Bala na Cesta



Raio-X do Basquete Feminino: da base ao adulto, técnicos ‘ajudam’ a diminuir qualidade

Fábio Balassiano

Ontem acabou que não consegui dar prosseguimento ao Raio-X sobre o basquete feminino deste país, que, é bom dizer, acaba de terminar a participação no Mundial Sub-17 da Holanda vencendo a Turquia por 66-61 para ficar na décima-primeira e penúltima colocação. Pois bem, hoje é dia de continuar a dissecar o que se passa na modalidade. Falo, neste sábado, dos técnicos deste país.

NO POST QUE ABRIU A SÉRIE, ANÁLISE SOBRE A CBB

Este, aliás, é um post que poderia ser estendido ao masculino também, mas em menor escala evidentemente. No feminino o buraco, como se vê, é bem mais embaixo. Quem acompanha qualquer circuito de base (eu, por proximidade, ouço e vejo o do Rio de Janeiro e converso e tento acompanhar ao máximo o de São Paulo, o melhor e mais forte do país) sabe que há problemas gravíssimos desde a formação. Por conta da estrutura dos clubes e de uma mentalidade retrógrada de desenvolvimento de atletas (os dois juntos, misturados mesmo), treinadores acabam pensando em ganhar campeonato ao invés de formar atletas.

AQUI FALEI DE HORTÊNCIA

Não é raro, portanto, vermos meninas de 1,80m jogando apenas de pivô com 13, 14 anos, alas-pivôs de 1,75m sendo “educadas” desde muito cedo a “só” jogar de costas pra cesta e meninas com potencial técnico absurdo sendo “obrigadas” a decidir todos os jogos com mais de 15, 20 pontos desde a base. Exemplos não faltam, e quem acompanha as divisões de base do país sabe disso. Com isso, fundamentos básicos acabam sendo perdidos e conceitos essenciais para o basquete acabam sequer existindo (espírito coletivo, domínio completo de TODAS as técnicas do esporte e raciocinar/ler o jogo). As distorções, técnicas, de fundamento e comportamentais surgem, e é quase impossível corrigir isso quando a menina já é adulta (ou juvenil). E os resultados em torneios classe A nos últimos anos confirmam tudo isso, com micos bizarros (o Mundial Sub-19 de 2011 é a exceção que confirma a regra).

POR AQUI, UM POUCO SOBRE A LBF

Portanto, o nível técnico que vemos na LBF, principal campeonato adulto do país, nada mais é do que produto do que os técnicos da base fazem (ou não fazem) desde a formação. Há trabalhos bons, consistentes no país, mas a grande maioria do que se vê por aí é quase uma linha de montagem produzindo atleta da mesma maneira que se fazia há 20, 30 anos. E o basquete mudou, a forma de se entender e ensinar basquete mudou, e parece que os técnicos, principalmente os de formação, não entenderam isso. Some-se a isso tudo dirigentes ruins, que só pensam em títulos desde as categorias menores, e pais que despejam as suas frustrações de atletas nos filhos, exigindo dos rebentos desempenhos lebronianos ou bryantianos desde sempre. O resultado, obviamente, é catastrófico (insisto) técnicamente, taticamente comportamentalmente.

E TAMBÉM ABORDEI A QUESTÃO DOS CLUBES

Por isso não é de se estranhar quando se olha Luiz Cláudio Tarallo como técnico da seleção brasileira. Ele é o microcosmo, uma redução, de quase todos os técnicos do país. Conformado, passivo, achando que tudo que se faz aqui está de bom tamanho, Tarallo representa muito bem o estado das coisas em sua classe. Ele treinou sempre na base (lembremos: sua primeira equipe adulta em torneios que não regionais foi justamente a seleção brasileira em uma Olimpíada – e isso é surreal, sabemos), algumas das meninas com graves problemas de formação técnica passaram pela sua mão (não vou nem citar nomes) e métodos de ensino que ele utiliza não são mais aproveitados no jogo de alto nível (é só rever os jogos da seleção feminina em Londres ou checar as colocações dele, Tarallo, em Mundiais de base). Falhas constantes de raciocínio de jogo, entendimento do que se passa em quadra e técnica completamente mal treinada são constantes quando se olha para quase todos os times femininos deste país – da base ao adulto.

Antes da conclusão, um fator importante merece ser destacado. Se não há muita renovação nas pranchetas (também um fato), nomes experientes e que poderiam contribuir muito para o basquete feminino foram solenemente e inacreditavelmente descartados da modalidade de tempos pra cá. Gente boa, gente inteligente, que fez a modalidade crescer neste país acabaram ficando no limbo, na memória apenas. Por que não usar Sergio Maronezes, dínamo que ajudou demais na seleção campeã mundial de 1994? Por que não utilizar Maria Helena Cardoso (foto) como uma espécie de consultora-técnica? Onde estão Antonio Carlos Vendramini, Miguel Angelo da Luz, Eleninha, Mila Rondon, Paulo Bassul e tantos outros capacitados que não em uma quadra de basquete para ensinar a essa garotada?

É triste demais, mas o basquete feminino atual lembra um pouco do Mito da Caverna, de Platão (aqui). Se esconde em suas próprias trincheiras, com medo do novo e dando as costas aos que já fizeram tanto pela modalidade. Técnicos são professores, educadores, e hoje em dia eles certamente não passam, ou não sabem passar, corretamente o dever de casa para as meninas que começam no esporte. Como num dominó, os buracos se acentuam com o tempo e as falhas ficam ainda mais gritantes. Lembremos: resultados esportivos são meramente reflexos do que se produz nas categorias de base de um país.

Que tal os técnicos discutirem um pouco sobre isso também? Já passou da hora, não?

  1. e

    14/11/2012 14:45:49

    miguel ângelo???? brincou??? é aquele que substituiu a Maria Helena porque era o único que aceitava o poder de paula/hortência??? um baba-ovo???? pirou...

  2. Juca Jundiaí

    29/08/2012 20:37:13

    Concordo plenamento com tudo que foi dito, especialmente quanto ao Tarallo e o parabenizo pela coragem e pela forma direta das palavras.Tarallo é fraquíssimo para o profissional e para as categorias de base tem mostrado um péssimo trabalho, basta observar o fruto de seu trabalho . Aquele papo cheio de desculpas infantis para o fracasso, aquele simplismo para as coisas.Na categoria de base a busca de resultado em detrimento da formação das atletas (conforme foi muito bem dito), enfim... Mas ele engana quem está na "caverna".

  3. Iremeyre

    27/08/2012 18:34:53

    Concordo com vc Ana Clara, acho que o Bassul seria o mais promissor técnico para o Brasil. Lembrando que, quando se falou do Projeto da cidade de Americana no Raio X - Clubes, Bassul passou por lá e, com certeza, parte do sucesso da Equipe de Americana se deve a ele!!! Mas aqui no Brasil é assim, "Xô cabeças pensantes!!!!".

  4. Philadelpho Gomes

    27/08/2012 11:05:18

    É muita gente querendo ajudar e "poucos no comando", esta é a gestão retrogada da maioria das federações, o poder passa de amigo para amigo, ou de pai para filho, para ser profissional devemos mudar como gestores, dirigentes e a forma de escolhe-los. Nunca participei ou fiquei sabendo de uma eleição de federação, quem vota são os clubes? (...) Os atletas é que deveriam votar, pois são eles quem sofrem com a PÉSSIMA administração do basquete, categorias de base onde estão. EU SOU RADICAL, VAMOS PARA UMA MANIFESTAÇÃO PÚBLICA UMA CAMINHADA NO CENTRO DO RIO DE JANEIRO PEDINDO O RETORNO DE MIGUEL ANGELO DA LUZ, "Não como técnico, mas como presidente do basquetebol Carioca" ou " Presidente da CBB", vamos votar nós é que temos de mudar. e-mail profphila@hotmail.com

  5. barba

    27/08/2012 10:47:16

    melhor técnico que tive chama-se Cesar Guidetti e ele infelizmente saiu do masculino e foi para o feminino. Expertise na formação de atletas ele tem, só tem que ser melhor aproveitado

  6. marcos gordinho

    26/08/2012 10:16:38

    Os problemas tecnicos no basquete feminino se estende tambem ao masculino. Garotos e garotas sao posicionados de acordo com caracteristicas fisicas ainda muito jovem com 14 ou 15 anos dai se separa os piruloes do grupo para um trabalho especifico e limitador. Resultados: por algum motivo ter 1. 85 com 14 anos nao quer dizer que chegara aos 21 com 2.10. Desaprende a quicar bola. Perde arremessos bobos e hoje em dia os homens ganham massa muscular rapidamente perdendo agilidade limitando ao jogador atuar como trator. No masculino nao esta pior pq temos jogadores que foram lapidados no exterior e um tecnico top no topo da piramide que mascara a realidade da base deste triangulo e explica o quao pontudo ele e devida tao poucas opçoes para formarem a elite do basquete brasileiro. Falam de verbas publicas acho que elas existem e estao sendo mal empregadas pois entregar a maior parte que cabe a modalidade a CBB nao me parece boa ideia. Existe a necessidade de planejar fiscalizar e exigir metas para perpetuar os repasses. Entre essas metas bem que poderia estar a reciclagem de todos que compoem a orientaçao tecnica da modalidade.

  7. Fábio Balassiano

    25/08/2012 22:57:54

    deu, deu sim.abs

  8. Rodrigo Maximiano

    25/08/2012 21:27:00

    Bala nosso amigo deu uma ótima sugestão de matéria...vc n acha?

  9. Fábio R.

    25/08/2012 17:55:52

    Muitas semelhanças.Peru teve uma geração maravilhosa com Gaby Perez,Cecília Tait,Rosa Garcia... Depois sumiu do cenário internacional pq o trabalho não teve continuidade.A equipe atual ADULTA é tão ruim,mas tão ruim que nossa seleção C ganhou por 3 sets a 0 fácil fácil na última Copa Panamericana.Do jeito que tá(sem perspectiva alguma) nosso basquete feminino caminha para a mesma situação.

  10. Julio Pesquisa

    25/08/2012 17:21:05

    O técnico toma uma postura profissional e é punido. Retrato de uma administração patética. Premia-se o errado e enaltece-se o erro. Naturalizem logo as 12 jogadoras e encerrem o basquete no Brasil.....palhaçada.!

  11. Julio Pesquisa

    25/08/2012 17:18:17

    Heber, vc coloca o dedo na ferida assim....as federações querem é arrecadar. Vou pesquisar mais a fundo o porque do volei feminino peruano, de um dos 3 melhores do mundo na década de 80 simplesmente desaparecer do cenário principal mundial. Quem sabe encontraremos situação similar de nosso basquete feminino.

  12. Fábio R.

    25/08/2012 16:50:47

    Enquanto isso na "falida" Espanha...O trabalho de base no basquetebol segue forte e bem organizado.Nesse momento, as espanholas estão na frente das japonesas na última semifinal do Mundial sub-17 e podem chegar a mais uma final nas categorias de base.Lembrando que ano passado foram vice no sub-19 feminino.Esse ano,no sub-17 masculino ficaram em quarto!!Já por aqui, na futura super potência econômica e seus quase 200 milhões de habitantes...

  13. José Roberto

    25/08/2012 15:16:13

    Se não estão em clubes, onde estão esses técnicos citados na matéria?Triste a capacidade que temos de disperdiçar ou subaproveitar nosso potencial...

  14. Mauricio

    25/08/2012 14:53:27

    Maria Helena e cia infelizmente ja se APOSENTARAM e nao tem nenhuma intençao de voltar a este cenario.

  15. Renan

    25/08/2012 14:51:42

    De fato, o basquete feminino brasileiro (assim como muitos outros esportes) está falido. Isso se deve a uma gama de fatores, como falta de organização, comando, preparo, corrupção, vaidade, entre outros. Qualquer mudança desse quadro requer uma total reformulação de pessoal, valores e filosofia de trabalho. Creio que ainda estamos longe disso. Dentro desse cenário é preciso ter cuidado antes de culpar atleta X ou atleta Y por eventuais fracassos, ainda mais quando se trata de competições de base. Essas meninas não são culpadas pelo fato de o brasil ter virado piada no cenário do basquete mundial. Ainda crianças ou adolescentes, elas não tem culpa de estarem inseridas numa pratica desportiva onde não existe organização, nao existe preparo, não existe apoio governamental, e não existe gente qualificada para fazer com que as coisas caminhem de maneira adequada. Uma pena, pois elas são disciplinadas, suam a camisa, treinam duro e forte, abrem mão de atividades comuns a idade delas (escola, amigos, familia), e não recebem da confederação brasileira um respaldo a altura, profissionais que possuem a mesma disciplina, seriedade, e vontade de vencer que as mesmas. Não é atoa então que muitos talentos preferem sair do pais do que ficar dando murro em ponta de faca aqui no brasil. Qualquer um que ja atuou fora do pais (assim como eu) sabe como as coisas são diferente lá fora, como tudo é feito de maneira mais organizada e séria, e como é assustador ver em que ponto chegamos aqui no brasil, não só no basquete.

  16. Ricardo Cruz - Brasília/D.F.

    25/08/2012 14:32:45

    E serve também para o basquete masculino!

  17. Fábio Balassiano

    25/08/2012 14:32:43

    eis um bom ponto!curti.abs

  18. Ricardo Cruz - Brasília/D.F.

    25/08/2012 14:30:54

    Concordo com as suas palavras, e acrescento mais o seguinte: gente complexada e maldosa!

  19. Heber Luis de Souza

    25/08/2012 14:01:35

    Bala, acho q faltou falar sobre o quanto os técnico são maus remunerados na formação da base, tendo que ter duas três e até quatro funções. Também o quanto é caro disputar um campeonato paulista da FPB. (anuidade, mensalidade, inscrição, transferência, filiação, etc...)Esses iténs são somente para ajudar no buraco em que o basquete feminino se encontra.Heber Luis de Souza

  20. Ana Clara

    25/08/2012 13:41:55

    A Maria Helena Cardoso terminou a carreira como treinadora na Espanha. Depois disso não teve mais oportunidades por aqui. Sem dúvidas a presença dela numa direção técnica da CBB seria esplendorora, porque mesmo ela há algum tempo sem atuar contribuiria com conhecimentos sobre basquetebol. Um outro que tbm foi muito injustiçado, e querendo ou não, era o nosso técnico mais promissor, foi Paulo Bassul. O coitado se queimou tanto, naquele problema com a Iziane, que nem em clubes ele conseguiu mais emprego. A Hortência, pelo menos, deveria tê-lo mantido nas seleções de base do Brasil.. era o mínimo.

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