estreia hoje no Sul-Americano da Argentina
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Fábio Balassiano

Começa hoje o Sul-Americano de Mendoza (Argentina) para a seleção brasileira feminina adulta. A competição vale quatro vagas para a Copa América, que será disputada no México de 23 a 28 de setembro, e irá classificar três países pro Mundial da Turquia em 2014.

E o renovado time de Luiz Augusto Zanon (média de 22,9 anos e 1,80m de altura) só não irá para a Copa América caso aconteça uma tragédia de proporções absurdas no torneio que será jogado em solo argentino até domingo (já são 14 títulos seguidos do Sul-Americano, só lembrando).

O Brasil está no Grupo A com Chile e Peru, e se classifica para o Pré-Mundial caso vença um dos dois fracos rivais (já antecipo que não sei se haverá transmissões de TV ou Web). O primeiro desafio é nesta quarta-feira contra as chilenas (19h30). Amanhã é a vez das peruanas às (14h30). Abaixo as convocadas:

ARMADORAS: Débora e Tainá
ALAS: Jaqueline, Cacá, Patricia Teixeira, Tatiane Pacheco, Joice Coelho
PIVÔS: Clarissa, Damiris (foto ao lado), Franciele, Fernanda Bibiano e Fabiana Caetano

Por fim, uma observação bacana. Na sexta-feira passada conversei, no programa “Cinco contra Cinco”, da Rádio Bradesco Esportes FM, com o técnico Zanon (foto à direita), que explicou a saída por lesão de Izabela Moraes e o planejamento de renovação deste primeiro ano de trabalho à frente da seleção brasileira feminina (acho que está bem claro que ele está querendo modificar um pouco o panorama sombrio em que se encontrava o time nacional nos últimos anos com nomes e sistemas defensivos mais agressivos).

Além disso, o treinador ainda garantiu que pra Copa América Érika deve estar com o time e que o grupo de treinamento será recheado com meninas que estiveram no Mundial Sub-19 que terminou no domingo passado na Lituânia (meu palpite, e é apenas um palpite) é que irão Maria Carolina, Izabella Sangalli, Isabela Ramona e Sassá).

Alguma chance de a vaga pra Copa América não vir? Acho que não, e você? Comente!


Mais informações sobre a coletiva da NBA nesta terça-feira no RJ
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Fábio Balassiano

Como alguns de vocês já devem saber, estive hoje na coletiva que a NBA Brasil e a IMX, parceira da liga norte-americana, promoveram no Rio de Janeiro para abordar a venda de ingressos para a partida que será disputada entre Chicago Bulls x Washington Wizards no dia 12 de outubto, na HSBC Arena, no Rio de Janeiro, às 18h.

Na foto de Fernando Soutello/AGIF, da esquerda para a direita estão, Philippe Moggio (Vice Presidente da NBA América Latina), Arnon de Mello (Diretor Executivo da NBA Brasil), Enio Ribeiro (Vice Presidente de Esporte da IMX) e Alan Adler (CEO IMX). Alguns pontos importantes:

1) Ainda não saiu o calendário oficial de jogos da pré-temporada da NBA, mas será um dos primeiros jogos de Derrick Rose em sua volta às quadras. Pelo que Arnon de Mello comentou, há interesse, inclusive, de televisões dos Estados Unidos exibirem o evento – por causa de Rose, obviamente. Aqui no Brasil, há a possibilidade de a Rede Globo transmitir a partida em TV Aberta. Na fechada, ESPN e Sportv disputam.

2) Abaixo os valores dos ingressos (sei que é a curiosidade maior de vocês, e minha análise sobre os custos sai amanhã):

3) A venda para o jogo da pré-temporada começa no dia 8 de agosto, às 23h30h somente pelo site www.lojanba.com . Na bilheteria da HSBC Arena inicia no dia seguinte, 09/08 , às 10h. Todos os 14 mil ugares assentos são marcados. Meia Entrada: Será permitida a compra de quatro ingressos por CPF, sendo que no máximo um deles meia-entrada. Menores de 14 anos só poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis. Sujeito à alteração de acordo com o Juizado de Menores. Gratuidade: Idosos acima de 65 anos, portadores de deficiência e crianças abaixo de 12 anos (acompanhadas de um responsável pagante) têm direito à gratuidade. Para fazer jus ao benefício, os interessados deverão fazer o pré-cadastramento na bilheteria da HSBC Arena, mediante apresentação de um documento de identidade original com foto, entre os dias 6 e 8 de agosto, das 10h às 18h. Durante o pré-cadastramento não haverá entrega de ingressos, que deverão ser retirados na bilheteria no dia do evento. Para mais dúvidas sobre ingressos, sugiro que o Twitter da NBA Brasil (@NBABrasil) seja consultado. Mais do que expus acima eu sinceramente não sei.

4) O brasileiro Nenê (foto à direita) não foi a coletiva de hoje por motivos pessoais, mas mandou um vídeo bem interessante falando sobre a primeira partida a ser jogada no Brasil. “Quando cheguei aos Estados Unidos, me disseram que voltaria pro Brasil rapidinho. Dez anos se passaram, e estou voltando como jogador da NBA pra fazer a primeira partida da liga no meu país”, disse. Foi bacana.

5) Perguntei a Arnon sobre a escolha dos dois times, e questionei sobre o fato do Washington ter sido selecionado pelo fato de, na época que decidiram os times, Nenê ser o único brasileiro sob contrato. Ele disse que não foi isso que decidiu, mas sim um pedido do Wizards em fazer uma homenagem ao Nenê, mas que ter um brasileiro confirmado no evento obviamente pesou. Sobre o Chicago, é um dos times com maior torcida no país devido ao período Jordan & Pippen (e é mesmo).

6) Conversei com Enio Ribeiro, da IMX, sobre o acordo da empresa com a Confederação Brasileira. Ele e a empresa sabem dos problemas financeiros que a entidade máxima do basquete brasileiro passa no momento mas disse que acreditam (IMX e ele) que o produto basquete é muito forte e com potencial de crescimento por aqui. Já são dois meses de trabalho e, segundo ele, a primeiríssima missão é conseguir um novo patrocinador máster (desde a saída de Eletrobrás ninguém injetou grana altíssima por lá).

7) Ainda sobre a IMX, questionei Enio sobre a crise que vive o grupo X, de Eike Batista, e a continuação das atividades da empresa esportiva. Ele me disse que, independente do que aconteça, a IMG (que fez parceria com o Grupo X para entrar no Brasil), segue forte e com atividades e eventos muito bem definidos para os próximos meses no país (Golfe, Tênis etc.).

8) Além do jogo, no dia 12 de outubro, a NBA terá dois eventos antes da partida entre Bulls e Wizards. No último fim de semana de agosto, no Parque Madureira, um NBA 3X, de basquete de rua. E o “Dia do Fã, voltado para os fãs da liga e que vai reunir basquete e entretenimento na semana do jogo.

9) Por fim, uma coisinha interessante. Arnon disse que há o interesse, sim, de a NBA trazer um próximo jogo da liga para o Brasil, e dessa vez com a possibilidade de uma preliminar envolvendo times brasileiros (prioridade para times da Liga de Desenvolvimento de Basquete, a LDB, promovidade pela Liga Nacional). Muito bacana, não?


Conferência Leste está voltando a ser a mais forte da NBA
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Fábio Balassiano

O armador Mario Chalmers (foto à direita), do Miami Heat (atual bicampeão da NBA), foi preciso em sua avaliação sobre como será a próxima temporada: “O Leste vai ser uma batalha sangrenta. Continuamos fortes, o Nets contratou Garnett, Pierce e Kirilenko, Derrick Rose vai voltar no Chicago, Bargnani fechou no Knicks e o Scola acaba de assinar com o Indiana. São cinco times de grandíssimo nível na mesma Conferência. Ninguém terá descanso, não”.

Chalmers tem toda razão, e ao contrário do que foi visto nos últimos anos, a Conferência Leste volta a ter cara de uma Conferência difícil e disputada. Só lembrando: o Bucks, oitavo colocado no campeonato passado, entrou no playoff passado com a inacreditável campanha de 38-44. No Oeste, o Dallas, décimo-primeiro, ficou de fora com 41-41.

Ao contrário da temporada passada, quando se sabia que só um milagre tiraria o título do Mimai Heat até a decisão final da NBA, desta vez não será tão fácil assim para a turma da Flórida, e muito menos será tranquilo dizer sobrevive para as finais do Leste. Dos cinco que citei (Heat, Knicks, Bulls, Pacers e Nets), quem pisar no acelerador mais cedo na fase regular terá ótimas chances de conseguir mando de quadra e escapar de pedreira direto na primeira rodada da pós-temporada (já imaginaram um Pacers x Bulls pra abrir o mata-mata do Leste que sensacional seria?).

Quem começou a ver NBA no começo da década de 90 lembra dos épicos duelos que envolviam Chicago Bulls, Cleveland Cavs, New York Knicks, Miami Heat, Detroit Pistons, Boston Celtics e Indiana Pacers. Ainda não dá, creio eu, pra dizer que o Leste está melhor que o Oeste (ainda não), mas que a Conferência deu uma esquentada, uma melhorada em relação à temporada passada me parece inegável.

Concorda comigo? Comente!


Seleção brasileira jogará em Anápolis e terá ingressos de até R$ 140 – como explicar isso?
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Fábio Balassiano

A Confederação Brasileira de Basketball anunciou ontem em seu site a programação e os valores dos ingressos para o Super 4 que a seleção masculina adulta jogará em Anápolis (GO). No dia 10, o time de Rubén Magnano enfrentará o México, enquanto que Argentina e Uruguai medem forças. Os vencedores jogam no dia seguinte a decisão do torneio.

E os preços para quem quiser assistir às partidas? A Arquibancada sairá pela bagatela de R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia), e a Cadeira tem custo de R$ 140,00 (inteira) e R$ 70,00 (meia).

Na boa, acho que os dirigentes do basquete brasileiro enlouqueceram de vez. Em primeiríssimo lugar: cobrar R$ 40 (pegando preço da meia entrada, tá) para um jogo de basquete no Brasil é um verdadeiro absurdo. Pelo nível técnico, que não é dos melhores, pelo entretenimento, que sabemos ser fraco, e pelos adversários (nem a Argentina virá completa). Um jogo de campeonato brasileiro de FUTEBOL está custando R$ 20 (Fluminense x Cruzeiro, veja aqui). Como pode o basquete, que não está nem entre os cinco mais populares do país na atualidade, cobrar esse preço altíssimo?

Mas por incrível que pareça o valor alto nem é o maior dos problemas que enxergo, não (e é um problema grave, repito). A grande questão é que o basquete precisa se popularizar, precisa encher ginásios, precisa fazer com que a torcida queira ir ao ginásio, precisa fazer com que o povo, que parou de se acostumar a acompanhar a modalidade há 15, 20 anos, volte ao ginásio. Isso não sou eu que digo. Pegue a média de público do NBB e da LBF, que não chega a 1.500 pessoas/jogo, e será comprovado. Pergunte a seu pai, irmão, namorada ou peguete quem é o maior ídolo da seleção atual e você poderá ouvir, como eu ainda ouço, os nomes de Oscar Schmidt e Magic Paula.

Mas aí há a oportunidade, raríssima, pois as seleções brasileiras – de base e adulta – jogam muito pouco por aqui, de colocar a seleção brasileira para jogar diante do torcedor, promover a modalidade e de apresentar os ídolos a quem anda meio por fora. E o que faz a CBB? Alucina nos preços.

Sei que a Confederação Brasileira está totalmente asfixiada em dívidas e não possui uma ótima cabeça pensante em termos de administração/marketing trabalhando na Avenida Rio Branco, onde fica a sua sede, mas me parece um disparate sem precedentes na história do basquete deste país ter um torneio AMISTOSO contra seleções de nível B (a Argentina seria nível A se viesse completa, é bom que se diga) custando até R$ 140 por partida. Você já pararam pra pensar quanto sairia, para um pai de família de Anápolis, levar seus dois filhos ao ginásio pra ver semifinal e final? Mais de R$ 300. Caro, não? Qual é o objetivo disso? O que a entidade máxima pretende com isso?

Ajudar a popularizar o esporte é que não é. Que pena. Perde-se uma oportunidade imensa. Mais uma.


Anote este nome: norte-americana Breanna Stewart já faz estrago aos 18 anos
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Fábio Balassiano

A jovem norte-americana Breanna Stewart (foto) é um desses fenômenos do basquete que não surgem no esporte a toda hora. Aos 18 anos, a ala de 1,93m acaba de conquistar o Mundial Sub-19 com os Estados Unidos (vitória por inapeláveis 61-28 contra a França) e ser escolhida a MVP da competição que terminou no domingo em Lituânia com as médias de 16,9 pontos, 6,2 rebotes e 50,9% no aproveitamento de arremessos (nos jogos mais difíceis, contra França na primeira fase, Austrália na semifinal e na final de novo contra as francesas ela teve mais de 16 pontos em todos eles). Foi o seu terceiro título – antes o Mundial Sub-17 em 2010 e o Sub-19 em 2011.

Fã de Kevin Durant, a ala, presença constante em Twitter e Instagram, poderia cair pra ala-pivô ou pivô com esta altura, mas seria um desperdício pra tamanho (perdão pelo trocadilho) talento. Evoluindo cada vez mais nos arremessos de fora, Breanna lembra Lauren Jackson (tal qual Elena Delle Donne), mas sua envergadura e sua explosão física parecem ser ainda maiores e seu potencial físico também. Sempre jogando com atletas de idades mais avançadas, ela jamais se importou com isso e foi campeã mundial Sub-17 com 16 anos (12,8 pontos e 7,5 rebotes) e Sub-19 com 17 (11,2 pontos e 7,3 rebotes) sempre assumindo o papel de protagonista nas seleções dos Estados Unidos (por isso, em 2011, a Confederação local deu a ela o prêmio de atleta feminina do ano).

Seu prêmio maior, porém, veio com a convocação para o Pan-Americano de 2011. Aos 17 anos, a menina de braços longos e cabelo enrolado foi a segunda jogadora do ensino médio dos Estados Unidos a representar o país em uma competição oficial adulta (a outra foi Nancy Lieberman em 1975). E o que fez a menina? Liderou o time em rebotes (11,3), tocos (2,2) e terminou com assombrosos 15,4 pontos de média (50% de aproveitamento nos chutes). Antes de entrar na faculdade ela participou do Torneio dos Campeões, evento que reúne a nata do basquete colegial norte-americano. Eram 96 meninas, e vejam só o que a estudante da Cicero – North Syracuse High School (de Syracuse) fez no torneio de habilidades:

Breanna Stewart saiu do Arizona, sede do evento colegial, como a mais aplaudida, aclamada (ganhou o MVP do torneio) e visada jovem do país. Mesmo assim ela não teve moleza quando entrou na Universidade de Connecticut, um dos melhores programas de basquete dos Estados Unidos. O técnico Geno Auriemma (também comandante da seleção norte-americana) sabia que tinha um diamante em mãos, e fez questão de lapidá-la e educá-la desde o começo (ela seria reserva em sua temporada de estreia).

Geno, que dirigiu craques como Diana Taurasi, Sue Bird e Maya Moore, tinha tudo na cabeça. Colocou-a em uma academia para que seu jogo de finesse não fosse incomodado em territórios onde o físico fizesse a diferença e delegou a seu assistente Chris Daily a função de desenvolver ainda mais o arremesso de Stewart, que começou mostrando ao que veio anotando 20 pontos em três dos quatro primeiros jogos universitários, feito jamais visto no circuito norte-americano (uma novata, pessoal, uma novata…). Vindo do banco de reservas, na temporada ela registrou excelentes 13,8 pontos (segunda cestinha do time), 6,3 rebotes e 50,8% nos arremessos (33,4% nas bolas de três). Já seria muito, mas o melhor estava reservado para o final.

Aí veio o March Madness, torneio nacional com as melhores faculdades do país, e Breanna anotou 21 pontos de média (56% nos arremessos), guiou Connecticut ao título (na final contra Louisville (vitória fácil por 93-60) ela anotou 23 pontos e teve 9 rebotes (na semi contra Notre-Dame, show com 29 pontos, 5 rebotes e 4 tocos). Com inteira justiça, foi escolhida a MVP do torneio (a primeira novata a conseguir isso desde 1987). No final, assustado com o desempenho de sua caloura (sete bolas de três em oito tentativas nos dois últimos jogos), Geno disse: “Tenho medo do que ela poderá fazer no restante de sua carreira. Medo do que as adversárias sofrerão, claro”.

É óbvio que ainda é muito cedo pra prever o que acontecerá com Breanna Stewart em seu futuro profissional, mas está muito claro que se trata de uma menina especial, bem especial. Talentosa, com potencial físico gigante, jogando de ala (posição 3, pessoal) com 1,93m (ainda deve ganhar dois, três centímetros) e ainda com espaço pra evoluir (principalmente em seus arremessos longos), fica difícil não pensar no que ela poderá fazer na WNBA em poucos anos.

Que ela continue melhorando a cada ano.


Com Luis Scola, Indiana fica ainda mais forte pra próxima temporada da NBA
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Fábio Balassiano

No dia 8 de setembro de 2002, a Argentina perderia de forma trágica o Mundial de Indianápolis de 2002 para a Iugoslávia de Dejan Bodiroga (27 pontos e seis rebotes em uma atuação magistral) por 84-77 (os hermanos estavam vencendo até os minutos finais e viram o ouro escorrer pelas mãos na prorrogação devido a erros bizarros da arbitragem – reveja aqui caso queira).

Naquele jogo, o jovem Luis Scola (foto), de 22 anos, ainda batalhava por espaço na rotação de Rubén Magnano e teve 11 pontos e quatro rebotes em 22 minutos, chamando a atenção dos olheiros da NBA por sua desenvoltura técnica e personalidade acima da média. Aquela partida foi disputada diante de 17 mil pessoas no Conseco Fieldhouse, ginásio do Indiana Pacers, tradicional franquia da liga norte-americana.

O tempo passou, Luis Scola mudou da Europa, onde era ídolo do Baskonia (mesmo time que revelou Tiago Splitter), para a NBA em 2007 e foi até bem no Houston (chegou a ter média de 18,3 pontos e 8,2 rebotes em 2011). Mas Scola foi surpreendentemente anistiado pelos texanos no ano passado (e pensar no que seria da dupla Scola+Howard, hein…) e parou no Phoenix Suns, onde chegou a ser barrado.

Parecia o fim de sua carreira na NBA, mas como a vida é a arte do encontro, ou do reencontro, Luis Scola foi envolvido no sábado passado em uma negociação com o Indiana (os Pacers mandaram Gerald Green, Miles Plumlee e uma escolha de Draft), e irá jogar justamente naquele ginásio em que apareceu pela primeira vez para os olheiros dos Estados Unidos de forma mais avassaladora há mais de uma década.

No Indiana, ele ajudará o vice-campeão da Conferência Leste a ficar ainda mais forte e terá uma nova vida no melhor basquete do mundo. Formará uma excelente linha de frente no garrafão com David West e Roy Hibbert (pelo visto o argentino sairá do banco e terá no máximo 25, 30 minutos por jogo), e será o responsável, junto com os também recém-chegados Chris Copeland e CJ Watson, além de Lance Stephenson, por comandar o banco que foi o segundo pior em termos de pontuação na temporada passada (apenas 24,1 por partida).

É uma grande notícia para o Indiana Pacers, que certamente brigará de igual pra igual com New York Knicks, Brooklyn Nets e Chicago Bulls pra tentar derrotar o Miami Heat, mas sobretudo para este craque de bola chamado Luis Scola. O hermano, agora com 33 anos e com mais um ano de contrato na NBA, pode focar em terminar bem a sua carreira no basquete norte-americano em um grande time e com possibilidade de ir longe na pós-temporada.

Pra quem gosta de basquete bem jogado, é uma ótima e agradável notícia. Pro torcedor do Indiana, uma ainda melhor com a chegada deste cracaço de bola. Os Pacers virão fortíssimos para a temporada 2013/2014.


Entrevista exclusiva: Lucas Bebê
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Fábio Balassiano

Os últimos dias têm sido bem agitados para Lucas Bebê. O pivô encontrou com seu ídolo de infância (Zico, na foto – aqui você vê imagens de como isso ocorreu) na quinta-feira, completou 21 anos no dia seguinte (a festa, em sua casa, teve direito a canja de Marquinhos Satã, seu cantor preferido) e embarcou ontem à noite para Atlanta, a fim de treinar com a franquia que o escolheu no Draft da NBA no dia 27 de junho. Ainda sem saber se fará a migração do basquete europeu, onde defende o Estudiantes (Espanha), para a liga norte-americana nesta ou na próxima temporada (entenda mais sobre o caso aqui), Lucas, que ainda não sabia que seu time estava fechando com o pivô mexicano Gustavo Ayon, conversou com o blog em papo descontraído na quinta-feira.

BALA NA CESTA: Sei que você tem dado uma série incrível de entrevistas. Qual a pergunta que você mais respondeu desde que foi escolhido pelo Atlanta Hawks no Draft da NBA?
LUCAS BEBÊ: (Risos) Pô, Bala, essa é bem fácil. É a questão da ficha (se a ficha já caiu sobre o Draft). A da seleção tá forte também, sem dúvida. Mas não dá pra reclamar de nada. É o que sempre sonhei (ser escolhido por um time da NBA), então é momento de curtir mesmo. Parece que são sempre as mesmas, mas não posso reclamar, não.

BNC: Tem só uma pergunta que eu não vou conseguir fugir, que é sobre a questão de sua ida agora pra NBA ou não. O que você, pessoalmente, gostaria de fazer? Se você pudesse escolher sozinho, o que faria?
LB: Meu desejo é jogar na NBA, é o ponto máximo da carreira de um atleta e eu nunca escondi isso de ninguém. Só que a gente tem que ser realista, conhecer os nossos limites e saber se realmente eu estou preparado. Isso é bem importante para a minha tomada de decisão. Na minha opinião eu acho que posso estar preparado pra jogar um pouquinho na NBA agora, ganhando muita massa muscular nos treinos, mas talvez pode ser que esteja enganado, que ainda seja prematura a minha ida pra lá. E caso esteja enganado vou ter a humildade de reconhecer isso, voltar pra Europa e seguir crescendo lá para, mais tarde, realizar meu sonho de atuar no Atlanta Hawks. O time está passando por um processo de reconstrução, sei que faço parte disso, mas sei também que há uma série de pivôs lá pra disputar minutos. Tudo isso será pesado.

BNC: Então tá. Vamos pra algumas perguntas diferentes desde já. Sei que uma pessoa que exerce uma influência grande sobre você é a também pivô Érika, que por coincidência também joga no Atlanta (só que no Dream, da WNBA). Como é o relacionamento de vocês, e quais os conselhos que ela te dá?
LB: A Érika é a minha melhor amiga e meio que me adotou na Espanha em um período muito complicado pra mim. Foi depois daquele Mundial Sub-19 de 2011. Ela foi ver um jogo do Raulzinho em que eu também estava na plateia, batemos papo, ficamos ali rindo e a amizade foi crescendo pra caramba. Devo demais a ela, demais mesmo. No tempo que fiquei em Atlanta, depois do Draft, estive direto com ela e foi muito divertido. Tem uma importância gigante na minha vida. Me dá muita moral, mas também dá muito conselho e muita bronca. É uma irmã que tenho.

BNC: A primeira vez que eu o entrevistei, lá em 2010, logo depois daquela Copa América Sub-18 que o projetou pra todo mundo, você me disse que seu sonho era jogar na NBA. Mas depois veio o ano de 2011, o Mundial Sub-19 não foi muito bom, a volta pro Estudiantes tampouco foi boa. Como foi aquele momento, e como foi pra reverter e chegar a ser escolhido no Draft?
LB: Foi uma sequência de coisa “boa”, né (risos). Coisa boa de coisas ruins. Teve o Eurocamp de Treviso também, que não foi bacana, o próprio Draft, que acabei tirando meu nome. Foi um período mega frustrante na minha vida. Muito, muito mesmo, mas foi o período que eu mais cresci como pessoa e como jogador, Bala. Ali eu vi que precisaria me esforçar muito pra chegar onde queria chegar. Foi tudo muito ruim, eu nem gosto de lembrar. Hoje eu tô mais na minha, não me exponho tanto em redes sociais, essas coisas. Fui obrigado a amadurecer porque eu não entraria na NBA caso mantivesse aquele comportamento. Já estava claro. As pessoas já não acreditavam mais em mim, Bala. Você sabe bem a fama que eu estava criando. Eu tive que mudar sim ou sim. Ou então era parar de jogar. Não tinha muita escolha, não. Por isso que eu valorizo muito o Draft. Estou desfrutando este momento porque sei que foi duro pra caramba chegar lá. Treinei muito, amadureci muito de dois anos pra cá, ralei demais.

BNC: Essa temporada que terminou na Espanha foi a que eu mais acompanhei, com vídeos e jogos. Vi alguns seus, e sua evolução no Estudiantes em relação ao campeonato anterior foi muito grande, principalmente em termos de confiança. Mas teu jogo, e me corrija se estiver errado, ainda é muito baseado em enterrada.
LB: (Me cortando) Em bloqueio e continuação, né. Mas, pra te ser sincero? Não estou aqui pra criticar ninguém, não, mas é o que eu tinha que fazer na Espanha. Lá funcionava assim e não podia mudar muita coisa. Era o desejo do técnico pra mim. Se eu fizesse mais que isso (bloqueio e rebotes ofensivos) eu ia pro banco. Já teve um período de eu estar com média de 14 minutos, jogando legal, fazendo o que o técnico me pedia, errar dois arremessos e sair de quadra com dois minutos, ficando de fora não só daquele jogo mas também do seguinte. E isso não me preocupa. Foi isso que me colocou na NBA e é isso que vai me manter na NBA. Mas é óbvio, e isso é bem claro pra mim, que eu tenho que evoluir em jogo de poste baixo e outras coisas. Mas eu fui draftado porque defendo bem a cesta e completo bem os passes em enterradas. Simples assim. É meu carro-chefe mesmo. Mas sempre que posso eu treino meu arremesso, movimentos ofensivos diferentes, já melhorei muito neste sentido também. Preciso evoluir, além da parte técnica que te mencionei, muito em força física e sobretudo na leitura de jogo – ofensiva e defensivamente. Isso pra mim é muito claro.

BNC: Mas teu arremesso tem caído bem mais do que nos últimos anos, não?
LB: Ainda bem, né (risos). Olha, cara, eu tive um baita professor na Espanha, que foi meu companheiro de Estudiantes German Gabriel (foto à direita). Ele foi um mestre pra mim, Bala. Foi ele que me fez acreditar que eu poderia acertar um gancho. Um gancho, cara. Como eu acabei me baseando a vida inteira em enterradas e jogadas de força, acabei não dando tanta atenção pra outros golpes. O Gabriel, com muita paciência, é que me fez enxergar que poderia arriscar, mas arriscar essas jogadas depois de muito treinamento. Ele me dizia pra eu não ter vergonha, não ter timidez desde que treinasse as jogadas cada dia mais. O Gabriel um professor e uma inspiração pra mim.

BNC: Seu agente, Arlem Lima, contou uma história bacana pra mim e queria que você contasse pros leitores do blog também sobre sua chegada a Atlanta.
LB: Ah, cara, eu já estava há algum tempo sem treinar devido a uma lesão que tive naqueles treinamentos que a gente faz pras franquias da NBA antes do Draft. Aí fui escolhido no dia 27, pegamos o vôo na manhã seguinte pra Atlanta e chegamos lá pra conhecer as instalações do Atlanta Hawks por volta de oito da noite. Pô, Bala, eu não treinava há séculos. Peguei a bola ali e comecei a arremessar, a correr. Na hora que ouviu o barulho na quadra, o Danny Ferry (gerente-geral da franquia e responsável pela contratação de Bebê) desceu da sua sala e veio me dar os parabéns pela dedicação. Foi bacana. Não foi só por mim que fiz aquilo, mas o mínimo que eu posso dar pro Atlanta é alegria, Bala. Os caras fizeram de tudo pra me ter no time, trocaram escolha no Draft, fizeram o diabo. O mínimo que eu posso dar em troca pra eles é a minha gratidão, meu suor e meu comprometimento.

BNC: E o que mais te impressionou neste primeiro contato com o Atlanta? A estrutura?
LB: Ah, sim, isso sem dúvida. É coisa de outro mundo, surreal. Eu tenho a chave do ginásio, cara. A hora que eu quiser treinar é só chegar lá, abrir com a chave e bater bola. A hora que eu quiser, cara! Cinco, quatro, três da manhã, a hora que eu quiser é só entrar em quadra e pronto. Eu pedi pra dormir no vestiário na primeira noite também, porque queria treinar cedo no dia seguinte, mas o Ferry não deixou, não. Pediu pra eu ir descansar no hotel e tal.

BNC: No dia do Draft, imagino que você deva ter recebido milhares de mensagens, ligações, o diabo. Teve alguma em especial que mexeu com você?
LB: Cara, foram tantas, mas tantas que tem mensagem até hoje no meu Facebook que ainda não respondi. Não é por falta de educação, é falta de tempo mesmo. Minha vida desde aquele dia virou uma loucura de treinos e entrevistas, é até bom avisar (risos). Mas teve uma do meu primeiro treinador, o Rodrigo Kanbach, lá do Central (clube do Rio de Janeiro), do meu amigo Irlan, que me conhece há anos, e também o Fred Varejinho, que jogou muito tempo comigo também. A gente até brincava que era o trio FBI – Fred, Bebê e Irlan. A gente só andava junto, Bala.

BNC: Mudando um pouco de assunto. Os salários da NBA são muito altos, o seu primeiro contrato você já deve ter visto quanto você vai ganhar e o valor é bem bacana. Você já planejou o que irá fazer com o dinheiro neste primeiro momento? Tem alguma coisa que você deseje muito? Um carro, uma casa pros seus pais, sei lá. Tem algo?
LB: Desfrutar eu vou desfrutar um pouco, tem alguns caprichos que eu vou querer me dar, mas tem que ter cabeça, cara. Quando a gente é escolhido no Draft logo depois tem uma palestra da NBA. Lá eles exibiram um documentário pra gente chamado “Broke”(clique aqui e leia mais a respeito). Eu não entendi muito por causa do inglês, que ainda é difícil pra mim, mas a mensagem ali estava clara. Eram atletas que perderam tudo o que ganharam com bobagem, com bobeira. Bala, é papo de perder US$ 100 milhões só com loucura. A NBA nos obriga a ter um assistente financeiro pessoal, e eu terei também pra me ajudar a cuidar desta parte. Não vou dar mole, não, pode ter certeza. Vou querer comprar uma casa pros meus pais em Niterói, mas tudo com muita calma, sem muito atropelamento.

BNC: E como foi lá na Summer League. Eu cheguei a colocar um vídeo seu no blog em que você jogou 12 minutos e deu cinco tocos.
LB: Eu joguei 12 minutos, é? Nem sabia.

BNC: Sim, e os caras da narração estavam te chamando de “The Block Machine” (A Máquina de Tocos), comparando com o Dikembe Mutombo e tal. Como foi este começo lá em Las Vegas na Liga de Verão?
LB: Foi um pouco difícil, cara, porque já tive dificuldade pelo corpo que eu tenho (sou muito magro pra enfrentar os pivôs de lá ainda), mas principalmente porque estava há muito tempo sem treinar. Minha forma física não estava nada boa, mas fiz até que um bom papel na Liga de Verão. Agora vou voltar pra lá, Atlanta, e pode ter certeza que vou treinar igual um maluco, vou me matar na quadra. Já tem uma programação pesada e toda montada pra mim. Os caras são muito organizados.

BNC: E o que eles prepararam pra você?
LB: Tem o Camp do Tim Duncan, que irei participar, um outro em Las Vegas, uma série de atividades na academia, trabalhos específicos de quadra, tudo tabulado aí. Tem três folhas com todas as datas preenchidas até outubro. Até alimentação vai ser uma preocupação deles. Eles vão me fazer comer bem. Ou seja: pelos próximos três meses eles já sabem o que eu vou fazer. É incrível isso. Independente de jogar na NBA ou não quero estar preparado para o que eles exigirem de mim.

BNC: E aula de inglês? Vou te contar uma coisa: teve uma entrevista que você deu, falando em inglês, que a galera do Facebook falou que você estava melhor que o Joel Santana.
LB: (Risos) Mas o Joel é ídolo, Bala (Risos). Isso é outra coisa que eu vou ter que fazer com certeza. Aula de inglês não é com o Atlanta, mas eu certamente vou procurar um professor pra me ajudar. Isso está no meu planejamento também.


Após bom Mundial Sub-19, qual o futuro das meninas no basquete brasileiro?
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Fábio Balassiano

No dia 31 de julho de 2011, Damiris teve uma atuação magistral (26 pontos e 13 rebotes), o Brasil venceu a Austrália por 70-67 e terminou com o terceiro lugar no Mundial Feminino Sub-19 do Chile. A ala-pivô foi escolhida a MVP da competição e o futuro parecia brilhante pra ela e para uma geração absurdamente talentosa. Dois anos se passaram, outro Mundial Sub-19 veio e o resultado, embora não tão bom quanto o do Chile em 2011, foi bem satisfatório (disputa logo mais o quinto lugar com a China, o que não deixa de ser uma posição honrosa).

A questão central, porém, é que há uma semelhança bem básica entre as duas gerações (Ramona – na foto à direita -, Izabella Sangalli e Sassá disputaram as duas competições citadas acima): a falta de aproveitamento dessas meninas que surgem na base em competições adultas. Daquele time de 2011, apenas Damiris teve tempo de quadra e alguma evolução no basquete profissional (já tendo sido escolhida, inclusive, pelo Minnesota Lynx, da WNBA). As outras, muito, muito pouco. Joice e Ramona jogaram a LBF passada por Guarulhos (Ramona já havia disputado a anterior também, pela Mangueira), Tássia operou o joelho mas mal entrava em Americana e as outras nem isso. Triste, não?

E este não é um caso novo, não. Em 2003, o Brasil foi vice-campeão Mundial Sub-21 e no time de Paulo Bassul despontavam meninas muito talentosas e que pareciam que manteriam o alto nível dos resultados das seleções adultas (medalha de prata e bronze nas Olimpíadas de 1996 e 2000). Dez anos se passaram, algumas já pararam de jogar e outras não vingaram (Érika é a exceção que confirma a regra). E vocês sabem quem foi terceiro lugar naquela competição da Croácia? A França. Daquele time de dez anos atrás, cinco estiveram na Olimpíada de Londres e conquistaram a medalha de prata (Godin, Gomis, Dumerc, Ndongue e Lepron). Ou seja, houve sequência de trabalho, persistência e investimento. Explica muita coisa, não?

Uma solução básica, bem básica (e nem falarei no bizarro calendário brasileiro pra não me alongar muito neste texto), seria a Confederação fazer um investimento bacana, montar um time com as revelações do basquete brasileiro (isso já foi feito antes, em 2001, nem é tão novidade assim) e colocá-lo pra jogar a próxima LBF em alguma cidade. Para aumentar o desenvolvimento das meninas, este mesmo time poderia terminar o campeonato e viajar pelos Estados Unidos pra fazer clínicas e terminar uma temporada que começou com treinos específicos de Janeth Arcain (ela poderia ser a técnica deste time Sub-21 na Liga Feminina, visto que não possui time pra treinar), um Mundial Sub-19 e um campeonato adulto no miolo e uma chave de ouro com lições dos melhores da modalidade.

E não seria tão difícil assim montar, não. Com exceção da Isabela Ramona, que assinou com São José e terá espaço no adulto, a maioria das meninas não jogará muitos minutos nem no Paulista e nem na próxima LBF (três das meninas, aliás, jogam em clubes que não atuam em nenhuma das duas competições, uma lástima). Se juntar com as jogadoras da geração passada (a do Mundial do Chile), é possível pinçar 12, 15 atletas de bom valor e que ajudariam a formar mais do que um time, mas também uma massa de novas atletas pra abastecer o mercado interno (algo escasso por aqui).

Como disse na sexta-feira, o ranking de forças do basquete feminino mundial parece bem definido. Estados Unidos, França (vice-campeã olímpica e europeia no adulto e finalista neste Mundial Sub-19), Austrália e Espanha (campeã europeia no adulto) comandam as ações que há menos de dez anos eram dos EUA, Brasil e Rússia (as russas nem pro Mundial 2014 irão). E o que há em comum com os quatro países que atualmente dão as cartas na modalidade? Trabalhos de base fortíssimos, ligas fortes, investimento por parte das Confederações e técnicos absurdamente competentes.

Se a Confederação Brasileira trabalhasse bem só um pouquinho (não peço muita coisa, não), a situação poderia ser diferente. Espanha e França têm talento, mas não são nada de outro mundo (Alba Torrens, alçada como a nova maravilha espanhola, não é melhor que Damiris nem brincando). E mesmo jogado às traças, com divisão de base sucateada e com uma LBF de oito clubes, atrasada e sem returno (trevas máxima, portanto), ainda surgem jogadoras, ainda aparecem revelações do quilate de Damiris, Izabella Sangalli (foto à esquerda), Isabela Ramona, Tássia e Joice Coelho.

Um pouco mais de cuidado com essas meninas, com a Liga de Basquete Feminino e com os treinadores (principalmente os da base) e certamente o Brasil pode entrar naquele seleto grupo que comanda as ações da modalidade no mundo. O problema é um só: a CBB trabalhar como manda o figurino. Enquanto continuar terrivelmente administrada, a situação do esporte continuará péssima. A notícia ainda é pior para as meninas, pois com a criação do NBB o basquete masculino caminha bem melhor. Que pena.


Ir de vez pra NBA ou não, o enigma que Lucas Bebê precisa responder
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Fábio Balassiano

Como vocês devem saber, estive na quinta-feira com Lucas Bebê, que completou 21 anos ontem (parabéns pra ele!), para uma entrevista bem longa e que será divulgada aqui na segunda-feira. Conversamos sobre muita coisa, desde fundamentos do jogo, passando por planos de carreira e até finanças (sim, até nisso falamos). Mas obviamente a questão que todos vocês devem estar querendo saber é se o pivô escolhido pelo Atlanta Hawks irá pra NBA na próxima temporada ou apenas em 2014. Além dele, falei sobre isso com Arlem Lima, seu agente que também estava no local.

De cara, um esclarecimento. A notícia veiculada essa semana dizendo que o Atlanta e seu clube na Espanha, o Estudiantes, haviam chegado a um acordo sobre a rescisão de contrato não foi confirmada, e a negociação ainda não chegou ao fim.

Para que isso aconteça, há o desejo de Lucas, claro, mas não é só isso que conta. Antes do Draft o brasileiro renovou seu contrato com o Estudiantes, e há uma multa a ser paga caso ele decida sair agora. O valor gira em torno de US$ 1 milhão, e o Atlanta só poderia pagar metade disso de acordo com regras da liga norte-americana. Caso queira realmente fazer a migração pra NBA agora, cerca de US$ 500 mil deverão/deveriam ser pagos pelo pivô. Se a parte financeira pesar agora, a boa notícia é que a multa cai muito em 2014, e faria com que o Atlanta pudesse pagar quase tudo ao clube de Madri sem que Lucas sofresse tanto no bolso.

Eu tenho uma opinião sobre Bebê ir ou não pra NBA desde já (acho que deveria ir, sim), mas é óbvio que não são só as vontades dele que contam neste momento. Há, como você leu acima, o aspecto financeiro da coisa e também o fato de ele talvez ter menos tempo de quadra no Atlanta na temporada 2013/2014 com Al Horford, Paul Millsap, Elton Brand e Pero Antic (o pivô macedônio foi anunciado na sexta-feira), embora Lucas mesmo reconheça que neste primeiro momento o fundamental para ele seja ganhar massa muscular pra enfrentar gigantes como Dwight Howard, Joakim Noah, Andrew Bynum etc. .

Não é, portanto, uma decisão fácil e Lucas viaja para Atlanta neste domingo (ele vai treinar com o Hawks desde já, independente de jogar a próxima temporada ou não) com este enigma pra desvendar em sua cabeça.