Bala na Cesta

Conheça o esloveno de 19 anos que tem tudo pra ser a próxima estrela da NBA

Fábio Balassiano

22/05/2018 05h07

O ano era 2015 e no final de setembro Real Madrid e Bauru se enfrentariam no Mundial Interclubes da FIBA (confronto entre o campeão das Américas e o da Euroliga). Na quadra antes do primeiro duelo (do dia 25/09) um garoto de 16 anos e cheio de espinhas no rosto me chamou a atenção no elenco merengue. Era Luka Doncic, que um ano antes havia sido o cestinha do Eurobasket Sub-16 com 35,4 pontos de média.

Perguntei ao técnico Pablo Laso ao final da primeira partida daquele torneio se o esloveno estaria no elenco merengue pra ganhar experiência e aprender com a turma mais velha, já que na rotação havia craques consagrados como Sergio Rodriguez, Sergio Llull e Rudy Fernandez (pra citar apenas três deles). A resposta do treinador foi simples e direta: “Não. Luka está conosco porque tem qualidade e vai jogar para nos auxiliar porque precisamos dele. Mesmo na idade dele já possui ótima técnica e maturidade para estar na rotação principal. Experiência se ganha nas divisões menores. Aqui ele vai é nos ajudar a ganhar o título, e o mesmo vai acontecer quando ele entrar na quadra na Liga ACB e também na Euroliga”. Foi um pouco chocante ouvir isso de Laso sobre um jovem de 16 anos, mas ocorreu exatamente como o treinador falou. Doncic entrou, jogou, foi bem e ajudou o Real Madrid a ser campeão do Mundial Interclubes no começo daquela temporada e espanhol ao final dela.

O tempo passou, e no final de semana passado o nome de Luka Doncic voltou a ser muito falado ao redor do mundo. A pouco menos de um mês para o Draft de 2018 da NBA (no dia 21 de junho pra ser mais exato), o esloveno, agora com 19 anos, simplesmente barbarizou ao ser o principal nome do Real Madrid na conquista da Euroliga, principal torneio do continente (espécie de Champions League do basquete), no domingo em Belgrado. Com 15 pontos e 5 assistências, Doncic guiou os merengues a uma vitória por 85-80 contra o Fenerbahce e saiu da Sérvia “apenas” como o MVP da temporada regular (16 pontos, 4,8 rebotes e 4,3 assistências de média), o melhor do Final Four, a  revelação do campeonato e fazendo parte do quinteto ideal. Mala cheia de troféus, obviamente.

Entre 2015 e 2018, Doncic teve papel fundamental em outra conquista incrível. No ano passado, jogando ao lado do ídolo Goran Dragic (armador do Miami Heat, da NBA), ele teve 14,3 pontos para dar o inédito título do EuroBasket ao seu país. No final do campeonato, Dragic foi só elogios ao pupilo: “O futuro dele não é brilhante. Seu presente já o é. Luka tem uma habilidade bem incrível pra quem só tem 18 anos e os próximos passos dele serão sensacionais no basquete“. Por isso ontem na volta a Madri, onde o time foi recebido na Plaza Cibeles, ele ouviu da torcida um famoso cântico do futebol: “Luka, quédate” (Fica, Luka). Seus companheiros pegaram o microfone para aumentar o volume do coro. Torcida e atletas madridistas sabem, porém, que a permanência dele na Espanha é quase impossível, já que seu nome está cotado pra ser um dos primeiros do próximo Draft da NBA.

Mas afinal, quem é esse armador de 19 anos e 2,01m que mistura ótima visão de jogo, bom arremesso, excelente passe e desenvolvimento anual além da conta que tem tudo pra ser a próxima estrela da NBA?

Nascido em Ljubljana e filho de Mirjam (ex-modelo) de Sasa Doncic (ex-jogador da seleção eslovena), Luka começou a treinar no tradicional Union Olimpija Ljubljana, clube da cidade. Chamou tanto atenção dos treinadores que com 16 minutos no seu primeiro treino já foi mandado pra jogar no time Sub-11. Ele tinha 8 anos, mas Sasa diz que seus primeiros contatos com a bola foram aos sete meses. Treinado no quintal de casa pelo pai, acabou se tornando um viciado pelo jogo desde muito cedo. O tempo passou, e seu nome começou a ser conhecido na Europa e fora dela.

Da boca de Rasho Nesterovic, estrela do basquete do país e campeão com o San Antonio Spurs em 2005, os elogios ao garoto ganhavam contorno de profecia (“Luka será a próxima estrela do basquete do nosso país”, dizia Rasho em entrevistas no começo dessa década). Ao jogar uma Minicopa da Espanha emprestado para o Real Madrid em 2012 ele deu o seu cartão de visitas: 20 pontos na final e título contra o Barcelona. Com o troféu de melhor da decisão nas mãos Luka ouviu dos diretores madridistas que não sairia dali para retornar à Eslovênia. Foi o tempo de voltar pra casa, terminar seu ano ano letivo e assinar com o clube por cinco anos. Então com 13 anos, ele fechou com a equipe e se mudou com a família para a capital espanhola.

A adaptação, obviamente, não seria fácil. Outro país, outra cultura, dificuldades na sala de aula e ao mesmo tempo treinos em dois períodos com o Real Madrid. Além das práticas comuns aos jovens da sua idade, Doncic tinha desde sempre um treinador particular para evoluir em suas habilidades. Não era raro voltar para casa no carro com sua mãe ouvindo músicas em espanhol para acostumar o ouvido e terminar o trajeto dormindo, tão grande era o cansaço pela jornada diária que começava às 7h da manhã no colégio e terminava às 21h no clube.

Fã de futebol, Doncic é figurinha constante nos jogos do Santiago Bernabeu. Em seu Instagram agora recheado de seguidores (quase 600 mil seguidores) não são raras as fotos com Cristiano Ronaldo e o brasileiro Marcelo (veja um exemplo acima). Na recente semifinal da Champions League contra o Bayern, Luka publicou uma sequência de fotos no seu Stories vibrando loucamente e prometendo o doblete de conquistas europeias para a torcida. No basquete ele fez a sua parte. O futebol pode igualar o feito no sábado diante do Liverpool.

Na comemoração de ontem, o camisa 7 (o número usado por ele é homenagem não a Ronaldo, mas sim a Vassilis Spanoulis, craque grego de quem Doncic é fã) entrou no gramado com o Bernabeu e colocou uma foto com todo Staff do Real Madrid (abaixo). Na legenda, uma frase que pareceu uma espécie de agradecimento por todo tempo de apoio a ele: “Uma das fotos mais bonitas. Todas as pessoas por trás dos holofotes que cuidam de nós todos os dias para sermos melhores jogadores! Acima de tudo, uma das grandes chaves para ganhar! Graças a eles somos campeões europeus”.

Voltando à quadra, no dia 30 de abril de 2015 ele se tornou o jogador mais jovem a atuar em uma partida da Liga ACB espanhola (16 anos, 2 meses e 2 dias). Naquela altura sua comparação era com Ricky Rubio, fenômeno espanhol que também despontou muito novo com performances incríveis em campeonatos de base.

A diferença principal de Luka para Rubio é que, embora com qualidade de passe menor, Doncic tem drible mais rápido, mais força física e sobretudo um arremesso muito mais “pronto” para o grande jogo do que o agora armador do Utah Jazz, fazendo com que suas adaptações às categorias maiores não fosse tão atribulada. Assim ele ganhou cada vez mais tempo de quadra, saindo de 4,8 em 2014/2015 para 24 minutos em 2017/2018, onde o seu Real Madrid jogará os playoffs a partir do começo do próximo mês para brigar pelo tricampeonato local.

De “garoto da rotação” ele se tornou titular, melhor jogador da Europa, peça fundamental no elenco e olhado pela NBA com todo carinho do mundo em menos de três anos. Não é pouca coisa, principalmente por estar em um clube cuja pressão é gigantesca também no basquete. O time não conquistava uma Euroliga havia três anos e todos que estavam em Belgrado sabiam quão importante seria voltar a dominar o continente.

Muito respeitoso com os mais velhos, Luka foi “adotado” por Felipe Reyes, capitão e referência do elenco do Real Madrid. Andando com o esloveno por todas as partes de Madrid, Reyes proibiu que os demais atletas da equipe bebessem perto dele. Ele também descobriu que Doncic não tinha terno para viajar com o time para as partidas da Euroliga há três anos. Ligou para um estilista espanhol famoso, fez as medidas do rapaz, recebeu a conta, pagou por três peças caríssimas e no final disse: “Garoto, no dia que você for à NBA você me paga. Com juros”.

Eles riram, mas não deve demorar a acontecer. A cotação de Doncic, que já era altíssima, deve ficar ainda maior depois das performances dele no Final Four da Euroliga. Todos os times da NBA enviaram olheiros para confirmar aquilo que todos já sabiam: o garoto de 19 anos é realmente um ponto fora da curva na parte técnica, no que ainda pode evoluir e principalmente por já estar atuando em um basquete profissional de alto nível. A dúvida, agora, é saber se ele quer ir para a liga norte-americana neste ano mesmo com contrato com o Real Madrid até 2021. Em caso afirmativo, em que posição ele será escolhido é a questão.

Uma boa resposta pode estar no Phoenix Suns, que detém a primeira posição no Draft e cujo novo técnico é, simplesmente, Igor Kokoškov, sérvio de 46 anos com ótimas passagens como assistente da NBA mas sobretudo campeão europeu em 2017 com a Eslovênia. A diretoria do Suns nega, mas a ótima relação entre o treinador e Luka Doncic pode levar o camisa 7 do Real Madrid direto para o Arizona na próxima temporada.

Os primeiros passos da carreira de Luka Doncic são brilhantes. Vamos ficar de olho nos próximos. Provavelmente eles (os passos) serão na NBA daqui a pouquíssimo tempo.

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