Bala na Cesta

Arquivo : Fala Leitor

Fala, Leitor: O domingo, por Antônio Misquey
Comentários Comente

Fábio Balassiano

Por Antônio Misquey

Um típico domingo à noite. Aquele tédio e angústia de ter que aguentar a tal segunda-feira no dia seguinte. Mas sempre há aqueles dias excepcionais. Sempre não, às vezes. Bem às vezes. Aqueles que você chega e fala: “Lembra?”. E são esses que você lembrará. São raros, em extinção, mas eles aparecem.

Nove de abril de 2017. Bem-vindo a “mais um” domingo. Aquele que passa Faustão, futebol e você fica aprisionado ao “nada pra fazer”. Nada mesmo, além do básico: comer, respirar, dormir. Contudo, um simples dia pode virar uma página para ler e grifar todas as linhas da sua vida. E ele virou. Mas vamos ao que interessa. 18:00, horário de Brasília. Depois de horas de “que saco”, a hora pela qual você esperou por todas as outras horas do dia. Um momento que poderia valer muito para uma pessoa que você nunca conheceu, mas que possui um fascínio por ser quem é. Vive a quilômetros e quilômetros de distância, mas foi uma admiração repentina que surgiu em você que não conseguiu mais abandonar.

Russell Westbrook. Quem? Ele mesmo, Russ para os mais íntimos. A pessoa pública. Digo “a” porque ele é um cara de características próprias, que apenas ele tem. Único. Uma vontade inigualável que faz ele conseguir o que quer. Uma vontade que inspira. E te inspirou o suficiente pra você querer que todo o bem que ele te fez naquelas noites de basquete fosse o bem que ele sentiria naquele 9 de abril. Uma recompensa do bem, que ele merecia. Gentileza gera gentileza.

Até agora não te expliquei quem é esse homem. Não expliquei porque ele é inexplicável. O que posso te falar é o que ele estava prestes a realizar. É algo que quero compartilhar com todas e todos. Russ estava a um passo de quebrar uma marca história de mais triplos-duplos em uma temporada da melhor liga de basquetebol desse planeta, a NBA. E o que isso vai mudar na sua vida? Depende do jeito que você lidar com a importância do que está acontecendo. A forma que eu lido é de que ele estava entrando não só do basquete, mas da humanidade. Exagero? Talvez. Mas exagerado do jeito que ele merece.

Era um jogo sem nenhuma pretenção além dessa. Ambos os times cumpriam os compromissos que estavam pré-datados. O que não era esperado era o inesperado, obviamente. Poderia ser um inesperado normal, como qualquer outro. Mas não foi. Os minutos passavam, os nervos pulsavam. Tudo indicava que aquele momento chegaria. Você estava mais ansioso do que aniversariante querendo ver os presentes. Entretanto, o presente estava na sua frente, sem você saber. Esperando para ser aberto. Aquele que chegaria de surpresa, o que você mais queria.

Segundos te distanciavam do seu desejo. E, ao seu ver, ainda era muito longe. Aquela narração do que seus olhos viam em outra língua te fazia narrar o momento na sua cabeça. O seu momento. O momento dele. A empolgação era tanta que você nem percebe que o grande momento chegara: o histórico triple-double. O 42. A glória de Russell. Aos poucos você percebia o que presenciava, se aconchegando aos poucos naquele instante. Ainda haviam resquícios daquele domingo chato e entediante. Nada melhor do que exterminá-los da melhor forma: com uma pitada à mais de história. Lá ia ele melhorar o seu domingo. O nosso domingo. Com aquela alucinante vontade e garra, aos poucos ele mostrava sua diferença dos demais. Diferenças pontuais que o tornavam o melhor jogador da atualidade. Provas? Sente-se aqui e assista. A história sendo feita.

Westbrook quebrava marcas num ritmo de “treino”. Até porque cada jogo o treinava para ser melhor no seguinte. E, quase sempre, os resultados apareciam. Sozinho, carregou as cores que vestia atrás do próximo objetivo: a vitória. Mesmo que a vitória pessoal ele já atingira, era aquela famosa hora de querer mais. Não sei se comentei, mas para ele querer é poder. Ele podia querer mais.

É batalhando que se consegue. Ele batalhou, lutou até o fim. Porém, o costume de ser épico o rondava ao ponto de ser natural. E foi. Russell Westbrook III, como consta na sua certidão de nascimento (sim, ele é humano), deixou sua assinatura nos segundos finais: o tiro do triunfo. Ou melhor, o arremesso da redenção. Algo inacreditável. Algo impressionante. Algo que poucos conseguirão descrever. Em inglês, “ele conseguiu”. Foram as únicas palavras daquele narrador por longos segundos de mais glória para ele. Um ser iluminado, que veio pra liderar e mostrar que sabe fazer isso. E como sabe. A vitória veio sem muito esforço, com a naturalidade de Russ. Certamente nem tudo que ele faz é natural, mas é natural o jeito que ele consegue. É divino.

O lance que citei no parágrafo anterior foi o lance que me motivou a escrever essas longas linhas. Não via mais jeito de retribuir aquele bem. Mostrar o que sinto é o que deveria fazer. Estou fazendo, e não me canso de escrever. Escrevo na mesma medida que te considero. Isso tudo aqui é pouco para o que você faz, cara. Eu queria servir pra amarrar seu tênis, servir pra ser um cara importante como você é. E é o seu exemplo que me mantém. Me mantém focado a ser quem à cada dia descubro que sou, do mesmo jeito que descobri à cada dia quem você é. Só tenho a agradecer. Obrigado.

Domingo terminou. De uma forma diferente, inesperada. Segunda amanheceu, vamos à luta. Na 1ª conversa com aquele amigo que passou o mesmo que você, o assunto não é diferente: “Você viu, cara?”. Nem perguntei do que estava falando, porque não havia outra coisa para falar. Era isso, era fácil de deduzir e lembrar que você assistiu aquilo do que seu amigo nem começou a falar. E a conversa continua. E você, do mesmo jeito que ele, Russell, fazia, trouxe de dentro. Trouxe o que você passou naqueles instantes. Jogou pra fora o que estava guardado. Em palavras, como faço agora: “Foi como ter viajado para um lugar inesquecível, e ter vivido uma experiência única na vida por breves momentos. Eu estava vendo, ao vivo. Eu me senti parte daquilo, daquele lugar, daquele momento. Saboreei uma droga que não poderei viciar porque é caríssima e rara. Porque cara, aquilo foi inexplicável. Uma sensação de alegria, com surpresa, com tudo. Algo que você nunca viveu antes e não poderá viver por longo tempo. Sim, eu viajei. Viajei pelo êxtase de presenciar algo que nunca sonhei, mas que é um sonho. Aprendi a esperar o inesperado. Eu vi, com os meus olhos, a história sendo feita”.

Ele te abraça. O seu amigo. O cara que você tirou as palavras da boca. Não só deles, e sim de todos que assistiram aquilo. Aquilo cara, aquilo foi incrível. Foi mágico. Foi Westbrook. Sentirei saudades, domingo. Foi bom ter vivido você. Mais uma vez, obrigado.

Tags : Fala Leitor


Fala, Leitor: John Stockton, um verdadeiro campeão
Comentários Comente

Fábio Balassiano

John Stockton completou 55 anos no dia 26 de março e este blogueiro solicitou a um torcedor muito especial do Utah Jazz que escrevesse sobre um dos maiores ídolos da história da franquia e um dos melhores armadores do basquete. Vamos lá!

* Por Daniel Henrique Alves

Conheci John Stockton virtualmente. Ele no Super Nintendo e eu em casa. Ele fazia uma dupla genial com Karl Malone (jogador totalmente subavaliado, considerado apenas o maior Ala Pivô da história do basquete mundial. Bom, depois voltaremos para a grande mídia). Stockton dominava o NBA Jam de tal maneira que às vezes eu deixava o controle cair e quando pegava de novo ele já tinha enterrado! Para quem ainda acha que ele não enterrava, a foto abaixo não deixa espaço para fake news. Ele não enterrava no jogo de verdade porque não precisava. Veja, apenas em 1996-1997 foram 64 vitórias sem precisar de estardalhaço.

Conforme fui crescendo, pesquisei mais sobre Stockton e descobri suas vitórias, recordes, liderança, estilo de jogo, dominação, seriedade, inteligência em quadra, poder de decisão, amor a camisa e dedicação. Ou seja, essa história de que Jordan, Magic e Bird foram melhores do que ele serve só para manter o monopólio das grandes empresas (Bulls, Lakers e Celtics) sobre a cultura.

Nunca ninguém vai bater o recorde de 15 mil assistências do Stockton ou suas cinco temporadas seguidas com mais de 13,5 assistências por jogo. Ele assistia porque queria ver os outros jogando. Se fosse para ganhar sempre ele faria tudo sozinho – mas aí não seria aceito pela coerção moral da época. Steve Kerr uma vez disse que Stockton era sujo. Quer maior desculpa de perdedor que essa?

John Stockton chegou nas finais da NBA (sem precisar enterrar) em duas temporadas seguidas. Em ambas o establishment roubou descaradamente a favor das multinacionais. Em 1998, por exemplo, Jordan fez falta antes de acertar a última bola, os juízes comeram erradamente nada menos que cinco pontos do Utah Jazz por causa de cronômetro e, claro, marcação por zona era direito exclusivo de Phil Jackson. Ele podia fazer à vontade – e só ele. Stockton, revoltado mas evitando criar uma guerra, preferiu não lutar contra a moda, os juízes, grandes interesses corporativos e contra a grande mídia. Assim, Jordan hoje acha que conquistou títulos…

As forças do mal não eram estranhas para Stockton. Em 1988, ele engoliu Magic Johnson em pleno The Forum durante os playoffs com 23 pontos, 24 assistências (recorde até hoje) e cinco roubos no jogo cinco. Chick Hearn, famosíssimo narrador dos Lakers, até disse que nunca tinha visto um jogador tocar tantas vezes na bola. Em 1992, nas Olimpíadas, Stockton foi bonzinho e deixou Magic ser titular para poder se despedir da seleção americana da maneira que ele queria – aplaudido pelos puxa-sacos.

Outro boyzinho do Dream Team era Charles Barkley, que até hoje guarda seu posto na grande mídia que ele tanto ajudou sempre dando manchetes. Barkley certa vez disse que John Stockton foi o melhor tomador de decisões da história, sabendo exatamente a jogada perfeita para cada situação. Pois bem, Barkley sentiu isso na pele.

Após estar perdendo por 13 pontos no último quarto, jogo seis em Houston de uma final de conferência, Stockton fez 11 dos últimos 14 pontos do JAZZ na partida incluindo a bola de três, na cara de Barkley, no estouro do cronômetro e levou seu time para onde nunca ninguém havia levado, as finais da NBA.

Sem precisar enterrar, John Stockton foi um verdadeiro campeão.


Fala, Leitor: O clássico da última rodada do NBB entre Flamengo e Brasília
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Gabriela Castro e Abigail Ibernon (textos e fotos)

O clássico dos campeões: Brasília venceu o Flamengo por 77-71 em Manaus pela última rodada do NBB. Foi uma eletrizante partida, com bom aproveitamento ofensivo de ambos os lados, que contou com alta performance dos jogadores e com desfalques pelo lado do Brasília que encarou o Flamengo sem Alemão e Fúlvio, peças importantes da rotação do time.

O resultado do confronto não influenciou a tabela de classificação do G-4, com o Flamengo sendo o primeiro e Brasília o quarto, mas deu o combustível necessário para a equipe brasiliense chegar mais confiante aos playoffs após vencer o líder do campeonato duas vezes nesta edição.

O cestinha da partida, Lucas Mariano com 20pts, destacou, em entrevista após a partida, a importância de ganhar um jogo contra o Flamengo visando o possível confronto de quartas-de-final nos playoffs. Bruno Savignani, técnico do Brasília, demonstrou orgulho do time e ressaltou a eficiência do banco, principalmente diante dos desfalques que o time enfrentou e a ausência de Fúlvio, que sentiu tornozelo contra o Macaé.

José Neto, técnico rubro negro, garantiu que o time não saiu de cabeça baixa com a derrota e decidiu poupar os titulares nos últimos segundos para dar oportunidade para o banco jogar: “Brigamos pelo placar até os minutos finais, saímos com espírito de vitória e com tempo necessário para trabalharmos a próxima fase”.

Após sentir uma dor no tornozelo, ainda no primeiro quarto da partida, Marcelinho ficou fora o restante do jogo: “Foi uma dor incômoda mas que não afetará os playoffs. Por via das dúvidas resolvemos não forçar. Estamos focados e almejando o título”.

Flamengo e Brasília, já garantidos nos playoffs, aguardam o resultado das oitava de final para saber quem serão seus adversários na próxima fase do campeonato.


Boston Celtics e o elenco mais homogêneo da NBA, por Helder Souza
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Helder Souza

O último confronto entre Celtics e Cavs, que ocorreu no primeiro dia de março, foi em ritmo de playoff. Pegado, truncado, corrido, com qualidade técnica e vontade de sobra dos dois lados da quadra. Os grandes nomes dos dois times chamaram a responsabilidade e, quem teve a oportunidade de assistir, viu um grande jogo.

Assisti ao jogo com os olhos voltados para os Cavs. Motivado pelo ultimo texto do Bala sobre a ótima atuação recente no mercado, que culminou na chegada Deron Williams e Andrew Bogut , queria ver como seria a adaptação e a moldagem desse elenco que, quando tiver os retornos de Kevin Love e JR Smith, terá na rotação Kyrie Irving, JR Smith, LeBron James, Kevin Love e Tristan Thompson no time titular e Deron Williams, Iman Shumpert, Kyle Korver, Richard Jefferson, Channyng Frye, Derrick Williams e Andrew Bogut na reserva. No papel, o elenco mais forte da NBA e com totais condições de defender o título.

Enfim, no jogo em questão vi Kyrie Irving fechar com 28 pontos, abusando das infiltrações que só ele é capaz de fazer, e cuidando bem da bola, terminando o jogo com apenas 2 desperdícios de bola. LeBron dispensa comentários, terminando com triplo-duplo. Do banco, Derrick Williams veio bem mais uma vez, sendo consistente, e deu pra ter uma boa noção do que Deron Williams poderá acrescentar neste time.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção na partida foi ver o Celtics jogar. A força do time de Boston é um negócio quase inexplicável. Um grupo formado por jogadores – em sua grande parte – desprezados no Draft ou subavaliados na liga. Um time que hoje goza da terceira melhor campanha do Leste, que vem crescendo e fortalecendo a cada dia e que, em minha humilde opinião, tem chances reais de chegar às finais.

Apesar de saber que é impossível creditar esse bom momento dos Celtics a um único fator, se tivesse que apontar uma razão em especial diria que esse time é o que é hoje porque tem o elenco mais equilibrado e bem ajustado da NBA. Pois bem, ao invés de gastar longos parágrafos tentando explicar minha teoria – e correr o sério risco de não conseguir explanar bem o assunto – vou usar os números do confronto contra os Cavs.

No jogo, além de Isaiah Thomas, cestinha do jogo com 31 pontos e 5 assistências, Jae Crowder teve 17 pontos e 10 rebotes, Avery Bradley (voltando de lesão) contribuiu com 11 pontos, Marcus Smart com 9 pontos e 8 assistências, Al Horford ficou a um ponto do triplo-duplo, Kelly Olynyk teve 10 pontos e o calouro Jaylen Brown fechou com 8 pontos e 7 rebotes.

Isso é o Boston Celtics. Um time coeso, harmonioso, coerente e equilibrado. Um grupo de jogadores rápidos, atléticos e de bom vigor físico, que se destacam pela qualidade defensiva (exceto o Isaiah) e pela consistência no ataque e no jogo de transição. Um time sem superestrelas, quem tem no trabalho em equipe a sua principal arma, com folego para jogar 48 minutos no mesmo ritmo e sem perder em intensidade mesmo quando a segunda linha – liderada por Marcus Smart, agora que Avery Bradley voltou – entra em quadra.

O único ponto negativo que posso destacar é que, quando se tem um time tão coeso e homogêneo, em alguns momentos decisivos pode-se sentir a falta de um jogador que decida partidas a seu favor. Depender exclusivamente do Isaiah Thomas em situações-chave não é recomendável, e a história mostra que, a menos que seu franchise player seja Michael Jordan, é importante ter pelo menos mais um jogador que faça a balança pesar a seu favor (exemplo mais recente na ultima final, onde a bola decisiva não saiu das mãos do LeBron e sim do Irving).

Outro detalhe interessante, a título de informação, é o fato de que todos os jogadores citados no parágrafo acima, apenas Al Horford tem idade superior a 30 anos. Ou seja, esse time tem tudo para manter-se junto por um bom tempo e, se continuar acertando no draft como acertou com Jaylen Brown essa temporada, talvez esse time se torne o novo Golden State (sem Kevin Durant) no futuro.
Fiquem com os olhos abertos nos Celtics, porque esse time vai longe.

Tags : Fala Leitor


Fala, Leitor: O ressurgimento do Utah Jazz – time é realidade ou empolgação?
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Alexandre Setani

Uma das “novidades” desta temporada entre os times que devem garantir uma vaga nos playoffs da conferência Oeste é o Utah Jazz. “Novidade” porque a franquia de Salt Lake City não disputou a pós-temporada nos últimos 4 anos (última participação foi na temporada 2011-12). Para os fãs da franquia, esse “jejum” não é normal, já que os Jazz possuem um histórico de 20 participações consecutivas (terceira maior sequência da história), em grande parte pelo trio Stockton, Malone e Jerry Sloan (técnico Hall da Fama) durante as décadas de 80 e 90.

É por isso que os torcedores (como eu) sentiram aquela alegria ao verem que o Jazz estava cotado por diversos analistas como figura certa para a pós-temporada da conferência Oeste, que é considerada por muitos a mais forte da NBA.

A pausa do All-Star Game que ocorre neste final de semana (17, 18 e 19 de fevereiro) é quando os times se aproximam dos 60 jogos e atingem a reta final para definição das posições para os playoffs. Quando olhamos a classificação vemos que o Utah Jazz encontra-se na 5ª posição com 34 vitórias e 22 derrotas (60,7% de aproveitamento) e deve brigar junto com Clippers, Grizzlies e Thunders pela 4ª posição (e mando de quadra). Ou seja, a pós-temporada é uma realidade para o Jazz.

Mas com oscilações do time (em especial nos últimos jogos com 3 derrotas seguidas), fica a dúvida: o Jazz definitivamente possui condições de se manter como uma das forças do lado Oeste ou se essa temporada é apenas pura empolgação? Assim, listo 3 principais motivos para acreditar no ressurgimento da franquia e 3 motivos para ficar preocupado com o futuro do time.

Eu Acredito #1: Elenco principal jovem

A direção do Jazz apostou em um trio jovem como base para o futuro da franquia e começa a colher os frutos dessa aposta agora. Liderados por Gordon Hayward (26 anos), que disputará seu primeiro All-Star Game, o trio é completado pelos Big Man Derrick Favors (25 anos) e Rudy Gobert (24 anos), o último cotado para melhor defensor da liga. Esse trio ainda tem pelo menos 2 anos para atingir seu potencial máximo e provar que a aposta da direção foi certa. Outras promessas do time são Rodney Hood (24 anos), Alec Burks (25 anos) e o armador Dante Exum (21 anos).

Preocupação #1: Lesões

Todo o time pode sofrer com a lesão de um ou outro jogador, mas essa temporada o Jazz é o sexto time que mais teve jogadores ausentes por lesão com um total de 7 jogadores lesionados que acumulados perderam 110 partidas (média de 14 partidas por jogador). Para um time considerado jovem, lesões são um pesadelo, pois travam o desenvolvimento do jogador e do time, deixando aquele medo se a recuperação será completa ou vai impactar muito a performance como vimos no caso de Derrick Rose. Esta temporada só entre os titulares George Hill (25 jogos lesionado), Rodney Hood (15) e Derrick Favors (14) perderam somados 54 jogos. Resta torcer para a recuperação dos atletas e confiar na equipe técnica para distribuir bem os minutos e fortalecer o físico do time como um todo.

Eu Acredito #2: Técnico Quin Snyder

Quin Snyder chegou com uma certa desconfiança no Jazz na temporada 2014-15, mas mostrou que seus anos como assistente do messias Mike Krzyzewski (lendário técnico de Duke e da seleção americana) foram ótimos para ele conseguir trabalhar com o desenvolvimento de jovens talentos. Os Jazz melhoraram nas últimas duas temporadas além de se manterem entre as melhores defesas da liga, mesmo com um elenco jovem. Em entrevistas, fica claro como ele se preocupa com a personalidade de cada jogador, assumindo para si grande carga da responsabilidade pelas derrotas, o que alivia o clima do elenco. Por diversas vezes ele defendeu arremessos errados ou ruins de jogadores em momentos cruciais da partida, evitando expor os jogadores jovens, especialmente Gordon Hayward e Rodney Hood. Em 2016 a direção do Jazz estendeu o contrato do técnico, demonstrando confiança no trabalho realizado.

Preocupação #2: Capacidade de lidar com a pressão e expectativa

Todo o potencial do time gera uma enorme expectativa dos fãs para que o Jazz retorne para as finais da NBA. E o primeiro passo disso é chegar aos playoffs. Por ser jovem e pelo jejum de pós-temporada, poucos jogadores do elenco possuem essa experiência da fase mata-mata. Esse foi um dos motivos para que a direção trouxesse 3 veteranos com vivência de playoffs para o time: George Hill (vindo dos Pacers), Joe Johnson (dos Nets) e Boris Diaw (dos Spurs). Mas essa dificuldade de lidar com a pressão e expectativa pode ser vista em alguns jogos chaves durante a temporada regular. Nos últimos anos o Jazz era um dos times que mais perdia partidas apertadas, em geral com desempenho ruim nos minutos finais das partidas. Exemplos recentes: contra times que disputam diretamente a 4ª posição do Oeste, os Jazz venceram 2 jogos e perderam 6 (25% de aproveitamento).

Eu Acredito #3: Time com identidade e personalidade

Se você assistir uma partida do Utah Jazz você vai notar que é o JAZZ jogando. Na contramão da maioria dos times da liga, o time de Salt Lake City, junto com os Grizzlies, mantém um estilo de basquete mais “tradicional”. Defesa forte, explorar ao máximo a força do pivô Rudy Gobert e do ala Derrick Favors no garrafão, trabalhar o cronômetro (cuidar da bola). Diferente da correria que se vê em times como Golden State Warriors, Houston Rockets e Cleveland Cavaliers, que possuem um fortíssimo jogo de transição, o Utah Jazz é um dos times que possui o menor índice de posse de bola (PACE) de toda liga, ou seja, o ritmo da partida é mais lento. Essa identidade é importante, pois gera consistência e facilita para que novas peças se encaixem em um sistema de jogo já definido. Pode ser um modelo arriscado, mas comparada com outras franquias que não sabem se correm ou andam com a bola (pensou nos Knicks?) é uma grande vantagem para o médio prazo apostar em um sistema já aceito pelo elenco de jogadores.

Preocupação #3: O armador ideal

A maior fragilidade do time nos últimos anos sem dúvida é a posição de armador. Em 2014-15 a aposta foi no novato Dante Exum e no jovem Trey Burke. Em 2015-2016 com Exum machucado a aposta foi no brasileiro Raul Neto e depois em Shelvin Mack. Agora o peso está quase todo no veterano George Hill, que definitivamente está um nível acima dos demais. O problema é que Hill completa 31 anos esse ano e as lesões acumuladas geram dúvidas da longevidade do armador para o futuro da franquia. E esse é um problema que a direção e comissão técnica terão que resolver. Apostam em Hill para mais uma ou duas temporadas? Contratam um outro armador de alto nível (que costuma ser caro) e possivelmente tendo que abrir de alguma peça do elenco, além de uma escolha em futuro Draft? A resposta não é simples, mas acredito que é possível insistirem em pelo menos mais um ano com Hill (segundo ano opcional). Mas nesse caso também não sabemos se George Hill aceitaria essa condição e poderia testar o mercado.

E você, fã dos Jazz? Acha que o time tem futuro promissor ou está com aquele frio na barriga para os próximos anos?


Fala, Leitor: O impacto do Oscar Schmidt na NBA de hoje
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Vinicius Bezerra da Silva

Como sabemos, um dos maiores jogadores da história do basquete mundial e talvez o maior jogador que passou pela seleção brasileira está sendo homenageado pela NBA essa semana. Oscar Schmidt recebeu ontem uma camisa com seu nome da equipe do Brooklyn Nets (antigo New Jersey Nets), que o selecionou no Draft em 1984 e no dia 17 jogará o Jogo das Celebridades do All-Star Game.

Resolvi, então, ao invés de fazer uma estatística do impacto dele naquela época (o que seria mais comum) tentar imaginar Oscar jogando no basquete de hoje. Ele seria aquele ala mortal, com seus chutes de três, mas acredito também que ele seria até mais jogador que foi, pois no basquete americano está a nata de treinadores, assistentes e até o seu jogo poderia evoluir mais.

Quando vejo comentários de pessoas que dizem que ele “não marcava ninguém”, e por isso não daria certo na liga, basta mostrar o que faz o James Harden no Houston. O Barba tem liberdade em marcar menos para ter mais energia para pontuar. Acredito que Oscar seria um jogador que fácil, fácil teria uma média 25-30 pontos por jogo, 5-6 rebotes e seria um All-Star da NBA.

Acompanhando a liga de hoje com tantos alas-pivôs (Anderson, Illyasova, Davis por exemplo) que arremessam de três com facilidade dá pra dizer que seria muito legal ver o nosso Mão Santa jogando principalmente pelo fato de nós brasileiros não termos um All-Star (Nenê foi o que mais chegou próximo).

Vendo o basquete atual, vejo que o Dirk Nowitzki é o jogador que mais se assemelha ao nosso brazuca na forma de atuar, com sua facilidade em pontuar, seus tiros de três precisos e até a sua evolução ao jogo na área pintada (que poderia ser trabalhada em nosso Mão Santa).

Por fim, digo que um cara que foi ídolo do Kobe Bryant não poderia ter sido pouca coisa. Se não conseguimos acompanhá-lo na NBA na década de 80, segue sendo gratificante ver as homenagens dos norte-americanos e o quanto ele é admirado.

Valeu mão santa #14 e ansioso pelo dia 17.


‘The process’: Sobre o New York Knicks e Kristaps Porzingis, por Helder Souza
Comentários Comente

Fábio Balassiano

*Por Helder Souza

porza2Falar de Kristaps Porzingis hoje é falar de uma unanimidade na NBA. O talentoso ala-pivô letão que joga pelo New York Knicks é alto, forte, habilidoso, sagaz e competente. Mesmo com pouca idade e experiência já é considerado um dos melhores jogadores de garrafão da atualidade e um dos melhores prospectos de futuro na liga.

Mas nem sempre foi assim. A curta história deste jogador na maior liga de basquete do mundo conta com episódios singulares – pra dizer o mínimo. O principal deles (e provavelmente o mais marcante) foi a recepção que ele teve em seu atual clube. As vaias recebidas por ele ao ser anunciado no draft em 2015 (4ª escolha geral) poderiam significar o prenuncio de uma curta estadia nem Nova York e na própria NBA.

porza4Mas não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, o garoto provou em quadra que tinha bola para jogar em alto nível e, mais do que isso, para tornar-se talvez ainda mais do que se esperava dele originalmente: um franchise player.

Na temporada de estreia deixou seu cartão de visitas com 14 pontos, 7 rebotes e 2 tocos de média (em 72 jogos) em um Knicks totalmente limitado tecnicamente e de atuações irregulares, com todo o talento do time distribuído entre Porzee e um aparentemente sempre desmotivado Carmelo Antony. Pouco importa a temporada conturbada do time, as 50 derrotas, a troca de treinador no meio da temporada ou a colocação final de 13º lugar no Leste (entre 15 times). Para o novato sensação o apupo transformou-se em aplauso e reconhecimento pela população nova-iorquina.

porza1Na atual temporada, cercado de jogadores cascudos e experientes que buscam nova ascendência na carreira, o segundanista segue em plena evolução. Agora com Anthony, Rose, Noah, Courtney Lee e Brandon Jennings, ele vem mantendo as médias de rebotes e tocos e subiu a média de pontos para quase 19 por partida. Mas, muito além do que simplesmente melhorar suas estatísticas, é cada vez mais visível em quadra o impacto que ele causa no time e forma como, aos poucos, a franquia parece caminhar para ter em Porzingis o seu principal nome.

O competente Phil Jackson, que foi no mínimo ousado na escolha de selecionar Porzingis, sabe que trata-se de um precioso prodígio e vem utilizando esta temporada para colocar de vez o time nas mãos talentosas dos ala-pivô. Não se enganem, o famoso termo ‘The process’ não é exclusividade na Philadelphia com Joel Embiid. Em Nova York, Jackson usa sua inteligência e seu senso estrategista para fazer de Porzingis ‘o cara’.

porza5Explico. Trazer para o Knicks um ex MVP e um ex melhor jogador de defesa da liga, alem de dois jogadores de reputação consolidada (Lee e Jennings), faz com que o jovem prospecto tenha maior vivencia de vestiário e aprenda em quadra com jogadores renomados e vencedores. O ato de jogar, ouvir, falar e cobrar os companheiros quando necessário.

Além disso, dá a ele ‘costas quentes’. Ou seja, a tranquilidade de tentar jogadas e arremessos sem ser muito visado ou cobrado por isso. Reparem que na mídia as noticias sobre o New York Knicks circulam sobre o desempenho do Carmelo, Rose ou Noah. Fala-se pouco sobre Porzingis e críticas sobre o seu desempenho são quase que inexistentes.

Exemplo máximo disso foi a derrota para os 76ers no inicio de janeiro. Vencendo por um ponto a poucos segundos do fim, o garoto letão tentou um arremesso de 3 da zona morta que virou um air ball, dando assim a possibilidade dos Sixers terem um último ataque. Na transição eles atravessaram a quadra e acertaram o arremesso final no estouro do cronômetro. Fim de jogo com Porzingis arremessando 3-10, com 7 pontos e 2 rebotes – muito abaixo das suas médias. Porém nada se viu na imprensa sobre o jogo ruim do ala-pivô. Ele tem liberdade em quadra e joga sem responsabilidade – no sentido positivo da coisa.

porza5As recentes notícias, que constam do oferecimento de Carmelo Antony para outras equipes, numa explícita vontade de trocar o ala, vem para confirmar que o futuro da franquia pertence a Porzingis. Ao que tudo indica o tempo de Carmelo como franchise player em Nova York está muito próximo do fim. O processo de transição vem sendo feito passo a passo.

Que Kristaps Porzingis é um grande jogador todos nós já sabemos e vemos dia após dia o que ele tem condições de fazer em quadra. Em pouco tempo ele será o rosto da franquia nova-iorquina. Parafraseando o próprio Porzingis, em artigo publicado no Players Tribune no inicio da temporada: “Mantenha-se simples, como você sempre é. Eu só estou jogando basquete. Eu sou jovem. Eu estou a divertir-me. Afinal, quem teria pensado que um garoto da Letônia estaria fazendo barulho em Nova York?”.


Fala, Leitor: A receita de um time de sucesso na NBA
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Gustavo Souza

russ7O jeito tradicional de montar times campeões na NBA, aquele que se baseia em ter uma estrela e cercá-la de bons jogadores parece que não é mais a forma de formar um time competitivo. As equipes que têm apenas uma estrela muitas vezes transformam esses jogadores em estrelas solitárias, muitas vezes tendo médias astronômicas pois precisam carregar o time nas costas para se manterem na briga por algo. Quando essas estrelas ficam fora por qualquer motivo o time fica visivelmente mais fraco times. Isso acontece com o Oklahoma City Thunder, Portland Trail Blazers e New Orlenas Pelicans.

lebron2Para ter uma noção do quanto a formação de super times influencia, nos últimos cinco anos apenas um time que foi campeão não era um super time (San Antonio Spurs, que ganhou do super time do Miami). Os outros quatro títulos foram para o Miami dos super amigos LeBron, Wade e Bosh duas vezes (seguidas), o Golden State na primeira final contra os Cavaliers depois de quarenta anos sem conquistar o título e o time de LeBron na reedição da última final. Reparem que tirando o Spurs são todos times com dois All-Stars. Times com estrelas solitárias ficaram pelo caminho, e um bom exemplo é o Pelicans que foi aos playoffs com Anthony Davis jogando sozinho praticamente e foi varrido pelos Warriors naquele ano. Outro ótimo exemplo disso é a primeira final entre Cleveland e Golden State. Em 2015 Lebron tentou levar o time nas costas pois seu time estava desfalcado de Kevin Love e Kyrie irving. O astro jogou quase sozinho enquanto o outro time tinha Curry e Thompson. Warriors venceu.

durant3Para formar um super time não basta só fazer um bom draft e contratar bons free agents mas também ter paciência com os jogadores. Ou seja não seguir o exemplo do Thunder, que se desfez de James Harden e posteriormente de Serge Ibaka. Kevin Durant vendo que estava cercado de jovens jogadores e que o time não iria muito para frente em relação aquela temporada foi reforçar um time que já era espetacular (Golden State 73-9 na temporada regular), fazendo o time se tornar uma máquina de jogar basquete.

rose2Nem todo super time é sinônimo de sucesso. Alguns merecem algumas aspas, como o “super time do Knicks” como foi chamado por Derrick Rose. Não basta apensa juntar estrelas mas sim saber como fazer elas funcionam juntas, o que não aconteceu de forma alguma em New York. Algo que é fundamental em qualquer time cheio de estrelas é o ambiente da equipe não só no vestiário mas principalmente fora dele. Quando cada jogador sabe o seu lugar e não existe uma batalha de egos (sempre lembramos de Kobe e Shaq), sem a discussão de quem é o dono do time, ou qualquer outra distração como números, salários ou quem tem o maior contrato de marketing, todos jogam pelo mesmo objetivo. Essa briga de egos, como já vimos várias vezes acabou com grandes times como o super time do Lakers que tinha Kobe, Howard, Nash e Gasol, destruído pela batalha dentro do vestiário entre Kobe e Howard. Foi infelizmente um time que prometeu muito e entregou pouco.

A maneira de montar times na NBA mudou muito nos últimos anos. Não dá pra entregar o time não mão de só um grande jogador e cercá-lo de jogadores produtivos. O próprio passado recente nos diz isso. Ter uma segunda estrela se tornou parte importante para o time ter sucesso.


Nikola Jokic e o Poder dos Fundamentos, por Gabriel Andrade
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Gabriel Andrade

teodocic3A pedido do Fábio Balassiano, venho voltar a blogar rapidamente em espaço alheio sobre um nome que é certamente um dos principais da história da atual temporada. Para quem me acompanhava no TimeOut Brasil, deve saber que tenho um carinho especial por jogadores dos balcãs. O sufixo “ic” tem mais do que um fonema incomum para a língua portuguesa. Ele carrega uma história. Fora do badalado mundo gigantesco do basquete estadunidense e todo sistema que o cerca, são poucos os países que possuem volume de população, cultura e um sistema integrado e forte o suficiente para bater de frente como uma potência do nível da americana. Ainda que o basquete seja razoavelmente popular na China, Filipinas, Brasil e alguns outros países de população considerável, este esporte é realmente algo levado mais a sério em países menores, de economias não tão fortes e com menos diversidade física para compor uma modalidade que exige altura. Neste sentido, a região adriática faz um belo trabalho histórico, sempre como grande centro de talentos basqueteiros fora do continente americano ao lado de alguns países que formavam a antiga União Soviética, com destaque para Lituânia, Letônia, Geórgia e Rússia.

teodocic5Como é típico dos países ex-iugoslavos, grandes jogadores europeus carregam o poderoso “ic” no final de seus sobrenomes. Grandes exemplos históricos são Drazen Petrovic, Peja Stojakovic, Kresimir Cosic, Drazen Delipagic, Mirza Delibasic e assim por diante. Como forte destes jogadores, a parte técnica e de inteligência tática sempre foram o chamariz. Longe do nível atlético dos grandes craques da NBA, é na mecânica, posicionamento, leitura de jogo e desenvolvimento técnico que tornaram essa gama de talentos craques geracionais e importantes para a história do basquete atual. E mesmo que o basquete caminhe ainda mais para corpos velozes, atléticos e de muito alcance vertical, ainda existem talentos terrestres, calmos e que não saltam nem para pular amarelinha, mas que ainda conseguem ser relevantes. Se Milos Teodosic era o grande expoente deste estilo balcânico nos últimos anos, ele acabaram ganhando um nome forte, só que dessa vez já desembarcado em solo americano. Nikola Jokic, o tema deste texto, é um talento especial, que na espreita foi o terceiro melhor calouro na temporada 2016-2017 e já desponta como um dos principais pivôs da liga em seu segundo ano de NBA.

jokic3Lento, pouco atlético e com arremesso suspeito, Jokic não era considerado um grande prospecto. Nos clássicos torneios de base da FIBA, quando a Sérvia foi vice-campeã mundial da categoria Sub-19 em 2013, o pivô conseguiu tímidas médias de 7.5 pontos, 5.0 rebotes e 1.5 assistências, chutando meros 41.2% nos lances livres. Era reserva da dupla Nikola Jankovic (ala-pivô com jogo totalmente baseado no poste baixo, atualmente no Union Olimpia, da Eslovênia) e Nikola Milutinov (draftado na primeira rodada do draft de 2015 pelo San Antonio Spurs). O destaque do torneio pela sua seleção havia sido o armador Vasilije Micic, atualmente no basquetebol turco e escolhido pelo Philadelphia 76ers no Draft de 2014 na segunda rodada. Jokic foi se consolidando aos poucos no cenário dos prospectos pela sua capacidade de passe, QI de Basquete, altura e envergadura. Era comparado a Nikola Vucevic em alguns sites especializados em jovens talentos, como o NBADraft.net, mas menos atléticos que o gigante montenegrino do Orlando Magic. Sem muita badalação, foi escolhido na posição 41 no Draft de 2014 pelo Denver Nuggets. O clube do Colorado não o levou de cara, deixando que jogasse mais um ano pelo Mega Vizura (atual Mega Leks) para ganhar minutos e ajudar em seu desenvolvimento, já que a equipe já contaria com outro pivô novato, o bósnio Jusuf Nurkic, além de mais uma bagatela de grandalhões que estavam no elenco.

jokic2Aí que cabe ressaltar, o Mega Leks é um clube que pertence ao super-agente Misko Raztanovic, talvez o nome que mais agencie jogadores por toda a Europa, um caça prospectos. Esta equipe serve intencionalmente para que jovens talentos joguem, façam números, aumentem suas cotações e, claro, se desenvolvam em um ambiente que possam errar sem que o resultado seja importante. Além de Jokic, o clube revelou para o último draft o ala francês Timothe Luwawu e o sérvio Rade Zagorac. Nesta temporada, o alemão Kostja Mushidi, o francês Alpha Kaba e o esloveno Vlatko Cancar devem ser prontamente escolhidos caso desejem se lançar já por agora. Na temporada em que o pivô do Nuggets atuou como stash (quando joga no exterior tendo sido draftado pela NBA), foi muito produtivo, conquistando 15.4 pontos, 9.3 rebotes, 3.5 assistências, 1.5 roubos de bola e 0.9 toco de médias por jogo na Liga Adriática, competição que reúne os principais clubes da região dos Bálcãs. O desempenho lhe deu o título de MVP aos 19 anos de idade e certamente chamou a atenção dos executivos de Denver, que correram para trazê-lo para a NBA.

jokic4Dentro do elenco do Nuggets encontrou a concorrência de JJ Hickson, Jusuf Nurkic, Keneth Faried, Joffrey Lauvergne e Darrell Arthur. O elenco da franquia era bastante inchado no garrafão e com espaço reduzido para um novato. O sérvio só foi começar a ganhar mais de 20 minutos por jogo quando Nurkic e Hickson se lesionaram, obrigando a equipe a usar o elo mais jovem de sua rotação. Para a surpresa de quem não acompanhou a carreira do garoto, entrou sempre muito bem, com destaque para seus passes, precisos e achando espaços dignos de armador. Mas a versatilidade não parava por aí. Depois do Mundial de 2013, o pivô trabalhou muito bem em seu arremesso até virar uma arma confiável, letal da meia distância e razoável na linha de três pontos. O jogo de costas para a cesta é elogiável, com ótimo trabalho de pés e “gravidade” exercida por sua visão de quadra. A finesse de seus ganchos e bandejas são de encher os olhos de Hakeem Olajuwon. A bola sai com rotação fácil e consegue se sobrepor a sua inabilidade de jogar por cima do aro, como Whitesides e DeAndres da vida. Sua produção foi chamando a atenção e como o Nuggets não tinha muitas pretensões mesmo, testou e deixou brincar o novo prospecto da equipe. No mês de abril, saiu com médias de 11.6 pontos, 10.8 rebotes e 4.0 assistências, o bastante para consolidá-lo como principal calouro de uma temporada ótima para jovens talentos, atrás apenas de Kristaps Porzingis e Karl-Anthony Town, mas acima de Devin Booker e Myles Turner. O seu impacto para a equipe foi escandaloso. Com ele em quadra, a equipe melhorava seu saldo de cestas por 100 posses de bola em 11.7 pontos. Todos os jogadores da Nuggets melhoravam seu saldo com Jokic em quadra, que foi o único da equipe com saldo positivo e ficou entre os 10 melhores em TODA A NBA no impacto dentro/fora de quadra. Nem o badalado Emanuel Mudiay parecia mais o futuro da franquia.

jokic20Durante suas férias Nikola Jokic continuou sua saga como MVP do Pré-Olímpico que assegurou a vaga da Sérvia para as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 e foi parte importante da seleção vice-campeã olímpica que caiu apenas para os Estados Unidos na final em solo carioca. Mesmo sendo reserva do lenhador Miroslav Raduljica, Nikola saiu com bons 9.1 pontos, 6.0 rebotes e 2.4 assistências por jogo, fazendo seu melhor jogo contra o Team USA pela fase de grupos (25 pontos, 6 rebotes e 11-15 nos arremessos).

jokic100Para a temporada 2016-2017, o Nuggets queria botar em ação a dupla apelidada de Jurkic (Jokic + Nurkic) em quadra. Os dois adriáticos eram considerados os principais talentos de garrafão da equipe e resolveram testar a formação para comprovar se os resultados valiam a pena. A pré-temporada deu bons sinais, sobretudo em relação a Nurkic. A equipe parecia uma máquina de rebotes e ambos jogaram razoavelmente bem. Porém veio a temporada regular e os resultados foram desanimando. Na NBA de trocas de marcação e agilidade, jogar com dois grandalhões lentos assim acabou deixando o ataque estático, previsíveis e a defesa vulnerável aos ataques espaçados e velozes da atual liga. Jokic virou um Strecht Four puro (ala-pivô que joga aberto), alienado a bolas de três que não são sua especialidade, e Nurkic começou a monopolizar o ataque em sua tentativa de usar a força para cavar faltas. O começou do sérvio foi tão desestimulante que logo foi perdendo espaço e afundando no banco. No mês de novembro fez medianos 8.6 pontos, 6.0 rebotes e 2.4 assistências por jogo, jogando a maior parte do tempo como reserva, com o experimento Jurkic já terminado. A dupla não poderia atuar junta e os técnicos acabaram escolhendo a proteção de aro do bósnio.

jokic5Contudo, o Nuggets começou a coletar resultados estranhos. O banco ocupado com Wilson Chandler, Jamal Murray, Jameer Nelson e Nikola Jokic foi coletando resultados bem melhores que os titulares. O combo Keneth Faried, Jusuf Nurkic e Emanuel Mudiay foi um desastre de espaçamento de quadra e a defesa continuava ruim. Estava claro que não daria para a formação inicial continuar em quadra. Com o retorno de Gary Harris e cada vez melhores atuações de Jokic sobre Nurkic, a equipe mudou seu quinteto, usando como base Mudiay, Harris, Gallinari e Jokic, alternando com Will Barton, Chandler, Faried e Arthur na vaga remanescente. Mudiay, que vinha sendo uma máquina de desperdícios de bola, passou a atuar menos tempo armando o jogo. Melhor passador da equipe, foi Jokic quem assumiu a armação da equipe da cabeça do garrafão, às vezes até puxando a bola da defesa ao ataque. A ordem agora é assim que Jokic receber a bola após um pick-and-pop ou post up, que o time se mexa e corte bastante sem a bola. O resultado foi bom logo de cara. Jokic efetivado como titular subiu bastante a eficiência ofensiva da equipe. O pivô tem a impressionante eficiência ofensiva de 128 pontos por 100 posses de bola. No mês de dezembro, o pivô conquistou médias de 17.0 pontos, 8.8 rebotes e 4.9 assistências, que saltaram para 23.4 pontos, 10.7 rebotes e 4.3 assistências em janeiro, virando cada vez mais o foco central do time incluindo como principal pontuador. E mesmo sendo cada vez mais agressivo, subiu sua eficiência mês a mês. Confira o gráfico de arremessos dele em relação à média da liga.

JokicAlém do ótimo desempenho individual, o Nuggets só vem crescendo junto, tanto que está com a atual oitava colocação da Conferência Oeste, aproveitando as seguidas bobeiras do Portland Trail Blazers. Fora que seu estilo de jogo único rende vários dos vídeos que mais rodam pela internet basqueteira atual, tornando-o um dos atletas mais divertidos de se assistir da liga. Sua eficiência e raro estilo de jogo rendem números únicos, como o único pivô da história a combinar taxa de assistências e de rebotes acima dos 23%. Também é o pivô mais eficiente no post up dentre os que possuem 10% do seu jogo baseado nesta jogada e atuaram por pelo menos 20 jogos, conquistando 1.07 pontos por posse de bola neste tipo de lance (no geral, considerando todas as posições, atrás apenas Aaron Afflalo e Rudy Gay).

jokiccCom seu estilo de jogo sem pulo, mas muito refinado e consciente das ações que toma, Jokic achou seu espaço na NBA e só tem a crescer mais e mais com o tempo. Até onde ele pode levar o Nuggets? Seria o nome ideal para comandar essa franquia? São coisas que só o tempo dirá.

Mas o caminho, com certeza, será cheio de passes sem olhar, carisma e um basquetebol ofensivo e eficiente. Agradecemos ao basquete adriático por nos dar a oportunidade de ver um talento deste nível, porque o basquetebol ainda é um esporte de fundamentos.


Fala, Leitor: A evolução dos alas-pivôs, por Heber Costa
Comentários Comente

Fábio Balassiano

* Por Heber Costa

barkleyNão faz muito tempo que o jogador da posição 4 (chamado PF, power forward, o ala de força ou ala-pivô) era geralmente um reboteiro de primeira, de muita força na hora de finalizar no aro e um chute confiável de média distância. Tanto é verdade que uma lista dos melhores PFs quase sempre inclui Tim Duncan, Charles Barkley (foto), Karl Malone, Kevin Garnett, Kevin McHale entre os 10 primeiros. Mas nessa lista também entraria Dirk Nowitzki, o cara que consolidou o papel do PF fora do garrafão e expandiu para além da linha dos 3 pontos. Antes dele, era algo raro. Mesmo bons chutadores, como Detlef Schrempf, arriscavam menos de uma vez por jogo. Eram outros tempos.

green20Hoje, porém, entre os PFs mais valiosos de hoje são nomes como Ryan Anderson, Draymond Green (foto), Kevin Love, Channing Frye e Kristaps Porzingis. Jogadores bem diferentes, mas uma coisa que todos têm em comum: chutam uma barbaridade de 3 pontos. Essa função de jogar aberto e matar bolas de três que ganhou o apelido de strech-4 (4 aberto). É uma tendência hoje crescente na NBA: todo mundo quer um desses caras para usar como PF aberto.

porza2Mas o que levou a essa nova função do PF? O jogo mudou, e as funções também. A meu ver, três fatores parecem ter contribuído bastante para isso: primeiro, o surgimento de táticas que prezam pelo espaçamento da quadra; segundo, o declínio do chute de média distância; terceiro, a tendência atual da NBA para as bolas de 3 pontos. As três coisas estão interligadas e por si só dariam textos grandes, mas podemos falar um pouco de cada.

Ao menos dois times podem ter influenciado a liga em termos de espaçamento e gerado a nova versão dos PFs: o Phoenix Suns de Mike D’Antoni (2004 a 2008), que usava uma tática de ritmo alucinante — apelidada de pace-and-space (velocidade e espaçamento), de longe a maior influência no jogo da NBA hoje em dia. Muito se fala da velocidade, mas poucos falam do espaçamento desse time — e da artilharia de 3 pontos. Por quatro temporadas, os Suns lideraram a NBA em 3 pontos, chegando a ter 40% de aproveitamento. O esquema deixava espaço para o PF matar bolas de longe. O outro time, menos badalado, é o Orlando Magic de 2007-2009: seus dois alas-pivôs principais, Rashard Lewis e Hedo Turkoglu (que jogava muito na posição 3, mas tinha a altura de Lewis), não tinham muita força nem pegavam rebotes, mas chutavam uma grandeza de 3 pontos. Treinado por Stan Van Gundy (hoje no Detroit), foi talvez um dos primeiros times a usar ostensivamente a tática de um pivô no centro (Dwight Howard) e quatro jogadores abertos para destroçar os oponentes com tiros de longe.

derozanO segundo ponto é um fato: o chute médio está em declínio — provavelmente consequência dos outros dois fatores. Apesar de ainda haver uns poucos especialistas de média distância, como DeMar DeRozan e LaMarcus Aldridge, a opinião dominante hoje é que esse arremesso é ineficiente. A lógica é simples: chutar de média distância é arriscado (marcadores chegam a tempo, exige habilidade, etc.) e a recompensa são só 2 pontos. Assim, é melhor uma jogada na cesta (bandeja/enterrada), que tem mais chance de sucesso. Jogadores bons da linha de lance livre usam penetração para tentar a cesta ou falta, assim garantem dois pontos fáceis e às vezes um pontinho a mais com um arremesso de bonificação. A outra alternativa é arriscar mais para ganhar mais: chutando da linha de 3 pontos, basta um aproveitamento razoável (35-40%) para compensar a margem de erro. Alguns defendem que a má fama é exagerada, mas o fato é que a moda de evitar o chute de média distância pegou. Em 2006, o arremesso médio (de 3 metros da cesta até a linha dos 3 pontos) representava 17% do total de chutes na liga. Em 2016-17, são pouco mais de 12%. Alguns times, como o Houston, só chutam 5% dos arremessos de média distância. Em outras palavras, hoje a maioria das chances é dentro do garrafão ou fora do arco. Isso forçou os PFs a se adaptarem.

imagem1Mais recentemente, os times se deram conta da vantagem do chute de 3 pontos: além de oferecer melhor custo-benefício, abre a marcação para facilitar infiltrações. Resultado: nunca se chutou tantas bolas de longe como hoje. Quando o Basketball Reference (veja o gráfico) começou a registrar a posição de cada arremesso, em 2000-01 em média só 17% de todos os arremessos vinham da zona dos 3 pontos. Em 2006-07, dez anos atrás, já eram 21% dos arremessos. Hoje, representam mais de 31% do total de chutes. Certamente é um dos fatores que forçou a evolução do PF. Além de decidir partidas, o fascínio que causa um belo chute de três numa hora decisiva conquistou definitivamente o público.

dirk1Depois de Nowitzki, esporadicamente surgiram PFs com bom chute de longe, como Matt Bonner, Steve Novak, Charlie Villanueva, Andrea Bargnani, Troy Murphy. Mas é certo que nunca houve tantos PFs desse tipo quanto há hoje: Marvin Williams, Nicola Mirotic, Paul Millsap, Mirza Teletovic, Ersan Ilyasova… praticamente um em cada time. Sem falar que PFs tradicionais, como Chris Bosh, Luis Scola, Thaddeus Young ou Serge Ibaka, passaram a chutar mais de 3 nos anos recentes. A tendência é tão forte que até os pivozões veteranos começaram a arriscar de longe, como é o caso de Marc Gasol, Brook Lopez, Marreese Speights e Al Horford. Alguns dos mais novos, como Anthony Davis, DeMarcus Cousins, Kevin Olynyk, Joel Embiid e Karl Anthony-Towns já chegam com um chute razoável no arsenal.

Essa nova função do PF, especialmente numa tática de pace-and-space, combina muito bem com o chamado small ball (uso de uma formação com jogadores mais ágeis e baixos), em que o PF muitas vezes vai para a posição 5 fazer o papel de pivô. Mas isso já é tópico para outro texto.

Tags : Fala Leitor