Bala na Cesta

Categoria : Entrevista

Coordenador do Fluminense explica convite pro NBB6 e afirma: ‘Não fizemos nada ilegal’
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Fábio Balassiano

No dia 26 de maio de 2002, o Fluminense fazia seu último jogo na elite do basquete brasileiro. Apesar dos 43 pontos de Marcelinho Machado (hoje ídolo do rival Flamengo), o tricolor perderia para o Vasco da Gama por 101-86 e seria eliminado por 3-2 nas quartas-de-final do Nacional daquele ano. Onze anos depois, Marcelo Bunte, o Tchelo (foto), assistente-técnico de Pingo naquele time (Alberto, Espiga, Keith Nelson, Magu, Gil, Marcelinho, Bernardo etc.), teve a missão de recolocar o clube no NBB6 como Coordenador do Basquete do Fluminense. Na volta de São Paulo, onde na semana passada o tricolor das Laranjeiras teve aceito o direito de pleitear a vaga na competição da próxima temporada, o carioca se emocionou com a notícia, chegou às lágrimas, recebeu ligações de muitos amigos e viu que o trabalho estava apenas começando. No clube há 18 anos, Tchelo, de 37 anos, conversou com o blog a respeito da celeuma envolvendo os convites, a formação do time e muito mais. O papo, completo, sem cortes, você lê abaixo.

BALA NA CESTA: Antes de falar sobre o convite em si, e vamos chegar lá, queria que você falasse sobre como começou essa história de o Fluminense voltar a pensar em basquete adulto.
TCHELO: Isso já vem de muito tempo, e houve uma série de encontros entre a Garra (empresa de Marketing responsável por toda a parte de gestão do basquete profissional do clube) e o Fluminense. Houve conversas, interesses, mas sempre, no Flu e na empresa, tivemos muito cuidado em não onerarmos a agremiação em nada e principalmente em termos muito cuidado com a marca, que sabemos ser fortíssima. Fluminense e Garra Marketing assinaram um contrato de quatro anos e meio de gestão, e começamos a trabalhar no começo de 2013 com quatro etapas muito claras: Copa Brasil Sudeste, Super Copa Brasil, Quadrangular de Acesso ao NBB (que depois virou Triangular) e NBB. Recorremos ao mercado para montar o time, cumprimos muito bem as três primeiras etapas e depois nos apresentamos ao Conselho de Administração do NBB para concluir a quarta. O que posso te dizer é que tivemos resultados muito bons, muito acima do esperado, em termos de ativação de marca, mídias sociais, envolvimento com imprensa, torcedores, tudo foi muito bom e acho que fundamental para nossa possibilidade de pleitear a vaga no NBB6.

BNC: Ainda antes de entrar na questão do convite em si, uma pergunta: como foi feita essa apresentação para a Liga Nacional na semana passada? Foi você quem fez a apresentação?
TCHELO: Fui eu, sim, que representei o clube. Na verdade você não participa da votação, porque ela é feita pelos membros do Conselho da Liga. Fui lá, apresentei o nosso projeto e aguardei o resultado.. Tínhamos uma apresentação-base do projeto, sobre patrocinadores, mídia, exposição, tudo, mas na semana passada sabíamos que tínhamos que fazer algo mais institucional sobre projeto e clube. Além disso, acrescentamos pontos administrativos, estruturais e técnicos também. Deu tudo certo, e voltei de São Paulo muito, muito feliz. Fui de carro, e no caminho até a minha casa foram inúmeras ligações, torpedos, tudo. Foi um dia muito emocionante, posso te dizer. Foi a realização de um sonho que estava conosco há alguns anos já.

BNC: A última antes do convite, prometo: na entrevista que fiz com o Sérgio, gerente da Liga Nacional, ele me disse que o Fluminense tem dois patrocinadores engatilhados – uma Universidade e uma empresa de embalagens. Quando serão fechados os contratos de patrocínio? Além disso, Grajaú e Tijuca serão as casas do Fluminense no NBB6?
TCHELO: Temos contato não só com estas duas empresas que você cita, e cujos nomes me reservo ao direito de não revelar agora, mas também com algumas outras. Há a intenção, o primeiro contato com todas elas, e acredito que no máximo em 15 dias estará tudo fechado, tudo acertado. Nossa estratégia é não falarmos em nomes, nem de jogador, nem de técnico e nem de apoiadores, até que tudo esteja fechado. Assim que tiver, a imprensa ficará sabendo sem problema algum. Em duas semanas acredito que tudo estará pronto, finalizado. Temos a intenção de mandar nossos jogos em Grajaú ou Hebraica, na verdade. Não podemos descartar o Tijuca, claro, que é uma casa conhecida, e deixamos o Maracanãzinho de sobreaviso porque caso precisemos de uma casa maior mandaremos as nossas partidas lá. É algo que também está sendo estudado neste momento.

BNC: Vamos lá a questão polêmica dos convites. A entrevista estava muito tranquila, né. Vamos lá. Por que o clube, que tentou entrar na quadra mas não conseguiu, não voltou a tentar entrar via basquete, via quadra? Por que tentar um convite e não via Segunda Divisão para entrar da forma esportiva em 2014?
TCHELO: Na verdade precisamos voltar um pouco para entender essa história toda. O Fluminense tenta entrar no NBB há muito, muito tempo. Já há um interesse de nossa parte há mais de dois anos, creio que desde 2010 já estamos conversando internamente sobre isso para te ser sincero. Não é algo novo, portanto. Vimos que Tijuca, Liga Sorocabana, Palmeiras e Mogi entraram via Super Copa Brasil, e sabíamos que deveríamos entrar assim também. Isso é um fato, e foi assim que começamos a nossa trajetória. Como te falei antes, tínhamos quatro etapas, e fomos até a terceira na quadra. O que acho que chamou a atenção foi não só a nossa solidez esportiva, com um time bem bacana para a Super Copa Brasil, mas todo o envolvimento que conseguimos trazer em tão pouco tempo para o basquete do clube, do Rio de Janeiro e até mesmo nacional. Enchemos o ginásio do Tijuca duas vezes no triangular de acesso, e isso é muito importante ser dito. A torcida abraçou a causa também, entendeu o momento fundamental de crescimento que passa o clube e também a modalidade. Aí acho que casaram duas coisas. O interesse da Liga e a gente querer entrar. Eles nos ligaram depois do triangular e pediram para que apresentássemos o projeto lá. Quero deixar claro, aqui, que isso não está fora do estatuto nem do esporte e nem da Liga Nacional. Entramos de forma legítima, legal, tal qual entrou outro clube que fiz parte do projeto, o Basquete Cearense, cujo sucesso você pode ver na edição do NBB que terminou agora. Olha o sucesso que aconteceu no Nordeste, a população enchendo ginásio, criança querendo escolinha pra jogar, olha o legado que será deixado para o esporte e para a população. Pode ter certeza que não somos um projeto de acaso, somos um projeto de longo prazo e cujo legado será visto. Em dois, três anos tudo o que plantamos será colhido, temos certeza disso. Nossa intenção é acertar, é fazer direito, é ir bem e ajudar o basquete.

BNC: Você não respondeu. Por que não tentar de novo via segunda divisão/Super Copa Brasil? Por que aceitar o convite?
TCHELO: A gente sempre quis ser convidado. Sempre quisemos jogar o NBB. E depois do triangular a Liga Nacional nos solicitou uma apresentação clara e objetiva sobre nossos interesses em entrar no NBB. Nunca emitimos nada contra isso. Sempre dissemos que queríamos entrar, então não houve surpresa. E para ser bem sincero, e sem desmerecer ninguém, veja o barulho que foi causado pela simples entrada do Fluminense na Super Copa Brasil, em termos de divulgação e público, e compare com outros times, como por exemplo o Palmeiras, que já estão no NBB. Mais uma vez: ninguém comprou vaga. Fomos convidados a apresentar um projeto, apresentamos e agora precisamos comprovar toda a nossa força.

BNC: Cara, desculpe insistir, eu vou ser chato aqui. Por que aceitar um convite e não jogar de novo para ter sucesso? Desculpe a insistência, mas você sabe que o Fluminense já tem um histórico chato disso de subir de uma segunda divisão para a primeira fora de campo, e isso acaba sempre voltando quando um caso como este do NBB aparece. Desculpe insistir, mas preciso de uma resposta mais clara.
TCHELO: Tudo bem, sem problemas. Acho que há algumas razões bem simples também. A primeira é que ainda não existe, de fato e concreta, a segunda divisão. A gente não tem como pagar por algo que ainda não existe, por algo que ainda não saiu do papel. Formar opinião é algo muito complicado, Fábio. Estão dizendo que a gente virou a mesa. Por favor, não fizemos nada disso. Jogamos uma competição da CBB por três meses, e fomos convidados pela Liga Nacional. São duas instituições diferentes. Não deu pela via esportiva, nossa primeira tentativa. Deu pela outra, também legal, também legítima, também bem clara para todo mundo. Não condeno quem não entende assim, mas normalmente estas opiniões são coisas de futebol. E aqui não tem nada a ver com futebol, que isso fique claro. Vincular futebol ao basquete, isso não tem nada a ver. Apenas aceleramos o processo. O basquete brasileiro carece de uma segunda divisão, isso é um fato. Mas ela ainda não existe. É necessária, mas ainda não existe. Se existisse, talvez nem houvesse o convite.

BNC: Há uma questão importante também, que muita gente tem colocado. Este é um projeto do clube Fluminense ou de uma empresa de marketing esportivo (Garra Marketing)?
TCHELO: Este é um projeto do Fluminense, do clube Fluminense. Sou funcionário do clube há 18 anos e represento o clube. O que há é uma co-gestão, uma gestão dupla. O Fluminense entra com toda a parte técnica. A Garra, com a parte administrativa, de marketing, de imprensa, redes sociais, essas coisas. O mais importante é o seguinte: projeto de longo prazo e sem onerar o clube em absolutamente nada. Sempre tivemos essa preocupação, e temos feito assim desde o começo. Não queremos criar passivo algum, nada. Estamos entrando com muita responsabilidade, pé no chão e não podemos criar expectativas exacerbadas em relação ao nosso desempenho no primeiro ano, certamente o mais difícil de todo o projeto. É tudo novidade, é tudo inédito, e precisamos caminhar com muita tranquilidade em relação a isso.

BNC: Sobre o time em si, como ficará a montagem? O técnico não será o Márcio Bronquinha, certo?
TCHELO: O Márcio seguirá trabalhando conosco, mas em outra função. Estamos procurando um técnico, e posso te adiantar que temos dois nomes em pauta – um brasileiro e um argentino. Mais que isso não posso falar. Sei que queremos um perfil de construtor, de alguém que chegue com a gente e nos ajude a construir um caminho bacana no basquete. Alguém que entenda, também, que no primeiro ano haverá problemas, obstáculos a superar. Queremos alguém que dirija bem o time, mas que também se envolva com ele de uma forma maior. Sobre o time, manteremos o Facundo Sucatzky (foto à direita), o Mafra, o Matão, o Perez e o argentino Juan Torres. Há conversas com outros jogadores, alguns de fora do país inclusive, e em breve teremos novidades. Repatriar nomes faz parte do nosso projeto, e isso já está em andamento.


Gerente-Executivo da Liga Nacional abre o jogo sobre entrada de Fluminense e Goiânia no NBB
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Fábio Balassiano

O assunto da semana no basquete nacional foi a inclusão, via convite, de Fluminense e Goiânia na próxima edição do NBB. Todo mundo sabe disso, né. Fui conversar com Sergio Domenici, Gerente-Executivo da Liga Nacional de Basquete, sobre este e outros assunto. O papo, longo, feito ontem por telefone, está publicado integralmente abaixo.

BALA NA CESTA: Não há como fugir da primeira pergunta, né. É sobre a inclusão, via convite, de Fluminense e Goiânia para a próxima edição do NBB. Como foi este processo todo?
SERGIO DOMENICI: Antes de falar sobre o processo, é importante dizer que a Liga Nacional ainda busca, para o seu produto (NBB), uma identidade, uma consolidação. Tudo ainda é muito novo pra nós, e há esta dicotomia entre o modelo comercial (como é a NBA) ou o modelo técnico (futebol e liga espanhola de basquete, por exemplo) a ser seguido. Por isso há esta polêmica toda, mas é sempre importante lembrarmos que ainda estamos em formação.

BNC: Muito bem, mas você tocou no lado comercial (o que levou Goiânia e Flu pro NBB6), mas também no lado técnico (o que coloca Macaé, que entrou via Super Copa e depois triangular). A Liga Nacional não está muito no meio do caminho?
SD: Sim, está. Concordo com isso. Mas pode ser que talvez as entradas de Fluminense e Goiânia sejam o final deste processo de convites. O tempo e a maturidade do produto é que vão nos dizendo o que deve ser feito na Liga. O que tem que ficar claro é que temos erros e acertos, mas sempre com a melhor das intenções. Li que você escreveu sobre credibilidade e transparência da Liga, mas os compromissos são inabaláveis. Tinha a Super Copa, Macaé entrou. Tínhamos uma oportunidade que considerávamos boa, e isso está no regulamento, passou. A realidade do momento é que vai mostrar o melhor caminho. O que era certo há quatro anos pode se mostrar diferente hoje – ou o contrário. Hoje podemos falar que o basquete está em vias de ter quatro divisões – o NBB, a segunda divisão, a Super Copa e a Liga de Desenvolvimento. Isso não é bacana?

BNC: Mas a CBB não ficou muito animada com vocês, não. Soltou até nota oficial, você viu, né (leia mais aqui).
SD: Sim, eu vi. Iremos conversar com eles a respeito e em breve estará tudo acertado, tenho certeza disso.

BNC: Dois pontos mais sobre esta questão dos convites. O primeiro: por que Ribeirão Preto, que tem praça, produto, público e projeto bom não entrou no NBB? Eles tinham intenção, não?
SD: O projeto de Ribeirão Preto foi aceito, mas depois o Chaim não quis mais em um segundo momento. Foi isso.

BNC: Há um trecho do Estatuto do Torcedor que diz que nenhuma liga pode fazer convites, a saber: “O art.10 § 2o do estatuto diz: Fica vedada a adoção de qualquer outro critério, especialmente o convite, observado o disposto no art. 89 da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998”. A Liga Nacional se preocupou com isso quando efetuou convite para a última e esta temporada?
SD: O entendimento do Departamento Jurídico da LNB é no sentido de que o art. 10, §3º do Estatuto do Torcedor não se aplica ao NBB, uma vez que o NBB é uma competição que não tem “mais de uma divisão”, como dispõe o dispositivo legal que se pretenderia aplicar ao caso. A LNB é uma entidade ainda em formação. A criação de uma divisão de acesso que classifique os times automaticamente a partir de sua classificação em uma outra competição que fosse “a divisão de acesso” do NBB ainda é, neste momento, um projeto em desenvolvimento. Por agora, a LNB busca atingir um número ideal de equipes no NBB, alcançando abrangência nacional a partir da participação de equipes de diversas regiões do Brasil, de modo que os critérios de classificação de equipes para o NBB ainda se dá pela aceitação dos demais associados, a partir de critérios pré-estabelecidos, que levam em consideração critérios financeiros, estruturais e técnicos. A classificação na Copa do Brasil é um desses critérios, o técnico, mas não é o único. A Copa Brasil não é organizada pela LNB, mas sim pela CBB. E a própria CBBB emitiu Nota Oficial na data de ontem confirmando que a Copa Brasil não tem a natureza de divisão de acesso da LNB. Portando, o Conselho Administrativo da LNB, no pleno exercício de uma prerrogativa legal, por não ter “divisão de acesso”, levou em consideração critérios financeiros, estruturais e técnicos e o interesse em levar o torneio para diversas regiões do Brasil, como critério para aceitar a inclusão das novas equipes no NBB.

BNC: Sobre os dois projetos que passaram, uma dúvida: não estamos falando demais em apresentações? Fica um pouco confuso quando li no site depois que tudo ainda seria analisado. Não é muito estranho?
SD: Goiânia conta com o patrocínio de uma instituição de educação forte (o Universo), prefeitura e governo. O Fluminense, tem a intenção de outra Universidade e de uma empresa de embalagens também. Que fique claro: eles ainda não foram aprovados para jogar o NBB. Foram aprovados para pleitear a vaga. A confirmação deles dois, bem como a dos demais times, virá nos próximos dias. Veremos se tudo o que foi apresentado por eles terá comprovação para, aí sim, darmos o veredicto final sobre a entrada deles no NBB6 efetivamente

BNC: Mas se não for comprovado não é um mico muito grande para a Liga, não? Houve este barulho todo e pode ser que eles não passem…
SD: Não considero mico para a Liga. Recebemos o projeto, aprovamos pelo que vimos em uma apresentação. Depois olharemos na prática. Não tem como ser diferente.

BNC: A Liga pode ter até 21 times caso Vitória volte. Não é um número excessivo? Qual o número máximo?
SD: O nosso número ideal é de 20 times. Com a segunda divisão, que começará em fevereiro de 2014, teremos acesso e rebaixamento e iremos ver como faremos em relação a este número (talvez caiam três e subam dois, para chegarmos ao número ideal de 16 clubes). A partir do próximo ano, todo clube que pedir licença do NBB (algo previsto no regulamento da Liga) e quiser voltar cai diretamente para a segunda divisão.

BNC: Falando em segunda divisão e convites, o que você diria a um dirigente que está na dúvida entre montar um time e disputar na quadra ou organizar um Power Point para uma apresentação ao Conselho?
SD: É simples. A segunda divisão é um meio concreto de acesso ao NBB. O Macaé ganhou, entrou no NBB. Se vencer, ele sobe. Se jogar bem e ganhar, ele está dentro. O projeto é circunstancial, é avaliado e depende de uma série de fatores. É bem mais difícil, eu acredito.

BNC: Sobre os convites, ainda, uma pergunta final: a Liga procurará outras praças que interessem, como Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia etc. ?
SD: Que fique claro: a Liga não procura time ou cidade alguma. A Liga recebe projetos, propostas de trabalho – e já recusou algumas. Se vier de alguma praça ou agremiação que consideremos importante, vamos avaliar, sim.

BNC: Duas perguntas pra fechar. O NBB5 foi um campeonato que contou com três patrocinadores, dois a menos que o NBB4 (Netshoes e Eletrobrás saíram). Isso não preocupa a Liga Nacional? Qual o orçamento que tivemos para esta temporada, e quanto vocês estão esperando para a próxima?
SD: Tivemos aproximadamente R$ 4 milhões para tocar a temporada 2013/2013 do NBB. Estamos conversando com uma estatal, e podemos ter boas novidades nos próximos dias. Esperamos dobrar esta receita para o NBB6, a fim de avançarmos ainda mais nas frentes que precisamos. Esta foi uma das razões, aliás, de termos ficado animados com Goiânia e Fluminense. Os dois times não trazem dinheiro diretamente para o NBB, mas tornam o produto melhor, mais atraente, mais fácil de ser vendido para patrocinadores e público.

BNC: Quando você fala em investir, você fala em investir mais em marketing, essas coisas?
SD: A agência de marketing da Liga Nacional chama-se TV Globo. É com ela que contamos.

BNC: Por fim, como ficou a questão do jogo único na final? Vai mudar isso?
SD: Estamos estudando ainda, mas não deve mudar nesta próxima edição, não. Não tem nada decidido. Temos é que pensar em popularizar a modalidade, isso sim. É o mais importante, e o que queremos cada vez mais.


Diretor da ESPN, João Palomino exalta transmissão e torce por ‘boom’ com Splitter e LeBron na final da NBA
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Fábio Balassiano

A ESPN está investindo pesado nas finais da NBA. Levou equipe completa para cobrir a decisão entre San Antonio Spurs x Miami Heat (texanos vencem por 1-0) e neste domingo terão convidados especiais aqui do Brasil para fazer comentários. Amanhã e no jogo 4, Anderson Varejão. No jogo 3, Alex Garcia, que já jogou no Spurs, inclusive. Por isso conversei com João Palomino, diretor de jornalismo dos canais ESPN a respeito das finais da liga norte-americana e basquete em geral.

BALA NA CESTA: Desde o ano passado a ESPN tem enviado equipe completa para cobrir as finais da NBA, algo que já faz com regularidade no futebol europeu também. É uma tendência da emissora? Quais foram as motivações para isso?
JOÃO PALOMINO: Não só na NBA temos feito isso. Também no Superbowl da NFL enviamos equipe completa, no US OPEN aconteceu o mesmo e o resultado tem sido fantástico. Não apenas em termos de audiência, mas de emoção da transmissão, interação com  o fã de esportes e credibilidade. Estar no lugar é diferente, para quem faz e para quem assiste. Investimos alto pra provocar a percepção de que olhamos aquele evento de forma diferente, com respeito a quem nos acompanha e assiste.

BNC: Spurs x Miami era a final esperada por vocês para de vez alcançar a audiência desejada nos canais ESPN? Há um brasileiro e o melhor jogador da atualidade (LeBron James), além de dois times que contam com audiência imensa no Brasil.
PALOMINO: A NBA vale quase todo jogo, mas, claro, esta junção de um brasileiro na final, ainda mais um jogador com a história e a qualidade do Tiago Spliter e o maior jogador da atualidade trazem atrativos que precisam ser explorados. A audiência vai ser a consequência de todo trabalho de divulgação, e, acima de tudo, da qualidade da equipe que está lá. Vai ser muito bom.

BNC: Pessoalmente, como foi seu começo com a NBA? Imagino que via pela TV Bandeirantes. Tinha algum time em especial, algum jogador preferido ou momento que jamais esquecerá? Já pensou em narrar algum jogo?
PALOMINO: Narrei muitos, mas muitos jogos de NBA. Invadi a madrugada inúmeras vezes depois que passamos a ser responsáveis pelas transmissões também da ESPN (o serviço em português era feito nos Estados Unidos). Aprendi a gostar de NBA com as transmissões do Luciano do Vale. E, claro, para minha geração, Michael Jordan, Magic Johnson e Larry Bird eram as maiores estrelas. Qualquer jogo que os envolvesse, queria ver. Um momento? Toda vez que o Jordan pegava na bola.

BNC: Queria que você falasse sobre o narrador Everaldo Marques (foto à esquerda), titular do canal pra NBA e carismático até dizer chega – além de competente, bem informado e antenado. É alguém que, imagino, faça parte do perfil buscado pela ESPN há anos, não?
PALOMINO: A sua pergunta é a minha resposta. Perfil ideal para a ESPN. Muito bem informado, comprometido com muito além da transmissão. É um dos nossos orgulhos.

BNC: Apesar de exibir a NBA, a melhor liga de basquete do mundo, não há muito pouco espaço na grade de programação para o basquete? Não há um programa dedicado a isso, e tirando os grandes eventos não há a visão dos comentaristas, com exceção do “The Book is on the Tabble” e dos jogos.
PALOMINO: Nosso programa de notícias, o SportsCenter, nas suas quatro versões, sempre trata de NBA. Nas fases decisivas, um comentarista participa dos programas. No Bate-Bola, noticiamos sempre. E o “The Book” aprofunda as discussões. A interação durante as transmissões é enorme. Intensificamos nossa cobertura dedicando ainda mais tempo no ar para falar tudo sobre a final com o “The Book” como uma espécie de Abre o Jogo.

BNC: Ano passado a Rádio ESPN tentou transmitir as finais do NBB também, mas acabou não dando certo devido ao veto da Liga Nacional. Há o interesse em tentar novamente?
PALOMINO: Nossa missão é servir ao fã de esporte, não importa em que plataforma. Se não temos os direitos de transmissão para a TV, optamos pela rádio. Se não foi possível pela rádio, noticiamos no site. Não escondemos nenhum evento nunca. Mesmo que não tenhamos os direitos. Tentaremos sempre. Temos preocupação com o esporte. Se não permitem, noticiamos. O veto, neste caso específico, é prejudicial ao próprio esporte.

BNC: O basquete, para o Brasil, já é um negocio que se sustenta financeiramente, ou infelizmente ainda não se paga? Se não se paga, o que fazer para mudar?
PALOMINO: Se é em termos de basquete nacional, temos um bom exemplo com o novo Campeonato Nacional. Deu fôlego ao basquete. Mas qualquer esporte no país, exceção do futebol, precisa passar por uma fase grande e forte de expansão. Marketing, administração profissional, criação de novos ídolos, investimento de longo prazo, frequência e altíssima exposição. Hoje o melhor que pode acontecer ao basquete é uma exposição ainda maior que a que já tem.

BNC: Sei que você é um grande crítico do trabalho das Confederações esportivas, e queria saber o que você tem achado deste momento do basquete, que ao menos parece querer sair do buraco.
PALOMINO: Acompanhei todo o campeonato (NBB). Sou apaixonado por esporte, futebol e basquete em especial, e acho que o começo é esse mesmo. Há ajustes a serem feitos. Eu mesmo gostaria de ver uma série melhor de cinco ou sete jogos na final, e me parece que os próprios clubes andam preocupados com isso. É importante, como disse anteriormente, exposição ainda maior.


Novo técnico, Zanon abre o jogo sobre futuro da seleção feminina que começa a treinar hoje
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Fábio Balassiano

Na tarde de ontem, Luiz Augusto Zanon, de 49 anos (completa 50 em 17 de junho), uniu na apresentação da seleção feminina da qual é o novo treinador aquilo que mais ama: basquete e família. Ao lado de sua mãe (Magali) e esposa (Erica), o pai de Carolina, Caio e Camila inicia hoje os treinamentos com a equipe nacional visando os dois amistosos contra o Atlanta Dream e Washington Mystics (times da WNBA), o Sul-Americano (Argentina) e a Copa América (no México). Em conversa longa com o blog, o comandante falou sobre as expectativas do trabalho, da renovada equipe (média de 22,6 anos) que começa a suar a camisa hoje em Americana (cidade em que se sente em casa, afinal treina o time local, vice-campeão da LBF) e de como pretende recolocar o basquete feminino brasileiro nos primeiros lugares em competições de alto nível. Confira o papo com Zanon.

BALA NA CESTA: Antes de começar com a entrevista propriamente dita, queria que você falasse sobre o planejamento de treinos e jogos da seleção feminina visando Sul-Americano e Copa América.
ZANON: Bem, vamos lá. O time se apresentou nesta quarta-feira, e hoje (quinta-feira) começa a treinar. Vamos até o dia 11 e embarcamos para os Estados Unidos. No dia 13 enfrentaremos o Atlanta Dream, dois dias depois o Washington Mystics e no dia 16 faremos um amistoso contra o mesmo Washington. Voltamos ao Brasil, faço uma nova convocação, treinamos até o final de junho e no começo de julho viajamos para a China, onde faremos três torneios contra as anfitriãs e outras duas seleções.  Retornamos direto para a Argentina, onde jogaremos duas vezes contra elas antes do Sul-Americano lá mesmo na Argentina (23 a 27 de julho). Pra fechar a preparação para a Copa América (21 a 28 de setembro, no México), teremos um amistoso no Brasil contra Canadá, Argentina e Porto Rico. Serão mais de três meses com as meninas, e cerca de 25, 30 amistosos. Quero apenas esclarecer, desde já, que os amistosos e torneios já estavam marcados quando eu cheguei, não podendo, até por ser verba do Ministério do Esporte via Lei de Incentivo, mexer muito. Apenas adequei algumas situações que achei pertinente, e posso garantir que ano que vem, nas vésperas do Mundial da Turquia, já estamos trabalhando para atuar contra as seleções europeias.

BNC: Queria que você contasse como foi o contato do Vanderlei, novo diretor de seleções da Confederação, e qual a sua expectativa para comandar a seleção feminina de basquete.
ZANON: Olha, eu não esperava o convite, pra te ser sincero. O Vanderlei ligou primeiro para o Ricardo Molina (presidente do time de Americana) e depois marcou um encontro comigo aqui em Americana. Nos falamos, ele entendeu o que eu queria e acertamos tudo. Não demorou muito, não. Olha, cara, sonho, sonho mesmo eu tenho de fazer o meu melhor trabalho, de evoluir como técnico e pessoa e de fazer as atletas evoluírem também. A palavra-chave para mim vai ser essa: evolução. Se essa evolução nos fizer campeões mundiais ou olímpicos, ótimo. Se a evolução, a máxima possível, não permitir isso, paciência e ficarei feliz. O lance é: evoluirmos o máximo que pudermos no período em que estivermos juntos. O que me motiva, além dessa evolução, é a chance de dirigir a seleção em uma Olimpíada no Brasil. Poxa, quantos técnicos têm essa honra, essa oportunidade? Poucos. Caso consiga completar esse ciclo, será uma honra e tanto dirigir o Brasil diante do nosso torcedor e da minha família. Por isso tudo aceitei o cargo. Pela chance de evoluir como técnico e como pessoa e pela chance de permanecer perto da minha família aqui em Limeira (a cidade em que vive fica perto de Americana, onde treina o clube vice-campeão da LBF).

BNC: Perfeito. Agora falando sobre a seleção em si. Sua primeira convocação causou surpresa e alegria em quem pedia renovação, já que se trata de um grupo de 22,6 anos de média. É uma filosofia que você pretende seguir, ou foi apenas para testar as meninas no primeiro momento?
ZANON: Na minha cabeça eu preciso dar chance para as mais novas para saber o potencial delas. Isso é bem claro. Por isso, nesse primeiro momento eu quero colocar as meninas na quadra e conhecê-las melhor. Vai ser treino, treino e treino. É o que mais gosto de fazer, e assim elas vão melhorar. Parte técnica, tática, personalidade, tudo. Todas as que convoquei precisam de experiência internacional, rodagem, e só vamos conseguir isso dando espaço a elas. Algumas nem tinham passaporte pra viajar, você sabia? Pra te ser sincero, queria até convocar meninas da Sub-19, mas elas estão treinando com o time que irá ao Mundial e não foi possível no momento. Quis dar uma chacoalhada, uma animada, nas mais novas, conhecer de perto e depois vamos ver o que precisamos. Dividi o trabalho em etapas. Nesta primeira, é a chance das mais novas mostrarem serviço. Depois, pro Sul-Americano e Copa América, que preciso de resultado, vou trazer as mais experientes nas posições que mais precisarem. Nesse primeiro momento quero que essas meninas de 20, 21, 22 anos joguem contra as melhores, as lá da WNBA, e se entreguem em quadra. É a chance delas, e meu perfil é muito de fazer as jogadoras evoluírem, né. Mas posso te garantir: vai jogar quem estiver melhor, independente de idade. As mais experientes eu já sei o que podem me dar, o que fazem. As mais novas têm potencial e agora podem mostrar.

BNC: Três nomes me chamam a atenção nessa convocação. Patricia Ribeiro, que foi muito bem por São José, Joice Coelho, destaque da Sub-19 dois anos atrás e uma das revelações da LBF jogando por Guarulhos, e Ariani (foto à direita), armadora que estava jogando nos Estados Unidos.
ZANON: A Ariani já vinha olhando pra ela há algum tempo e recebi ótimas informações de dentro da CBB sobre seu jogo. Para a posição de armadora, será testada e ganhará chances. A Joice fez ótimas partidas em Guarulhos, e quero muito ver como se comporta em um jogo mais coletivo, mais de sistema, que é como gosto de jogar. A Patricia é a menina que mais joguei contra ela. Conheço suas qualidades e pontos de melhoria, e agora é ver como se encaixa na seleção. Além dessas, tem a Tatiane Pacheco, que foi muito bem na fase final por São José e que agora tem chance na seleção. São todas da mesma faixa de idade, e isso também foi proposital. Não podia testar meninas muito jovens com veteranas no meio. A química dessa meninada é importante demais também.

BNC: Sobre as mais experientes, você já chegou a conversar com a Adrianinha, que me disse, aí em Americana, estar a disposição pra voltar, com a Érika ou com a Iziane (foto à esquerda), cujo estoque de polêmicas é inesgotável?
ZANON: Olha, ainda não falei. Não falei porque ainda não é momento. Quando for, pode ter certeza que eu mesmo vou puxar o telefone e ligar uma a uma para explicar minha filosofia e o que estou pretendendo. Quem quiser vir pra se enquadrar e participar será muito bem-vinda. A única que conversei, mas informalmente, foi a Érika – e porque encontrei em um programa de televisão. Ela me disse só um “tamos juntos, Zanon” e nada mais. Vou falar com todas elas e sei que cada uma tem uma situação diferente. Sobre a Iziane, e isso quero deixar claro, comigo não existe nada do passado. Eu, como técnico da seleção, entro zerado, entro sem querer saber do histórico de nada, de absolutamente nada. E nem quero saber pra te ser sincero. Eu planejo o futuro e só, nada mais. Nunca houve nada comigo, certo? Então é sentar, conversar, alinhar expectativa e tocar o barco. Vou ligar pra ela e vou falar. Sou muito direto e você sabe disso. Não posso pré-julgar uma menina por conta de assuntos anteriores a minha gestão. Não tenho nada contra e nem a favor de nenhuma delas. A palavra-chave, Bala, é ‘produção’. Quem produzir, joga. Quem jogar bem vai estar no grupo. Isso é bem simples.

BNC: Pra fechar a parte de quadra, você foi o responsável por fazer Americana marcar como eu há muito tempo não via em solo nacional. É o que você espera na seleção também, não?
ZANON: Sim, e muito. Preciso estar sempre com defesa forte, e farei isso desde o começo. Pode ter certeza que mesmo nesses amistosos contra a WNBA eu vou marcar forte, pressionar a bola, fazer o diabo lá. Não sou maluco de marcar pressão a quadra toda, mas quero meu time marcando forte, abusado, sem medo de absolutamente nada. Vamos lá pra aprender, mas vamos jogar também. Vou usar sempre o que de melhor meu grupo tiver pra defender. Nesse primeiro momento, é a vitalidade, a força física, a juventude das meninas para rodá-las. Tudo isso aliado a um jogo coletivo muito forte no ataque. Para te citar um exemplo, meu time (Americana) ficou muito individualizado nas finais da LBF contra o Sport/Recife. Isso eu não gosto, não é assim que curto, não. Só vamos melhorar o nível da seleção se jogarmos coletivamente e de forma elaborada, escolhendo a melhor jogada, no ataque. Isso tudo com muito poder de decisão, coragem para escolher a melhor jogada. Posso fazer variações de pick’n’roll, qualquer coisa com as meninas, mas vamos precisar de paciência no ataque e muita disposição e entrega na defesa desde o primeiro dia de trabalho. É assim que sempre trabalhei em Limeira (masculino) e Americana (feminino) e não sei fazer diferente, não. O basquete, cada vez mais, caminha pra isso, né. Marcação apertadíssima e controle da posse de bola.

BNC: Por fim, uma pergunta: como você tem feito pra se atualizar, estudar e olhar os rivais que enfrentará no Mundial?
ZANON: Cara, eu vejo tudo. Tudo é tudo mesmo. Passa NBB, Euroliga masculina, Euroliga feminina, NBA, eu vejo tudo. Outro dia estava assistindo na internet a Euroliga Feminina. Leio muito também e acho que aprendo muito. Os últimos livros que li foram do Bernardinho e do John Wooden, dois caras que admiro demais. Falo muito com os técnicos, e peço para eles me avaliarem também. Já fiz isso com a Maria Helena Cardoso e com o Edvar Simões, por exemplo. Tem vezes que vejo jogo também e fico me imaginando como tomaria determinadas decisões em ocasiões como as que se apresentam nas partidas. Tem outra coisa que faço com constância e que me ajuda bastante: eu jogo muito xadrez sozinho. Isso é basquete, cara. Você faz um movimento e precisa imaginar como o adversário vai reagir. O basquete é xadrez, entende? O segredo é manter a cabeça no lugar, manter o controle emocional e tomar as decisões corretas nos momentos mais complicados. Minha grande paixão, no esporte e na vida, é crescer, é evoluir, é sempre melhorar.


Última campeã mundial em atividade, Alessandra conquista LBF e pensa em aposentadoria
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Fábio Balassiano

Única remanescente do time campeão mundial brasileiro há 19 anos, Alessandra Santos de Oliveira tem um currículo de fazer inveja a qualquer atleta. Campeã Mundial (1994), duas vezes medalhista olímpica (prata em Atlanta-96 e bronze Sydney-2000) e quarto lugar em Mundiais (1998 e 2006) e Olimpíadas (Atenas-2004), ela viveu uma experiência inédita no sábado: aos 39 anos, a pivô de 2,00m conquistou, depois de passar mais de uma década jogando na Europa, seu primeiro Nacional Feminino Adulto. Conversei com ela longamente depois que ela deu um abraço afetuoso em Cintia Tuiu, sua companheira de garrafão no Mundial da Austrália (na foto ao lado), sobre carreira, memórias, aposentadoria, cultura esportiva e muito mais. Foi um papo sincero com uma das melhores e mais reflexivas mentes do basquete brasileiro.

BALA NA CESTA: Campeã mundial, duas medalhas olímpicas, mais de dez anos na Europa e 39 anos. Está chegando a hora de parar, Alessandra?
ALESSANDRA: Se eu penso em parar? Todos os dias dos últimos dez anos eu penso em parar. Quando eu paro? (Silêncio) Eu estou em uma transição, né. Difícil falar, muito difícil. São mais de 20 anos vivendo a mesma coisa todo dia em uma rotina de treino, pressão, jogo, viagem, aeroporto. Não é fácil, não. (Silêncio) Tive amigas estrangeiras que me diziam há uns cinco, dez anos: “Alessandra, se prepara sua pra encerrar a carreira e pra você fazer algo depois de parar. É um momento delicado. Vai se preparando”. E aquilo ficou muito na minha cabeça. Vi meninas estrangeiras tendo depressão depois que pararam de jogar. Vi outras com problemas terríveis de cabeça. Dá aquele baque, sabe. É isso que estou tentando fazer. Voltei pro Brasil ano passado em São José, agora estou no Sport-PE, tenho proposta pra voltar a Europa. Não sei bem o que farei, mas tenho pensado nisso, sim.

BNC: Mas o que você tem em mente para quando parar de atuar? O que você pretende fazer pra ocupar a cabeça e não cair na armadilha que suas amigas te falaram lá atrás?
ALESSANDRA: Olha, nunca fiz teste vocacional, nada disso. As coisas vão acontecendo na minha vida, você sabe bem. Nunca pensei que fosse jogar basquete e aconteceu tudo isso que você já sabe. Era jogadora de vôlei, sabia disso? Eu faço muitos camps com escolhinhas de basquete pra criança, e isso é uma coisa que adoro. Quero trabalhar com criança de 8 a 12 anos de idadei. Essa é a minha paixão. Fazia isso com meu ex-marido na Suíça, não fui na temporada passada devido a compromissos mas pretendo retomar isso, que é algo que gosto muito. Tenho, também, e essa é uma “herança” do meu ex-marido, uma empresa de vistoria automotiva. Caí de paraquedas nessa e tive que aprender na marra. Comentar jogos, como fiz no Pan-Americano e na Olimpíada, é algo que curti também e que posso pensar em fazer. Adorei comentar nas Olimpíadas, foi bacana. Para quem não sabia nada, foi bem legal. Para quem não sabia porcaria nenhuma até que fui bem.

BNC: Peraí, Alessandra, você não quer que eu repita seu currículo aqui, quer?
ALESSANDRA: (Risos) Cara, tem dia que eu acordo e penso: ‘Eu não fiz nada da vida’. Você acredita nisso? Gostaria de ficar no basquete, mas eu não sei bem… Do jeito que estão as coisas aí no feminino eu não sei, não. E posso te dizer uma coisa? O masculino me surpreendeu. Estava aí, no poço, nas trevas, e conseguiu sair. Não estou falando apenas por causa dos jogadores, mas pelo conjunto de ações que houve. As vaidades caíram, as individualidades foram colocadas em segundo plano e os resultados estão aparecendo. São 18 times em um campeonato nacional, gente. Problemas, lógico que vão ter. Isso ninguém é doido de achar que não haverá. O feminino, por sua vez, não consegue se juntar, evoluir, nada. Menina pra jogar, tem, a gente sabe que tem. Times aí fecharam as portas, e essas meninas não conseguiram se recolocar. Ano passado estava em São José e tinham meninas que hoje não estão jogando basquete. Ou todo mundo senta, se junta e vê como podemos sair dessa para melhorar, e não falo disso em relação a dinheiro, não, mas em relação a ideias, sugestões e críticas, ou o futuro do basquete feminino não vai sair dessa. O problema é que hoje quando você fala é mal visto, mal interpretado. Tem que acabar com isso. Quer o maior exemplo de como a união faz a força? Aquele Mundial de 1994 quando eu era uma pivete. Paula e Hortência sentaram, se arrumaram e fomos campeãs. Números pouco importavam, vaidades caíram e fomos campeãs mundiais. Alguém acreditava naquilo? O que adianta você ser cestinha? Nada. Tem que ter projeto, planejamento, mas eu me sinto com mão amarrada. Te falo com sinceridade. Me sinto com a mão amarrada. Passei 20 anos fora do Brasil e não posso fazer nada.

BNC: Mas o basquete feminino hoje tem projeto?
ALESSANDRA: (Silêncio) Olha, projeto em si o que você quer dizer? De seleção e de clubes? De seleção eu nem entro nisso. Não faço mais parte desse mundo, tenho ideias bem contrárias do que vi por aí e essas ideias ferem muita gente.

BNC: Mas, então, eu acho importante você falar um pouco. Poucas pessoas têm duas medalhas olímpicas, título mundial, que nem você. Que eu me lembre, Janeth, Cintia, Adriana e a turma do Wlamir e Amaury.
ALESSANDRA: É mesmo? Caramba, nem tinha me atentado a isso. Estou nesse grupo seleto? Poxa vida! Caramba! Me machuca ver uma seleção brasileira como vi nos últimos anos. Posso falar uma coisa? Quando estive em Londres na Olimpíada, muita menina que jogou contra mim na Europa vinha me perguntar: “Alessandra, o que está acontecendo?”. E eu não sabia responder, sinceramente. Todo mundo dizia que o estilo do Brasil mudou muito, que não há mais uma identidade de jogo, nada. Espero que isso com o Zanon melhore, porque ele sabe impor um jogo diferente do que estamos fazendo aqui.

BNC: O jogo aqui está corrido demais, não?
ALESSANDRA: Ah, demais, demais. Esse estilo de corre, corre e corre eu até consigo, ainda aguento, mas não é o estilo de basquete que me agrada, não. Não tem um estilo de jogo, parece uma maratona. Pelo amor de D’s, nem fala. Esse negócio de ficar correndo de um lado pro outro não é legal, não. Ninguém pensa, são arremessos que não existem, não tem padrão. Não tem leitura, um enredo que você pode dar num jogo e, por incrível que pareça, ações rápidas que tenho visto nos jogos da Superliga de Vôlei mas pouquíssimo no basquete.

BNC: Como ficou aquele seu processo movido contra a CBB devido a lesão que você teve no Mundial de 2006? Você alegou que não tinha seguro. Como ficou o processo?
ALESSANDRA: Olha, está nessas esferas judiciais aí. Demora, né. Não é problema do dinheiro. É pela falta de educação mesmo. Educação, isso me mata.

BNC: Essa falta de educação e respeito que você cita te deixa triste?
ALESSANDRA: Olha, não só comigo, mas principalmente com a geração do Wlamir Marques. Por exemplo, olha que coisa engraçada. Outro dia fui a um médico em São Paulo e o endocrinologista era o Menon, que jogou muito basquete. Não sabia muito sobre ele, e minha consulta acabou virando uma aula de basquete, uma aula de história esportiva. São essas coisas que aqui no Brasil a população não sabe, não conhece direito. Se você chega em um ginásio e pergunta: “Quantas vezes o basquete brasileiro foi campeão do mundo?”. Ninguém sabe, cara. E não acho que isso aconteça só no basquete, não. No próprio futebol, tirando esses medalhões aí, Pelé, Romário, Ronaldo, Zico, tem muita gente que fez muita coisa e não tem o reconhecimento que merece. É do brasileiro, né. Infelizmente.


Após jogo 1 ruim por Americana na final da LBF, Karla afirma: ‘Não vou jogar assim 2 vezes’
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Fábio Balassiano

Karla Costa era a imagem de Americana depois do jogo 1 das finais da Liga de Basquete Feminino na semana passada. Após perder por 54-44 para o Sport-PE, a ala de 34 anos, quinta cestinha da competição com 14,1 pontos, estava sem entender o que havia se passado no Centro Cívico, onde minutos antes seu time vencia as pernambucanas até a metade do terceiro período e desandou completamente até perder o jogo. Ela errou seus oito arremessos de quadra, desperdiçou três bolas e terminou a partida com apenas um ponto, sua pior marca na competição. Com gelo no joelho e ainda tentando compreender o que havia acontecido, ela conversou comigo sobre o torneio, seleção, a situação do basquete brasileiro e ainda prometeu: ‘Não vou jogar assim duas vezes, não. Me conheço e sei que vou estar pronta para o jogo 2 no sábado lá em Recife. Pode anotar’. Confira o papo com a jogadora.

BALA NA CESTA: Já conseguiu entender o que aconteceu no jogo 1?
KARLA COSTA: Tem dia que parece noite, né. A gente não quer jogar mal, mas acontece. Tentei, mas não deu nada certo. Errei, tem que assumir. Mas eu me conheço, sei da minha capacidade, e dois jogos assim eu não vou fazer, não vou fazer mesmo. Pelo que eu treino todo dia é meio injustificável o que aconteceu no primeiro jogo. É bater no peito, porque sei que ficou faltando minha parte, mas acho que continua valendo pra gente, de Americana, que precisamos vencer dois jogos. Enquanto não nos matarem temos chances e vamos lutar pelo título da LBF até o fim.

BNC: O Zanon chegou a falar alguma coisa com você no final do jogo? Vi que ele te cumprimentou na última vez que você saiu…
KARLA: O Zanon me conhece, né. Ele sabe o quanto eu treino, o quanto me esforço. Sou a primeira a chegar, a última a ir embora, então realmente não foi por falta de treino ou vontade. Foi um dia ruim e acontece com tudo mundo. Ele sabe também que dois jogos assim eu não vou fazer. Ele mesmo disse: ‘Eu só posso pedir pra vocês fazerem. Não posso entrar na quadra e resolver’. A gente sabe que, sem tirar o mérito do Sport-PE, elas vieram pro jogo, mas quando você não bate acaba apanhando. Ficamos esperando, esperando e acabamos perdendo. Na hora que elas realmente bateram, deram o primeiro murro, a gente caiu e não teve reação. Estávamos sem vibração, que é uma coisa que eu acabo puxando muito. E aí fica complicado, buscando coisas que não são nossas. Ficamos esperando a torcida fazer cesta, o Zanon fazer cesta e isso obviamente não acontece. É um tipo de jogo que realmente contra uma equipe como o Sport, forte, não podemos ter cinco, dez minutos de apagão.

BNC: Falando especificamente do campeonato, conversei com a Érika, com a Adriainha e com a Alessandra, e nenhuma delas está satisfeita com os rumos que a LBF tomou nesta temporada. Queria ouvir sua opinião também.
KARLA: Na verdade o que falta um pouco mais pra gente é mídia mesmo. Na verdade, pra você ter uma ideia, essa temporada não veio ninguém aqui em Americana fazer aquelas reportagens especiais, que nos acompanham por todo o dia, pra essa final. Em momento algum veio, aliás. Aquelas coisas que na verdade colocam a gente um pouco mais em evidência. As pessoas não sabem quem somos nós, e o patrocinador não vai botar dinheiro em uma coisa que não aparece. Apesar de o nível técnico ter melhorado um pouco, a gente sabe que a quantidade de equipes (7) ainda é muito pequena. E tivemos Guarulhos, uma equipe que foi montada às pressas, apenas para participar, pra fazer número. Aí apanha de todo mundo, embora tenha tentado, mas não faz muito sentido isso. É complicado você querer esperar mais das pessoas, dos patrocinadores, nesse sentido. Acho que falta um pouco de respeito nesse sentido. E principalmente para quem viveu um pouco da fase gloriosa, como eu, que tenho 34, a Adrianinha, que é da mesma geração, a gente sente muito. Nós vivemos uma fase muito boa, né. A gente sabe o que era bom.

BNC: Legal, mas pra quem não viveu aquela época, conta como é que era. Você surgiu no time de Campinas, com a Paula e imagino que houvesse uma torcida, uma mídia imensa por trás.
KARLA: Cara, as pessoas que andavam na rua sabiam quem eram as jogadoras, isso era muito claro. Agora quando caminho e digo que sou jogadora de basquete eu chego a ouvir um “beleza, joga basquete, mas faz mais o quê?”. Como só jogo basquete? Eu faço isso o dia inteiro, me mato, é minha paixão, minha profissão. Acho que falta um pouco mais de valor, um pouco mais de respeito na modalidade feminina, que isso fique claro. No masculino, pelo que tenho visto, meu sonho é ver o feminino com tanto time jogando uma LBF, com um cuidado maior com as categorias de base e não tão longe assim em termos de distância entre um e outro. Se chegarmos próximos já está bom. Falta um pouco de gente que acredita um pouco na gente também. Eu tenho meninas da base aqui em Americana que não viram a Hortência e a Paula jogarem, e não têm muita noção do que elas fizeram pela modalidade. São ícones que essas meninas deveriam olhar e pensar: “Olha, que legal, quero chegar lá”. E elas não enxergam assim. Hoje vejo pais me perguntando: “Será que minha filha pode viver de basquete?”. E eu não sei responder. O Basquete Feminino hoje em dia, e eu falo por mim, não ganha um piso do masculino, tenho certeza disso. Absoluta que não. É mérito deles, e um demérito nosso. Eu culpo a mim também porque a gente é muito omissa, muito egoísta, tem medo de se expor, medo de falar a verdade, medo de lutar. É tudo tão pequeno que sei lá, viu. Já são sete times, se eu brigar com um, ficam seis. Com dois, cinco. Por aí vai.

BNC: Mas desculpe até perguntar isso, você não acha que com 34 anos, tendo vivido uma época de ouro e com uma capacidade de se expor bacana, com racionalidade, não deveria puxar um pouco mais essa discussão, um pouco mais os assuntos que são importantes para o basquete feminino voltar a evoluir?
KARLA: Então, eu tenho conversado bastante com a Adrianinha e com a Chuca para que nós possamos fazer alguma coisa por essas meninas que estão vindo aí. Acredito que com a chegada do Zanon as coisas vão melhorar na seleção, e me deu uma luz que preciso fazer algo. Eu com 34 anos guardei um dinheiro por ter jogado fora e consegui comprar meu apartamento aqui em Americana, mas se tivesse jogado aqui a vida toda eu não sei, não. É isso que precisamos ter em mente. Com certeza eu estou longe de, sendo uma jogadora de seleção, ter o status de um Alex, de um Giovannoni, de um Nezinho. Imagina, acho que o salario deles paga o nosso time todo. Eu estou mais pra parar do que pra continuar. E falo pras meninas mais jovens também buscarem as coisas por elas também. O basquete feminino também é muito egoísta, cada um brigando pelo seu. Chegou a hora de juntar, de todos brigarem juntos.

BNC: Você falou no Zanon, e ele agora será o técnico da seleção. Você tem 34 anos, mas está bem fisicamente. A Adrianinha já disse ali pra mim que volta se for convocada e quero saber de você se pensa em permanecer pro próximo ciclo olímpico.
KARLA: A Adrianinha é uma safada, né (risos). Fez aquele anúncio lá da aposentadoria em Londres pra ganhar bijuteria (Nota: Adrianinha recebeu um relógio da Confederação de presente) e agora diz que volta (risos). Mas falando sério agora, vamos lá. Eu me cuido muito. Não engordo, mantenho peso, corro todo dia de manhã antes de treinar em um dia e nado no outro. Treino todo dia e gosto de fazer o a mais todos os dias. Sou extremamente bitolada por isso, por fazer esse a mais. No dia em que eu não puder fazer isso, o além, o a mais, pode ter certeza que é a hora de eu parar. Uma coisa que eu comentava com o Virgil, o preparador físico, é que com dor eu não queria jogar. Dores normais, ok, mas eram dores muito insuportáveis. E hoje não tenho mais dores. É o a mais que me motiva, é o a mais que me deixa feliz pra estar em quadra. Por isso enquanto eu puder jogar, eu puder competir, vou querer jogar no alto rendimento. Se for até os 45 anos, vou jogar. Quando achar que não dá mais, eu paro. Então pra seleção, se eu aguentar, eu vou. Mas quero contribuir, não quero atrapalhar, não. E sou muito realista também. Nesse jogo 1 aí, minha vontade era de pedir pro Zanon pra me tirar, porque estava atrapalhando. Não dava nada certo, cara. Hoje em dia tenho maturidade, não quero que minha mãe me ligue dizendo que não tem problema. Tem problema, sim. Hoje (no sábado passado) foi uma bosta, então tenho que assumir isso. Quero somar. Da maneira que for.

BNC: Pra fechar, queria que você falasse sobre o que você espera com essa chegada do Zanon e do Vanderlei no departamento feminino.
KARLA: Olha, eu nunca vou deixar de acreditar que podemos melhorar. Quero sempre que o basquete melhore, que os ginásios voltem a ficar cheios. Eu vi os ginásios cheios. Na época da Paula e Hortência, eu ficava na arquibancada para vê-las treinar. Hoje falta um pouco disso, sabe. Meus domingos eram todos no Paineiras, no Taquaral, todo dia vivendo e treinando basquete. Naqueles tempos a gente não tinha Facebook, MSN, essas coisas. Mas não acho que seja só isso, porque os Estados Unidos têm essas redes sociais todas aí e continuam produzindo jogadoras o tempo todo. Hoje em dia aqui no Brasil é que se perdeu um pouco isso. A gente tem que resgatar essa paixão dentro das meninas. Mas com tudo melhorando a gente consegue resgatar. Tenho fé que consigamos voltar a ser como antes, com o basquete feminino forte.


Melhor jogadora do país, Érika quer título inédito com o Sport-PE e pede respeito à modalidade
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Fábio Balassiano

No dia 3 de agosto de 2003, a seleção brasileira feminina Sub-21 perdeu a decisão do Mundial para os Estados Unidos por 71-55. Naquele dia, a então jovem Érika Cristina de Souza errou seus seis arremessos, desperdiçou duas bolas e teve sua pior atuação em uma competição que impressionou a todos com 12,4 pontos, 7,8 rebotes, 2,8 roubos e 65,2%. Uma década se passou, algumas meninas daquele time já pararam de jogar, mas Érika evoluiu sem parar, jogou dez anos na Europa, foi campeã de tudo que disputou (WNBA, Euroliga, Nacional, Campeonato Espanhol, tudo) e segue com fome de vitória atuando pelo Sport/PE pelo qual pode ser campeã da Liga de Basquete Feminino no sábado contra Americana. Melhor jogadora do país, cestinha das últimas Olimpíadas (16,8 pontos) e jogadora brasileira mais respeitada no exterior, ela não doura a pílula ao falar da situação da modalidade e pede respeito com as atletas em entrevista realizada no último sábado.

BALA NA CESTA: Você recentemente disse que o que vocês, atletas do basquete feminino, estão passando no país é um absurdo. O campeonato começou atrasado, só com sete times e não teve nem returno. Chegou a um limite, não?
ÉRIKA DE SOUZA: Ah, cara, é uma vergonha o que acontece com a gente aqui. Todo mundo sabe que é um absurdo, uma falta de respeito com a gente e com os patrocinadores que investem no basquete. Tem empresa investindo muito dinheiro com jogadoras boas, mas infelizmente aqui no Brasil só se pensa no futebol e também agora no basquete masculino. Acho que em um time do Nordeste indo bem, indo longe, como é o nosso pode melhorar, evoluir, mas o campeonato precisa começar na data certa e não pode ser assim tão curto. Todo mundo tem que continuar trabalhando e unido e quem sabe podemos crescer um pouco mais o basquete feminino aqui no Brasil.

BNC: Como você recebeu a notícia da saída da Hortência da diretoria de seleções femininas? Sei que você era muito ligada a ela. Tiveram chance de se falar?
ÉRIKA: Olha, ainda não. Estamos em fase final de campeonato e não tive oportunidade. Só tenho cabeça pra pensar nas finais agora, e depois vou ter um mês pra pensar na minha vida de clube e seleção, e falar com ela.

BNC: Falando nisso, como vai ficar a questão do calendário? Sabemos que sempre pra você, que joga na WNBA, é um problema. Ano passado você saiu do time pra jogar a Copa América, e neste ano tem Sul-Americano e o Pré-Mundial com a seleção agora comandada pelo Zanon.
ÉRIKA: Comigo é sempre assim, né. Já estou acostumada a isso. Se não for complicado não sou eu. Tem que ter emoção, né (risos). Mas todo mundo sabe que eu abro mão do que for pra jogar pela seleção, isso é muito claro. Independente de estar na WNBA ou em outro lugar, quero sempre estar defendendo a seleção brasileira em qualquer competição. Podem contar comigo sempre.

BNC: E sobre o segundo jogo da final, muita expectativa? O que vocês precisam mudar pra não repetir os erros do primeiro tempo do jogo 1 das finais?
ÉRIKA: Ah, a Ilha (do Retiro) vai estar lotada como sempre, né. O Caldeirão vai ferver, hein! Estamos muito animadas de poder jogar em frente a eles e conquistar esse inédito título para o Nordeste. Só temos, aliás, que agradecer a eles pelo apoio durante toda a competição. A torcida é o máximo, estão sempre com a gente, ganhando ou perdendo. Vai ser difícil, sabemos disso. Americana está ferido, mas temos uma missão pra cumprir. Sobre o primeiro jogo, começamos muito nervosas. Não jogamos como equipe, estávamos um pouco apáticas até, mas o time do Sport é um grupo forte e depois nos juntamos pra jogar o melhor basquete que temos. A chave é essa. Jogar coletivamente.

BNC: Por fim, como está sendo morar em Recife? Você está morando no Brasil depois de uma década morando fora (Europa e Estados Unidos) e é do Rio de Janeiro. Como está sendo a experiência?
ÉRIKA: Ah, espetacular, cara. Tem um sol pra cada um lá em Recife, é um calor danado, mas estou gostando demais. O Roberto (Dornelas, técnico) trata a gente muito bem, que nem filhas, e o carinho da torcida é imenso onde quer que a gente esteja. Espero continuar lá em Recife, ajudar o Sport, ajudar o basquete brasileiro. Sabemos que a fase não é muito boa, a fase é de troca-troca o tempo todo no basquete, mas quero ajudar no que for possível ao Sport e à seleção.


Feliz no Sport, Adrianinha repensa aposentadoria da seleção: ‘Se for pra ajudar eu volto’
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Fábio Balassiano

No dia 5 de agosto de 2012 Adriana Moises Pinto registrou 15 pontos e 12 assistências contra a Grã-Bretanha antes de anunciar a sua aposentadoria da seleção. Naquela tarde nas Olimpíadas de Londres Adrianinha, bronze com o time nacional feminino em Sydney-2000 e quarto lugar em Atenas-2004, fechava um ciclo de mais de uma década e abria espaço para a nova geração dizendo-se cansada e um pouco frustrada com os dois últimos Jogos Olímpicos (penúltima em Pequim-2008 e nona em Londres-2012).

Mas o tempo passou, a armadora de 34 anos voltou a jogar no Brasil depois de mais de 10 anos (e ainda em altíssimo nível), o carinho do torcedor do Sport-PE, que venceu Americana no último sábado e agora pode conquistar o título da LBF no próximo fim de semana em casa, o deixou balançada e ela confirmou pela primeira vez que pode, sim, voltar a jogar pela seleção brasileira feminina adulta. Entre um pedido de casamento e outro da torcida de Americana (“é bom ouvir isso, né”) ela concedeu entrevista exclusiva ao Bala na Cesta.

BALA NA CESTA: Queria que você falasse um pouco deste primeiro jogo e da expectativa para o segundo duelo contra Americana que pode decidir o título no Recife.
ADRIANINHA: Foi bem difícil, como a gente já esperava, né. Elas têm uma defesa muito forte, e tiraram a gente do nosso melhor jogo no começo da partida. E pra vencer uma marcação como é a de Americana não dá pra individualizar muito, não. A gente conversou, ouviu o Roberto (técnico) e jogou coletivamente. Não tem mais essa de uma ou duas jogarem sozinhas para ganhar um jogo, isso é muito claro. Como equipe fomos muito bem na segunda etapa. Para o segundo jogo temos que repetir os 20 minutos finais, é isso que precisamos. Caso ganhemos será um fato inédito e será uma emoção muito grande. Quem sabe isso incentiva outros times de futebol a investirem no basquete, né. Está sendo muito bacana a experiência, só posso agradecer ao Sport-PE, que acreditou na gente desde o começo. O basquete feminino está muito carente de investimentos.

BNC: Você falou sobre essa “carência”, e queria falar com você sobre a LBF. Foram apenas sete times, não houve returno, o campeonato demorou a começar. É um absurdo isso, não? E como reverter?
ADRIANINHA: É falta de respeito, não dá pra dizer o contrário. Para reverter temos que repatriar as que ainda estão fora e dando forças as que estão aqui no país e não conseguem jogar. Houve times que fecharam as portas (Presidente Venceslau, Catanduva, São Caetano, Mangueira) e as meninas ficaram sem emprego, sem condição de atuar. É muito triste isso. A gente fica na expectativa de ter 10 times pra jogar, só isso. Olho pro masculino e vejo 18 no NBB e acho o máximo, Bala. A gente não tem isso. Precisamos nos unir, falta muita coisa. Pelo menos um playoff final com melhor de cinco jogos poderia ter ocorrido para chamar mais atenção para a competição, mas nem isso houve. É uma pena, é uma pena mesmo. Precisamos reagir.

BNC: No ano passado você jogou Olimpíada e terminou aquele jogo contra a Grã-Bretanha dizendo que era sua última participação com a seleção brasileira. Mas a Copa América vem aí, há um técnico novo e um comando novo na Confederação. Dá pra pensar em voltar ou acabou mesmo o seu ciclo?
ADRIANINHA: Olha, eu falei aquilo porque eu estava muito chateada com a situação do basquete. Não só com a campanha na Olimpíada mas principalmente com os quatro anos anteriores, com tudo o que passamos na seleção. Não foi legal. A gente estava precisando ter uma mudança. Para te citar um exemplo, a troca de técnicos não ajudou em nada a gente. A seleção, hoje, não tem uma cara. E te cito como exemplo times como a Argentina e o Canadá, que não têm muito talento mas que possuem a mesma filosofia de jogo, a mesma cara há anos. Por isso são respeitados. Não pelo time, pela colocação que chegam, mas sim por todo mundo saber que ali está uma equipe nacional com uma identidade. A Austrália a mesma coisa, mas em um nível técnico superior. Já nós não temos isso há algum tempo já. Nós trocamos de técnico o tempo todo. A gente não conseguiu criar uma identidade nossa, infelizmente. Agora trouxeram o Zanon, que pelo menos conhece do basquete feminino brasileiro e as meninas que atuarão pra ele na seleção. Isso vai dar muito certo. Não chegaram e jogaram ele lá, como fizeram com o Carlos Colinas, por exemplo. O Tarallo, por sua vez, nunca tinha tido uma experiência em uma equipe adulta. O Ênio, por sua vez, não conhecia muito do feminino e teve dificuldade. Então eu desejo sorte ao Zanon e torço de coração para o trabalho ter continuidade, ter sequência. Isso é o mais importante.

BNC: Tá legal, Adrianinha, mas você não respondeu. Joga ou não pela seleção?
ADRIANINHA: (Risos) Ah, eu volto. Se eu puder ajudar, nem que seja só pra treinar, eu volto. Se for pra ajudar as meninas e o basquete brasileiro eu volto, eu faço o que for. Se for só pra treino, pra dar conselho, eu contribuo. Eu só não quero tirar a vaga de ninguém, ocupar um espaço que poderia ser de outra pessoa. Mas se eu puder auxiliar, se eu ainda for útil, jogo na seleção, sim, sem problema algum e com o amor de sempre.

BNC: Pra fechar, uma perguntinha pessoal. Como tem sido este retorno ao Brasil? Você jogava há dez anos na Europa e agora tem a possibilidade de ficar com sua filha, Aaliyah, de seis anos (foto: Marcos do Carmo), ainda mais próxima da família.
ADRIANINHA: Cara, você não tem ideia, mas esta será a primeira vez que, em 10 anos, eu passei a Páscoa em casa. Isso não tem preço. Depois desses anos lá fora morar em Recife com minha filha tem sido o paraíso. Só quem já morou lá fora sabe que há momentos difíceis pacas. Há uma cultura nova, uma língua que você aprende, mas não é seu país, entende? Estou descascando no rosto por causa do sol, mas tem sido maravilhoso viver com minha filha em meu país. Passei dez anos passando frio e estou recuperando os 10 anos de neve no calor do Recife (risos).


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Fábio Balassiano

No sábado, Ricardo Fischer teve um difícil duelo contra os experientes Hélio e Ronald Ramon, de Limeira. E saiu-se com 20 pontos, sete rebotes e seis assistências. Números de gente grande, sem dúvida alguma. Armador de Bauru, campeão da Liga de Desenvolvimento com a equipe e atuando cada vez com mais confiança, ele conseguiu 12 ou mais pontos em oito das últimas nove partidas e vem jogando muitíssima bola como titular armação do time de Guerrinha (na temporada ele tem 11,1 pontos e 4,3 assistências por jogo, tendo dobrado todos os seus números em relação à temporada passada, quando estava em São José). Conversei com o armador de 1,85m e 21 anos sobre seu momento em Bauru, sua passagem pelo basquete suíço, suas expectativas em relação a seleção brasileira (ele foi convocado para treinar com Rubén Magnano no ano passado) e sobre a sadia disputa com seu companheiro de armação, Larry Taylor, por uma vaga na equipe nacional.

BALA NA CESTA: Muitos técnicos do adulto dizem que além do ritmo de jogo a Liga de Desenvolvimento traz uma questão da confiança importante para os atletas. Isso parece ter acontecido com você, Andrezão e Gui Deodato, cada vez mais atuantes no adulto, não?
RICARDO FISCHER: Olha, sem dúvida alguma. Não disputei ano passado por São José, mas vejo que pelo que joguei este ano por Bauru o nível cresceu muito, pois os times investiram muito. Este é um campeonato muito importante nessa transição juvenil/adulto. É o momento mais importante da carreira do atleta, e são poucos, hoje, que conseguem jogam muito tempo no adulto. Na LDB temos a oportunidade de sermos os protagonistas, de chamarmos a responsabilidade, de carregar o jogo mesmo. Isso mostra o talento de cada um. Para o NBB, as duas coisas andam juntas. Eu venho para a LDB com uma bagagem importante de jogar um campeonato forte como é o NBB. E eu volto pra lá com uma confiança extra, gigante mesmo. Tá dando certo. Normalmente em jogo de adulto a gente não é um protagonista. Somos, jovens, coadjuvantes que aos poucos conseguimos nosso espaço, nosso reconhecimento. A LDB acaba nos trazendo essa força para chegar no NBB e mostrar a nossa capacidade. Com talento, confiança e treinamento a molecada vai longe.

BNC: Uma vez eu falei com teu irmão, Fernando (também jogador de Bauru), e ele me disse que encheu sua paciência para que você ficasse na Europa, jogando por lá depois que você saiu da Suíça. Mas mesmo assim você voltou. Como foi essa decisão de voltar a jogar no Brasil?
RF: É difícil falar, cara, mas na época que eu voltei toda a minha família brigou muito porque acreditavam que era meu futuro. Mas eu procurei a minha felicidade, o meu bem estar mesmo. Se você não estiver feliz fora das quadras, não adianta. Acho que fiz a escolha certa. O nível do NBB está crescendo muito, está tudo embolado na classificação, mas nunca vou descartar jogar numa Espanha, isso é muito claro. Jogar uma ACB, uma Euroliga, isso é um sonho. Tomei uma decisão e estou feliz. Estou muito contente em Bauru, jogando em um grande campeonato e com tempo de quadra.

BNC: Queria falar sobre sua parte técnica. Desde que te acompanho, vejo seu basquete bem mais agressivo, bem mais voltado para a cesta. Você é um armador que procura os pontos, procura os arremessos. É por aí que passa sua evolução, seu crescimento em Bauru?
RF: Olha, ser armador o pessoal acha que é só levar bola, chamar a jogada e dar uns passes aí. Eu sempre fui ala-armador, e eu sofri muito pra entender quão complexa era a posição. Mas eu melhorei muito de São José pra cá quando eu passei pela seleção brasileira, naquele período de treinamento que tive com o Magnano. Foram dias e dias em alto nível, jogando com uma intensidade incrível, com o Rubén sempre me dando uns toques importantes nos treinamentos dele, que, diga-se de passagem, são bons demais mesmo. Ali eu percebi que a coisa estava virando, pra te ser sincero. É um desafio constante. É uma briga por posição saudável, e você precisa evoluir todos os dias. Isso pra mim foi sensacional, me deu uma força incrível. Cheguei em Bauru, o Guerrinha me deu espaço, me deu confiança, o grupo me aceitou bem e hoje eu divido a armação com o Larry Taylor. Gosto muito de atacar, sou um cara que gosto do arremesso, de infiltrar, mas gosto também de fazer o time jogar. Não adianta o armador fazer 30 pontos e o time não ganhar. Um dia ou outro isso vai acontecer, mas não é a regra da posição, não. Sempre tive um arremesso bom, mas melhorei muito meu passe quando treinava com o Fúlvio e via o cara jogar. Tinha vezes que ficava vendo o cara treinar, e o jeito que eu jogo pick-and-roll, por exemplo, é idêntico ao que ele me ensinou. Além de tudo eu sou um viciado em basquete. Se deixar, pra desespero da minha família, eu vejo basquete 24 horas, o tempo todo (risos).

BNC: Falando nisso, como tem sido jogar ao lado do Larry. Ele é um armador também, mas tem uma facilidade absurda pra atacar, criar seus próprios arremessos.
RF: Eu acho que encaixou muito bem. Sou um cara que gosto de decidir, mas armo mais o jogo. E o poder de decidir do Larry é gigante, imenso. Então eu meio que desafogo ele, porque ele não precisa levar a bola e definir. Acaba que nos completamos bem, isso é o mais importante pra Bauru. Foi uma ótima leitura do Guerrinha, isso é importante ser dito.

BNC: Tem só um fato engraçado nisso tudo, porque agora você e ele são concorrentes na luta por uma vaga na seleção, né. Ele, naturalizado, já foi até a Olimpíada de Londres, e você busca entrar no time do Magnano para a Copa América deste ano. Há alguma brincadeira entre vocês nos treinamentos, em viagens, ou ficam mais calados em relação a isso?
RF: A gente brinca, brinca. A gente é concorrente, mas é tudo saudável. Nos treinamentos a gente se marca, é bom para os dois evoluírem. A safra de armadores é muito, muito boa. Tem o Raulzinho, o Gegê, o Rafael Luz, Larry, Huertas e eu. O Brasil está muito bem servido na armação. Isso é mais importante.

BNC: Além do Larry, tem também o Guerrinha, seu técnico, né, que foi um grande armador quando jogava. Imagino a cobrança que você deva sofrer.
RF: Olha, desde que eu cheguei a Bauru não teve um dia que eu tenha voltado pra casa sem uma cobrança dele. E isso é ótimo, sem brincadeira. Só me faz crescer, pensar em ser um jogador melhor. E tudo ele tem uma explicação pra me dar, uma passagem dele como atleta, uma coisa bacana pra eu ouvir. Pode ver nos jogos, ele sempre me puxa pra falar alguma coisa, dar um toque. O armador é o técnico dentro da quadra, e é importante termos essa troca de ideias. Ele me dá a liberdade de falar também, e isso é muito legal. Tenho muito a agradecer ao Régis, meu ex-técnico em São José e também ex-armador, e agora ao Guerrinha, com quem aprendo diariamente.

BNC: Além do Steve Nash, que sei que você é fã, quem mais você admira?
RF: Tem o Nash mesmo, mas eu gosto muito do Ricky Rubio. O jogo dele é fantástico. Gosto muito do Chris Paul, da maneira como ele coloca o time pra jogar e como ele faz o pick-and-roll. É um cracaço, né. Você vê que ele não é muito rápido, mas ele faz estrago, né. Tem arremesso, passe, tudo. Gosto muito do Huertas também. É um cara que gostaria de conviver no dia-a-dia pra aprender mais ainda.

BNC: Você falou sobre a parte boa, que é seu jogo de passes e arremessos, e queria saber onde você precisa evoluir mais. É na defesa?
RF: Olha, eu preciso melhorar muito mesmo na parte física. Ficar mais forte mesmo. A parte de fundamentos é importante também, com passes, essas coisas. E a defesa, claro, isso está sempre na minha ordem do dia. Hoje é físico e defesa.

BNC: Uma pergunta importante sobre a LDB pra fechar. Queria que você falasse sobre times que vocês acabam não enfrentando no NBB, como foi o do Maranhão, e sobre este intercâmbio que há com centros ainda em formação no basquete brasileiro.
RF: Acho que é muito importante isso, cara. Hoje o basquete está focadíssimo no Estado de São Paulo, né. Principalmente nas categorias de base. Entrando nessa rede do NBB as coisas começam a ter uma estrutura, acreditar que é, sim, possível fazer basquete de alto nível. Nestas localidades, como é o Maranhão, têm muita gente talentosa, querendo jogar basquete, que precisa só de um espaço e de uma chance para aparecer. A LDB proporciona isso. Eu joguei em São Paulo sempre. E já não era boa, vou te falar a verdade. Imagina nos outros lugares. O NBB já cresceu muito no adulto. Agora é evoluir para os jovens, essa é a grande saída para o basquete daqui melhorar de vez.

BNC: Pra fechar mesmo: você tem 21 anos mas fala muito e fala bem. Por ser bem esclarecido, ter morado fora, é algo que você conversa, cobra dos dirigentes? Melhor condição de trabalho, investimento na base, essas coisas.
RF: Olha, quando tenho oportunidade eu falo, falo sim. Eu estava ali na ESPN, e estávamos o Larry e eu. Nos perguntaram sobre investimento na base, e eu falei quão importante era isso. Muitas vezes os jovens acabam saindo do basquete porque não têm oportunidade, não têm condição de continuar. Não adianta ter um baita profissional e nada na base, isso é o essencial para o basquete daqui crescer. A vida no basquete é curta. Precisa ter novo ciclo, renovação. É o Brasil que perde se não houver esse investimento na garotada.


Alex revela segredos de sua defesa e diz que marcação em Ginóbili foi a melhor da carreira
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Fábio Balassiano

Melhor defensor do Brasil há quase uma década, Alex Garcia não é o cestinha de Brasília (Nezinho), talvez não seja a válvula técnica de escape da equipe (Giovannoni) e tampouco responde pelos chutes de perímetro com precisão (Arthur). Mas deste canto eu não hesito em dizer que Brasília só conseguiu a hegemonia do NBB nos últimos três anos por conta do atlético e raçudo ala-armador que comanda a marcação do time da capital com maestria. Bati um papo bacana sobre defesa com o Brabo, de 33 anos. Vamos lá.

BALA NA CESTA: Você é um dos caras mais exigentes do time em termos de defesa, dá pra ver você cobrando da garotada um pouco mais de postura, um pouco mais de pegada na marcação. O que o Isaac e o Ronald, dois dos mais jovens, escutam no treinamento diariamente?
ALEX GARCIA: Olha, tento passar pra eles um pouco do que aprendi sobre defesa. Tento passar pra eles quão importante é marcar, cobrir os espaços. É algo que brigo muito com eles mesmo, todo mundo sabe. Defesa você pode aprimorar, mas você não ganha, sabe. É igual a impulsão – ou você tem ou você não tem. Sempre gostei de marcar, sempre gostei de chegar junto mesmo. Pra mim, parar um jogador importante, como foi recentemente com o Marquinhos (leia mais aqui) é como se tivesse feito 30 pontos. Fico feliz do mesmo jeito por ter ajudado a equipe. Esse é meu jogo. Se eu estou bem na defesa, o ataque pra mim não importa. Se é o oposto, fico preocupado porque meu foco é lá atrás mesmo. Voltando sobre os dois garotos. Principalmente com o Isaac eu pego no pé, porque é da minha posição, tem uma boa força física e dou uns toques nele. Peço pra ele usar as pernas diferente do que ele está usando e isso vem ajudando para que eles evoluam na carreira.

BNC: Quando você joga contra um Marquinhos da vida, um Shamell, um Larry Taylor, como é seu trabalho antes das partidas? Você estuda, pega vídeo, como é?
AG: É vídeo mesmo, é muito estudo. É mais de observação, mas como gravo muito jogo na televisão é ficar olhando e observando mesmo. Tenho jogo em casa de todo time do NBB e quando tem jogo eu coloco pra assistir contra quem iremos jogar. Pego dois, três dias antes, mas eu não vejo nossa parte de ataque, não. Foco na parte ofensiva do cara que vou marcar e vou vendo como posso pará-lo. Para que lado ele gosta de cortar, onde ele tem mais dificuldade pra driblar, que tipo de arremesso eu posso tirá-lo de sua zona de conforto, essas coisas.

BNC: Quem é o jogador mais difícil de marcar no Brasil?
AG: Olha, aqui no Brasil tem muitos, muitos mesmo. Marquinhos é difícil porque é um jogador alto, e quando dá um fade-away (giro de costas pra cesta) é complicar marcar. Shamell é complicado, o Robert Day e o Collum, de Uberlândia, são também, o Benite entra nessa lista. Pra ser sincero, eu prefiro marcar jogador mais forte que eu, mais alto, isso me facilita. Às vezes, marcar caras mais baixos, como foi na Olimpíada com o Juan Carlos Navarro ou Rudy Fernandez (Espanha), é mais enrolado porque os caras são muito leves e qualquer contato é falta. Nos treinos, contra o Nezinho, procuro sempre cercar, porque se encostar o tranco é forte a chance de cometer uma infração é grande.

BNC: Você se sente pouco valorizado pelo tipo de jogador que você é, visto que no Brasil o foco acaba recaindo sempre no ataque?
AG: Olha, não, não mesmo. A nossa cultura aqui é assim, né. É normal. É fazer gol, é fazer muitos pontos. Eu não me sinto desvalorizado, não. Eu sei minha posição, minha função, e meu time e a seleção sabem o que posso fazer. Sou muito bem resolvido em relação a isso e tento fazer da melhor maneira possível. Independente de ser no ataque ou na defesa, se fizer bem feito a gente sempre vai ser reconhecido. Alguém vai reconhecer. Sinto-me assim.

BNC: Pra fechar, qual foi a atuação que você chegou em casa e falou pra sua esposa ‘Olha, hoje eu marquei pra cacete. Moí o cara o jogo todo’?
AG: Essa do Marquinhos foi uma boa. Algumas ano passado contra Bauru nos playoffs em que marquei o Larry Taylor eu fui muito bem. Jogo difícil, e cai naquilo que te falei. É um cara forte, porém mais baixo. Tinha que tomar muito cuidado, mas consegui ter sucesso. Mas, pra ser sincero, a que eu vejo até hoje e me lembro muito foi contra a Argentina no Pré-Olímpico de 2011, aquele primeiro jogo contra eles. Marquei o Manu Ginóbili e foi uma defesa importante (Nota do Editor: naquele jogo o argentino chutou 5/12 de quadra, 0/3 de fora, teve dois erros e o Brasil venceu por 73-71). Contribuí muito e a seleção saiu vitoriosa.